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Retrospectiva de leituras 2023: o ano que tudo mudou

O ano de 2023 foi o mais desafiador e maravilhoso da minha vida. Comecei o ano de um jeito e acabei com a neném mais linda no meu colo e sob os meus cuidados. Minha primeira gravidez. Meu primeiro bebê.

Como ficaram os livros numa fase da minha vida onde toda a minha energia era voltada para a gestação de um serzinho? Bom, para além de todas as mudanças hormonais e mecânicas do meu corpo, meu cérebro também decidiu concentrar-se apenas no que era importante e a leitura consumia uma energia que eu não tinha mais disponível. 

Por um bom tempo, eu fiz uma pausa de livros e maratonei Sex and the City. 

Antes da gravidez, até fim de março, eu devorei duas trilogias de ficção científica de Jeff VanderMeer (ele é todo ligado à questões ambientais e suas redes sociais são bem interessantes): Southern Reach (Comando Sul, na edição brasileira) e Ambergris. Ambos falam de uma espécie de "fim de mundo" que não encara o fim como ruptura, mas sim um processo de transformação (exatamente o que viria a ser o futuro pra mim e minha transformação como mãe). Aniquilação, primeiro volume de Southern Reach, tem uma adaptação na Netflix com a Natalie Portman como protagonista. Eu adoro esse filme e já assisti três vezes. 

Eu estava cansada de ficção científica depois de quase 2000 páginas nesse assunto e passei para algo muito mais palpável. O filme American Psycho é um favorito meu e do meu marido. Wall Street, New York, mercado financeiro, cultura norte-americana, American Dream, etc, são assuntos que nos interessam e a atuação de Christian Bale faz o filme ser uma jóia prima. O livro é ainda mais violento. 

Durante a leitura de American Psycho e no meio de suas representações gráficas de sangue, violência, misoginia, e o abismo depressivo e emocional de Patrick Bateman, vieram os primeiros sintomas da gravidez. Precisei diminuir o ritmo. Parar a leitura, retomar. Parar de novo. Ate que finalmente acabei. 

Meu prazer pela leitura ficou comprometidíssimo e, na época, decidi ler algo que provavemente seria muito bom: um livro sobre Nova York escrito por um dos autores do Modernismo norte-americano. Manhattan Transfer de John dos Passos começou muito bem, mas tinha uma narrativa desafiadora demais para minha versão grávida. Por meses, enrolei uma leitura de 200 páginas e abandonei nas 200 páginas restantes. 

Esse desgosto com os livros mudou graças à Shirley Jackson. Sempre Vivemos no Castelo mudou toda a percepção do que eu deveria ler daquele momento em diante. Li a história de Merricat e Constance em um dia e me apaixonei. 

Percebi que o que eu precisava era ler uma mulher, falando sobre outras mulheres, sobre os saberes caseiros, sobre a rotina diária de preparar o café da manhã para os integrantes de uma família, sobre segredos e hábitos escondidos em as quatro paredes de uma casa, sobre tudo o que envolve o universo do feminino, do cuidado e do doméstico num mundo e sociedade patriarcal e machista. 

O toque gótico da Shirley Jackson só tornou tudo ainda mais interessante. Assim como as lembranças que a casa da Nova Inglaterra de Sempre vivemos no Castelo me trouxe de A Casa das 7 Torres. 

Por isso, depois de Jackson, fui para o último livro de contos de Silvina Ocampo publicado pela Companhia das Letras: As Convidadas. 

Mas eu queria mais. Precisava ler mais mlheres falando sobre mulheres, a maternidade, a relação homem-mulher, mãe-filho, a gestação, a família. Parti para a releitura da tetralogia As Brumas de Avalon. (Eu e meu marido lemos a obra de Marion Zimmer Bradley em 2008, quando ainda éramos namorados.)

No fim de As Brumas, já estava me aproximando do final da gestacão e decidi ler apenas contos.  Começar um romance seria correr o risco de parar no meio e não conseguir retomar tão cedo. Por causa de uma sugestão do Kindle, baixei Mariana Enriquez, Os perigos de fumar na cama. Que livro maravilhoso! Não podia perder tempo, e logo depois li As coisas que perdemos no fogo. 

Apaixonada pelo mundo dos contos, olhei para minha casa e procurei uma autora brasileira: Lygia Fagundes Telles. Quando acabei O Seminário dos Ratos, minha bebê veio ao mundo. 

Esses foram os livros de 2023. O ano em que fiquei grávida e tive uma filha. O ano que minha vida mudou. O ano que eu mudei. 


1 - Southern Reach Trilogy (Annihilation) - Jeff VanderMeer

2 - Southern Reach Trilogy (Authority) - Jeff VanderMeer

3 - Southern Reach Trilogy  (Acceptance) - Jeff VanderMeer

4 - Ambergris Trilogy (City of Saints and Mad Men) - Jeff VanderMeer

5 - Ambergris Trilogy  (Shriek: An Afterword) - Jeff VanderMeer

6 - Ambergris Trilogy  (Finch) - Jeff VanderMeer

7 - American Psycho - Bret Easton Ellis

8 - Manhattan Transfer - John dos Passos

9 - Sempre vivemos no castelo - Shirley Jackson

10 - As Brumas de Avalon - A Senhora da Magia (Livro 1) - Marion Zimmer Bradley

11 - As Brumas de Avalon - A Grande Rainha (Livro 2) - Marion Zimmer Bradley

12 - As Brumas de Avalon - O Gamo Rei (Livro 3) - Marion Zimmer Bradley

13 - As Brumas de Avalon - O Prisioneiro da Árvore (Livro 4) - Marion Zimmer Bradley

14 - As Convidadas - Silvina Ocampo

15 - Os perigos de fumar na cama - Mariana Enríquez

16 - As coisas que perdemos no fogo - Mariana Enríquez

17 - Seminário dos Ratos - Lygia Fagundes Telles


(Em negrito são os livros que eu mais gostei.)



Em março 2023, antes de descobrir que estava grávida, visitei A Casa das 7 Torres, em Salem, MA.



Nessa mesma viagem por Massachussets, passamos por New Bedford, cidade de onde Ishamel e Capitão Ahab partem embarcam para caçar baleias, Na foto, parte da fachada da Capela dos Marinheiros, citada por Herman Melville em Moby Dick. 

Retrospectiva de leituras 2022: os últimos nunca serão os primeiros, porque seremos os últimos a saber

Nos últimos 30 dias, 2022 virou 2023 e um novo presidente no Brasil assumiu o cargo. 30 vezes o sol se pôs e nasceu de novo. Meu blog, porém, ficou parado. 

Eu queria ter publicado minha retrospectiva de leitura de 2022 no dia 30 ou 31 de dezembro (justamente quando se fazem retrospectivas), mas vários acasos me fizeram postergar essa publicação. Está todo mundo falando de Carnaval, e eu aqui vendo minha lista de livros do ano passado. 

Enfim, em 2022 minhas opções de leitura foram muito ecléticas. Não consigo ver uma lógica que une todos. Eu fui indo, explorando e experimentando. Reli alguns autores com quem eu já tinha familiaridade e conheci novos. 

Dos autores que já estiveram por aqui, Ocampo, Roth, Wharton, James, Salinger e Ana Paula Maia foram motivos de satisfação mais uma vez. Murakami, porém, foi uma decepção. O pior livro do ano foi com certeza Norwegian Wood, o que constrastou enormenente com as outras obras do autor que haviam sido um grande conforto para mim. 

Dos autores que conheci este ano, mas já mortos, amei Dickens e Hawthorne. Com certeza quero lê-los novamente. Dos autores ainda vivos, Paul Auster foi a minha maior surpresa. Eu fiquei fascinada. Acabei com a sensação de que não apenas eu PRECISO ler mais livros seus, como preciso reler o mesmo livro e ir caçando todas as mensagens nas entrelinhas que eu deixei passar. Eu diria que New York Trilogy entra na categoria de "livros geniais que mudaram minha vida". McCarthy também foi muito legal e uma experiência de leitura bem bacana.

Finalmente, outro livro que me cativou foi Hamnet, uma obra super contemporânea, que conversa enormente com Lucia Berlin, Silvina Ocampo, e Edith Wharton. Autoras mulheres de lugares e tempos completamente diferentes, mas que falam justamente da mulher mãe, esposa, filha e dona de casa. 

O último livro da lista, Huckleberry Finb, comecei a ler e não consegui acabar. Quando estava mais ou menos na página 100, embarquei de férias para o Brasil. Em outro país, uma outra língua... não consegui dar continuidade. Um dia retomarei, pois estava bem legal. 

Só uma coisa me entristece nessa lista. Desde que comecei o blog em 2020 como um diário de leitura, este ano foi a primeira vez que deixei de escrever sobre algumas obras. Principalmente no final, parece que abandonei meu objetivo com este blog. Ainda bem que toda vez que o ano muda, temos novas chances. 


1 - Welcome Home: a memoir with selected photographs and letters - Lucia Berlin

2 - The Witcher Vol. 1: The last wish - Andrzej Sapkowski

3 - A Fúria e outros contos - Silvina Ocampo

4 - Norwegian Wood - Haruki Murakami

5 - David Copperfield - Charles Dickens

6 - A single man - Christopher Isherwood

7 - The House of Seven Gables - Nathaniel Hawthorne

8 - Macbeth - Shakespeare

9 - O mundo da escrita: como a literatura transformou a civilização - Martin Puchner

10 - Persuasion - Jane Austen

11 - O Monge - Matthew Gregory Lewis

12 - Unwinding anxiety - Judson Brewer

13 - Goodbye, Columbus and five short stories - Philip Roth

14 - Ethan Frome and other stories - Edith Wharton

15 - Hamnet - Maggie O`Farrell

16 - The Portrait of a Lady - Henry James

17 - The Best American Mystery Stories of the 19th Century - Otto Penzler (org.)

18 - O Corcunda de Notre Dame - Victor Hugo

19 - The Tender Bar - J.H. Moehringer

20 - The Catcher in the Rye - J.D. Salinger

21 - The Road - Cormac McCarthy

22 - Tender is the Flesh (Saboroso Cadaver)  - Agustina Bazterrica

23 - De Gados e Homens - Ana Paula Maia 

24 - New York Trilogy - Paul Auster

25 - The Adventures of Huckleberry Finn - Mark Twain


(Os livros em negrito são os que mais gostei!)

(Existe uma circularidade tragi-cômica no tempo da vida. E, assim como 2021, comecei 2023 lendo uma triologia de ficção científica maravilhosa e logo mais escrevo sobre ela aqui.)

A retrospectiva de leituras de 2021 - o ano de mudanças

2021 foi um ano complicado para mim. Mais complicado que 2020. São Paulo - Chile - São Paulo - Nova York. Foi um ano com muitas mudanças e a mala quase sempre montada. Fiquei de lá para cá por muito tempo. Mesmo depois que cheguei no destino final e tinha condições de estabilizar, eu tive que fazer isso num país estranho e com meu companheiro de aventuras apresentando sintomas de Covid Longo por 3 intermináveis meses. 

Por isso, a lista encurtou de tamanho em relação ao ano passado. Li bem menos, mas isso não é importante. Eu sempre fui uma slow reader e o que vale é viver a leitura - o que é temporalmente impossível de medir. Levando em conta a experiência, 2021 foi ótimo: eu conheci duas novas autoras das quais nunca tinha ouvido falar e me apaixonei: Edith Wharton e Lucia Berlin. Duas autoras norte-americanas que estão recebendo novas edições e tradução no Brasil muito recentemente. Aliás, Lucia Berlin, mesmo nos Estados Unidos, ganhou mais reconhecimento a partir de 2015, 11 anos depois de sua morte, quando A Manual for Cleaning Women recebeu uma nova edição e foi selecionado como um dos melhores do ano pela The New York Times.

Também retomei autores que me encantam e que prometi para mim mesma que, pelo menos uma vez ao ano, eu deveria lê-los. Depois de tantos livros que me tiraram o fôlego de Philip Roth, Casei com um comunista não me impressionou muito. De Roth, prefiro os que li ano passado. O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro, é de uma beleza infinita e está entre um dos livros mais sensíveis que li na vida. A guerra não tem rosto de mulher também é de doer o coração e arrancar lágrimas, mas preferi O fim do homem soviético e Vozes de Tchernóbil.

Tentei ler duas obras de ficção científica, mas foram dois relacionamentos complicados. Com certeza não vou insistir novamente nesse gênero tão cedo. 

Uma coisa muito boa que aconteceu este ano foi ter entrado para a equipe de redatoras do Querido Clássico. Para mim, essa oportunidade não deixa de ser um fruto deste projeto pessoal que comecei lá no início da pandemia de ler mais, escrever resenhas, pesquisar novos autores e manter este diário de leituras ativo. Fazer parte deste time é ter meus textos lidos e valorizados enquanto compartilho com outras pessoas interesses parecidos e leio também outros textos maravilhosos (como eu já vinha fazendo desde o ano passado, quando entrei no Clube do Livro Querido Clássico). Por conta desta nova realidade remota, eu estava sentindo muita falta de fazer parte de uma comunidade que compartilha não apenas os mesmos interesses, mas também o drama de ler, escrever e ser lida. 

Outra conquista este ano foi fazer minha carteirinha da New York Public Library. Parece bobo, mas essa carteirinha tem um significado muito especial para mim. Não só porque eu amo bibliotecas e a NYPL tem toda uma aura especial por causa do filme Os Caça Fantasmas, ou porque a biblioteca em si é linda, e eu poderia ficar aqui listando mil motivos... Mas, também, porque significou, finalmente, que eu cheguei ao meu destino depois de tanto tempo e, com um comprovante de endereço no meu nome, pude criar um vínculo com o lugar que estou. (sim, eu sei, bem cultura brasileira de cartório isso!)

Dia 8 de outubro publiquei esse Stories no Instagram: "Agora tenho minha carteirinha da biblioteca pública de NY e cá estão os primeiros empréstimos". Os empréstimos eram Evening in Paradise e A Manual for Cleaning Women. Eu já sabia o quanto significava a carteirinha para mim, mas não esperava que fosse gostar tanto da Berlin. 

Mas, finalmente, a curiosidade é como o lugar e o momento que estamos vivendo influenciam as nossas leituras. Apesar dos quatro meses vivendo no Chile, eu estava lá de passagem. Enquanto não estávamos de lockdown, aproveitamos bastante Santiago, mas eu não me senti em nenhum momento "conectada". Não li absolutamente nenhum autor Chileno, nada. Apenas notícias relacionadas à pandemia, fronteiras, taxas de contágio, hospitalização e morte. Eu estava ali apenas contando o tempo para fazer o que eu tinha que fazer e ir embora. Não conseguia "me envolver". 

Só quando chegamos aqui em Nova York, depois de uma saga de um ano e meio que envolveu dois países, muito dinheiro e muitos - muitos mesmo - fios de cabelo, eu consegui me "conectar". Os livros de Edith Wharton e Henry James me cativaram enormemente: três romances que se passam em Nova York no fim do século XIX e início do XX. Eu não me sinto uma estranha nesta cidade e, apesar dos problemas, eu adoro estar aqui e quero continuar. Todas as referências familiares que fui lendo ao longo das narrativas são pequenas estrelinhas de satisfação. Ao chegar no final, é possível montar a constelação e, por isso, tanto prazer na leitura destes livros. 

Inclusive, há dois dias pegamos o metrô direção downtown e fiz questão de andar pela Washington Square. Fui pensando na Nova York de Henry James, onde seria ali a residência Sloper. Fui dizendo, com brilho nos olhos, como é incrível o tempo passar, o entorno mudar, mas a Praça continuar lá, praticamente intacta, mais de um século depois. Será que Henry James tinha a mínima ideia da resistência temporal deste marco urbano de uma cidade que tanto muda quando escreveu seu romance? 


Dia 29 de dezembro, eu de costas em direção ao Arco da Washington Square

Essa associação lugar - leitura é com certeza o que tem feito eu ficar praticamente obcecada pelos contos de Lucia Berlin.  Além de todos os méritos como contista e sua habilidade narrativa incrível, Berlin tem como referência sua própria vida - estou dizendo, mas pisando em ovos, que ela faz autoficção. Nasceu no Alaska, viveu no Texas, mudou-se para o Chile, de volta aos EUA, viveu em New Mexico, mudou-se para Nova York, California, Mexico de novo... Seus anos como adolescente no Chile lhe ensinaram o espanhol e, portanto, a autora dominava a diferença entre ser e estar. Em seus contos, ela mostra como ela estava em todos estes lugares. Por toda uma vida, Lucia Berlin estava em vários lugares... Mas ela nunca conseguia ser nestes lugares. 

Quando ela fala sobre o Chile, ela me toca de uma maneira que nenhum autor chileno conseguiria. Como alguém "de fora", que está lá de passagem, o Andes que ela via ao redor de Santiago é o mesmo Andes que eu via. A mesma coisa em Nova York: sua família materna era do Texas, sua vida anterior foi dividida entre o interior dos EUA e um país latino-americano. Aqui em Nova York, o metrô, as ruas, o cheiro, a praça que Lucia via e descreve em seus contos é exatamente a Nova York que eu vejo e vivo. Ao mesmo tempo, a construção narrativa dos contos é mágica... Parece que a narradora está bêbada, flutuando. Como aquelas cenas de filme em que a alma se desloca do corpo e fica assistindo o que acontece com sua materialidade de longe, sem poder interferir. 

Enfim, é uma retrospectiva. Então, segue a lista abaixo começando pelo último livro lido para o mais antigo. Como no ano passado, os livros em negrito são os que eu mais gostei. Aliás, gostei de todos desta lista, menos o 6 e 16 que, como disse antes, são os livros de ficção científica. 

Obs: Não tive tempo ainda de escrever sobre A Sucessora. Vou escrever na próxima semana e depois atualizo o link aqui. [Atualizado]


1. A Sucessora - Carolina Nabuco

2. Evening in Paradise - Lucia Berlin

3. Washington Square - Henry James

4. O dia em que Selma sonhou com um Ocapi - Mariana Leky

5. The House of Mirth - Edith Wharton

6. The left hand of darkness - Ursula K. Le Guin

7. A época da Inocência - Edith Wharton

8. A manual for cleaning women - Lucia Berlin

9. Dracula - Bram Stoker

10. Nu, de botas - Antonio Prata

11. Just Kids - Patti Smith

12. A insustentável leveza do ser - Milan Kundera

13. Casei com um comunista - Philip Roth

14. A guerra não tem rosto de mulher - Svetlana Aleksietich

15. O gigante enterrado - Kazuo Ishiguro

16. O problema dos três corpos Vol. 1, 2 e 3 - Cixin Liu

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Ano que vem, pretendo ler pelo menos uma obra de autores que já conheço: Kazuo Ishiguro, Henry James, Huraki Murakami, Philip Roth e Svetlana Aleksievitch. Já tenho dois autores que não conheço mas que já estão na fila de espera: Nathaniel Hawthorne e Katherine Mansfield. E, é claro, ao longo do ano ir conhecendo novos. Gostaria, em 2023, de ler mais contemporâneos. 

Apesar dos pesares, 2020 foi um ano de ótimas leituras - uma retrospectiva literária

Não achei que a retomada deste blog chegaria tão longe. O nome "um caderno esquecido" é justamente porque eu venho até ele, escrevo um pouco, abandono-o para, algum tempo depois, lembrar que ele existe e que é interessante escrever sem compromissos. (Obrigada, Google, por possibilitar isso.)

Lá em maio, auge do isolamento social, quando todos os dias pareciam exatamente iguais e o Nelson Teich vampiresco ainda era o Ministro da Saúde, eu tive a ideia de ocupar um pouco o tempo livre escrevendo no blog. Primeiro como exercício de escrita. Segundo, como uma tentativa de registrar os livros lidos e poder, de alguma forma, fazer uma reflexão sobre minhas leituras feitas fora do meio acadêmico. 

Na época, eu tinha já depositado minha dissertação e estava esperando a data da defesa. Eu estava com saudades do exercício de ler, refletir, grifar, escrever, marcar páginas com post-it, enfim... de estudar. O blog pareceu uma boa oportunidade para isso. 

Agora, a pandemia não acabou, mas o isolamento social sim (verdade infeliz). Eu mesma voltei a realizar parte das minhas atividades rotineiras - como ir para a academia -, mas o blog continuou resistente. Isso se deve a dois fatores. 

1. O ato de escrever - esta prática de fixação e estudo - me permitiu fazer conexões entre as leituras e diferentes livros que não seriam possíveis se eu não estivesse dedicando tempo e esforço mental para isso. Como antes, durante a leitura eu teria vivido intensamente a experiência narrativa, mas depois que o livro fosse fechado, a memória seria logo guardada junto na estante e lá esquecida. Escrever sobre o que li, mesmo que seja um breve comentário, ajuda a lembrar, categorizar e conectar com outras referências.

2. Outro motivo foi a comunidade de leitores e escritores de blogs que fui conhecendo na internet. Perfis e blogs literários que me ajudaram a descobrir novos autores ou me estimularam a ler autores clássicos que eu já conhecia, mas não teria tido a iniciativa de ler. Tudo isso tem enriquecido o leque de leituras que tenho feito e que, na minha opinião, já é bastante eclético. Além do fato de que é legal trocar impressões e opiniões sobre os livros lidos em comum. Já comentei em outros posts a importância dos clubes de Leitura Coletiva para a escolha das últimas obras escolhidas. Deixo novamente registrado os dois mais importantes que tenho acompanhado: o Querido Clássico e a Gabi Barbosa. 

Lembrando também que passei a conhecer outros blogueiros, interagir com outras pessoas que escrevem e publicam e até participei da campanha Estação Blogagem - o que foi muito legal!

Agora, nestes últimos dias de 2020, o blog possibilitou uma retrospectiva, pois eu nunca conseguiria lembrar de todos os títulos apenas de memória. Pode ser que eu tenha deixado escapar alguma leitura feita antes de maio, mas seria uma ou duas. 

No final, fiquei muito orgulhosa com a lista. Eu nunca fui atrás de número, metas, estilo ou autores específicos. Sempre fui fluindo com o que eu sentia vontade. E quantidade - em se tratando de livros - é tosco, pois as experiências são diferentes.  O Jogo da Amarelinha, por exemplo, tem número de páginas similar a O Pintassilgo, mas o primeiro foi uma viagem prazerosa no começo, difícil e vagarosa no meio e, no final, mindblowing. Levei mais de um mês para ler, enquanto O Pintassilgo li em muito menos tempo e a experiência foi bem "chuchu". Não foi ruim, mas também não foi espetacular.

Achei legal também a variedade de gênero e nacionalidade de autores, estilos e escolas literárias. Com predominância, é claro, do século XX - meu século favorito. Se eu tivesse paciência e boa vontade, faria uma tabela no excel com as informações de todos os livros, apenas por curiosidade estatística. Mas não preciso disso agora. Da lista abaixo, em negrito estão os meus favoritos do 2020.

1. Um Artista do Mundo Flutuante - Kazuo Ishiguro

2. Senhor das Moscas - William Golding

3. O Talentoso Ripley - Patricia Highsmith

4. Quinquilharias Nakano - Hiromi Kawakami

5. Miso Soup - Ryu Murakami

6. O Jardim Secreto - Frances Hodgson Burnett 

7. Imunidade - Eula Biss

8. A outra volta do parafuso -  Henry James

9. Dr. Jekyll and Mr. Hyde - Robert Louis Stevenson

10. Outras Mentes -  Peter Godfrey-Smith

11. Rita Lee - uma autobiografia

12. A Assombração da Casa da Colina - Shirley Jackson

13. Enterre seus Mortos - Ana Paula Maia

14. O Apanhador no Campo de Centeio -  J.D. Salinger

15. É isto um homem? - Primo Levi

16. A Trégua - Primo Levi

17. O Complexo de Portnoy - Philip Roth

18. Jorge Amado: uma biografia - Josélia Aguiar

19. O fim do homem soviético - Svetlana Aleksiévitch

20. Os irmãos Karamazov - Fiódor Dostoiévski

21. Moby Dick - Herman Melville

22. Caçando Carneiros - Haruki Murakami

23. Sobre os Ossos dos Mortos - Olga Tokarczuk

24. O Pintassilgo - Donna Tartt

25. Homem Comum - Philip Roth

26. Jogo da Amarelinha - Julio Cortázar

27. 1Q84 Vols. 1, 2 e 3 - Haruki Murakami

28. Becoming - Michelle Obama 

Entrei 2020 lendo Becoming e logo comecei a trilogia de 1Q84, do japonês Haruki Murakami. Como classificá-lo? Fantasia, realismo mágico, ficção científica? De qualquer maneira, vou terminar o ano e iniciar 2021 lendo O Problema dos Três Corpos, este sim oficialmente classificado como ficção científico, do chinês Cixin Liu. Apenas uma curiosa coincidência: trilogias de autores contemporâneos orientais. 


Apesar de todos os pesares de 2020, fiz ótimas leituras e espero que 2021 seja também recheado de bons livros. 

(Outra curiosidade: por ironia do destino meu texto mais visualizado e comentado não foi relacionado à nenhuma leitura, mas ao jogo Last of Us II.)