The Road, by Cormac McCarthy: a messianic tale in a post-apocalyptic world
The Tender Bar, by J.H. Moehringer: a coming-of-age novel inspired by Scott Fitzgerald and the men from the bar
Hamnet, de Maggie O'Ferrell: breves comentários sobre mulheres, heroínas, espaço doméstico
Não sei porque essa mania de ficar se justificando, mas decidi mudar de ideia e escrever sim sobre Hamnet, minha última leitura, já que aparentemente eu estou com dificuldade de começar um novo livro. Criei um vício bobo de precisar fechar um ciclo de leitura com alguns apontamentos para começar outro? Seria poético.
O Instagram esses dias me sugeriu a página Literatura Inglesa Brasil e o post de chamada era o do Clube do Livro, que estava lendo Hamnet, de Maggie O'Ferrell e publicado em 2020. Eu nunca tinha ouvido falar do título, tampouco da autora. Só conhecia a história de Hamlet e sabia que Shakespeare tinha tido de fato um filho chamado Hamnet que morreu anos antes que o autor escrevesse a peça Hamnlet. Achei tudo isso interessante e resolvi dar uma chance.
Foi amor a primeira vista. Que livro magnífico!
Apesar do título e de Hamnet ser um personagem importante, a protagonista é Agnes. As mulheres ocupam um lugar tão importante na narrativa que o marido de Agnes, o famoso Shakespeare, não é uma única vez nomeado em todo o livro. O professor, o marido, o pai, o tutor, etc. Ele é sempre referido de outros jeitos, menos de Shakespeare. Imagina o quanto o poder de Agnes seria diminuído só pelo famoso nome, Shakespeare.
O livro intercala dois momentos: quando Agnes e o Shakespeare se conhecem, se casam e têm seus filhos, e quando Hamnet e sua irmã gêmea Judith ficam doentes e todos os esforços de Agnes para curá-los.
Sob o ponto de vista de Agnes, acompanhamos o dia a dia das atividades domésticas, sua conexão com a natureza. Ela gosta de cuidar do jardim, das abelhas, de sua águia de estimação. Ela conhece as plantas e faz remédios caseiros, sendo procurada por toda a vizinhança pelos suas habilidades medicinais. Ela também tem um passado meio curioso: sua mãe, morta quando ela ainda era pequena, veio da floresta, diziam. Agnes é meio selvagem, meio bruxa. Ela tem sonhos premonitórios e ao segurar a mão de alguém e pressionar suas mãos, ela consegue "ver" suas almas e o futuro. Ela causa admiração e ao mesmo tempo medo aos vizinhos.
Agnes me lembrou muito Morgana, de As Brumas de Avalon. Me lembrou da formação da Inglaterra entre os saxões e os bretões, os bárbaros e os civilizados. Shakespeare era da cidade, urbano, ligado ao comércio e às artes. Agnes era do campo, do meio rural, da terra e da casa. Juntos eles formam um novo povo.
A lembrança de As Brumas de Avalon também veio pela relação entre as mulheres e suas habilidades com as plantas e os animais, ligando-as aos pagãos e condenando-as como bruxas. Finalmente pela centralidade da mulher na história, colocando os homens, o Rei Arthur e o grande Shakespeare, como coadjuvantes numa história na qual as mulheres, escondidas atrás da cortina do teatro, manipularam situações para que estes homens chegassem onde chegaram.
Agnes não sabe ler. Durante os longos meses de ausência de Shakespeare, que trabalhava na capital, é sua filha mais velha que lê as cartas recebidas e redige as missivas ao pai. Agnes nem sempre entende o que vem escrito: comédia? atores? teatro? Porém, algo une o casal: ambos entendem a alma humana, mesmo que seja cada um do seu jeito.
Assim como as peças de Shakespeare conversam até hoje, séculos depois, com a natureza humana, Agnes lia a alma daqueles ao seu redor. Ela entendia suas necessidades, compreendia seus medos, sabia como convencê-los. Agnes é uma ótima esposa, ótima mãe, uma filha que guarda a memória da sua mãe com carinho. Acompanhamos a história dessa mulher no casamento, nos partos e na cama de seus filhos doentes, fazendo de tudo para salvá-los da peste. Depois, acompanhamos o seu luto e o sentimento de que, como mãe, ela havia falhado.
A autora mistura ficção e história, portanto não podemos acreditar que tudo ali tenha acontecido. O único fato histórico do qual realmente temos certeza é que Shakespeare teve um filho chamado Hamnet que morreu ainda criança. Ele ter sido vítima da peste negra é uma teoria da autora, e ela faz isso de maneira fenomenal, conversando com nossa realidade pandêmica Covid-19. (Lembrando que o livro foi lançado em março de 2020!!) O capítulo no qual acompanhamos a pulga que causou o adoecimento de Judith e Hamnet, saindo de Alexandria, Egito, embarcando em um navio e passando meses em alto mar e atravessando continentes, até chegar numa pequena vila rural da Inglaterra, é fenomenal.
Enfim, Agnes me fez perceber que em minhas últimas leituras tenho procurado a heroína que não luta pelo seu espaço no mundo masculino. Pelo contrário. Minhas heroínas reafirmam seus papeis dentro do ambiente doméstico e familiar. Como as donas de casa dos contos de Lucia Berlin, as esposas dos contos de Silvana Ocampo, mesmo a personagem Phoebe de A Casa das 7 Torres, e a própria Morgana de As Brumas. São mulheres que na rotina e no cotidiano transformam a vida doméstica daqueles que com elas habitam. Suas grandes habilidades são a arrumação, a cozinha, o olhar atencioso e cuidadoso e às vezes maléfico. As mulheres de Silvana Ocampo, em suas habilidades femininas, são manipuladoras e vingativas.
Livro recomendadíssimo. Chorei bastante nos capítulos de morte e luto. A leitura é envolvente, bastante visual, e coloca em evidência uma coisa que as vezes é deixada de lado: quando lembramos das mulheres "apagadas" e "esquecidas" da história, não podemos nomear apenas artistas, poetisas, musicistas, cientistas e descobridoras. Se começamos, como sociedade, a falar da "economia do cuidado", então temos também que lembrar de multidões de mulheres que nunca saíram do espaço doméstico e familiar e, nem por isso, não deixaram de ter um impacto enorme nos rumos e na vida daqueles que - de fato - deixaram seus nomes impressos na história.
Porque não gostei de Norwegian Wood - o livro, não a música
Depois da leitura pesada que foi Silvina Ocampo, pensei em ler algo que fosse mais minha zona de conforto. Logo veio à minha mente Haruki Murakami, pois há muito tempo não lia nada deste autor, apesar de sua vastíssima obra e da forte simpatia que eu tinha com os livros que li. Eu não queria fugir dos elementos fantásticos que tanto nos lembra os contos de Silvina Ocampo, mas eu queria algo mais leve e encantado.
Adorei Kafka a Beira Mar: uma releitura da tragédia de Édipo, com os gatinhos que se comunicam com um dos protagonistas, etc. Amei. Depois, Caçando Carneiros foi um dos meus livros favoritos da vida. Finalmente, a trilogia 1Q84, que eu achei divertidíssima e envolvente.
Então fui para Norwegian Wood, que é uma das obras referências do autor japonês. Sua escrita é sedutora. É muito fácil ler Haruki Murakami. E por isso eu fui. Fui... Fui. E só foi piorando. Não que o começo tenha sido ruim, mas do meio para o final foi péssimo.
Foi publicado em 1987. Trata-se de um romance de formação. A história é contada por Toru Watanabe que, mais velho, relembra seus 17 e 20 anos durante os anos de 1968-1970 no Japão. Tem todos os elementos clichês para qualquer história de adolescente/ jovem adulto desta época: muita música, protestos, greves, sexualidade, álcool, depressão, retiros alternativos. Só não tem drogas. Boa parte da história se passa num alojamento masculino cheio de universitários e não tem... Drogas. Ok. Isso não é tão importante assim.
O problema, a meu ver, são dois. O primeiro, não gostei como a depressão e o suicídio são tratados no livro. Vários personagens têm problemas depressivos profundos e vários se matam. Parece que mais personagens comentem suicídio do que chegam vivo até o final. A discussão que permeia toda a narrativa é "quem é normal e quem não é", ou "o que é ser normal?". Bom, tudo bem, o livro foi escrito em 1987, mas o máximo que acontece é um tratamento alternativo num retiro de pacientes que não tem acompanhamento médico convencional. Ou seja, eles estão lá para "se" tratar com o ar das montanhas, cuidando de passarinhos e conversando bastante. Enfim, uma abordagem completamente "antivax". De novo, compreendo que é uma obra de 1987 falando de um período de 20 anos atrás, mas faltou um "q" de levar essa situação um pouco mais para além de "tristeza-não-faz-de-ninguém-anormal-vamos-aproveitar-a-natureza-porque-as-montanhas-são-lindas-e-tudo-o-que-você-precisa-é-boa-vontade-para-se-curar".
O segundo tem a ver com críticas que olhei de relance por aí na internet e para o qual eu sempre fiz vista grossa: as personagens femininas de Murakami. Nas outras obras que li, não tive nenhum problema com as personagens femininas, achei que ou elas não apareciam e não eram importantes para a história, ou então eu até gostava delas. Em 1Q84 eu adoro a protagonista.
Porém, em Norwegian Wood, um livro que trata justamente sobre o "despertar', vamos dizer assim, da sexualidade do protagonista, as mulheres aparecem como bonecas/fantoches sexuais, com diálogos completamente apelativos e ridículos. Sinceramente, fica parecendo muito menos um romance de formação e muito mais os devaneios de um adolescente bobo egocêntrico cheio dos hormônios. Podemos falar que o narrador é em primeira pessoa e tudo o que nos conta é uma digressão e, portanto, pode ser essa imaginação mesmo e acabamos sendo enganados. Tudo bem, isso é até válido. O problema é que a leitura se torna um clichê sexual tosco cansativo e misógino.
Uma passagem lamentável é quando uma das personagens, na casa dos 40 anos, paciente da tal clínica alternativa, vai contar para o protagonista o episódio que a levou a esta situação. São páginas e páginas de sua história: ela era professora de piano, na casa dos 30 anos, bem casada e com uma filha bebê. Uma de suas alunas de 13 anos a seduz e elas vão para a cama. Depois, tanto o sentimento de culpa quanto o julgamento de seus vizinhos a destrói. São páginas e páginas de descrição desta cena de pedofilia, onde a menina de 13 anos seduziu a professora, e - o mais importante - tem absolutamente nenhuma conexão com o antes e o depois da história. É uma narrativa, dentro de outra narrativa, puramente pela descrição sexual de uma mulher e uma adolescente.
Tenho a impressão de que é um livro adorado por leitores homens. O que é uma tristeza. Eu adoro romances de formação, adorei as outras obras de Haruki Murakami, e talvez passe algum tempo agora para eu ler outra obra do autor.
Enfim, pela primeira vez na vida, vou dar apenas uma estrelinha de avaliação para uma leitura. Recomendo, no entanto, Caçando Carneiros.
O dia em que Selma sonhou com um ocapi, de Mariana Leky
Eu gosto muito de literatura contemporânea, mas fazia um tempo que não lia nada publicado recentemente. Quebrei o jejum com What you can see from here, Mariana Leky, publicado originalmente na Alemanha em 2017 e, no Brasil em 2019 com o título O dia em que Selma sonhou com um ocapi.
Cheguei até ele por indicação da Mia Sodré. Procurei a descrição e, de cara, amei a premissa: toda vez que Selma sonha com um ocapi, alguém na vila morre em 24 horas. Parênteses: ocapi é um mamífero originário da África. Não é bonitinho. É bem feio na verdade, o que explica sua falta de popularidade. Eu fiquei super intrigada como se fosse uma antropóloga: como se comportariam os familiares e amigos de Selma e os habitantes daquela vila sabendo que, possivelmente, aquelas seriam suas últimas 24 horas de vida? Seria "deixa eu comer tudo o que eu posso até passar mal porque não sei se estarei aqui amanhã", ou "hoje eu não vou para a academia, porque o que importa se eu vou morrer hoje mesmo", ou "hoje me vingo e mato aquele FDP", ou ainda "não sairei da igreja e vou implorar para Deus me poupar"? Qual seria o tom? Melancolia? Caos social? Apocalíptico? Divertido? Irônico?
Absolutamente nada disso. Mariana Leky é muito original.
A história é narrada por Luisa, neta de Selma. Elas vivem numa pequena vila na Alemanha Ociental. O livro me lembrou um pouco Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, que se passa na Polônia e sobre o qual escrevi aqui. Me lembrou no sentido de que a narrativa se parece uma fábula. Ambas as histórias têm como protagonista uma senhora idosa, se passam num pequeno povoado, a relação entre as senhoras e a vizinhança é de muita proximidade, a paisagem natural, inclusive os animais mencionados, são os mesmos - temos a floresta, a planície, o veado e o caçador. No livro de Olga Tokarczuk, há um misticismo presente em toda a narrativa e, no livro de Mariana Leky, encontramos também um universo fantasioso, cheio de superstição.
Quem já teve a chance de conhecer essas vilas pequenas da Europa, lê a narrativa de Mariana Leky com muita familiaridade. Um lugar onde o tempo passa e, ao mesmo tempo, tudo continua igual. Onde as pessoas, apesar do nome, são conhecidas e chamadas pela sua função dentro da comunidade, como o oculista, o lojista, ou o sorveteiro. É uma leitura apaixonante, envolvente e, como numa fábula, passamos pelas 300 páginas bem rapidamente. Vamos acompanhando alguns anos da vida de Luisa que, no começo da história, quando sua vó sonha com o ocapi, tem apenas 10 anos. No final, terminamos o livro com uma Luisa de 30 anos.
Na minha opinião, o grande mérito da narrativa de Leky é colocar beleza onde, a princípio, não há. A mesmice, o cotidiano, a vida simples daqueles que nascem, crescem, casam-se, envelhecem e morrem no mesmo lugar. Diálogos sobre coisas simples, pequenos pensamentos filosóficos feitos por pessoas normais. E, principalmente, a morte. Leky trata com sensibilidade todos esses aspectos humanos profundos de maneira simples e sofisticada.
Teve apenas uma coisa da qual não gostei. O livro começa muito bem, mas acaba mal. Não gostei do epílogo. Senti ele desconexo e até um pouco decepcionante.
E por que um ocapi?
Isso não é respondido no livro, mas segue a minha interpretação. Ao longo da narrativa, temos muitas "portas". Grandes momentos na vida de Luisa acontecem com portas, literalmente. Me parece que ocapi é a representação de tudo o que está do outro lado de uma porta que separa aquele mundinho pequeno circundado pelos limites da vila (ou seja, o conhecido) do resto do mundo (ou seja, o desconhecido). Tudo que vem "de fora" desestabiliza a ordem monótona e metódica daquelas pessoas. Primeiro o ocapi, no sonho de Selma, e depois Frederik, o monge budista.
Essa dualidade entre conhecido versus desconhecido, conforto de casa versus aventura, consentimento versus curiosidade é bem representada na figura do pai de Luisa. O médico, de certa forma incompreendido, está sempre viajando para os lugares mais remotos e menos óbvios. Ele é um aventureiro ou está procurando algo que não é possível encontrar? A cada retorno para ver sua família, ele traz um pedacinho do que é de fora para dentro daquela pequena vila através de livros de viagens.
Uma narrativa que se passa em uma vila da Alemanha Ocidental entre os anos de 1980 e 2000 não poderia passar imune ao seu contexto histórico. O trauma da guerra para aquelas pessoas está na figura de Heinrich, avô de Luisa, que nunca o conheceu. Um dia ele foi para a guerra e nunca mais voltou. As fotografias e memórias que restaram deste personagem são poucas. Quase não há informação. É como se, o pouco que temos, tivesse escapado pelas frestas de uma porta que se fechou e nunca mais foi aberta quando ele saiu daquela pequena vila para o mundo desconhecido. Talvez este seja um pouco que eu não tenha gostado muito. Eu acho que o papel da Alemanha nas duas guerras mundiais tem que ser escancarado, debatido e definitivamente não colocado do outro lado da porta. Heinrich aparece toda vez como uma lembrança muito distante, cuja imagem é quase apagada, e eu acho que a violência vivida - causada e sofrida - na Alemanha no século XX tem que ser clara claríssima.
Mas, apesar disso, é um livro lindíssimo, recomendo bastante. É uma narrativa sobre morte e luto de forma sensível e profunda. Apesar dos pontos que eu não gostei, é uma leitura muito prazerosa e envolvente. Porém, tem que estar preparado para sentir conforto mas também muita dor. Prepare os lencinhos para o final da primeira parte do livro.
A leveza e alegria de "Nu, de Botas", Antonio Prata
Vou fazer apenas um comentário breve sobre esta minha última leitura. Nu, de botas foi um presente. Todos nós devemos nos autopresentear de vez em quando, nos dar aquele mimo. Pode ser um horário no salão de beleza, uma massagem, um sapato novo, uma ida ao cinema... Mas, recomendo fortemente a leitura de Nu, de Botas como um agrado à alma.
Antonio Prata nos oferece uma leitura leve, engraçadíssima e cheia de afeto. As crônicas são memórias do autor quando criança, narrada com a inocência infantil de quem está descobrindo o mundo e acha algumas coisas do mundo adulto um tanto quanto "bizarras".
Para quem nasceu nos anos 70 e 80, o livro é um grande álbum de recordação. Eu nasci em 1990 e, por mais que algumas coisas já não eram do meu mundo, como o programa do Bozo, eu pude relembrar minha ânsia e desespero discando o telefone com o discador redondo e pesado para os outros programas de auditório infantis da minha época.
As últimas gerações da infância sem tablet, computador, videogame, completamente sem internet, recheada apenas de brincadeiras na rua e televisão. As crônicas de Nu, de Botas são uma homenagem a esta infância analógica que chegou ao fim.
Mas mesmo que isso não seja um assunto de interesse, a leitura vale a pena apenas pela risada. Há um texto em particular, sobre a vez que Antonio e suas irmãs estão na estrada e, de dentro do carro, flagram uma cena de sexo oral em outro carro parado no acostamento. A algazarra é imensa. Como ele aponta, aquilo que viram desafiava toda a ordem conhecida. Era como ver um disco voador, um fantasma ou um leão em plena avenida central. O desenrolar dessa história é uma tragédia cômica até o fim. Eu estava lendo essa crônica de manhã, enquanto o Allan ainda estava dormindo, e o esforço que fiz para não gargalhar alto e acordá-lo foi sobrehumano.
Enfim... Neste blog são tantos os livros melancólicos. Falar um pouco aqui sobre a leveza e bom humor de Nu, de Botas me fez feliz. Como foi minha experiência de leitura com esta obra: divertida e alegre.
A insustentável leveza do ser: exilados em sua própria terra
"Tomas dirigia, Tereza ia ao seu lado e Karenin no banco de trás; de vez em quando, esticava a cabeça para lamber a orelha deles. Duas horas depois, chegaram a uma pequena estação de águas onde tinham passado alguns dias juntos cinco ou seis anos antes. Pretendiam pernoitar ali. [...]
Tomas mostrava o hotel. Afinal alguma coisa havia mudado. Em outros tempos, chamava-se Grande Hotel e agora, de acordo com o letreiro, chama-se Baikal. Olharam para a placa, na esquina do prédio: era a praça Moscou. Em seguida percorreram todas as ruas que conheciam (Karenin os seguia sozinha, sem guia), lendo os nomes: havia a rua Stalingrado, a rua Leningrado, a rua Rostov, a rua Novossibirsk, a rua Kiev, a rua Odessa, havia o Sanatório Tchaikovski, o Sanatório Rimski-Korsakov, o Hotel Suvorov, o Cinema Górki e o Café Púchkin. Todos os nomes eram tirados da Rússia e da história russa.
Tereza se lembrou dos primeiros dias da invasão. As pessoas retiravam as placas das ruas de todas as cidades e arrancavam das estradas os painéis indicativos. O país se tornara anônimo numa noite. Durante sete dias, o Exército russo ficara errando pelo país sem saber onde estava. Os oficiais procuravam os prédios dos jornais, da televisão, da rádio para ocupá-los, mas não conseguiam encontrar nenhum deles. Perguntavam às pessoas, mas elas davam de ombros ou indicavam endereços falsos e um intinerário falso.Com o passar dos anos, esse anonimato se mostrou nocivo ao país. Nem as ruas nem as casas conseguiram encontrar de novo seu nome original. Uma estação termal da Boêmia se tornara assim, do dia para a noite, uma pequena Rússia imaginária, e Tereza constatou que o passado que procuravam lhes fora confiscado. Era impossível pernoitar ali." (KUNDERA, M. A Insustentável Leveza do Ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 162-3)
"Quando chegou ao monte Petrin, a colina verdejante situada no centro de Praga, notou com espanto que não havia ninguém. Era curioso, pois, em geral, multidões sempre passeavam por ali. Sentia-se angustiada, mas os caminhos estavam tão silenciosos e o silêncio era tão repousante que relaxopu e se entregou cofiante à colina. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, via um aglomerado de torres e pontes. Os santos brandiam punhos ameaçadores, os olhos de pedra fizados nas nuvens. Era a cidade mais bonita do mundo." (Idem, p. 146)
"A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não tinha um caráter ético, mas estético. O que lhe repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista (os castelos convertidos em estábulos), mas a máscara de beleza com que ele se cobrira, isto é, o kitsch comunista. O modelo desse kitsch era a chamada festa do Primeiro de Maio.[...]A festa do Primeiro de Maio se abastecia na fonte profunda do acordo categórico com o ser. A palavra de ordem tácita e não escrita do desfile não era "Viva o comunismo!", e sim "Viva a vida!". A força e a estúcia da política comunista foi ter se apossado dessa palavra de ordem. Era precisamente essa estúpida tautologia ("Viva a vida!") que levava ao desfile comunista até mesmo os que eram completamente indiferentes às ideias comunistas.[...]Por volta de dez anos mais tarde (ela já morava na América), um senador americano amigo de seus amigos a levou para passear num carro enorme. Quatro garotos se apertavam no banco de trás. O senador parou; as crianças desceram e desataram a correr num gramado imenso em direção a um estádio onde havia um rinque. O senador ficou ao volante olhando com ar sonhador as quatro pequenas silhuetas que corriam; virou para Sabina: "Olhe para eles!", disse, descrevendo com a mão um círculo que englobava o estádio, o gramado e as crianças: "É isso que eu chamo de felicidade".[...], nesse momento, Sabina imaginou o senador num palanque de uma praça de Praga. Em seu rosto, havia examente o mesmo sorriso que os estadistas comunistas dirigiam do alto de seu palanque aos cidadãos igualmente sorridentes, que desfilavam a seus pés. [...]O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os movimentos políticos." (Idem, p. 244-6)
09 de maio, o Dia da Vitória: homenagem às mulheres de "A Guerra não tem rosto de mulher"
Tenho uma pequena lista mental de alguns nomes de autores cujo trabalho eu gostaria de ler pelo menos uma vez ao ano. Svetlana Aleksietich é um desses nomes. Em 2019, li "Vozes de Tchernobil". Ano passado, devorei "O fim do homem soviético" e, neste ano de 2021, foi a vez de "A Guerra não tem rosto de mulher".
Seu trabalho de história oral, coleta e transcrição de testemunhos, que fica no meio termo entre literatura e história, me fascina. Como historiadora, que passou anos em salas de arquivo lendo correspondência pessoal do século 20, acho que os relatos de si puxados de memória podem falar muito mais sobre os tempos passado e presente do que alguns documentos oficiais.
O trabalho de transcrição e curadoria de Svetlana é primoroso. Ela sabe fazer os cortes corretos para cada depoimento não ser longo demais e tornar a leitura cansativa, mas suficientemente comprida para prender nossa atenção. Ela conta uma grande história a partir de tantas outras pequenas histórias. Nós vamos, com a leitura, amarrando os pontos, imaginando o cenário e a linha do tempo. A intervenção da Svetlana é precisa: suficiente para não alterar as histórias individuais ao mesmo tempo que mantêm uma coerência entre si. É como se a autora pegasse as estrelas espalhadas e formasse a constelação.
Dito tudo isso, fica claro o quanto eu gostei do livro. Apesar de indigesto, doloroso e triste, a leitura é fluída. É fácil o trabalho de leitura, difícil é encarar tudo aquilo como real. Como verdade.
Eu gostei mais dos outros dois livros. Talvez porque os outros dois me trouxeram uma dimensão completamente nova de como esses traumas coletivos influenciaram na vida particular de cada indivíduo. Não tinha noção de como a maior parte da populaçao que sofreu com a explosão dos reatores eram camponeses - além de não terem compreensão do que significava radiotividade, eles tinham uma relação com a terra que nós não compreendemos. Expulsá-los de lá para garantir suas vidas era, praticamente, matá-los.
Já "O Fim do Homem Soviético" tem uma linha temporal muito maior. Percorre quase todo o século XX e escancara o embate entre gerações que construíram a União Soviética, aqueles que desejaram uma nova ordem e os que já nasceram na Rússia. Os depoimentos vão revelando como avós, pais e filhos não se entendem, porque, apesar de compartilharem o mesmo lugar, seus tempos são completamente diferentes. E, no tempo de cada um, não existe espaço para o outro. Revela-se como o fim da URSS significou também silenciar uma história coletiva e individual. Talvez este tenha sido o meu favorito.
"A guerra não tem rosto de mulher" é mais limitado no tempo. Reune depoimentos de mulheres ex-combatentes do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial. Da invasão da Alemanha na URSS, em 1941, até o Dia da Vitória, em 9 de maio de 1945. No primeiro depoimento, já me veio à memória "A Trégua", de Primo Levi. Desde o momento da libertação do campo de concentração e durante todo o seu percurso sobre os trilhos de trem pela Europa em ruínas, Levi fala sobre as mulheres entre os soldados vermelhos. Fiquei até imaginando se aquela moça que fala sobre a libertação de um dos campos de concentração teria se encontrado com o químico italiano.
Os relatos são memórias do campo de batalha: meninas e mulheres, ainda adolescentes, se voluntariando para ir ao front e disputando seu lugar entre os homens, fazendo "tarefas masculinas". Conhecemos mulheres que atiram e matam, que cavam as trincheiras, que desarmam bombas, que dirigem tanques, que consertam tratores... Mas também temos as lavadeiras, as enfermeiras, as médicas. Essas mulheres dizem que envelheceram uma vida em apenas quatro anos. O coração incha. É difícil imaginar a dificuldade em ser mulher, tanto física quanto emocionalmente, num meio masculino e de morte.
As mulheres passam a usar uniforme masculino: capote, cuecas e botas de numeração muito maior que pés femininos costumam calçar. Não é o exército que se adapta ao corpo feminino, é a mulher que tem que se adaptar às regras e cultura do exército masculino.
Algumas deixam de menstruar. Deixam de ver todo mês aquilo que lhes lembram que são mulheres, que possuem corpo de mulheres. E as que continuam menstruando, morrem. Um dos relatos nos conta sobre a travessia a pé que fizeram sobre um deserto. As mulheres seguindo na frente deixavam um rastro de sangue na areia. E o sangue, ela nos conta, secava na calça, cortando-as e machucando-as. "E os homens fingiam que não viam". Quando chegaram ao destino final, havia um lago e todas entraram para se limpar. Haviam alemães por perto e bombardearam o lago. "A vergonha era pior que o medo de morrer".
Mais para frente, em outro depoimento, a ex-combatente também menciona como o sangue secava na roupa e cortava a pele. Mas desta vez o sangue eram dos mortos e feridos. A vida e a morte se misturam.
Esta é a materialidade da guerra que nos é contada, mas há uma outra dimensão que lemos a partir dos relatos. Elas se voluntariavam para defender algo que acreditavam. Elas iam para o front para defender suas famílias, suas terras. Existia um ideal forte o bastante que lhes faziam não temer a morte. Elas haviam sido educadas sob o regime comunista: uma cultura bélica e idealista. Idealizavam a guerra e sua mortalidade. Na verdade, era como se vivessem antes num mundo de sonhos e, só depois chegando no campo de batalha, acordassem. Apesar disso, nenhuma delas se diz arrependida. Nenhuma.
Sexo. Estupro. Muito pouco. A autora chega a perguntar "E amor? Existia amor nas trincheiras?". Há um ou outro depoimento que menciona a aproximação entre uma combatente e um homem de outra patente. Há mulheres que conheceram seus futuros maridos nas trincheiras. E há a denúncia dos estupros cometidos contra as mulheres alemãs capturadas. Mas estes episódios são mencionados como quem pisa em ovos. Absolutamente nenhuma delas relata ter sofrido violência sexual. Nenhuma.
Ainda que haja a intervenção da autora, é curioso não ter
arrependimento nem estupro no livro. O quanto isso vem das mulheres entrevistadas e o
quanto vem da imagem da mulher soviética na guerra que a autora
constrói? Falar, transcrever e publicar sobre um estupro no front soviético seria desmoralizar o próprio exército soviético e sua história e cultura bélica. O quanto isso fala do passado e o quanto fala do presente? Mesmo após a mudança do regime comunista para o capitalismo, mesmo após as "aberturas" e denúncias, ainda há muitos silêncios.
E depois da vitória?
Ficou o vazio. Ficou a decepção de voltar para as casas vazias, pois todos os familiares haviam morrido. Ficou a dor de uma mutilação ou de uma saúde precária aos 20 e poucos anos. Ficou o preconceito de outras mulheres que viam estas que foram lutar como prostitutas. Ficou o medo de ficarem sozinhas e a tristeza de não serem reconhecidas pelos filhos que elas deixaram para trás. Se na guerra a luta é para viver, depois da guerra a luta pela vida continua, mas sob a forma de outras batalhas.
Mas não só isso. Aqueles que chegaram à Europa ocidental, foram enviados à Gulag. Uma vez capturado pelo inimigo, o dever pátrio era se matar. Aqueles que fugiram, foram considerados traidores e também enviados à Gulag. Ficou a decadência e o desarme de minas terrestres por longos anos após declarado o fim da guerra.
Eu li em ordem inversa. A continuação deste livro é "O fim do homem soviético". Entende-se a dor e desamparo dessa geração que lutou pela URSS, venceu Hitler, e viu seus filhos e netos lutando por "liberdade" e, depois, serem escanteado, jogados de lado, humilhados, por terem acreditado e lutado por Stalin.
Programei para hoje, dia 9 de maio, o Dia da Vitória, a publicação desse post como uma homenagem a estas mulheres. Não posso compreende-las. Não compreendo o que viveram, tampouco o forte ideal que sentiam e as levaram para o front. Só posso ter empatia e ouvidos atentos para uma história que sempre precisa ser narrada e lembrada. Não podemos nunca esquecer as dores do século XX.
Memória individual e coletiva no romance de Kazuo Ishiguro, "O Gigante Enterrado"
Comentei no post anterior como meu hábito de leitura foi meio atrapalhado neste ano. Em 2021 acabei o volume 1 da trilogia de "O Problema dos Três Corpos", li o segundo volume, mas o terceiro desisti depois de já ter completado mais de 60%. Como forma de passar o tempo, li até metade a edição chilena de "Uma breve história do tempo", S. Hawking. Portanto, posso dizer que "O gigante enterrado", de Kazuo Ishiguro, foi a primeira narrativa que eu li inteirinha, de uma vez só. Senti, pela primeira vez, aquele "todo" do começo-meio-fim que um romance nos proporciona.
Eu comecei a lê-lo porque 1) estava disponível no meu kindle, já que comprei em uma ótima promoção da Amazon ano passado e 2) eu precisava de coisas bonitas. Eu fiquei encantada ano passado com a beleza nostálgica e triste de "Um artista no mundo flutuante" e, além de narrativa leve, linda e triste, a história tocava em assuntos que me são muito caros, como a memória individual e coletiva, a identidade, períodos de conflito histórico e a Segunda Guerra Mundial.
"O gigante enterrado" foi meu segundo livro do autor japonês e completamente diferente do que eu esperava. Há muita beleza e muita tristeza, como eu já sabia que encontraria, mas não esperava que fosse uma história que se passava na Alta Idade Média no território que hoje conhecemos como Inglaterra. Não esperava ver Arthur, Merlin, dragões e elfos. Foi uma surpresa muito boa.
Na minha total ignorância sobre romances de cavalaria, quando comecei a ver a apresentação dos personagens, a descrição das paisagens, o início da viagem do casal protagonista, a menção de uma dragoa e outras referências deste universo, fiquei com a impressão de que "O Gigante Enterrado" era uma mistura de "O Hobbit" e "As Brumas de Avalon". No final, continuo com essa impressão, mas uma mistura com muito mais profundidade. Com uma tristeza e melancolia que nos leva a ficar refletindo e pensando no que tudo o que se passa naquelas páginas querem dizer para além do que está escrito. Ficamos procurando as metáforas e significados que estão nas entrelinhas.
Assim como em "Um artista no mundo flutuante", a memória tem um protagonismo grande na história de "O gigante entererrado". No primeiro, o protagonista é um homem japonês idoso, cuja participação na Segunda Guerra Mundial tem consequencias diretas nas tratativas de casamento de sua filha mais nova e no futuro das novas gerações de sua família. Seu passado nos é apresentado como uma mistura de suas próprias memórias com o que os outros dizem que aconteceu.
Com Beatriz e Axl, protagonistas de "O Gigante Enterrado", algo se passa de forma similar. O casal de idosos decide partir em uma jornada atrás de seu filho, do qual não lhes restam muitas lembranças. Não se lembram muito bem de seu rosto, onde ele está examenta e porque partiu. Aliás, todas as lembranças parecem escapar pelos seus dedos e dos demais. Mesmo nas ações e atividades mais cotidianas, as pessoas parecem esquecer com muita facilidade os eventos - recentes ou não - e as pessoas. Mas algo acontece e eles partem para a aldeia do filho. Nesta jornada, vamos conhecendo outros personagens e percebemos que este esquecimento é um problema generalizado. Mas as pessoas estão "vivendo", estão preocupadas em viver o momento, e não percebem - ou não dão muita atenção para isto. Porém, algo falta. É como um mal estar presente e constante, mas inominável. Que ninguém sabe muito dizer o que é e porque.
As observações que seguem revelam um pouco demais sobre a história. Para quem tem interesse em ler o livro um dia e não saber spoilers, não continue a leitura.
Descobrimos mais para frente que este mal coletivo do esquecimento é causado pelo bafo de uma dragoa adormecida, que havia sido enfeitiçada por Merlin. Para amenizar o conflito entre os bretões e saxões, o bafo da dragoa faz os povos estrangeiros esquecerem as atrocidades cometidas pelo exército comandada pelo Rei Arthur. Assim, porque esqueceram, os povos vêm vivendo ao longo do últimos anos "em paz".
Mas a que custo? Axl e Beatriz não lembravam da guerra, dos massacres, do sangue... Mas também não se lembravam de coisas boas, de como se conheceram, porque se amavam, do rosto de seu filho. A todo momento estão procurando as lembranças boas de seu passado para se sentirem um pouco mais feliz diante de uma velhice tão difícil e dura.
O esquecimento da guerra implica no esquecimento também da vida pessoal. Da intimidade. Esquecem-se mortes e massacre, mas também as boas lembranças da juventude, do amor, do companheirismo. Quando um esquece o passado coletivo, também esquece sobre si. Perde-se um pouco de sua própria identidade. Na medida que Axl e Beatriz seguem a jornada em busca de seu filho e de suas lembranças, eles estão também procurando saber quem eles são e isso implica saber quem eles foram, pelo que eles passaram e o que fizeram.
Eu acho isso muito bonito. Melancólico também. E não posso deixar de pensar como vários livros que li nos últimos anos - aqueles sobre os conflitos de guerra do século XX, trazem exatamente esta mensagem que Kazuo Ishiguro traz em "O Gigante Enterrado". Aliás, como várias outras metáforas que recheiam a narrativa, este gigante é tanto a criatura mística - a dragoa - quanto as lembranças, ou o passado, escondido.
Não vou listar todos, mas penso imediatamente em Primo Levi e os testemunhos levantados e transcritos por Svetlana Aleksievitch. Os relatos sobre si são também os relatos sobre a guerra, a fuga, a perseguição e o ideal e dor coletivos. Quando Primo Levi fala sobre si, ele fala sobre Holocausto. E quando ele fala do Holocausto, ele fala sobre si. O mesmo com os testemunhos recolhidos por Svetlana. Quando estas pessoas falam sobre si e suas carteirinhas do partido, eles estão falando sobre um tempo e um lugar.
Por isso é importante sempre lembrar. Sempre falar. E devemos sempre ouvir. Roubar a história é roubar também a identidade das pessoas. Devemos isso a todos que viveram os dolorosos conflitos e às futuras gerações. Devemos isso para continuar sobrevivendo coletivamente - como humanidade, como civilização.
Não vou me alongar sobre outro tema, mas quero pelo menos registrá-lo aqui. É muito sensível e lírico como Kazuo Ishiguro coloca o tema da velhice e da morte em sua narrativa. Axl e Beatriz são idosos, ela está doente, e conhecem durante a viagem várias mulheres cujos maridos foram levados por barqueiros a uma ilha e nunca voltaram para buscá-las. Estes casais foram separados porque, segundo o barqueiro, as mulheres e homens não se lembravam porque se amavam. Não compartilhavam uma memória juntos. Em toda sua jornada, Beatriz e Axl querem suas lembranças de volta porque não querem ser separados pelo barqueiro. Eles querem ir juntos para a ilha. Por isso é tão importante eles compartilharem as memórias e não viverem de migalhas de lembranças: porque um dia eles serão postos a prova. Como isso se desenrola é triste, mas bonito. Me fez chorar.
Minha estréia em ficção científica e uma reflexão sobre a passagem do tempo e sensibilidade
O tempo está passando de uma forma muito estranha para mim. Não é rápido, tampouco devagar. É uma constante espera, cheia de imprevisibilidade, que faz o tempo presente ser extremamente vagaroso, enquanto o passado parece ter acontecido num estalar de dedos.
Quando penso que já estamos entrando na segunda quinzena de Abril, fico com a sensação de que eu não tive tempo de escrever sobre a trilogia "O Problema dos Três Corpos" do autor chinês, Cixin Liu. Eu virei 2020-21 lendo o primeiro volume e, aos trancos e barrancos, passei os meses de Janeiro e Fevereiro lendo os volumes dois e três.
Mas como eu não pude ter tempo de escrever se meus dias são inertes e contabilizam - assustadoramente - horas excessivas e não-saudáveis de tempo gasto em frente a tela do celular?
Entre Março e Abril, também aos trancos e barrancos, li metade do livro de Stephen Hawking, "Uma breve história do tempo". Entre catálogos de livros de viagem sobre paisagens turísticas chilenas, estava esta obra - em espanhol, claro - disponível na mesinha de cabeceira. Quão irônico é isso? Decidi, voluntariamente, enterrar esta questão.
Este mês comecei outro livro e percebi hoje, dia 15 de abril, que se eu não escrever sobre "O Problema dos Três Corpos", ele ficará perdido para sempre no tempo e, aos poucos, se esvaindo da minha memória.
E já que o tempo está sendo tão ingrato comigo, decidi enfrentá-lo e escrever minhas impressões hoje, sem rodeios, mesmo que de maneira breve e incompleta. Não importa o que aconteça e qual seja minha motivação. Hoje estas linhas saem do plano das ideias para o papel, digo, computador.
Eu nunca tinha lido ficção científica, apesar de gostar muito do gênero nas telas e meu marido ser um grande leitor. Me interessei pela obra do Cixin Liu porque também nunca tinha lido um autor chinês e neste tempo histórico, é importante se voltar para a China. Como meu olhar não é econômico, geopolítico, ecológico, mas sim cultural, Cixin Liu me pareceu uma boa estreia para a literatura contemporânea chinesa e, de quebra, ficção científica. Por isso o livro me cativou logo nas primeiras páginas: uma parte da narrativa é ambientada nos anos 1960 na Revolução Cultural Chinesa.
Os livros são relacionados e, ao mesmo tempo, independentes entre si. O segundo e terceiro são expansões do que é iniciado no primeiro. Surge o problema, mas a história continua com outros problemas, outros personagens e uma passagem temporal tão grande, cheias de idas e vindas, que ficou confuso - mas não impossível. O mérito da leitura (pelo menos o que mais me interessou) foi a junção dos elementos da astrofísica com as grandes questões metafísicas da humanidade. Estes elementos são bem trabalhados nos dois primeiros volumes, mas se perdem no terceiro e, por isso, este último foi o mais difícil de concluir a leitura.
O primeiro foi meu favorito. Através de um jogo de realidade virtual, nosso protagonista "entra" num mundo diferente e a partir de personagens e fatos da nossa própria história da ciência, vai descobrindo que lugar é este e quais os "problemas" naturais que devem ser compreendidos e resolvidos. Eram meus capítulos favoritos. O primeiro livro junta questões da astrofísica, história da ciência e história política e cultural da China com suspense de uma maneira muito didática e envolvente.
No segundo volume, o problema já está colocado e a história pode ser resumida com um "como vamos resolver essa questão e não vamos todos morrer?". O problema do problema é de que qualquer solução não pode ser falada, tampouco demonstrada. Ela não pode ser comunicada sob nenhum pretexto. Por isso, esta empreitada fica nas mãos de meia dúzia de pessoas, sendo uma delas nosso protagonista. Acompanhá-lo nessa trajetória também é muito interessante.
No terceiro, tudo se perde. Percorremos um espaço temporal e galático gigantesco, que resulta num descolamento da ficção com o que é palpável, concreto. Tudo se torna imensamente abstrato e, por isso, fora de contexto da nossa realidade, ao menos do que nos é tangível. Eu não conseguia mais ver sentido no que estava lendo. Por que ficar lendo sobre explosões do sol, planetas a milhões de Unidades Astronômicas de distância da terra e cérebros descolados de seus respectivos corpos que ficam vagando pelo espaço que se passam daqui 600-800 anos, sendo que nossa preocupação atual é sobreviver dia a dia e chegar no mês que vem? Infelizmente, é o maior volume de todos.
Não estamos vivendo um momento fácil e a imprevisibilidade me consome. Lidar diariamente com a ansiedade, aprender a não me cobrar demais e, ao mesmo tempo, não me abandonar e aprender a me cobrar um pouquinho, tem sido muito difícil. Por isso a leitura lenta e a demora em doar este tempo para a escrita. Estou sentada o dia inteiro em casa e extreamamente cansada. Parece que o jeito é aprender a lidar com isso. Assim como aprender a lidar com esta nova forma de passagem do tempo.
A passagem do tempo, além da dimensão física e natural, é uma percepção. De 1990 até março de 2020, eu aprendi a ter uma percepção temporal. A pandemia fez surgir novas relações e dinâmicas do indivíduo e da sociedade com o tempo, portanto, uma nova sensibilidade de passagem temporal que ainda estamos tentando conhecer. Por isso, a ficção científica de Cixin Liu, ou Stephen Hawking e seu livro de divulgação científica sobre o tempo, me parecem ser um pouco incompletos. Por mais interessantes que sejam, as leituras me deixaram com a sensação de que faltava algo. Com certeza isso diz mais sobre mim e minha experiência de tempo/espaço de leitura do que sobre as obras em si.
Um Artista do Mundo Flutuante, Kazuo Ishiguro: as dores e a melancolia daqueles que perderam a guerra
Acabei sem querer tropeçando em Kazuo Ishiguro e Um artista do mundo flutuante foi meu livro de estreia do autor. Circulando pelos perfis literários no Instagram, vi uma referência à beleza da capa de Um Gigante Adormecido. Como eu estava ainda mexida pela recente leitura de Miso Soup, obra de outro autor japonês, fui atrás de Kazuo Ishiguro na Amazon e acabei me interessando.
Este post não chegará aos pés da atenção que merece Um artista do Mundo Flutuante. Sinto que eu deveria voltar às páginas do livro e fazer uma segunda leitura mais cuidadosa, mais reflexões, mais parágrafos grifados e páginas marcadas com post-it caso se eu quisesse cumprir com louvor a minha ousadia de escrever sobre este livro aqui. Não obstante, segue algumas ideias e um relato da minha experiência de leitura.
Eu não sei porque, mas eu sou um ímã de leituras relacionadas à Segunda Guerra Mundial. Já mencionei sobre isso em outros posts. Talvez - só talvez, seja porque eu sou uma apaixonada pelo século XX e a Segunda Guerra foi o maior evento deste período. Nos últimos dois anos, li muita coisa sobre o Holocausto e o Exército Vermelho, mas nunca sobre o ponto de vista político. Sempre - absolutamente sempre - meu interesse está na relação do indivíduo e sua identidade com o momento histórico vivido (ou herdado). Hitler não me interessa. Me interessa a dona de casa que compra pão todo dia na União Soviética e, um dia, sai às ruas para protestar por mais liberdade. Me interessa o filho do judeu imigrante que nasceu nos EUA, viu o Holocausto do outro lado do Atlântico e um belo dia vai para Israel. Me interessam as pessoas comuns e como elas vêem o mundo - e a si mesmas! - a partir das vicissitudes históricas.
Engraçado que, apesar de todo esse interesse, eu nunca havia me atentado para um dos antagonistas desta Guerra. Frequentemente falamos de Pearl Harbor, kamikazes, Bomba Atômica, Hiroshima e Nagasaki. Este vocabulário está aí, em todo o lugar, mas acho que se tornaram um pouco vazios. Tanto quanto as vezes "Holocausto" parece estar se desgrudando de todo o significado que a palavra carrega. Parece que quando falamos da participação e derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, a queda das bombas nucleares e a rendição estamos falando apenas de dados históricos. Precisamos relembrar os significados destes eventos - tanto para o momento em que ocorreram como para o tempo presente.
Neste sentido, Um Artista do Mundo Flutuante me lembrou Talvez Esther, de Katya Petrovskaya, que eu li ano passado. São leituras que falam sobre as feridas que não se fecham e os traumas que a Segunda Guerra Mundial trouxe nos níveis individuais e familiar. Como uma falha em um único ponto que deixa marcada toda a continuidade da trama de um tecido. Ou a colocação dos tijolos de um muro: quando uma peça não é bem assentada, todo o restante vai sendo construído torto. Passei tanto tempo na faculdade de História, há tantas e tantas horas de séries, documentários e filmes sobre eventos históricos, mas pouco se fala da dimensão de um trauma histórico naqueles que acordam no dia seguinte, vivem sua vida, almoçam, vão trabalhar, voltam para a casa e dormem para viver outro dia. Como diz Primo Levi em seus livros: é impossível voltar à vida de antes.
Mas estou divagando - como diria Masuji Ono, o protagonista de Um artista do Mundo Flutuante. O livro é contado em primeira pessoa durante os primeiros anos da ocupação, entre Outubro de 1948 e Junho de 1950. A partir de quatro datas marcadas, que funcionariam como quatro grandes capítulos, Masuji Ono, um artista já aposentado, nos conta os problemas que envolvem as tratativas de casamento de sua filha mais nova, Noriko. A filha mais velha, Setsuko, já casada e com um filho pequeno, Ichiro, mora longe com seu marido e visita o pai em ocasiões específicas.
A partir destas questões que envolvem Noriko, Masuji Ono vai recuperando algumas situações passadas e, tomando de sua memória, nos conta eventos que viveu nos períodos pré e durante a guerra. Nos relata também, aos poucos, sua formação como artista, sua ocupação oficial no governo, a relação com seus alunos, o ambiente artístico e cultural boêmio do Japão dos anos 20 e, após, sua virada para uma arte mais patriótica e engajada às causas sociais.
Contando sobre si, os lugares que frequentou e as relações cultivadas e rompidas ao longo de sua vida, Masuji Ono narra a própria história do Japão e faz um mea culpa, uma retrospectiva das responsabilidades e consequencias da Segunda Guerra Mundial para o que restou àqueles que sobreviveram e agora habitam um outro Japão - um lugar completamente diferente do que conheciam. Tudo isso sem mencionar, nem uma vez sequer, um evento específico ou todo aquele vocabulário já exaustivamente utilizado: bombas incendiárias, kamikazes, Hiroshima, Nagasaki, etc. Mesmo "guerra" é um vocábulo que quase não aparece.
Esta retrospectiva é feita sob as motivações que envolvem o futuro - os problemas das gerações mais jovens: a vergonha da perda, a humilhação da ocupação, a ofensa da rendição, as mortes dos entes queridos e a destruição das paisagens. Quem responsabilizar? Quem é o culpado de tudo isso? São traidores aqueles que levaram o Japão ao seu aniquilamento?
Por mais que nosso conhecimento sobre o leste asiático seja muito tangencial, sabemos que a história tradicional do Japão é marcada pelos samurais, casas de chás, gueixas e uma forte cultura de expansão imperialista. Uma sociedade bélica, violenta, patriarcal, sanguinária. O que aconteceu com esta tradição após a derrota da Segunda Guerra e a ocupação do território pelos EUA?
Masuji Ono, um intelectual e artista patriota, que ocupou cargos oficiais importantes durante a guerra e participou ativamente da promoção artística das campanhas de recrutamento, apesar de não ser acusado diretamente, é visto como um dos responsáveis - culpados - pelos erros geopolíticos recentes do país. Que posição agora ele ocupa? Sem ser diretamente acusado, suas filhas acham que a proposta de casamento de Noriko do ano anterior foi frustrada por causa do passado de Masuji Ono. Sua família, apesar de tratá-lo com muito respeito, na verdade trata-o com excesso de formalismo e o exclui. Ele está lá. Ele faz parte, mas ao mesmo tempo não faz.
Abre parênteses.
O neto Ichiro, uma criança pequena, está brincando - do que parece ser - de super-herói. Quem ele está imitando? Um grande samurai da história do Japão, como Musashi? Não. Um cowboy. Seu pai, genro de Masuji Ono, acha melhor seu filho não conhecer os heróis/ samurais da história japonesa, pois não são boa influência. É melhor ele aprender com a cultura norte-americana.
Depois, mais para frente, a criança enche a boca com espinafre - muito mais do que é capaz - e bate em seu próprio peito para imitar o Popeye. Aos olhos de Masuji Ono, a criança faz isso de modo besta. Tosco. Vergonhoso.
O tempo passa e Masuji Ono, depois de conversar com seu neto sobre saquê, diz que o Ichiro está grande, tornando-se um homem e poderia experimentar um pouco da bebiba alcoolica. A filha Setsuko se nega a diluir um pouco de saquê na água para dar a seu filho, apesar da expectativa da criança. Mesmo aos protestos de Masuji Ono, dizendo que o momento que um menino experimenta o saquê é um ritual de passagem - uma ocasião importante para a formação do menino-homem e que ele se lembrará para sempre com carinho desse momento, Setsuko nega. O pai de Ichiro discordaria também.
Fecha parênteses.
Masuji Ono ouve dos jovens adultos que o Japão tem muito a aprender com os EUA e com a "democracia". Ele vê a chegada dos costumes ocidentais ocupando todos os espaços do Japão: desde a "comodidade" dos novos conjuntos habitacionais sendo construídos (apartamentos que, segundo ele, são minúsculos), até os cartazes de cinema e pequenas intervenções de mau-gosto nas decorações para agradar os norte-americanos.
Os outros de sua geração se suicidam - a fim de "ajudar" as novas gerações a superar a vergonha passada e poderem se voltar ao futuro. Masuji Ono vê a doença e a velhice atingir a geração daqueles que um dia lutaram pela grandiosidade de seu país e que paassaram a serem vistos como "traidores", responsáveis pela decadência, destruição e sujeição do país às forças externas.
Certo momento, Masuji Ono nos conta que teve uma conversa com sua filha Setsuko e começa dizendo que "se irritou" porque ela estava errada em sua suposição. Para nós, Masuji Ono vai aos poucos recuperando lembranças, nos contando a partir de sua memória, vários momentos e detalhes de sua vida que justificam os motivos pelos quais sua filha estava errada. Em nenhum momento eles se confrontam, mas, no mesmo almoço do evento do saquê, o artista aposentado sugere uma afirmação que indicaria que a filha estava errada - e ele acredita que ela entendeu o recado. De qualquer maneira, ele nos mostra com convicção: ela estava errada.
Já ouvi falar outras vezes sobre o "choque" de gerações entre os japoneses. O choque entre tradição versus modernidade. Kazuo Ishiguro coloca essas questões de modo sensível e profundo. A partir da personagem de Masuji Ono, o autor nos mostra a importância de uma revisão histórica, que os responsáveis assumam seus papeis na tragédia que assolou o Japão para que o futuro venha a ser, que os jovens e as futuras gerações tenham possibilidades e possam superar os desafios impostos pela guerra e continuar suas vidas e a vida do seu país.
Porém, existe também uma crítica severa contra estas novas gerações que - seja por vergonha, ou outros sentimentos de remorso - transformam esta reflexão em uma completa substituição de seu passado. Parece que não se trata mais de uma autocrítica, mas uma completa substituição de suas história e tradição. Uma hiper-valorização da cultura ocidental, as tentativas sutis de agradar os americanos e a ideia de que o Japão tanto tem a aprender com a democracia norte-americana vem a borrar todo a cultura, tradição e identidade japonesas. Borrar - não apagar - porque, como Masuji Ono mesmo diz ao reconhecer traços de seu filho no seu neto Ichiro, as novas gerações nunca deixam de carregar e levar adiante características herdadas de suas famílias e até mestres.
"Na verdade, nesse dia, ao ver Ichiro com o rosto colado ao vidro para olhar a rua lá embaixo, percebi o quanto estava ficando parecido com o pai. Havia traços de Setsuko também, mas isso se via principalmente em seu jeito e nas pequenas expressões faciais. E claro, me surpreendeu também a semelhança de Ichiro com meu próprio filho, Kenji, quando tinha essa idade. Confesso que sinto uma estranha consolação ao observar as crianças herdarem essas semelhanças de outros membros da família, e minha esperança é que meu neto as mantenha em seus anos adultos.
Claro, não é apenas na infância que estamos sujeitos a essas pequenas heranças; um professor ou mentor que admiramos muito no começo da vida adulta deixará sua marca e, de fato, mesmo muito depois que se reavalia, talvez até se rejeita, o grosso dos ensinamentos desse homem, certos traços tenderão a sobreviver, como alguma sombra dessa influência, para ficar com a pessoa pelo resto da vida."
Apesar do sentimento consolador de ver as heranças sendo transmitidas de geração em geração, também é presente o sofrimento. Uma dor tanto entre aqueles que viveram a guerra, foram responsáveis por ela e, se antes eram heróis, tornam-se excluídos e acusados, quanto entre os mais jovens, que tentam apagar o passado herdado. As tentativas de apagamento são frustrantes, pois, como aponta Masuji Ono, inevitalmente os traços e semelhanças são herdados: as tentativas de importação da cultura ocidental e apagamento da tradição são, portanto, dolorosas para todos - independente da geração e da idade. É a melancolia que os afasta e, contraditoriamente, também os une.
Esta foi minha última leitura de 2020 e, com certeza, uma das mais belas.
Duas leituras de novembro que foram um pulinho para o outro lado do mundo
Os perfis literários no Instagram, blogs de resenhas de livros e clubes de leitura tem diversificado bastante o tipo de literatura que eu leio. Graças à Gabi Barbosa, este mês li dois autores japoneses que desconhecia: Ryu Murakami e Hiromi Kawakami. Duas leituras muito diferentes entre si e que me trouxeram experiências também antagônicas.
De literatura japonesa, só conheço talvez um dos mais famosos: Haruki Murakami, de quem sou muito fã. Kafka a Beira Mar, 1Q84 e Caçando Carneiros foram leituras que devorei. Adoro o universo fantasioso dos livros, os diálogos filosóficos e a sutileza com a qual traços ocidentais aparecem imbrincados no cotidiano dos personagens. Fora isso, a imagem que tenho do Japão é carregada de preconceitos e esteriótipos do universo de anime herdados da adolescência e alguns passeios na Liberdade.
Vou falar brevemente sobre as duas leituras porque o intuito do blog é este: mapear minhas experiências literárias. Sinto que consigo mais falar sobre o processo da leitura do que sobre o conteúdo em si, porque é um universo muito novo, sobre o qual nunca estudei e nem vivenciei.
Quinquilharias Nakano - Hiromi Kawakami
"- Tenho uma notícia boa e uma notícia ruim, qual você quer primeiro?" O Allan vive fazendo essa pergunta e minha resposta é SEMPRE: - A notícia ruim.
Por isso começo com Quinquilharias Nakano, porque eu desgostei demais. Que livro chato de ler! Se não fosse o encontro do clube de leitura e a vontade de dar uma chance ao final, eu acho que teria desistido.
O microcosmo da loja "Quinquilharias Nakano" tem um "q" de inocência boba que me irritava. A relação dos empregados com o Sr. Nakano, dono da loja, me pareceu estúpida. Ele é, afinal, o patrão, mas aparece o livro inteiro como um amigo, talvez. Não sei. Mas o fato é que não existia uma relaçao patrão-empregado ali, eles apenas "estavam" lá o tempo todo.
Há claramente uma dificuldade de comunicação entre os personagens e pouco se mostra sobre suas vidas fora do universo da loja. Quando falam sobre o que ocorre fora das quatro paredes e com pessoas que não participam daquele microcosmo, é justamente através dos diálogos entre os quatro personagens principais: Sr. Nakano, o proprietário, sua irmã Masayo, a protagonista Hitomi, funcionária da loja e Takeo, o outro empregado.
Existe uma tensão sexual que não passa. Seja entre o Sr. Nakano e sua amante, o namorado/parceiro sexual de Masayo, Hitomi e Takeo, ou fotografias de pessoas fazendo sexo. Há, inclusive, uma cena entre Hitomi e Masayo comendo torta de maçã cheia de metáforas e bastante interessante. No entanto, em todo o resto, essa tensão é sufocante e não desenrola. E quando desenrola, é incômoda, estranha. Hitomi e Takeo, o casal núcleo, são dois jovens que se sentem atraídos sexualmente um pelo outro, mas não compreendem isso. Ou talvez compreendem e tentam ignorar. Os diálogos são cheios de "- Ahn..." e frases inacabadas. Muitas vezes há um vácuo de silêncio e um constrangimento no ar. A sensação é que eles estavam todos presos, sufocados por um monte de quinquilharias e assim eu me senti em toda a leitura.
Hitomi, a protagonista, muitas vezes me lembrava aquelas personagens femininas bobas de anime, com brilhinhos nos olhos, bochechas rosadas e cabelo amarrado igual Chiquinha do Chaves. Enquanto seu colega de trabalho me lembrava aqueles personagens masculinos de anime, fechados, de poucas palavras, sempre com o semblante sério. Talvez fosse mea culpa, por carregar essa imagem esterotipada. Ou talvez fosse assim mesma a descrição. Não sei.
Em geral, não gostei dos personagens, da relação entre eles, tampouco dos diálogos. O que me agradou e me chamou a atenção foi a relação das pessoas com os objetos da loja. Essa parte da materialidade, dos objetos antigos, velhos, a oposição entre o analógico e o digital, pôsteres, objetos valiosos e outros que não valem nada, o quanto estes objetos dizem sobre as pessoas e a história do próprio Japão, colecionismo, leilão, etc... Isso é bem interessante de observar.
Miso Soup - Ryu Murakami
Agora a notícia boa. Publicado em 1997 no Japão e em 2005 no Brasil, o livro me surpreendeu em vários sentidos. Eu li a resenha no site da Gabi e vi de cara que houve um match entre eu e o livro e logo comprei.
Ele foi completamente o oposto da leitura anterior. Não há nada de inocente, nada de bonito. É um livro muito cru, de frases curtas, diretas. Há algumas cenas um tanto gore e até me lembrou um pouco o gênero Pulp e Tarantino. Nas duas primeiras partes do livro rola um mistério, uma tensão e, só na última e terceira parte, um pouco de suspiro.
Kenji, o protagonista, é um "guia de turismo sexual" e leva seus clientes às ruas e atrações de Tokyo que, em oposição ao que a palavra "turismo" nos remete, o Japão gostaria de esconder. O que é colocado em jogo, durante toda a narrativa, é justamente a oposição entre progresso e decadência. Apesar de ser uma das maiores economias do mundo, a sociedade japonesa do pós-segunda guerra é marcada por muitas contradições internas que, aos olhos dos estrangeiros, tornam-se estranhas e, portanto, escancaradas.
Ryu Murakami coloca a tensão entre o capitalismo ocidental e a cultura tradicional japonesa num espaço justamente onde não há meio termos: no sexo. Diria que, ainda mais, no sexo capitalista, como mercadoria, oferecido pelo Japão e consumido pelo estrangeiro (aqui representado pelos Estados Unidos). Por isso, as contradições ficam tão evidentes, desconfortáveis e sem explicações. Elas são jogadas. A começar pelo próprio jogo de palavras entre turismo e sexo. Não é um turismo que se mostra. Os turistas que procuram sexo não tiram fotos e exibem no Instagram ou fazem álbuns de viagem. Não há propagandas e campanhas de política nacional para atrair este tipo de turista. É um turismo sim, mas do submundo. Escondido. Disfarçado. Um turismo que faz-de-conta-que-não-existe.
A partir daqui eu queria falar um pouquinho sobre uma cena que se passa na segunda metade do livro, a partir da página 100 mais ou menos. Então, se tiver alguém lendo este texto e não quiser saber spoiler, pare por aqui.
Fiquei pensando muito no quanto a cena na qual Frank hipnotiza algumas de suas vítimas, depois as ataca de modo brutal e, inclusive, queima aos poucos o rosto de uma delas, não é uma metáfora da própria Segunda Guerra. As bombas incendiárias e as bombas atômicas, matando sistematicamente civis a fim de que? Uma causa nobre entre o bem e o mal? A fim de mostrar quem é a maior potência mundial e, portanto, detentora da moral?
Nem sabemos se Frank é o nome verdadeiro deste americano assassino. Ele pode ser qualquer norte-americano estadunidense. O quanto Frank hipnotizando e sabendo como cortar uma garganta sem esguichar muito sangue não é o próprio Robert McNamara analisando friamente a eficiência dos bombardeamentos aéreos na Segunda Guerra Mundial?
E também o espaço. A geografia onde ocorreu o massacre e quem foram as vítimas. No livro, o omiai pub é duplamente parte do submundo. Além de situar-se numa região periférica de Tokyo, era também um espaço menos procurado pelos consumidores da região. Era um estabelecimento "menor" que os demais, onde frequentavam prostitutas menos interessantes e consumidores menos exigentes. Por isso, com as portas fechadas, as vítimas demorariam a ser encontradas. Num contexto geopolítico, onde ficam o Japão e os demais países do leste asiático? Nossa cultura ocidental importa a superficialidade da cultura de entretenimento desses países, tecnologias, mas o que conhecemos e o quão relevante é o Japão para o mundo? Fico pensando na gravidade desta questão durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. O Japão perdeu a guerra e, pior, não situava-se na Europa. Na geopolítica eurocêntrica e ocidental, o Japão é periferia do mundo. Assim como o omiai pub palco da clímax da narrativa.
Com certeza Miso Soup foi um dos melhores livros que li este ano. Outra parte que me deixou a refletir foi a história de Frank e a lobotomia. Me lembrou vagamente "Um estranho no ninho". Ele é um sintoma da sociedade capitalista ocidental e seus problemas em lidar com a ordem. Onde chegou-se com a civilização ocidental e a ausência total de tradições? Em tirar pedaços de cérebros fora? Sobre isso, não me sinto preparada para discorrer, mas é interessante refletir um pouco.

















