terça-feira, 30 de novembro de 2021

Quando o livro é bom, mas os santos não batem

Antes de virar o mês, um rápido registro sobre a última leitura finalizada. Vai ser rápido porque não vou ficar aqui reclamando. Se for para falar muito, que seja para falar bem. 

A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin, foi um dos livros mais arrastados que eu li na vida. Eu não sei como não desisti. É um gênero totalmente fora da minha zona de conforto. Não costumo ler fantasia e muito menos ficção científica. Na virada de 2020-21, li a trilogia "O Problema dos Três Corpos", de Cixin Liu e, por mais que eu tenha gostado dos dois primeiros volumes, o terceiro não consegui terminar. Quando a narrativa fica abstrata demais, eu não consigo acompanhar.

Cheguei em "A mão esquerda da escuridão" por causa do clube do livro do Querido Clássico. Eu gosto de ler autores novos, me desafiar em leituras desconhecidas e, por isso, acho que não desisti do livro. Infelizmente, não consegui participar do encontro. Tivemos feriado de Dia de Ação de Graças aqui nos Estados Unidos, fomos viajar, tivemos corrida de rua no dia, mais fuso horário, um cansaço enorme e eu dormi a tarde inteira perdendo o encontro. 

De qualquer maneira, eu dei uma chance ao livro até a última página e não gostei.

Eu li algumas resenhas e achei que o livro merece a importância que ele tem. É bastante original o universo criado pela autora. Também reconheço o valor de uma mulher escrevendo ficção científica, um gênero tão dominado pelos autores homens. 

Mas, infelizmente, não deu. Eu demorei muito para compreender e engatar naquele universo. Ela já chega contando as coisas e a pessoa sem imaginação aqui sentiu falta de uma introdução. Fiquei perdida demais até meados do livro. Quando um dos protagonistas é capturado e levado para uma espécie de campo de concentração daquele planeta onde se passa a história, ficou mais interessante, mas ele logo é resgatado pelo outro protagonista e, pelas 100 páginas seguintes, eles atravessam um deserto de gelo. Tão difícil para eles quanto para mim, que achei a leitura desta parte tão desolada quanto o próprio cenário. Me deu sono, cansaço, preguiça e uma dificuldade imensa de continuar. Neste aspecto, muito realista a narrativa.

Única coisa que lamento foi não ter consigo participar do encontro, mas ler um livro e não gostar faz parte. Quanto mais a gente lê e se expõe, maiores as chances de encontrarmos algo com o qual não temos afinidade. 


sábado, 13 de novembro de 2021

Manual da Faxineira, de Lucia Berlin: seus contos são como um mergulho em alto mar

Tem uns livros que mexem com a gente e se tornam marcos de passagem. A gente é um antes e se torna outro depois que acabaram as páginas. Claro que são pouquíssimas as obras que conseguem ganhar essa estrelinha de reconhecimento. No meu caso, A Manual for Cleaning Woman de Lucia Berlin (1936-2004) ganhou. Não é só por causa do livro em si. Para ganhar esse status, a obra precisa ser também lida no momento certo. Há um ano, Lucia Berlin não teria me tocado tanto como agora. 


A Manual for Cleaning Woman foi traduzido e publicado no Brasil com o título "Manual da faxineira" pela Companhia das Letras, mas eu peguei o livro na NYPL e foi em inglês mesmo. Cheguei até ele porque no curso de crônica que fiz pela Escrevedeira, o professor discutiu as diferenças e semelhanças entre os gêneros conto e crônica e, entre outros exemplos, nos enviou o conto Melina

Quando comecei a ler Melina, foi como um mergulho em alto mar sem tanque de oxigênio. Conforme foram avançando os parágrafos, eu ia cada vez mais fundo. Eu estava tão envolvida que praticamente não conseguia piscar. Quando acabei, foi como se em apenas um segundo eu estivesse na superfície recuperando o fôlego. Não são todos, mas são quase todos os contos escolhidos para esta coletânea trazem essa experiência. No texto de introdução da coletânea, Lydia Davis se pergunta "por que não conseguimos parar de ler um conto de Lucia depois que começamos?". Ela traz algumas respostas técnicas, mas para mim, no meu caso, é porque eles estavam falando diretamente comigo. 

Lucia Berlin nasceu no Alasca numa família americana, morou em algumas cidades dos EUA e viveu com seus avós maternos no Texas enquanto seu pai combatia na Segunda Guerra Mundial. Quando retornou, a família mudou-se para o Chile, onde ela passou boa parte da infância e adolescência. Ela voltou para os EUA somente quando começou o college em Albuquerque, New Mexico. Berlin nasceu com um problema grave na coluna, ela não viveria muito nem poderia ter filhos, disseram os médicos. Mas acabou se casando três vezes, teve vários amantes e quatro filhos. Trabalhou como recepcionista em hospital, diarista, professora, e foi mãe e dona de casa. Enfrentou anos de alcoolismo e por muito tempo lutou contra sua dependência. 

É desse cenário, a sua própria vida, que Berlin tira as referências para escrever seus contos. Li por aí que ela escreve autoficção. Não vou entrar na questão técnica, mas adianto que para mim autobiografias e biografias já são um tipo de ficção. Por que dizer que a água é molhada? Acho que suas histórias são tão bem narradas e envolventes que o leitor fica procurando "verdades", mas como é impossível negar a ficcionalização diz que é "autoficção". Berlin não escreve seus contos dizendo que são autobiográficos tampouco se os fatos narrados aconteceram de verdade, ela diz que o que importa "é a estória"*.  

Manual da Faxineira tem 43 contos que têm como cenário os lugares onde Berlin viveu e as pessoas com quem conviveu. Eu não li tudo de uma vez. Os contos são tão envolventes que no meio fiz uma pausa. Li outros dois livros neste interim e só depois retomei. 

Alguns contos são sobre coisas aparentemente banais, como os que se passam nas lavanderias coletivas: é como se nós ficássemos um dia como turista (ou antropólogo) em lavanderias norte-americanas com Berlin vendo como funciona essa lavação de roupa que máquinas, secadoras e espaços são divididos com pessoas tão diferentes. Justamente neste momento em que me mudei para os EUA e estou tendo que aprender a usar estas máquinas e dividir a lavanderia com desconhecidos. Um "lugar" que fica exatamente na divisão entre o  público e privado. Pessoas que você nunca viu e nunca verá novamente vê as roupas que você usa em momentos de intimidade e você vê as delas. Pessoas que dividem com você uma atividade doméstica fora de casa. 

Os contos de sua adolescência no Chile me tocaram de forma profunda. Principalmente porque muito recentemente eu vi os Andes, os chilenos e a Santiago sobre a qual ela fala. Em um conto, quando é mencionada a Embaixada dos EUA, eu pude com muita clareza visualizar o prédio e lembrar do dia que eu estive lá. Seu conto era tão real. Tão palpável. Era como se as palavras pudessem se materializar na minha frente.

Em Good and Bad, Berlin narra em primeira pessoa (acho que todos são em primeira pessoa, se não me engano) a relação de uma aluna e sua professora freira comunista. Foi uma das coisas mais incríveis que eu li em toda a minha vida e eu não estou exagerando aqui. Good and Bad  é sobre a adolescente Lucia, americana, estudando e vivendo no Chile, seu pai é funcionário do governo dos EUA, e uma de suas professoras tenta convencê-la de que aquele seu mundo rico e privilegiado é opressivo. Por isso, passa a levá-la, todo fim de semana, em orfanatos, instituições de caridade, recitais de poemas e reuniões de agricultores e classe operária chilena para ela ouvir e conhecer "os oprimidos". 

Em nenhum momento Lucia fala de bem ou mal explicitamente, ela não discute moralidade em tons abertos, ela apenas vai narrando os acontecimentos e escancarando como tentar definir o que é bom e o que é mal na sociedade e na política é impossível e sufocante. Não há dualidade. Na verdade, só há lamento. Ela viveu no Chile nos anos pré-golpe e neste conto ela está descrevendo, do ponto de vista da menina estrangeira, justamente este momento histórico.

Mas Good and Bad é uma exceção, pois é o único que traz essa abordagem política de forma tão aberta. Os outros contos trazem as dores da existência e do constante sentimento de estar fora de lugar no cenário mais cotidiano e banal.  A narradora dos contos está sempre deslocada, não importa onde e com quem ela esteja. 

Os contos que se passam no hospital são tristes. Trazem temas como infanticídio, alcoolismo, abuso infantil, aborto e a finitude da vida. São tratados com frases curtas, rápidas, e por isso parece que o mergulho é de uma vez só. Sua forma de narrar coloca lado a lado a normalidade e o choque que envolvem esses temas. 

Em Bluebonnets, a narradora é uma professora universitária de meia idade, que escreve poemas e faz traduções espanhol-inglês. Ela vai se encontrar com outro professor com quem tem se comunicado por cartas e cujo livro de crítica literária ela traduziu para o espanhol. Ele é misterioso, solitário, cuida com zelo de sua fazenda e, em sua mesa de trabalho, centenas de fichas de estudo. Ela é poetisa, solta, leve. Eles se envolvem de maneira fluída, natural a princípio, mas quando ela diz não entender o que ele diz, a relação fica tensa e impossível de ser quebrada. Ela diz que escreve, mas não entende a teoria sobre o escrever e que aquilo não importa para ela. Ele não compreende, afinal, ela traduziu os livros dele! Ele fica nervoso, se afastam e depois retomam a relação. É uma metáfora linda e intensa sobre a relação literatura e teoria. São conectadas, mas imposssíveis de viverem juntos.

Mijito é sobre uma moça jovem mexicana que, seguindo o amor da sua vida, entra nos EUA. Ele logo é preso por envolvimento com tráfico de drogas e ela fica sozinha. Ela mal fala inglês, não tem família e descobre estar grávida. É acolhida de forma temporária por conhecidos do marido, que a tratam mal, abusam de seu trabalho para serviços doméstico e fisicamente de seu corpo. 

Seu bebê nasce e chora. Chora muito. Ela não tem ninguém. Tudo acontece de forma que o labirinto que ela esteja vivendo fique cada vez mais complicado e impossível de achar a saída. Ninguém ajuda, explica, acolhe. O parágrafo no qual ela começa a enumerar o vocabulário em inglês que ela conseguiu apreender até ali é de cortar o coração. Ela está tão perdida e desamparada que o conto culmina com um dos finais mais tristes de toda a coletânea. 

Em  So Long, como um simples "Hello" pelo telefone pode fazer ela mergulhar na lembrança e na saudade de quem ela é ao falar inglês, depois de tanto tempo morando no México falando apenas espanhol. "Of course I have a self here, and a new family, new cats, new jokes. But I keep trying to remember who I was in English." 

Unmanageable é desesperador. Conto curto, poucas páginas. É sobre a agonia de uma mulher alcoolatra que acorda sufocada na madrugada e precisa de uma bebida, a todo custo, e ainda estar em casa a tempo de preparar o café da manhã para os filhos. 

Apesar de tantos cenários diferentes, o sentimento de deslocamento e solidão estão presentes em todos os contos. Eu sempre falo aqui que leitura, para mim, é experiência e que as resenhas deste blog não são uma análise "inteligente" dos livros que leio, mas sim um registro da experiência que tive com cada leitura. Pois bem, A Manual for Cleaning Woman foi uma das mais intensas dos últimos tempos. Me deixou feliz, triste, agoniada e pensativa. Recomendo para todos que estejam procurando uma narrativa envolvente que nos faz esquecer de comer e dormir para não abandonar a leitura. 


Obs: sobre o título desta postagem, em um dos contos a narradora passa um tempo com mergulhadores, num povoado isolado do México.  E é um conto tão mágico e envolvente que parece que podemos sentir a pele molhada e o cheiro do mar enquanto mergulhamos com ela. 

*Na introdução da coletânea Evening in Paradise, o filho de Lucia Berlin, Mark Berlin, diz: "Our family stories and memories have been slowly reshaped, embellished, and edited to the extent that I'm not sure what really happened all the time. Lucia Said this didn't matter: they story is the thing." 

domingo, 31 de outubro de 2021

A leitura de Drácula, Bram Stoker, e meu primeiro Halloween em Nova York

Havia um tempo que não lia nenhuma obra do século XIX. Por mais que meu preferido seja o século XX, eu gosto muito de me voltar aos clássicos mais antigos vez ou outra. Drácula foi a oportunidade de corrigir esse erro, ler algo temático com o Halloween e voltar a ler com os grupos de leitura. Por causa do ano cheio de mudanças, não consegui acompanhar as leituras coletivas do Querido Clássico em 2021. Mas agora que estou já bem instalada e minha vida voltou ao normal, pude corrigir também este outro erro. 

Drácula não foi o primeiro livro que peguei na New York Public Library, mas foi o primeiro livro que terminei e será devolvido. Isso traz um carinho especial para a leitura, porque tirar a carteirinha da biblioteca teve um significado especial para mim: o sentimento de pertencimento, de casa. Depois de tanto tempo "em transição", vivendo no Brasil, Chile, Brasil de novo e esperando as fronteiras abrirem, tirar a carteirinha da NYPL significou "agora aqui é meu endereço por um bom tempo e essa é a prova!". É também mais um jeito legal de interagir com a cidade. Afinal, a NYPL é muito "Os caçadores de fantasmas". 



Apesar da referência do filme, eu não preciso ir até o prédio com a fachada e a sala de leitura famosas. Existem várias unidades menores pela cidade e uma muito perto da minha casa. É lá onde tenho indo retirar os livros que peço para reservar pelo site. É menos glamuroso, mas facilita muito a vida! 

Agora voltando ao Drácula

É uma ótima experiência ler do começo ao fim uma obra onde estão todas as referências que vemos em tantos outros lugares. O "arsenal vampiresco" que eu tinha era picotado: pedacinhos que a gente vê lá ou aqui. Então quando eu li a origem de tudo isso, junto e de uma vez só, algumas coisas se iluminaram e também tive surpresas. 

Por exemplo, o fato de que o Drácula não tem voz no livro. Em nenhum momento. Tudo o que sabemos dele é pelo relato de outras pessoas. Poderíamos dizer, talvez, que o Drácula nem existiu e tudo foi um delírio coletivo daquelas pessoas ali envolvidas. 

Outra surpresa foi a estrutura narrativa. Eu não esperava que ela fosse formada por cartas, trechos de diários e notícias recortadas de jornal. A primeira vez que li algo assim foi "O médico e o monstro" e eu adorei. É preciso ter paciência com esse tipo de leitura, mas é legal porque vamos montando o quebra-cabeça da história. Especialmente em Drácula, a gente vai se deixando seduzir pelos múltiplos narradores. Ainda mais por se tratar de cartas e diários, nós, leitores ingênuos, gostamos de acreditar no que dizem sem desconfiança. 

E assim Bram Stoker nos guia pela leitura de uma história na qual um grupo de quatro homens vão tentar salvar duas moças e a própria Inglaterra das garras do Conde Drácula. Este grupo de cinco homens  é formado por um médico inglês John Seward, o Lord Arthur Holmwood, o procurador inglês John Harker, o americano rico do Texas Quincey Morris e o médico holandês Abraham Van Helsing. As "donzelas" são Lucy Westenra e Mina Murray, que depois se casa com Jonathan Harker e vira Mina Harker. São alguns destes personagens que registram seus dias em diários e trocam cartas que nos contam quem é Conde Drácula e sua história. Sob uma perspectiva do final do século XIX, é praticamente uma história de cavaleiros lutando contra o mal e salvando donzelas inocentes. 

Ano passado eu li "Imunidade", de Eula Biss, publicado pela Editora Todavia, e a autora fala sobre Drácula como uma metáfora para o surgimento de doenças infecciosas, principalmente a sífilis, que é transmitda por sexo/sangue e cuja principal porta de entrada é pelos portos e navios. Exatamente como o Conde Drácula chega na Inglaterra, "contamina" Lucy que, depois, contamina crianças. É a metáfora do Outro, nesse caso o estrangeiro, trazendo doenças e contaminando "a pureza" daqueles que são donos do lugar. Afinal, Lucy, a "luz", é uma moça sensível, jovem e angelical. Uma vez "contaminada" e transformada, ela ataca outros seres mais inocentes: as crianças. 

A narrativa de Bran Stoker é cheia de tensão. Principalmente os diários de Jonathan no Castelo do Conde e, depois, a chegada do Drácula na Inglaterra. Estas foram minhas partes favoritas. Confesso que, do meio para o final, fiquei um pouco cansada. Achei a leitura um pouquinha arrastada, mas minha edição tinha mais de 600 páginas e, realmente, não dá para ter o mesmo ritmo 100% do tempo. 

Outra leitura possível é a da sexualidade (que também é um meio de "contaminação" de doenças e se liga com o que a Eula Biss diz no seu livro, Imunidade). Apesar de "monstruoso" os momentos nos quais o Conde ataca Lucy e Mina e as noivas do Drácula se aproximam de Jonathan, existe sim uma tensão sexual nas entrelinhas. Este ponto, sutil no livro, é exacerbado no filme Dracula de Bram Stoker, de 1992 e dirigido por Francis Ford Coppola. Esta adaptação também conta com algo que não existe no livro: a voz do próprio Drácula. É como se o filme desse a chance para o Conde contar sua versão da história. 

Eu acabei a leitura ontem, dia 30 de outubro, pela tarde. Assisti o filme que mencionei acima a noite e hoje, dia 31, dia de Halloween, foi a videochamada do clube de leitura do Querido Clássico. Foi muito bom! Eu estava com saudades de ouvir as impressões e pontos de vistas de outras pessoas que leram a mesma coisa, mas que tem opiniões diferentes. E isso é muito enriquecedor. A noite, eu e o Allan fomos até a rua 69th, aqui em Manhattan, para ver as decorações de Halloween e as crianças fantasiadas. 

Em geral, foi uma experiência ótima. Muitas coisas se somaram nessa leitura: o primeiro livro que acabei de ler da NYPL, a temática do Halloween e a volta ao Clube de Leitura Querido Clássicos. 







Sobre o médico e o monstro, escrevi sobre ele aqui: Dr. Jekyll e Mr. Hyde - a ambiguidade do público e do privado no homem moderno
O Clube de Leitura do Querido Clássico: Clube do Livro Querido Clássico

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Mês 3 (três, ainda) em Nova York – Vivendo a temporada assustadora

Nos EUA, o mês de outubro é spooky season, a temporada assustadora. Passei 31 anos da minha vida menosprezando o Halloween. Achando bobo. Cheguei aqui, comecei a ver a decoração, os doces, as fantasias, as abóboras, a programação de filmes na TV... E, pronto! Me animei. O problema é que esse clima assustador chegou longe de mais e mesmo sem fantasmas, monstros e bruxas, meu mês está sendo horripilante. 

Descobri que meu computador é um conservador. Há 15 dias, programei a atualização do sistema e ele se revoltou. Até então eu não sabia das suas preferências antiquadas. Confesso que, de todos meus eletrodomésticos e eletrônicos, não esperava que o notebook fosse o mais reacionário. Infelizmente, por ter se rebelado, não ligou mais e já está há alguns dias na assistência técnica. 

Como consequencia, tenho vivido na pele o próprio horror do Halloween. Sou um Frankenstein com uma parte faltando. Sem meu computador, meu funcionamento mecânico e intelectual está debilitado. Como escrever, estudar, trabalhar, pesquisar? O celular ajuda, mas é limitado. Não é nada prático deixar dezenas de abas abertas na micro tela ou escrever longos e-mails e textos no teclado touch.   

Nessa história de terror, o marido tornou-se o herói que empunha a espada e desafia as trevas. Me ofereceu seu computador, criou um login para mim e, na medida do possível, ajeitou algumas configurações ao meu gosto. (Quase) tudo perfeito. 

- Amor, posso usar o computador?

- Desculpa, estou trabalhando. 

- E hoje?

- Preciso levá-lo comigo ao trabalho. 

- Talvez agora?

- É horário do almoço. Vamos comer juntos!

- Acho que agora dá. 

- Querida, são 2 da manhã. Vem dormir. 

- Hoje vou ter ele todinho pra mim!

- Mas é fim de semana, vamos passear! Estamos em Nova York!

Apesar das boas intenções tudo piorou, pois um casal viver com horários incompatíveis é tão sombrio quanto mansões mal-assombradas, seres sobrenaturais e cemitérios iluminados pela lua cheia.  O tempo de escrita é egoísta. Demanda exclusividade. O pensamento fica lá matutando, pensando mil formas e pontos de vistas, fazendo listas de assuntos e vocabulários. E aí, quando as palavras querem se materializar, não há o que fazer. É preciso sentar e escrever, porque se perder o momento, já era. Não dá para dividir computador.

Têm sido dias horripilantes estes que estou vivendo. Seria melhor lidar com poltergeists e bruxas do que a ausência de um eletrônico que já virou parte de mim. Há quem fale que isso é dependência, mas não é não. Isto é evolução: antes formado por partes humanas, hoje os Frankensteins são formados por partes biônicas. Deixamos de ser monstros para sermos ciborgues. 

A verdade é que meu cérebro só funciona bem com seus gadgets (mouse, teclado e tela), apps avaliados com 5 estrelas e configuração personalizada. O histórico do google, as senhas salvas automaticamente e a barra de favoritos são tão individualizados que já são partes orgânicas de mim tanto quanto a fome, a sede e o sono.  

Daqui a pouco é noite do dia 31, a mais assustadora do ano. Sob a luz da lua cheia e o som dos lobos uivando, temo o pior: a transição completa do eletrônico para o analógico. E aí, socorro!, voltarei para as canetas e caderninhos de anotação! 



- Sim, amor, já estou deslogando. Pode vir.  



                                                Photo by Beth Teutschmann on Unsplash

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Hoje uma crônica temática! E assim concluí as quatro crônicas do curso. Quem quiser ver as outras, segue os links: 

Mês 2 (dois) em Nova York

Mês 2,5 (dois e meio) em Nova York: brazilian com b minúsculo

Mês 3 (três) em Nova York – a vitória dos ratos


terça-feira, 19 de outubro de 2021

Mês 3 (três) em Nova York – a vitória dos ratos

Desta vez, não vou esperar a aula do curso para postar a crônica da semana. Então aí vai. Só preciso fazer uma ERRATA antes. Na crônica Mês 2 (dois) em Nova York onde eu escrevi "dióxido de carbono", leia-se "monóxido de carbono". O importante é que a ideia ficou clara! rs Perdoem esta historiadora que viu pela última vez um pouco de química anos atrás no vestibular. 

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Esses dias, num sopro de inspiração, peguei um livro e fui ao Central Park. Banco na sombra, outono, raios de sol, brisa agradável. Me senti numa cena de filme ou num desses seriados de comédia romântica com risadas gravadas ao fundo. O momento parecia tão mágico que ouvi um barulhinho de folhas secas se movimentando e logo pensei ser um esquilo. Estava com o celular na mão para tirar foto e  mandar para o grupo da família quando vi que era um rato. 

Além de falar inglês, o rato nova-iorquino é bem nutrido. Não se compara aos ratos que eventualmente vi em São Paulo. Na Big Apple, o rato está mais para uma capivara bebê do que para um roedor. Me pergunto como uma das maiores e mais cobiçadas cidades do mundo não conseguiu controlar ainda sua população de roedores. Cheguei na teoria de que, na verdade, já viraram moradores permanentes e são eles que permitem nós vivermos aqui. É só prestar atenção nas sutilezas. Por exemplo, todo mundo já viu, ou pelo menos já ouviu falar no filme Stuart Little, cujo roteiro é de um ratinho órfão adotado, amado e cuidado por uma família de humanos.  

No contexto mundial, a relevância do rato nova-iorquino só é meaçada pelos ratos parisienses que, tão famosos quanto, também têm um filme só para eles. Mas na versão francesa, o protagonista-roedor quer ser um chef. Numa inversão de valores, não só o rato passa a alimentar o humano, como também faz de tudo para agradar seu paladar. É o ápice da domesticação. Reflito qual dos filmes é pior: aquele no qual o rato é amado e cuidado como se fosse uma criança ou aquele no qual o rato, escondido sob o chapéu de cozinheiro, manipula seu amigo humano desprovido de habilidades motoras e dom culinário. 

Os egípcios cultuavam os gatos e os hindus vêem sacralidade na vaca. Com certeza, em Nova York, o animal sagrado é o rato. Sua onipresença foi normalizada e o nova-iorquino, submisso, docilmente vai cedendo mais e mais espaço. Eu mesma, no dia do parque, logo me levantei e o deixei sozinho contemplando o dia de outono. Não quis incomodá-lo e saí pedindo desculpas. Outro dia, na corrida matinal, um rato repousava sem vida na pista de exercício. Presenciei um quase acidente entre um ciclista e um corredor que, ao desviarem do corpinho sagrado, quase se chocaram. Antes um acidente entre dois esportistas do que alguém encostar e ferir a integridade do pobre animal sem vida.

Em toda sua existência, o homem procurou entender e controlar a natureza para sua própria sobrevivência e desenvolvimento social. Somente com o avanço da ciência pudemos compreender fenômenos naturais que antes eram explicados pela imaginação humana. Leviatãs, monstros e seres mitológicos eram representados como inimigos que deveriam ser combatidos e enfrentados. Século XXI e, apesar de tanto progresso, os homens continuam sem entender a natureza. Destróem florestas, poluem mares e ecossistemas inteiros enquanto na cidade-capital do mundo quem reina são os ratos. Animais estes que, longe de inimigos, são representados como inocentes roedores órfãos e aspirantes a chef de cozinha. 

Com tanta personalização, temo pelo dia que verei ratos sobre as duas patas traseiras, tal como os porcos de George Orwell, pedindo para verificar a validade do meu visto. 

A obsessão do nova-iorquino com ratos é tamanha que no último domingo fomos de bicicleta até uma feira de antiguidades e artesanato e encontramos estes aventais a venda. 20 dólares cada. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Mês 2,5 (dois e meio) em Nova York: brazilian com b minúsculo

Segue minha segunda tentativa de escrever crônica. Espero que vocês gostem. Para me dar uma moral, se vocês gostarem, me dêem um joinha nos comentários. 

Meu marido uma vez me disse uma coisa muito verdadeira: Bolsonaro consegue fazer as pessoas ficarem vidradas por ele. Seja amando-o ou odiando-o. As pessoas conseguem só pensar, falar, seguir cegamente ou vociferar contra o Bolsonaro. O tempo todo, em toda mídia, plataforma ou conversa de bar. Aconteceu isso com meu texto durante a aula. Apesar da ironia de tratar Bolsonaro com a descrição de "ilustríssimo", a crítica que recebi é que passei pano para o nosso agradável presidente. O resto da crônica estava até ficando esquecido, quando foi salvo de afogamento no último segundo e, brevemente, elogiado pelo jogo de palavras.

Bom... Nesses momentos de radicalização que estamos vivendo, a ironia está em perigo. Então, afins de esclarecimento: não, não sou bolsonarista. Não estou passando pano para ele. 


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Nada para afirmar nossa identidade nacional do que estar fora do país. É só colocar o pezinho na gringa que toda a brasilidade floresce nas veias. Já começa no aeroporto enquanto esperamos o embarque. Aquele pãozinho de queijo superfaturado de qualidade duvidosa, que é maravilhoso porque “lá não vai ter pão de queijo”.  Esses dias o presidente do Brasil pisou em terras nova-iorquinas e foi noticiado que, por não ter se vacinado, teve que almoçar do lado de fora de um famoso restaurante de rodízio de carne. Vi gente incrédula nas redes sociais: além de não estar vacinado, mal tinha chegado nos EUA e o ilustríssimo foi comer em um restaurante brasileiro.

Mas só quem está longe sabe a carência que as referências de casa dão na gente. Há uns 15 dias, fui com meu marido numa exposição da grife Christian Dior. Lindo, maravilhoso, mas tudo o que procurávamos nas capas de revistas penduradas e nos vídeos de desfiles passados era a nossa querida Gisele.

Em São Paulo, por motivos de dieta, a farofa era alimento proibido em casa. Preferia seguir o cardápio da nutricionista e comer avocado toast e overnight oats com whey. Agora, estou até sonhando com uma farinha de mandioca torradinha com bastante manteiga de garrafa e um cuscuz de tapioca molhadinho no leite de coco.

Quando me mudei, bastava ouvir uma pessoa falando português na rua, ver uma bandeirinha verde e amarela em qualquer lugar, ou até um Brasil escrito com Z, que já vinha o  sentimento de “estou em casa” no coração. Até notar na frente de todo salão de beleza, a palavra brazilian. Nada me incomoda mais nessa terra e idioma do que brazilian com letra minúscula significar depilação íntima completa.

No português brasileiro somos muito mais amigáveis. Americano pode ser tanto o jogo de mesa que substitui a toalha, quanto o copo, no qual tomamos café na bancada da padaria. Outras nacionalidades também gozam de prestígio. Na culinária temos a torta holandesa, pão australiano, pão francês, palha italiana, iogurte e salada grega. Na academia, os puxadores de pesos classificam o agachamento búlgaro e a puxada romana exercícios importantíssimos. Nos salões de beleza, depilação egípcia é aquela feita com linha e francesinha é a delicada pintura de base com um detalhe branco na ponta da unha. Canivete suiço, corredor polonês e soco inglês impõem medo e respeito. Talvez só espanhola tenha um significado tire-as-crianças-da-sala.

No inglês, sortudo mesmo é o francês, que na culinária podem ser as amadas french fries ou o reconfortante french toast e, na sedução, french kiss é aquele beijo dado com língua. Ou seja, o beijo que importa. Em polissemia bilíngue, talvez o ganhador seja o Peru, tanto o animal quanto o país, cuja tradução é Turkey, o mesmo animal, mas outro país.

Mesmo diante de um universo de possibilidades de letras e palavras, brazilian é a extração com cera quente de pêlos pubianos na frente, lados, atrás e no ânus. Na descrição oferecida pelo profissional é “toda a linha do biquíni, mais interior das coxas e a faixa do bumbum. Obs: não inclui as nádegas”.

Queria que brazilian fosse qualquer coisa que trouxesse uma alegria inocente, um sabor doce, uma técnica ou objeto de respeito. Mas, infelizmente, é o púbis depilado do carnaval e o presidente que não toma vacina. O jeito é continuar fazendo brigadeiro e pão de queijo para os gringos experimentarem na esperança, de que um dia, a gente possa revolucionar essa língua pelo estômago, porque por outros meios já é causa perdida.

sábado, 9 de outubro de 2021

A leveza e alegria de "Nu, de Botas", Antonio Prata

Vou fazer apenas um comentário breve sobre esta minha última leitura. Nu, de botas foi um presente. Todos nós devemos nos autopresentear de vez em quando, nos dar aquele mimo. Pode ser um horário no salão de beleza, uma massagem, um sapato novo, uma ida ao cinema... Mas, recomendo fortemente a leitura de Nu, de Botas como um agrado à alma. 

Antonio Prata nos oferece uma leitura leve, engraçadíssima e cheia de afeto. As crônicas são memórias do autor quando criança, narrada com a inocência infantil de quem está descobrindo o mundo e acha algumas coisas do mundo adulto um tanto quanto "bizarras". 

Para quem nasceu nos anos 70 e 80, o livro é um grande álbum de recordação. Eu nasci em 1990 e, por mais que algumas coisas já não eram do meu mundo, como o programa do Bozo, eu pude relembrar minha ânsia e desespero discando o telefone com o discador redondo e pesado para os outros programas de auditório infantis da minha época. 

As últimas gerações da infância sem tablet, computador, videogame, completamente sem internet, recheada apenas de brincadeiras na rua e televisão. As crônicas de Nu, de Botas são uma homenagem a esta infância analógica que chegou ao fim. 

Mas mesmo que isso não seja um assunto de interesse, a leitura vale a pena apenas pela risada. Há um texto em particular, sobre a vez que Antonio e suas irmãs estão na estrada e, de dentro do carro, flagram uma cena de sexo oral em outro carro parado no acostamento. A algazarra é imensa. Como ele aponta, aquilo que viram desafiava toda a ordem conhecida. Era como ver um disco voador, um fantasma ou um leão em plena avenida central. O desenrolar dessa história é uma tragédia cômica até o fim. Eu estava lendo essa crônica de manhã, enquanto o Allan ainda estava dormindo, e o esforço que fiz para não gargalhar alto e acordá-lo foi sobrehumano. 

Enfim... Neste blog são tantos os livros melancólicos. Falar um pouco aqui sobre a leveza e bom humor de Nu, de Botas me fez feliz. Como foi minha experiência de leitura com esta obra: divertida e alegre.


Há uma outra crônica na qual o autor fala das artimanhas para não sair da cama pela manhã e ir para a escola. Aquela cama gostosa, o "casulo de cobertas", a "perfeição quase uterina". Depois de muito calcular, ele diz para a mãe "Ai, to me sentindo mal...". A narraçao de toda essa manha teatral segue um caminho que absolutamente todos nós nos identificamos, mas eu pude ver ali o Allan, meu marido, e lembrei imediatamente desta foto que um dia sua mãe lhe enviou por WhatsApp. Era como se esta fosse a imagem da crônica, como se Antonio Prata estivesse falando exatamente desse dia da infância do Allan.
 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Mês 2 (dois) em Nova York

Neste último ano venho escrevendo sobre meu processo de mudança do Brasil para os Estados Unidos. Diante de tanta coisa nova e desse choque de realidade, pensei em me aventurar um pouco na escrita. Por isso, entrei para um curso de crônicas e a ideia é escrever um pouco - num estilo cômico porque "rir é o melhor remédio", as coisas que tenho observado e vivido na Big Apple. Então vou expandir um pouco, pelo menos por enquanto, o uso deste caderno/ blog e, além de um diário de leitura, vou publicar também essas tentativas de crônicas.

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Desde que me mudei para Nova York, nunca fui tão esperançosa. Tenho vivido no limite o ditado “a esperança é a última que morre”. Só que toda vez, no fim, eu só insisti no erro. Quem nunca? A gente até pode adiantar o problema e aquela desconfiança escondidinha lá no fundo da mente diz que vai dar merda, mas, como a esperança é a última que morre, a gente vai lá e faz.

Primeiro foi a roupa na secadora. Quantas vezes a gente já não viu em filme e seriado norte-americano o coitado que colocou a roupa na secadora e ela saiu encolhida? No Brasil não tinha isso. Secadora, em terras tropicais, é luxo luxuosíssimo. Do varal, a roupa saía sempre perfeita. Às vezes, era o uniforme escolar que passava a noite atrás da geladeira quando fazia muito frio e a gente precisava dele para a manhã a seguinte, mas isso nunca foi problema. Agora aqui em Nova York, eu não tenho varal, tenho secadora. Fiquei mais chique (!), pensei. Lavei, saquei, dobrei elas ainda quentinhas, dei aquela olhada atenta, espremendo os olhos e... Perfeito! Até o marido vestir seu jeans escuro e ver suas canelinhas de fora no espelho.

Depois aconteceu o alarme de monóxido de carbono. Nada mais nobre do que um sensor que dispara para evitar incêndio, mas ainda não sei como conciliar esse recurso que evita tragédias com a minha carninha grelhada. Na primeira vez, junto com o alarme, disparou meu coração. Como eu iria saber? Apartamento antigo, não tem exaustor e a janela aberta não foi suficiente. Na minha cozinha brasileira, também não tinha exaustor. Tinha fumaça? Sim, mas, de novo, isso nunca foi um problema. Na segunda vez, fritei o bife com um ventilador apontando para a panela. Como uma artista de malabares, a mão direita segurava o pegador que virava a carne e a mão esquerda segurava o ventilador. Na terceira vez, bateu uma preguiça e fui confiante. Dispensei o ventilador. Pois é, o alarme disparou. Agora estou considerando entrar para o movimento Segunda Sem Carne antes que os bombeiros batam aqui na minha porta.

Também teve a vez da pia da cozinha. Morei em algumas casas alugadas no Brasil e fosse a pia de inox ou de pedra, elas tinham uma borda que impedia que a água caísse no chão. Mas aqui em Nova York, isso não existe. A pia é reta. Nas primeiras vezes, me convenci que “ia dar nada”, mas lavar a louça se tornou uma inundação constante da cozinha. Descobri nas lojas um paninho de pia profissionalizado: ele tem o formato de um mini tapete e promete absorver toda a água da louça que escorre. Inteligente, se ele aguentasse o tranco e não vazasse depois da terceira panela.

Mas complicado mesmo tem sido o tempo de locomoção. Em São Paulo, eu já dominava as ruas e trajetos melhor que a moça do Waze. Sabia qual seria o melhor caminho – bairro ou avenida?, horário, dia da semana e meio de transporte para chegar a qualquer ponto. Ainda tinha a pachorra de olhar no Google Maps e pensar “ai ai... deixa eu te ensinar aqui que eu sei outro caminho melhor”. Agora aqui nas ruas nova iorquinas, não importa a hora que eu saia ou o quanto eu fique torcendo para que não haja problemas, alguma coisa vai acontecer. O metrô vai demorar, o taxi não vai passar, o prédio do elevador vai estar congestionado, ou simplesmente nada acontece e eu ainda estou atrasada sem entender por quê! É só olhando para o relógio e percebendo que “É. Não vai dar tempo mesmo. Vou chegar atrasada e paciência!” que a esperança, que é a última que morre, morre de vez. E chego lá com cara de paisagem, diva, me fingindo de completa desentendida. 



Dia 1 em Nova York. Times Square. Julho de 2021. 

sábado, 11 de setembro de 2021

Memórias, Patti Smith, Just Kids, Nova York e o 11 de Setembro - reflexões jogadas que dizem tudo e ao mesmo tempo nada

Na Broadway, altura 116, acontece às quintas e domingos uma feira de produtores. Tínhamos ido comprar uns leguminhos para o almoço e vimos uma barraca vendendo second-hand books. Na hora, os olhos do Allan vibraram. Eu sou um pouco resistente à ideia de comprar livros físicos. Nossa vida de mudanças e a situação intermediária de estar neste apartamento por no máximo dois anos me desanima a comprar algo que terá um peso daqui um tempo. Mas o Allan sempre me lembra que precisamos - também - viver o momento e ele se animou em marcar este início de nossa vida em Nova York com novos livros, comprados na Farmer's Market de Columbia. 

Havia uma boa seleção de titulos e quando vi Just Kids, Patti Smith, não pensei duas vezes. Que melhor leitura para marcar minha recente mudança para Nova York do que as memórias da poeta e cantora que começou sua carreira artística aqui - em Nova York? 



Memórias é um gênero interessante porque ele permite uma flexibilidade que outros gêneros englobados pelo guarda-chuva "escrita de si" não tem. Ao contrário de (auto)biografias, memórias tem um compromisso menor com a "verdade", ou com a "história". É um gênero mais flexível que permite ao narrador recortar o período e o tema que quiser de sua vida e contar, assumidamente, que aquele é seu ponto de vista e é dessa maneira que ele se lembra. 

É assim que Patti Smith nos conta sobre seus anos vivendo em Nova York e o início da sua carreira artística. Corajosamente, ela sai da casa dos pais com o mínimo de recursos possíveis e vai para a Big Apple. Passa fome, dorme nos parques, mas aos poucos vai conseguindo se instalar, arranja empregos que permite o mínimo de sustento e encontra Robert Maplethorpe. 

Just Kids é sobre Patti e Robert em Nova York. Não é sobre si que ela escreve, é sobre eles na cidade onde se conheceram e viveram. Depois de brevemente falar sobre sua infância, o livro começa com o encontro dos dois e termina quando Patti se casa, muda para Detroit e Robert, que permanece em Nova York, morre. Por isso, por mais flexível que o gênero memórias possa ser, é limitante pensar que Just Kids é só isso. É também uma homenagem a Robert. 




Uma homenagem póstuma belíssima. Patti fala sobre Robert com carinho e uma humanidade gigantesca, sem cair em pedantismo. Temas como sexualidade, drogas, BDSM e arte são tocados com naturalidade. Sem julgamentos e sem juízos de valores. Patti nos fala de fome e prostituição com muita leveza e, assim, viramos as páginas, uma atrás da outra, como se estivéssemos andando pelos blocks de Nova York... Um atrás do outro, vendo o tempo passar e as mudanças acontecerem com muita tranquilidade. 

A Nova York de 1970 de Patti é incrível. Eu adorei como ela coloca a cidade quase como um outro personagem. A gente até poderia lamentar as mudanças de lá para cá, mas ela não coloca estes lugares de forma nostálgica. Patti, em nenhum momento, narra de forma idealizada sua juventude com Robert. Ela simplesmente narra. De forma poética. Simples. E essa simplicidade não dá espaço para nostalgia, tampouco idealização. É apenas homenagem e poesia. 

Eu queria ter ido visitar alguns dos locais que ela menciona no livro. Muitos foram transformados em grandes lojas de rede ou em prédios espelhados, mas mesmo assim eu queria ir. Não foi possível, porque estamos aqui em casa nos recuperando de Covid e decidimos não fazer passeios muitos grandes. Mas, durante a atividade física pela manhã, fiquei refletindo um pouco sobre o que significa estar fisicamente em Nova York neste 11 de Setembro e ter lido este último livro. 

Como pode tanta coisa acontecer ao mesmo tempo numa cidade? Como pode tantas linhas temporais num mesmo lugar? Patti chega em Nova York em 1967, se instala no Brooklyn, depois muda-se para Manhattan, onde vive até 1979. As Torres Gêmeas foram inauguradas em 1973, o que significa que durante sua construção e seus primeiros anos de vida, Patti e Robert estavam andando ali pertinho, por Greenwich Village. Em 2001, as Torres Gêmeas são atacadas. Eu era criança e, lá da periferia do ABC Paulista, eu entendi nada do que estava acontecendo e passando nos jornais. Fui entender apenas em 2018, quando vim para Nova York pela primeira e visitei o 9/11 Memorial. 

Só andando ali nas ruas do Financial District e vendo a profundidade e extensão de onde estavam os prédios e a movimentação das pessoas, deu para sentir o impacto do que aconteceu. Foi aí que compreendi. 

Me desculpem, mas neste texto disse muita coisa dizendo nada. Confusamente, na minha cabeça, parece que tudo tem relação, mas não necessariamente. Compreendo o trauma do 11 de Setembro e estar aqui, nesta cidade neste momento, faz eu compartilhar a dor da ferida que ficou em Nova York. Talvez, minha homenagem tenha sido esta leitura. Meio que sem querer, ler Just Kids foi um pouco além de ler sobre Patti e Robert, foi também ler sobre suas vidas em Nova York e sentir um pouco as transformações históricas dessa cidade que, em tão pouco tempo, é capaz de mudar tanto. 


9/11 Memorial. Fevereiro de 2018. 


9/11 Memorial. Novembro de 2019


sábado, 21 de agosto de 2021

A insustentável leveza do ser: exilados em sua própria terra

A primeira vez que li "A insustentável leveza do ser", Milan Kundera, foi, muito provavelmente, há 10 anos. Eu era estudante de graduação em História e morava ainda numa pensão de estudantes perto da USP. Um colega, que estava no mestrado em psicologia leu este livro, disse que era muito bom e me emprestou. 

Curioso que, na época, eu não tinha muitas referências sobre Praga, Tchecoslováquia, Boêmia, Primavera de Praga, 1968, Exército Vermelho, comunismo, literatura pós-moderna... Tudo era meio confuso e eu conhecia as palavras, mas não os conceitos ou a história. Não que agora eu seja uma especialista, mas pelo menos estes assuntos não são mais de outro mundo. Me lembro que, na época, eu li rapidíssimo. Achei provocante. Bonito e misterioso. Mas se alguém me perguntasse sobre o que o livro falava, eu talvez teria dito: 

- Ahn... Fala sobre amor. Uns casais que tentam se entender, mas não conseguem. Num país que foi comunista. 

E depois disso eu apaguei. Pouquíssimas coisas do romance ficaram registradas na minha memória. Quando fui para Praga em 2019, tudo o que eu lembrava era que eu havia lido um livro cujo autor era tcheco e cuja história se passava nesta cidade. Só. Eu não lembrava do nome dos personagens, tampouco de Karenin. Muito menos da resistência tcheca contra a ocupação soviética. 

Só retomei a leitura porque vi uma blogueira compartilhando este livro no Instagram (me julguem) e me toquei como tão pouco eu me lembrava do que tinha lido. E fiquei me perguntando como uma narrativa tão densa e nada óbvia tinha ganhado projeção nas camadas mais superficiais das redes sociais. Fui lá na Amazon e comprei.  Eu não fui atrás para ver o que esses influencers falaram sobre o livro, mas tenho uma teoria que vou dividir com vocês no final do texto. 



Acho que os motivos de todo esse "apagamento" da minha memória se encontra um pouco na conclusão que tirei nesta segunda leitura. Em "A Insustentável Leveza do Ser", Kundera fala sobre tudo e nada. É um pouco aquela crítica (que eu adoro) contra o pós-moderno: as correntes pós-modernas querem relativizar absolutamente tudo e acabam explicando nada. Do ponto de vista científico, isso pode ser um problema, mas para a literatura eu acho maravilhoso. 

Por isso a "A insustentável leveza do ser" tem tantas possibilidades de leituras diferentes. Ela pode ser superficial e se atentar ao erotismo e à relação entre Tereza - Tomas - Sabina - Franz, ou ir se aprofundando em centenas de questões filosóficas trazidas pelo autor e que mudam a cada página. 

Não, eu não fiz desta vez uma leitura de estudo profundo. Comecei a ler em São Paulo durante meus preparativos de mudança para os EUA. Precisei parar e retomei já na minha nova casa. Foi o único livro físico que trouxe nas malas. 

Esse apanhado de tudo e nada é também o motivo pelo qual é tão difícil escrever sobre essa leitura: sobre o que eu gostaria de falar? Que temas mais me chamaram atenção? Mas isso é complicado, porque a cada mudança de capítulo, um novo tema aparecia com força. As reflexões filosóficas do narrador que se misturam com o pensamento e intrigas dos próprios personagens foram criando uma sopa de letrinhas: cada colherada era ótima, mas em cada uma vinha uma letra diferente. 

É um livro amargo, triste. Como muitos que li ano passado, fala da desconexão entre lugar e indivíduo. Ao contrário de autores que narram sobre o Holocausto e a diáspora judaica (e sobre os quais escrevi neste blog no ano passado), desta vez não são os personagens que saem de sua terra natal e tornam-se desterrados no mundo, procurando e não encontrando seu lugar. Isso talvez se passe um pouco com Sabina, que sai da Tchecoslováquia em direção e Europa e depois muda-se para os Estados Unidos. Seu desapego é tão grande que, além de ir cada vez mais a oeste e distanciar-se de suas origens geográficas, ela chega a morar junto com um casal idoso mecenas - abrindo mão até de uma casa própria. 

Isso, contudo, não se passa com os protagonistas Terezas e Tomas. Eles estão em Praga, vão para a Suiça, mas Tereza logo volta porque ela não se vê e nem é mais vista como Tereza neste outro país - é vista pelos outros como uma extensão de Tomas. Volta para Praga e Tomas logo vai atrás, encontrando uma outra cidade. Não foram eles que saíram do lugar, foi o lugar que saiu dele mesmo. Com a invasão, o país deixa de ser o que era e, consequentemente, também suas pessoas. O presidente Alexander Dubcek, depois de ter sido capturado pelos russos, volta transformado. Não é mais o mesmo. Por isso Tereza e Tomas, apesar de voltarem, também não são mais os mesmo. A transformação da Tchecoslováquia e de Praga também os transformaram: perderam suas profissões e suas referências.

Sabina exila-se saindo. Tomas e Tereza são exilados sem sair do lugar.

"Tomas dirigia, Tereza ia ao seu lado e Karenin no banco de trás; de vez em quando, esticava a cabeça para lamber a orelha deles. Duas horas depois, chegaram a uma pequena estação de águas onde tinham passado alguns dias juntos cinco ou seis anos antes. Pretendiam pernoitar ali. [...]

Tomas mostrava o hotel. Afinal alguma coisa havia mudado. Em outros tempos, chamava-se Grande Hotel e agora, de acordo com o letreiro, chama-se Baikal. Olharam para a placa, na esquina do prédio: era a praça Moscou. Em seguida percorreram todas as ruas que conheciam (Karenin os seguia sozinha, sem guia), lendo os nomes: havia a rua Stalingrado, a rua Leningrado, a rua Rostov, a rua Novossibirsk, a rua Kiev, a rua Odessa, havia o Sanatório Tchaikovski, o Sanatório Rimski-Korsakov, o Hotel Suvorov, o Cinema Górki e o Café Púchkin. Todos os nomes eram tirados da Rússia e da história russa. 

Tereza se lembrou dos primeiros dias da invasão. As pessoas retiravam as placas das ruas de todas as cidades e arrancavam das estradas os painéis indicativos. O país se tornara anônimo numa noite. Durante sete dias, o Exército russo ficara errando pelo país sem saber onde estava. Os oficiais procuravam os prédios dos jornais, da televisão, da rádio para ocupá-los, mas não conseguiam encontrar nenhum deles. Perguntavam às pessoas, mas elas davam de ombros ou indicavam endereços falsos e um intinerário falso. 

Com o passar dos anos, esse anonimato se mostrou nocivo ao país. Nem as ruas nem as casas conseguiram encontrar de novo seu nome original. Uma estação termal da Boêmia se tornara assim, do dia para a noite, uma pequena Rússia imaginária, e Tereza constatou que o passado que procuravam lhes fora confiscado. Era impossível pernoitar ali." (KUNDERA, M. A Insustentável Leveza do Ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 162-3)

Enquanto em Levi, por exemplo, a urgência é voltar para seu lugar, em Kundera a ânsia é para que este lugar lhes seja devolvido. São duas formas distintas de exílio. 

A saída do governo soviético se deu em 1989. Em Junho de 2019 eu visitei Praga com meu marido numa espécie de segunda lua de mel. E mesmo já tendo se passado trinta anos da redemocratização, o que vimos foi um país que repetidamente afirma os anos obscuros que foram a invasão comunista. "O Museu do Comunismo" é inteiro dedicado a este período sob um ponto de vista do horror e há monumentos e marcas relembrando eventos de resistência do povo tcheco contra o governo soviético em múltiplos lugares da cidade. 

Depois de uma longa história de ocupações, é como se o país procurasse estabelecer e afirmar sua identidade em completa oposição a estes momentos históricos. Tereza é a metáfora da República Tcheca. Ela se olha no espelho e fica procurando insistentemente a conexão entre sua alma e corpo, desvencilhando-se da imagem da autoridade materna. Ela renega completamente este passado. Notei essa tentativa de busca na cidade de Praga: monumentos, museus, passeios turísticos, tudo procura afirmar quem é este país e porque ele é único e diferente de todos aqueles que o ocuparam. 

É um livro que, provavelmente, vou ler novamente. Quanto mais "bagagem cultural" (odeio esse termo, mas no momento ela convém), mais camadas vão aparecendo durante a leitura. Só deixo aqui como nota registrada (e não apenas mental) de que na próxima leitura, se o tema "exílio" me for ainda de interesse, pesquisar o caminho do exílio do autor. Kundera parece ter tido uma relação conflituosa com seu país de origem e, apesar de escrever de maneira tão empática, me parece que, como Sabina, ele preferiu sair para nunca mais voltar. 




Memorial às vítimas do comunismo. Monte Petrin. Praga, Junho de 2019. 

O mesmo monte onde Tereza sonha que está indo ser assassinada. Em seu sonho, Tereza obedece Tomas que a manda subir o Monte Petrin. No topo, ela encontra três algozes que a matarão - caso assim seja sua vontade. Eu e o Allan visitamos o Monte Petrin e visitamos este memorial. Flagramos, neste momento, uma senhorinha colocando flores. 

"Quando chegou ao monte Petrin, a colina verdejante situada no centro de Praga, notou com espanto que não havia ninguém. Era curioso, pois, em geral, multidões sempre passeavam por ali. Sentia-se angustiada, mas os caminhos estavam tão silenciosos e o silêncio era tão repousante que relaxopu e se entregou cofiante à colina. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, via um aglomerado de torres e pontes. Os santos brandiam punhos ameaçadores, os olhos de pedra fizados nas nuvens. Era a cidade mais bonita do mundo." (Idem, p. 146)


 Eu descendo o Monte Petrin. Praga ao fundo. Junho, 2019.


Outros textos nos quais falei sobre o tema exílio e publiquei aqui no blog:



Finalmente, por que o livro "A insustentável leveza do ser" sendo divulgado por influencers nas redes sociais que falam sobre tudo, menos literatura? Imagino que transformaram o livro de Kundera no horror de Sabina. O que Sabina mais detesta no mundo é o kitsch e, no contexto político e social que vivemos, os logos e palavras de ordem que imperam é o próprio kitsch. O governo Bolsonaro, Lula elegível, a aproximação das eleições, crise, etc... Uma leitura superficial e descontextualizada transforma a obra de Kundera num slogan anti-comunista tosco. E é isso que o transforma em poderoso.

"A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não tinha um caráter ético, mas estético. O que lhe repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista (os castelos convertidos em estábulos), mas a máscara de beleza com que ele se cobrira, isto é, o kitsch comunista. O modelo desse kitsch era a chamada festa do Primeiro de Maio. 

[...]
A festa do Primeiro de Maio se abastecia na fonte profunda do acordo categórico com o ser. A palavra de ordem tácita e não escrita do desfile não era "Viva o comunismo!", e sim "Viva a vida!". A força e a estúcia da política comunista foi ter se apossado dessa palavra de ordem. Era precisamente essa estúpida tautologia ("Viva a vida!") que levava ao desfile comunista até mesmo os que eram completamente indiferentes às ideias comunistas. 

[...]
Por volta de dez anos mais tarde (ela já morava na América), um senador americano amigo de seus amigos a levou para passear num carro enorme. Quatro garotos se apertavam no banco de trás. O senador parou; as crianças desceram e desataram a correr num gramado imenso em direção a um estádio onde havia um rinque. O senador ficou ao volante olhando com ar sonhador as quatro pequenas silhuetas que corriam; virou para Sabina: "Olhe para eles!", disse, descrevendo com a mão um círculo que englobava o estádio, o gramado e as crianças: "É isso que eu chamo de felicidade".

[...], nesse momento, Sabina imaginou o senador num palanque de uma praça de Praga. Em seu rosto, havia examente o mesmo sorriso que os estadistas comunistas dirigiam do alto de seu palanque aos cidadãos igualmente sorridentes, que desfilavam a seus pés. [...]

O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os movimentos políticos." (Idem, p. 244-6) 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Minha mudança de país e a materialidade do lar

Há muito tempo eu não tenho tempo para sentar e me dedicar ao blog. Já mencionei aqui como tempo tem sido absolutamente nada óbvio para mim. Eu sempre penso naquele texto do Hobsbawn sobre a mudança social e cultural da percepção de tempo com a Revolução Industrial e fico imaginando que eu também estou vivendo um momento de mudança de percepção de tempo: tanto pela mudança do mundo analógico para o digital quanto pela pandemia. 

E cá estou eu novamente para me justificar porque não consegui engatar nenhuma leitura nas últimas semanas. Depois de ter lido e escrito sobre "Casei com um Comunista", eu mesma vim parar na terra onde Philip Roth nasceu e escreveu seus livros. Mudei-me para os Estados Unidos. Pelo menos pelos próximos dois anos. 

Uma mudança de país envolve muito trabalho. Físico e emocional. Passei por muitas fases: melancolia, tristeza, empolgação, felicidade e, agora, paz. Esta viagem foi adiada por um ano por causa da pandemia. Durante todo o tempo em que fiquei sentada na sala de espera pandêmica eu li. Li muito e escrevi. A prova disso é o arquivo deste blog, que foi muito bem preenchido no ano passado. Só  que na virada de 2020-21 acabou a espera. Eu tive que me mexer para concretizar essa mudança. 

Depois que voltei do Chile, foram mais ou menos 50 dias em São Paulo vendendo e me desfazendo de tudo o que eu tinha no meu apartamento. Depois de anos construindo uma casa, em pouco mais de um mês toda a materialidade dela se apagou. O que não sumiu no ar, coube em quatro malas. A fragilidade da vida concreta é assustadora. Nos apegamos fortemente ao apalpável, mas ao primeiro sinal de mudança, é a primeira coisa que se esvai. 

Por um momento, eu lamentei bastante isso. Chorei nos meus paninhos de pratos que fui ganhando como presentinhos nos últimos 7/8 anos. São as mulheres da família que ajudam a gente a construir o lar: conjunto de panelas, batedeira, toalhas de mesa, de banho, lençol... Tudo foram presentes de mãe, tia, vó ou amigas queridas. Lembro um Natal, abri um embrulho lindo de presente da minha tia. Na hora, vi dois panos de pratos todo decorados e pensei "puxa! um presente para casa e não para mim". Depois olhei de novo e vi um envelope com notas generosas. Percebi como isso foi lindo. Um presente para mim, Giovana, e para minha casa, que também sou eu. 

A partir de um momento, nosso lar torna-se nós mesmas. Mas essa conexão só acontece na figura feminina. Depois que casei e o ambiente doméstico tornou-se meu, foi acontecendo uma troca. Não era mais a casa dos meus pais, tampouco a pensão de estudantes onde vivi por muitos anos. Na minha casa, eu fui me tornando cada vez mais o lar e o lar foi se tornando cada vez mais eu. Isso não acontece na figura masculina. A casa de um homem solteiro é "a casa de um homem solteiro". No Natal, ele não vai ganhar panos de prato junto com o perfume ou o sapato, porque não tem essa troca de identidade. 

Esse apelo tem o risco de nos tornar muito materialistas e o lado virginiano da minha personalidade grita. Tenta fincar as raízes com muita força na terra e usa como adubo essa ligação material da nossa história e identidade.

Só que eu tenho um lado ariano e impulsivo que mora comigo. Também tenho um pouco de ar no mapa astral. Minhas raízes são fortes, mas não no lado material. Lar é onde nosso coração está, não é assim que se fala? É onde a gente faz um arroz com feijão, dá risada, chora, assiste um filme e resolve os problemas da vida. 

Por isso que, se no começo eu queria trazer absolutamente tudo - dos meus panos de prato até minha bicicleta -, no final acabei vindo apenas com uma mala grande e uma média. 

Durante esses 50 dias de transição, eu comecei a ler "A insustentável leveza do ser" e me tocou como Kundera fala do exílio de seus personagens. Não estou vivendo o exílio de Kundera, tampouco o de Primo Levi. Mas estou longe de casa e também vivo uma espécie de exílio. Primeiro no Chile e agora nos Estados Unidos. 

Mudei-me para Nova York. Isso tem um significado especial. Assim como existem vários Brasis, existem vários Estados Unidos. (Ficou até curiosa essa frase, né? Mostrou a obviedade e redundância - afinal são vários Estados que estão Unidos) 

Nova York sempre esteve nas minhas leituras:  J.D. Salinger, Philip Roth, Fitzgerald, Donna Tartt... Para citar alguns entre os autores mais recentes. Sem falar na cultura midiática de filmes e série. Talvez por isso eu esteja me sentindo tão a vontade aqui. Depois de mais de um ano vivendo na situação "estou para me mudar", finalmente cheguei e pude me instalar. Por isso estou me sentindo "em casa". Não existe mais a fase transitória. (pelo menos pelos próximos dois anos! rs) 

Estou há minutos andando da Universidade de Columbia e a quantidade de estrangeiros é enorme. Ouço nas ruas as mais diversas línguas e, pela cidade, espanhol se impõe quase como segunda língua oficial. Eu não me sinto de fora. Eu me sinto parte de toda essa diversidade. De toda essa "estrangeiridade". 

Foi um ano de planos sendo adiados e colocados em espera. Um ano onde a única certeza era a pandemia. Chegando aqui, fomos vacinados no segundo dia e a sensação é de que estamos muito mais próximos da normalidade do que nunca estivemos desde aquele fatídico março de 2020. Pela primeira vez desde muito tempo, estou com uma grande tranquilidade no coração e, por isso, a vontade de voltar à literatura. 

Vou começar pelo livro que não consegui acabar em São Paulo e, por isso, foi o único livro físico que trouxe no meio das roupas em uma das malas: "A insustentável leveza do ser". O que não deixa de ser irônico, pois, ao contrário de Sabina, o que estava insustentável para mim era viver o peso da transição que não acabava. O peso de estar "prestes a se mudar", o peso do medo de não se conseguir. Mas depois de toda tempestade, vem a calmaria e só me resta a aproveitar e curtir como eu puder. 

Abaixo umas fotos do verde do verão de Morningside Heights. 









Morningside Heights. Manhattan, NYC. Verão. Julho 2021. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Opinião sobre "Casei com um Comunista": minha primeira frustração com Roth

Depois de quatro meses morando no Chile, estou de volta ao Brasil e à minha casa. Daqui do meu sofá, da minha sala, com minha televisão, mesa de jantar, cadeiras, almofadas e decoração escolhidas e montadas por mim, escrevo e publico neste blog meu primeiro texto escrito em terras tupiniquins sobre uma obra que li inteiramente no Chile.

Eu comentei em publicações anteriores a minha dificuldade em comprometer-me com leitura e escrita por causa das atribulações que estavam ocupando todo o tempo e espaço da minha vida. Por isso, escolhi um autor que eu sabia que seria muito envolvente. A primeira vez que li Philip Roth foi em 2019, "A marca humana".  O livro me sugou. Eu me senti completamente imersa. Gostei tanto, que logo depois li "Pastoral Americana", que também achei fenomenal. Consequentemente, Philip Roth está entre meus autores favoritos e faz parte daquela pequena lista de autores que eu gostaria de ler pelo menos uma vez ao ano. 

Ano passado, li "O Complexo de Portnoy" e "Homem Comum". Apesar de ter gostado muito mais do primeiro, o segundo também é muito bom! Desta vez, li o que faltava para completar a trilogia americana de Philip Roth: "Casei com um Comunista". Assim como "A marca humana" e "Pastoral Americana", é Nathan Zuckerman quem nos narra a história que, por sua vez, lhe é contada por Murray Ringold, irmão do nosso personagem principal: Ira Ringold. 


Durante a leitura, estava achando tudo excelente. Diria que até 2/3 do livro minha avaliação era 100% positiva. Eu gostei de como o autor trouxe em discussão alguns temas como o valor social da arte, o ambiente político estadunidense pós-Segunda Guerra Mundial, o sentimento de deslocamento do judeu na sociedade norte-americana e identidade. 

Estes últimos dois temas já centrais em "O complexo de Portnoy": o judeu americano raivoso, que não viveu o Holocausto, que não encontra seu lugar no seu país de nascimento e não compartilha desse "histórico" e identidade judaica é o próprio Alexander Portnoy. A diferença é que este reclama, grita, esperneia com seu psiquiatra e despeja toda a raiva e frustração num prisma sexual e freudiano. Ira, por outro lado, direciona sua insatisfação e deslocamento no mundo no aspecto ideológico e resistência política. 

A identidade e a ideologia se misturam em Ira: um personagem que não consegue ser ele mesmo porque está em função do partido/ ideologia, mas também não consegue ser o comunista ideal, pois sua personalidade o impede. Isso tudo contado, é claro, pelas memórias de seu irmão e do próprio Nathan, que o conheceu e o admirava quando entrava em sua adolêscencia. 

São várias camadas até chegar em Ira: Ira conta ao seu irmão Murray o que lhe passou, Murray conta para Nathan décadas depois e Nathan escreve para nós, juntando às memórias de Murray as suas próprias lembranças de menino. Dois idosos desiludidos, à margem, sozinhos no mundo, um com 90 anos e outro na casa dos 60 que vive recluso numa cabana, contando causos que aconteceram 40 e 50 anos antes sobre um outro homem. Muito suspeito, não?

Sob os olhos destes dois narradores, a história de Ira se funde à própria histórica política e cultural nos EUA na medida em que fala muito sobre os primórdios do rádio e da indústria de entretenimento, mencionando Broadway e o cinema mudo. A publicação de "Casei com um comunista", livro autobiográfico escrito pela personagem de Eve Frame, esposa de Ira e que intitula o livro que nós estamos lendo, é a representação do rompimento da fronteira entre público e privado e entre entretenimento e política na cultura norte-americana. É só um prenúncio de escândalos reais, como Bill Clinton e Monica Lewinsky, por exemplo. 

Uma pulga atrás da orelha, no entanto, ficou me incomodando. Esse papo infinito de seis noites regado a martini entre dois homens, fofocando sobre a vida dos outros e que, no fim, se resume a um julgamento de defesa de um outro homem que, apesar de impulsivo, adúltero, violento, assassino, etc, era uma boa pessoa, tinha bons princípios, era guiado pela vontade de fazer o bem e que foi "usado" pela ideologia comunista e sua ex-esposa, Eve Frame. Uma vítima. Coitado.

Eve é narrada por estes homens como a mulher louca, histérica, infeliz e frustrada como mãe, artista fracassada em fim de carreira, interesseira, manipulável, envergonhada de sua identidade judaica, cínica e - adivinha - injusta com o próprio coitado do Ira, cuja vida teria sido destruída não pelas suas próprias atitudes irresponsáveis ao longo de toda sua vida, mas pela publicação do livro escrito por Eve, "Casei com um comunista". 

Esse desconforto ficou comigo e, quando fui procurar textos e reviews sobre esta obra pude ver melhor o contexto de publicação. "Casei com um comunista" foi escrito e publicado como uma resposta ao livro "Leaving a Doll's House", de Claire Bloom, que foi ninguém mais ninguém menos que a ex-esposa de Philip Roth e cujas semelhanças com Eve Frame são gritantes. Não acredito em separar o autor da obra, mas também não espero ler na ficção um homem sexagenário ressentido de sua ex-esposa. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. 

De todos os livros que li de Philip Roth este foi fraco e o que menos me agradou, apesar de tocar em assuntos que tanto me interessam: judaísmo, identidade, cultura norte-americana e comunismo. Existe uma ironia neste ponto de inflexão entre a minha relação com Philip Roth e a de Nathan com Ira. Em sua adolescência, Ira vê em Nathan um pupilo e este enxerga Ira com grande admiração, seguindo-o e idealizando-o. Aos poucos, no entanto, conforme vai crescendo e seu mundo se expandindo, Nathan começa achar Ira enfadonho, repetitivo e passa a se afastar. Chega a se questionar "como Eve pode aguentar Ira e seu discurso inflamado todos os dias, todas as horas, dentro de sua própria casa?". Pois bem, fiquei assim um pouco com Roth em "Casei com um comunista" - me desiludi. 

Terminei a leitura com a impressão de que Murray era um cunhado intrometido e chato, Ira um homem violento, impulsivo, adúltero e culpado de muita coisa. Mas Ira tinha quem o defendia - seu irmão, que direcionou toda a responsabilidade das frustrações e infelicidades de seu irmão para a cunhada, esposa de Ira, Eve. Quase uma novela mexicana.

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Alguns textos interessantes:

https://www.theguardian.com/books/1998/oct/03/fiction.philiproth

https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/98/10/11/reviews/981011.11kellyt.html

https://livroecafe.com/2020/03/26/casei-com-um-comunista-de-philip-roth-fissuras-no-sonho-americano/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs10019912.htm

https://www.lrb.co.uk/the-paper/v21/n03/alexander-star/what-the-hell-happened

domingo, 9 de maio de 2021

09 de maio, o Dia da Vitória: homenagem às mulheres de "A Guerra não tem rosto de mulher"

Tenho uma pequena lista mental de alguns nomes de autores cujo trabalho eu gostaria de ler pelo menos uma vez ao ano. Svetlana Aleksietich é um desses nomes. Em 2019, li "Vozes de Tchernobil". Ano passado, devorei "O fim do homem soviético" e, neste ano de 2021, foi a vez de "A Guerra não tem rosto de mulher". 

Seu trabalho de história oral, coleta e transcrição de testemunhos, que fica no meio termo entre literatura e história, me fascina. Como historiadora, que passou anos em salas de arquivo lendo correspondência pessoal do século 20, acho que os relatos de si puxados de memória podem falar muito mais sobre os tempos passado e presente do que alguns documentos oficiais.

O trabalho de transcrição e curadoria de Svetlana é primoroso. Ela sabe fazer os cortes corretos para cada depoimento não ser longo demais e tornar a leitura cansativa, mas suficientemente comprida para prender nossa atenção. Ela conta uma grande história a partir de tantas outras pequenas histórias. Nós vamos, com a leitura, amarrando os pontos, imaginando o cenário e a linha do tempo. A intervenção da Svetlana é precisa: suficiente para não alterar as histórias individuais ao mesmo tempo que mantêm uma coerência entre si. É como se a autora pegasse as estrelas espalhadas e formasse a constelação. 

Dito tudo isso, fica claro o quanto eu gostei do livro. Apesar de indigesto, doloroso e triste, a leitura é fluída. É fácil o trabalho de leitura, difícil é encarar tudo aquilo como real. Como verdade. 

Eu gostei mais dos outros dois livros. Talvez porque os outros dois me trouxeram uma dimensão completamente nova de como esses traumas coletivos influenciaram na vida particular de cada indivíduo. Não tinha noção de como a maior parte da populaçao que sofreu com a explosão dos reatores eram camponeses - além de não terem compreensão do que significava radiotividade, eles tinham uma relação com a terra que nós não compreendemos. Expulsá-los de lá para garantir suas vidas era, praticamente, matá-los. 

Já "O Fim do Homem Soviético" tem uma linha temporal muito maior. Percorre quase todo o século XX e escancara o embate entre gerações que construíram a União Soviética, aqueles que desejaram uma nova ordem e os que já nasceram na Rússia. Os depoimentos vão revelando como avós, pais e filhos não se entendem, porque, apesar de compartilharem o mesmo lugar, seus tempos são completamente diferentes. E, no tempo de cada um, não existe espaço para o outro. Revela-se como o fim da URSS significou também silenciar uma história coletiva e individual. Talvez este tenha sido o meu favorito. 

"A guerra não tem rosto de mulher" é mais limitado no tempo. Reune depoimentos de mulheres ex-combatentes do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial. Da invasão da Alemanha na URSS, em 1941, até o Dia da Vitória, em 9 de maio de 1945. No primeiro depoimento, já me veio à memória "A Trégua", de Primo Levi. Desde o momento da libertação do campo de concentração e durante todo o seu percurso sobre os trilhos de trem pela Europa em ruínas, Levi fala sobre as mulheres entre os soldados vermelhos. Fiquei até imaginando se aquela moça que fala sobre a libertação de um dos campos de concentração teria se encontrado com o químico italiano. 

 


Os relatos são memórias do campo de batalha: meninas e mulheres, ainda adolescentes, se voluntariando para ir ao front e disputando seu lugar entre os homens, fazendo "tarefas masculinas". Conhecemos mulheres que atiram e matam, que cavam as trincheiras, que desarmam bombas, que dirigem tanques, que consertam tratores... Mas também temos as lavadeiras, as enfermeiras, as médicas. Essas mulheres dizem que envelheceram uma vida em apenas quatro anos. O coração incha. É difícil imaginar a dificuldade em ser mulher, tanto física quanto emocionalmente, num meio masculino e de morte.

As mulheres passam a usar uniforme masculino: capote, cuecas e botas de numeração muito maior que pés femininos costumam calçar. Não é o exército que se adapta ao corpo feminino, é a mulher que tem que se adaptar às regras e cultura do exército masculino.

Algumas deixam de menstruar. Deixam de ver todo mês aquilo que lhes lembram que são mulheres, que possuem corpo de mulheres. E as que continuam menstruando, morrem. Um dos relatos nos conta sobre a travessia a pé que fizeram sobre um deserto. As mulheres seguindo na frente deixavam um rastro de sangue na areia. E o sangue, ela nos conta, secava na calça, cortando-as e machucando-as. "E os homens fingiam que não viam". Quando chegaram ao destino final, havia um lago e todas entraram para se limpar. Haviam alemães por perto e bombardearam o lago. "A vergonha era pior que o medo de morrer".

Mais para frente, em outro depoimento, a ex-combatente também menciona como o sangue secava na roupa e cortava a pele. Mas desta vez o sangue eram dos mortos e feridos. A vida e a morte se misturam.

Esta é a materialidade da guerra que nos é contada, mas há uma outra dimensão que lemos a partir dos relatos. Elas se voluntariavam para defender algo que acreditavam. Elas iam para o front para defender suas famílias, suas terras. Existia um ideal forte o bastante que lhes faziam não temer a morte. Elas haviam sido educadas sob o regime comunista: uma cultura bélica e idealista. Idealizavam a guerra e sua mortalidade. Na verdade, era como se vivessem antes num mundo de sonhos e, só depois chegando no campo de batalha, acordassem. Apesar disso, nenhuma delas se diz arrependida. Nenhuma.

Sexo. Estupro. Muito pouco. A autora chega a perguntar "E amor? Existia amor nas trincheiras?". Há um ou outro depoimento que menciona a aproximação entre uma combatente e um homem de outra patente. Há mulheres que conheceram seus futuros maridos nas trincheiras. E há a denúncia dos estupros cometidos contra as mulheres alemãs capturadas. Mas estes episódios são mencionados como quem pisa em ovos. Absolutamente nenhuma delas relata ter sofrido violência sexual. Nenhuma. 

Ainda que haja a intervenção da autora, é curioso não ter arrependimento nem estupro no livro. O quanto isso vem das mulheres entrevistadas e o quanto vem da imagem da mulher soviética na guerra que a autora constrói? Falar, transcrever e publicar sobre um estupro no front soviético seria desmoralizar o próprio exército soviético e sua história e cultura bélica. O quanto isso fala do passado e o quanto fala do presente? Mesmo após a mudança do regime comunista para o capitalismo, mesmo após as "aberturas" e denúncias, ainda há muitos silêncios.

E depois da vitória? 

Ficou o vazio. Ficou a decepção de voltar para as casas vazias, pois todos os familiares haviam morrido. Ficou a dor de uma mutilação ou de uma saúde precária aos 20 e poucos anos. Ficou o preconceito de outras mulheres que viam estas que foram lutar como prostitutas. Ficou o medo de ficarem sozinhas e a tristeza de não serem reconhecidas pelos filhos que elas deixaram para trás. Se na guerra a luta é para viver, depois da guerra a luta pela vida continua, mas sob a forma de outras batalhas.

Mas não só isso. Aqueles que chegaram à Europa ocidental, foram enviados à Gulag. Uma vez capturado pelo inimigo, o dever pátrio era se matar. Aqueles que fugiram, foram considerados traidores e também enviados à Gulag. Ficou a decadência e o desarme de minas terrestres por longos anos após declarado o fim da guerra.

Eu li em ordem inversa. A continuação deste livro é "O fim do homem soviético". Entende-se a dor e desamparo dessa geração que lutou pela URSS, venceu Hitler, e viu seus filhos e netos lutando por "liberdade" e, depois, serem escanteado, jogados de lado, humilhados, por terem acreditado e lutado por Stalin. 

Programei para hoje, dia 9 de maio, o Dia da Vitória, a publicação desse post como uma homenagem a estas mulheres. Não posso compreende-las. Não compreendo o que viveram, tampouco o forte ideal que sentiam e as levaram para o front. Só posso ter empatia e ouvidos atentos para uma história que sempre precisa ser narrada e lembrada. Não podemos nunca esquecer as dores do século XX.