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O Apanhador no Campo de Centeio: o privilégio de viver um dos seus livros preferidos

Minha vida ultimamente tem funcionado na contagem regressiva. Desde que começou a Copa, minha rotina se tornou caótica - e se está caótica, é porque não há rotina. Final de semestre e por isso provas, trabalhos e horários malucos. O inverno se aproxima, as temperaturas caíram, encontrinhos de final de ano, feriado de Thanksgiving, Covid por uma semana, arrumação de mala para a viagem ao Brasil, compras de presente de Natal e, no meio de tudo isso, jogos do Brasil e uma Copa do mundo. Além das outras coisas que vão acontecendo in between. 

Por isso, fui lendo alguns livros e não consegui registrá-los aqui. Minha resolução de escrever tudo em inglês não ajudou, porque meu fluxo de pensamento é em português. Eu precisaria de tempo de escrita e revisão, o que não teve. Minha cabeça também esteve mais para a Copa e a seleção brasileira, então meu cérebro suprimiu a parte de vivência norte-americana. Por isso, fiquei adiando, adiando, e não escrevi aqui no diário as últimas leituras, mesmo elas tendo ficado entre as melhores do ano. 

Como a bomba relógio está prestes a explodir e o ano acabar, resolvi escrever em português mesmo uma breve - bastante breve - resenha desses livros. Não terá revisão. Ou esse registro sai de uma vez de forma natural, ou não sairá. Não há opção de cesariana. Começo essa maratona com uma leitura de dois meses atrás. 

Minha fantasia de Halloween


Li The Catcher in the Rye em Outubro para me fantasiar de Holden Caulfield no Halloween. Foi uma leitura tão especial e significativa, que queria escrever um texto a sua altura. Mas é claro que a expectativa de fazer algo perfeito só significou a procrastinação eterna. 

A primeira vez que li O Apanhador no Campo de Centeio foi em 2020, antes de me mudar para os EUA, quando eu ainda não conhecia muito bem a literatura americana nem estava acostumada a ler ficção em inglês. Na época, eu já havia gostado muito do narrador e como eu tenho uma grande afinidade por romances de formação, o livro de J.D. Salinger conquistou um lugarzinho no meu coração. 


Retomei a leitura no kindle, mas depois de um ano e meio morando em Nova York, o livro ganhou uma dimensão completamente nova e até comprei o paperback da belíssima e icônica capa vermelha.  Conforme ia avançando na leitura, pude ir caminhando pela cidade com Holden. Apesar do livro ter sido publicado há 70 anos e a cidade de Nova York ter sofrido grandes mudanças, muita coisa continua ainda igual: a caminhada pela quinta avenida, o bar em Greenwhich Village, a loja de discos na Broadway, o Radio City Music Hall, a Grand Station, o Carrossel do Central Park, o zoológico, etc. 

É um livro mais triste do que eu lembrava. A solidão urbana, o luto pela morte do irmão, o deslocamento social ao descobrir o abismo que separa a "essência" de um indivíduo e seu lugar social, as regras de etiqueta, o "ser" quem você é e o que se espera de você... Tudo isso na cabeça de um adolescente andando numa cidade adulta e agressiva, num frio de dezembro. Acho que não importa qual a idade que lemos The Catcher in the Rye, todos somos um pouco Holden Caulfield, às vezes um pouco mais outras vezes um pouco menos. 

John Lennon


Quando falei pro meu irmão que estava lendo The Catcher in the Rye e que ia me vestir de Holden Caulfield para a festa de Halloween, ele me mandou um trecho de um episódio de South Park. Os personagems do desenho animado tinham recebido como lição de casa ler esta obra que, como o professor disse, era "polêmica".  Um dos personagens, ao terminar o livro, pega uma faca de cozinha e sai dizendo que quer matar John Lennon que, é óbvio, já havia sido morto. Foi aí que eu descobri que o assassino de John Lennon, Mark David Chapman, disse que se inspirou em Holden Caulfield para matar o compositor, pois John Lennon seria um grande "phony" e, portanto, alguém que Holden detestaria. 



Eu lamento muito que J.D. Salinger tenha testemunhado alguém dizer que seu livro foi usado como inspiração de um assassinato. E é na verdade isso que o episódio de South Park discute: como as pessoas tiram interpretaçãos bizarras quando procuram grandes significados e mensagens em textos de ficção que - pasmem - às vezes não querem dizer nada.

Se eu pudesse, eu diria para Salinger que seu livro, na verdade, se utiliza do mundo adulto corrompido para valorizar a inocência infantil. E que, ao contrário de aniquilar e matar o mundo adulto hipócrita, ele faz a gente recuperar e valorizar a simplicidade que tínhamos quando éramos crianças. 


Minha fantasia de Holden Caulfield na festa de Halloween da New York Public Library


Depois de me fantasiar de Holden para a festa de Halloween, tirar várias fotos com uma cara beeem triste e maquiagem embaixo dos olhos, no final de semana seguinte fomos ao Carrossel no Central Park. Eu nunca teria ido dar uma volta no Carrossel se não fosse The Catcher in the Rye. E sabe de uma coisa? Foi uma das experiências mais legais que eu tive em Nova York. Me emocionei muito poder viver uma parte tão linda daquele livro. É um privilégio poder viver uma grande leitura. 


Minha alegria depois de dar uma volta no carrossel e ainda ganhar uma balinha de trick or treat. 

Hollywood


JD Salinger e seus descendentes nunca autorizaram uma adaptação de The Catcher in the Rye. Por isso, apesar de seu status na literatura norte-americana, nunca foi feito um filme do livro. Inclusive, na própria narrativa, há passagens onde o narrador, Holden, expõe sua opinião sobre Hollywood, dizendo que filmes são "phonys". Ele diz que seu irmão é um "vendido", pois deixou de escrever suas estórias e mudou-se para Hollywood para escrever roteiros de filme. 

Para além dessa questão metalinguística sobre a arte literária e da dramaturgia, em sua vida pessoal, J.D. Salinger sofreu uma grande decepção amorosa que envolveu o mundo do cinema. Aos 23 anos, Salinger se apaixonou pela moça de 16 anos Oona O'Neill, filha de um grande e famoso dramaturgo norte-americano, Eugene O'Neill. 

Eles começaram a se relacionar, e quando Salinger partiu para lutar na Segunda Guerra Mundial, ele escreveu e enviou a sua amada muitas cartas de amor. Tudo acabou, no entanto, quando Oona tornou-se Lady Chaplin, ao se casar com Charlie Chaplin, que tinha então 54 anos. Dizem as más línguas que Salinger ficou devastado e isso explicaria seu "ranço" com a sétima arte. 

Mas isso é só uma curiosidade! Geralmente sou defensora de separar o artista da obra. O Apanhador no Campo de Centeio é um livro incrível por si só e essa história envolvendo o autor é muito interessante porque envolvem grandes nomes da dramaturgia. 

Com certeza O Apanhador no Campo de Centeio é um dos meus livros favoritos, que quero ler novamente em outros momentos da minha vida. Aí, quem sabe, falarei um pouco sobre o título. Pesquisei um pouco sobre ele e também achei muito curioso, mas fica para uma próxma vez. 

Se por acaso você leu até aqui, gostou e ficou com vontade de ler O Apanhador no Campo de Centeio, clique aqui para comprar pela minha lojinha de afiliados da Amazon. Obrigada!

Ethan Frome - tragédia, solidão e a Nova Inglaterra de Edith Wharton

Ethan Frome me fez conhecer uma nova face de Edith Wharton. Depois de A Época da Inocência e A Casa da Alegria, saí da Velha Nova York aristocrática para conhecer Ethan Frome, um fazendeiro pobre de uma cidade gelada da Nova Inglaterra. Apesar do cenário diferente, a melancolia de Wharton continua. Li por aí uma crítica desfavorável, não lembro mais onde, que felicidade e vida são incompatíveis nas histórias desta autora, como se Ethan Frome fosse exageradamente e desnecessariamente triste demais. 

Eu concordo que o que eu li de Wharton até agora é muito triste, mas são tragédias que evidenciam a dificuldade da vida e a hipocrisia social. Não acho, absolutamente, que são tristes por serem tristes, tampouco pedantes. São narrativas sempre envolventes que mostram as condições limitantes da vida humana e a promessa de uma felicidade inalcançavel. Além disso, como veremos, o livro onde li Ethan Frome trouxe outros quatro contos, sendo um deles uma sátira divertidíssima. Ou seja, Edith Wharton pode ser também engraçada.  

Obs: como isso é um diário de leitura e a história foi publicada há mais de 100 anos, eu fiz comentários sobre o desfecho do livro. 

Ethan Frome

Publicada em 1911, a história do fazendeiro Ethan Frome é emoldurada pela história de um homem que está passando uma temporada de trabalho numa pequena cidade da Nova Inglaterra, Starkfield. Ele não é nomeado e nos apresenta um pouco a dinâmica daquela comunidade. É inverno, faz muito frio, está nevando muito e ele repara, todo dia, no velho aleijado triste Ethan Frome, que todos os dias vai ao correio, não fala com ninguém e logo depois volta para sua casa. O homem fica curioso, conversa com algumas pessoas e descobre que Ethan é um sobrevivente, tendo saído vivo de um acidente muito perigoso. As condições do tempo pioram e o homem contrata Ethan para transportá-lo até o trabalho todos os dias. Um dia, uma tempestade de neve bloqueia o caminho de volta ao vilarejo e Ethan convida este homem a passar uma noite em sua casa. A partir daí, voltamos 25 anos para o passado e a história de Ethan é contada em flashbacks por uma narrador em terceira pessoa. 

Resumidamente, Ethan Frome é um fazendeiro pobre, que sonhava em ser engenheiro mas largou seus estudos precocemente depois da morte de seu pai, indo cuidar de sua mãe e, depois, casando-se e cuidando da propriedade que herdou. Com medo da solidão e do silêncio, depois da morte da sua mãe, casou-se com Zeena, a cuidadora, para que ela não fosse embora e continuasse a deixar as impressões femininas naquela casa. De saúde debilitada, Zeena recebe sua jovem sobrinha orfã, Mattie, para ajudá-la com as atividades domésticas. Ethan se apaixona por essa moça, que corresponde seus sentimentos. 

Zeena não fala nada, mas percebe o que está acontecendo e constrói um situação na qual uma nova garota será contratada para assumir as tarefas domésticas para Mattie ir embora. Ethan e Mattie ficam devastados e, durante suas últimas horas juntas, eles decidem fazer algo que acaba de forma inesperada. Para nunca mais se separarem, Mattie propõe que eles se suicidem e Ethan acaba cedendo. Só que o acidente não os mata, mas os deixa inválidos para sempre. Ethan aleijado e Mattie paraplégica. No epílogo, voltamos para o tempo presente e descobrimos, pelos olhos do narrador sem nome, que há 25 anos, Mattie e Ethan continuam morando na mesma fazenda sob os cuidados de Zeena. 

Essa tragédia me deixou fascinada. Apesar da paisagem fria e congelante da Nova Inglaterra e da pobreza e miséria em que vivem os personagens de Ethan Frome, há um aspecto similar das outras obras de Wharton que se passam na Velha Nova York: o vazio, a ausência, o silêncio, o não dito, a idealização frustrada do casamento e a procura de felicidade sufocada pelas condições materiais e sociais da vida humana. O que resta é a promessa vazia, relações miseráveis e uma solidão profunda. 

Tanto a história moldura quanto os flashbacks se passam num longo e rigoroso inverno de Massachussets, o que torna a fazenda de Ethan ainda mais isolada do resto do mundo. Tão definitivo é o inverno na vida das pessoas, que a contagem do tempo é feita pelo número de invernos passados. Esse isolamento faz de Ethan um homem frustrado, que abdicou do seu sonho de estudar e tornar-se engenheiro para cuidar de sua família e propriedade. Casou-se com Zeena com o medo do silêncio, apenas para ter mais alguém vivendo sob o mesmo teto. Mas a relação entre eles é tão fria quanto o lugar onde moram. Mattie é a jovem forasteira que chega trazendo beleza, juventude e um frescor para esse ambiente opressor. Ethan sonha com uma outra vida com ela, mas não tem recursos para pedir um divórcio ou fugir com a amada, restando apenas a amargura e mesquinharia de sua esposa. 

Mas veja, o narrador em terceira pessoa escreve principalmente sob o ponto de vista de Ethan e, por isso, neste triângulo amororo criamos compaixão com Ethan e Mettie, enquanto Zeena é a bruxa amargurada da história que trama contra a união dos pombinhos. Porém, Zeena era uma pessoa cheia de vida que iluminava a casa da fazenda e, sob a promessa de que depois do casamento iriam vender a propriedade e mudar-se para uma cidade, aceitou a proposta de união de Ethan. Mas o tempo foi passando, a fazenda não foi vendida e lá eles foram ficando. O isolamento e o frio da região e de seu marido foram tornando sua figura cada vez mais amargurada e hipocondríaca. 

Mattie, a jovem inocente vítima das artimanhas de Zeena sob os olhos de Ethan, também não é tão coitada assim. Apesar de sua obediência e esforço diário nas atividades domésticas e cuidados com a saúde de Zeena - habilidades para as quais ela não tem vocação - confronta sua prima quando pega uma louça escondida do armário. 

Ou seja, esses personagens vivem uma vida que odeiam. Ninguém é vítima, mas as amarras sociais, ou seja, o fato de que não têm dinheiro nem lugar para irem, faz com que eles fiquem presos uns aos outros. Sem conseguir se rebelar, largar tudo e fugir, eles acabam desafiando uns aos outros nas pequenices da vida doméstica. Os confrontos existem e estão lá, mas eles são sutis. 

Estou falando tudo isso porque pesquisando brevemente sobre o livro vi duas coisas. Primeiro, muita gente não gosta do livro. Ele é leitura obrigatória no ensino básico nos EUA e fazer adolescente ler por obrigação um livro desse, completamente niilista e melancólico, com a paisagem fria, congelante, onde pouca coisa acontece, só pode dar nisso mesmo. Por causa desse descontentamento, alguns comentários tendem a diminuir o livro porque tiram sarro de algumas situações, como o prato de picles e o acidente de trenó. Porém, a história se passa no meio do nada, onde é possível fazer menos ainda por causa do frio. É justamente por causa desse vazio que pequenas coisas, como uma louça quebrada, ganham dimensões enormes. Além disso, uma vida dominada pelo tédio, sem televisão, luz elétrica, aquecimento interno, etc, escorregar de trenó na neve é uma das pouquíssimas coisas que sobram para fazer. 

A segunda coisa que vi é a interpretação de que se trata de uma história romântica. Eu discordo desta leitura. Acho que Ethan é um homem infeliz, fraco, que prendeu Zeena nessa situação que ela nunca quis, a ignora como marido, e projeta nestas duas mulheres com quem vive suas frustrações e desejos e acaba tornando tudo muito miserável. 

Infelizmente, colocar livros clássicos como obrigatórios no ensino básico diminui bastante a popularidade da obra. Eu lembro com agonia os livros que fui obrigada a ler no Ensino Médio. Quando somos adolescentes, esses livros são chatos. É preciso ter certa maturidade de leitura para ler Ethan Frome e estar preparado para o nada. Para a ausência. Para o que é dito pelo não dito. Com certeza a leitura dos dois romances anteriores me preparou para isso. 

O meu comentário final se refere à dificuldade da leitura. Como é um livro muito descritivo onde pouca coisa acontece, foi muito difícil ler em inglês. Com certeza demorei mais por isso e várias vezes precisei procurar palavras no dicionário. Nesse sentido, o Kindle ajudou.

Ah, uma outra coisa: recentemente li A Casa das Sete Torres, de Nathaniel Hawthorne, uma história que também se passa numa cidadezinha da Nova Inglaterra. Ethan Frome foi um ótimo complemento, porque enquanto no primeiro a leitura nos coloca num cenário urbano, Wharton nos leva para um ambiente rural. Em ambos, todavia, são as atividades domésticas, a casa e a relação entre aqueles que vivem juntos sob quatro paredes que constituem o motor principal das tramas. 

Os quatro contos

Dos outros quatro contos que vieram no livro, falarei brevemente sobre os dois que mais gostei. Afterward é um conto gótico, no qual um casal norte-americano muda-se para um antigo casarão de uma cidade rural da Inglaterra. Para eles, esta é uma experiência exótica e nesta nova residência eles esperam encontrar fantasmas. No entanto, antes mesmo da compra, eles haviam sido avisados que nesta casa havia sim muitos fantasmas, mas quem os vê, não sabe que os vê. Indignados, eles perguntam novamente "- Ou seja, se você viu um fantasma, você não sabe que viu e vai viver sua vida normalmente? Qual a graça disso?". E a resposta: "Bom, pode até ser que acabe sabendo, mas só depois". 

Essa premissa do conto deixa tudo interessante e o ambiente misterioso da casa é ótimo. A descrição da biblioteca, os vultos, o comportamento estranho do marido e a desconfiança da esposa que passa a duvidar de si mesma tornam a história muito interessante. O desfecho é ótimo! 

Xingu é uma sátira. Um grupo de seis mulheres aristocráticas montam um clube de leitura e estudos e, periodicamente, se reunem para discussões de "alto nível intelectual". Mas a verdade é que elas não sabem nada e fazem isso apenas pela aparência. Até que uma delas volta de uma viagem do Brasil e passa a ser ridicularizada pelo restante do grupo. Durante uma reunião, convidam para o almoço a autora do livro que vinham discutindo e elas ficam perdidas quando a autora, de sacanagem, começa a fazer perguntas cabeludas as quais elas nao conseguem responder. A mulher que voltou de viagem aproveita a brexa e, também por sacanagem, diz que elas estão sem conseguir responder porque nos últimos tempos estavam muito preocupadas com um tema importantíssimo: o "Xingu". Ninguém sabe o que é Xingu, mas todas conduzem a conversa como se soubessem do que estão falando e acaba sendo muito engraçado. 

Eu amo Edith Wharton. Acho uma pena ela não ser muito conhecida no Brasil e não ter mais obras traduzidas. Alguns contos ou passagens mais descritivas têm uma leitura mais difícil. Enfim, leitura magnífica e recomendadíssima. 

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No Brasil, Ethan Frome foi lançado pela Editora Penalux, com tradução de Chico Lopes, em 2017. 

Goodbye, Columbus and five short stories - primeira vez lendo Philip Roth nos Estados Unidos

Venho lendo Philip Roth desde 2019, mas esta foi a primeira leitura que fiz nos Estados Unidos. Não é que tudo mudou, mas algo mudou. 

Goodbye, Columbus and five short stories foi o livro de estreia do autor em 1959. Diferentemente dos outros que eu já li, este tem um ritmo mais tranquilo. Não tem aquela velocidade verborrágica de O Complexo de Portnoy ou Pastoral Americana. Adeus, Columbus se passa durante as férias de verão e descreve o romance entre Neil Klugman e Brenda Patimkin. Os dois são de família judias, mas a de Neil é pobre. Seus pais moram em outro estado e ele vive de favor com seus tios. Neil é também o narrador da história e tem um trabalho de baixa remuneração na Biblioteca Pública de Newark. 

Ele conhece Brenda na piscina do clube que está frequentando. A família de Brenda tem uma situação financeira muito mais confortável. Ela é estudante em Radcliff College, Massachussets, e está passando as férias de verão com sua família em Newark. São pelos olhos de Neil que conhecemos Brenda, uma moça atlética, bonita, inteligente, e a sua família. Quando Neil é convidado para jantar com os Patimkin, é com Neil que entramos nos cômodos da enorme casa onde boa parte da história se passa, visualizamos o jardim, acompanhamos a rotina e  conhecemos as personalidades dos integrantes daquela família. 

A diferença entre os Klugman e Patimkin vão além do dinheiro. A mãe de Brenda se diz ortodoxa, seu marido é conservador e Brenda, segundo ela, não segue nenhuma linha. Quando Mrs. Patimkin pergunta para Neil qual corrente ele seguia e qual Sinagoga frequentava, Neil responde "- Eu sou apenas judeu". 

Eu gosto muito como Roth coloca essas questões de identidade, religião e família dentro do espaço doméstico e das relações mais cotidianas da vida, pois são nesses momentos onde as diferenças se tornam mais problemáticas. Estes elementos já eram bem sensíveis para mim nas outras leituras, mas este livro trouxe uma vivência nova para mim. Aqui nos Estados Unidos estamos entrando na primavera depois de um frio horroroso, as temperaturas estão subindo, e as aulas já acabaram para dar início às férias de verão. Aqui as estações são muito bem demarcadas e há uma vontade coletiva de aproveitar cada segundo as altas temperaturas do verão. Por isso, as férias longuíssimas que começam em maio e vão até meados de agosto. 

Brenda estuda em Massachussets, na Nova Inglaterra. Um lugar frio e desagradável (eu acho desagradável sim) para passar de 3 a 4 meses na casa dos seus pais apenas curtindo as férias e o calor, indo para a piscina, jogando tênis, saindo com os amigos. É um momento fora da realidade. Com data e hora para acabar. Já aprendemos nos filmes da Sessão da Tarde que qualquer romance que começa numa férias de verão é como um sonho e que, na chegada do outono, precisa encarar a realidade. Assim, já é esperado que Brenda vá embora de Newark no fim das férias. A dúvida que resta é como será o desfecho do romance entre o casal. 

Ler ou já conhecer o lugar sobre o qual o autor fala também nos dá uma dimensão muito palpável do que ele está descrevendo. Na passagem em que Neil e Brenda vão para New York para que ela se consulte com um médico em frente ao Central Park, eu senti que estava lendo algo muito familiar. Por mais que seja uma delícia voar para outros mundos e realidades através da leitura, a proximidade com certos elementos - como a descrição da esquina onde estava o consultório - cria uma relação diferente - diria até íntima - com o autor e sua obra. 

É uma história curta, gostosa de ler. As questões das famílias judaicas americanas ficam nas entrelinhas - salvo alguns momentos específicos como este breve diálogo entre Mrs. Patimkin e Neil. É um ótimo livro inicial para quem nunca leu Roth, pois O Complexo de Portnoy pode assustar um pouco, e Pastoral Americana e A Marca Humana é de uma leitura frenética que nos impede de suspirar. 

Junto com Goodbye, Columbus, vieram cinco contos - ou short stories. Algumas já haviam sido publicadas em revistas. Mais uma vez vemos elementos como identidade, subjetividade, as famílias judias nos Estados Unidos e seus descendentes, os dogmas e fanatismo religioso. Veja o que eu acho louvável em Roth: em seus livros - e nestes cinco contos - ele fala do deslocamento do homem judeu nascido na América, o preconceito, a sensação de estar fora do lugar, os traumas históricos, colocando um olhar crítico também dentro deste círculo. Seus ataques afiados não se limitam do fora para dentro dessa comunidade, mas também traz críticas severas que ficam dentro deste grupo. Não há vítimas nas histórias de Roth. Todo mundo é ambíguo e problemático: quase uma questão genética. 

Dentre os cinco contos, The Conversion of Jews, Defender of the Faith e Eli, the Fanatic, foram meus favoritos. Na primeira, um menino judeu curioso chamado Ozzie, pergunta ao Rabino por que Deus, que é absolutamente todo poderoso, não poderia ter engravidado Maria sem relação sexual e, portanto, ter tido um filho com ela. Por que, ele se pergunta, se Deus criou até a luz, ele nao poderia ter um filho sem penetração com uma mulher? O resultado para o pequeno Ozzie não é agradável. Ao invés de receber uma resposta satisfatória, ele apanha do Rabino e sangra. Sua mãe também reprova seus questionamentos. No dia seguinte, ele sobe no telhado e, diante de uma ameaça, faz todos reconhecerem que Jesus era sim filho de Deus. Neste conto, Roth faz uma alusão à passagem bíblica Romanos 11:25, que prevê a conversão de todos os judeus ao cristianismo como um evento do fim dos tempos. Roth é sempre muito simbólico, mas este conto consegue ser desesperadamente simbólico. 

O segundo conto dentre meus favoritos, Defender of the Faith, conta a história de um tenente judeu americano, Marx, que lutou em batalhas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial e agora está recrutando e treinando novos soldados em Missouri. No seu campo de treinamento ele conhece três soldados judeus e um deles, Sheldon Grossbart, procura insistentemente benefícios e regalias justificando a origem judia comum entre eles. Ele se diz defensor da fé por requisitar dias de descanso, saídas para almoço em família, comida kosher e tudo o que lhe permitisse continuar com os rituais religiosos apesar do ambiente e rotina militar. 

Num determinado momento, o superior de Marx, o Captain, fala para Grossbart que Marx estava há 3 anos e dois meses no exército, sendo um ano em combate, e que o Lieutenant nunca havia pedido saídas especiais, tampouco comida diferente. Grossbart responde que isso acontece porque algumas coisas são mais importantes para alguns judeus do que para outros. E o Capitão responde:

- Look, Grossbart. Marx, here, is a good man - o goddam hero. When you were in high school, Sargeant Marx was killing Germans. Who does more for the Jews - you, by throwing up over a lousy piece of sausage, as piece of first-cut meat [porque não são kosher], or Marx, by killing those Nazi bastards? If I was a Jew, Grossbart, I'd kiss this man's feet. He's a goddam hero, and he eats what we give him. 

Olhando este diálogo, fica a questão: quem é aqui o defensor da fé? 

Enfim, quando publicado, este conto foi muito mal recebido pela comunidade judaica, que acusou Roth de ser um self-hating jew. 

Finalmente, Eli, the Fanatic, conta a história de Eli, um advogado judeu que mora numa comunidade com protestantes que se vêem "ameaçados" pela chegada de judeus ortodoxos. Fugindo dos combates da Segunda Guerra, estes judeus se instalam nessa pequena cidade americana com vários meninos e começam a montar uma escola Talmund Torah. A violência já começa com a tentativa de segregação no processo jurídico que a atual comunidade - de judeus e protestantes - querem abrir contra a instalação dos recém-chegados.  Mas tudo ganha uma nova dimensão quando o advogado veste as roupas negras do seu "inimigo" e ele mesmo se torna o "outro". 

Recomendadíssimo. Com certeza um dos melhores livros que lerei este ano. Vi na Amazon Brasil que tem uma edição da Companhia da Bolso e disponível também para Kindle. 

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Alguns links interessantes: 

Retrospectiva sobre a publicação de Defender of the Faith, em 1959, pela The New Yorker. Matéria publicada em 2010.

Conto Defender of the Faith. The New Yorker, 1959.

A boy and His dogma: On Philip Roth's "The Conversion of the Jews", by Michael Byers, at Fiction Writers Review. 

Porque não gostei de Norwegian Wood - o livro, não a música

Depois da leitura pesada que foi Silvina Ocampo, pensei em ler algo que fosse mais minha zona de conforto. Logo veio à minha mente Haruki Murakami, pois há muito tempo não lia nada deste autor, apesar de sua vastíssima obra e da forte simpatia que eu tinha com os livros que li. Eu não queria fugir dos elementos fantásticos que tanto nos lembra os contos de Silvina Ocampo, mas eu queria algo mais leve e encantado. 

Adorei Kafka a Beira Mar: uma releitura da tragédia de Édipo, com os gatinhos que se comunicam com um dos protagonistas, etc. Amei. Depois, Caçando Carneiros foi um dos meus livros favoritos da vida. Finalmente, a trilogia 1Q84, que eu achei divertidíssima e envolvente. 

Então fui para Norwegian Wood, que é uma das obras referências do autor japonês. Sua escrita é sedutora. É muito fácil ler Haruki Murakami. E por isso eu fui. Fui... Fui. E só foi piorando. Não que o começo tenha sido ruim, mas do meio para o final foi péssimo. 

Foi publicado em 1987. Trata-se de um romance de formação. A história é contada por Toru Watanabe que, mais velho, relembra seus 17 e 20 anos durante os anos de 1968-1970 no Japão. Tem todos os elementos clichês para qualquer história de adolescente/ jovem adulto desta época: muita música, protestos, greves, sexualidade, álcool, depressão, retiros alternativos. Só não tem drogas. Boa parte da história se passa num alojamento masculino cheio de universitários e não tem... Drogas. Ok. Isso não é tão importante assim. 

O problema, a meu ver, são dois. O primeiro, não gostei como a depressão e o suicídio são tratados no livro. Vários personagens têm problemas depressivos profundos e vários se matam. Parece que mais personagens comentem suicídio do que chegam vivo até o final. A discussão que permeia toda a narrativa é "quem é normal e quem não é", ou "o que é ser normal?". Bom, tudo bem, o livro foi escrito em 1987, mas o máximo que acontece é um tratamento alternativo num retiro de pacientes que não tem acompanhamento médico convencional. Ou seja, eles estão lá para "se" tratar com o ar das montanhas, cuidando de passarinhos e conversando bastante. Enfim, uma abordagem completamente "antivax". De novo, compreendo que é uma obra de 1987 falando de um período de 20 anos atrás, mas faltou um "q" de levar essa situação um pouco mais para além de "tristeza-não-faz-de-ninguém-anormal-vamos-aproveitar-a-natureza-porque-as-montanhas-são-lindas-e-tudo-o-que-você-precisa-é-boa-vontade-para-se-curar". 

O segundo tem a ver com críticas que olhei de relance por aí na internet e para o qual eu sempre fiz vista grossa: as personagens femininas de Murakami. Nas outras obras que li, não tive nenhum problema com as personagens femininas, achei que ou elas não apareciam e não eram importantes para a história, ou então eu até gostava delas. Em 1Q84 eu adoro a protagonista. 

Porém, em Norwegian Wood, um livro que trata justamente sobre o "despertar', vamos dizer assim, da sexualidade do protagonista, as mulheres aparecem como bonecas/fantoches sexuais, com diálogos completamente apelativos e ridículos. Sinceramente, fica parecendo muito menos um romance de formação e muito mais os devaneios de um adolescente bobo egocêntrico cheio dos hormônios. Podemos falar que o narrador é em primeira pessoa e tudo o que nos conta é uma digressão e, portanto, pode ser essa imaginação mesmo e acabamos sendo enganados. Tudo bem, isso é até válido. O problema é que a leitura se torna um clichê sexual tosco cansativo e misógino. 

Uma passagem lamentável é quando uma das personagens, na casa dos 40 anos, paciente da tal clínica alternativa, vai contar para o protagonista o episódio que a levou a esta situação. São páginas e páginas de sua história: ela era professora de piano, na casa dos 30 anos, bem casada e com uma filha bebê. Uma de suas alunas de 13 anos a seduz e elas vão para a cama. Depois, tanto o sentimento de culpa quanto o julgamento de seus vizinhos a destrói. São páginas e páginas de descrição desta cena de pedofilia, onde a menina de 13 anos seduziu a professora, e - o mais importante - tem absolutamente nenhuma conexão com o antes e o depois da história. É uma narrativa, dentro de outra narrativa, puramente pela descrição sexual de uma mulher e uma adolescente.

Tenho a impressão de que é um livro adorado por leitores homens. O que é uma tristeza. Eu adoro romances de formação, adorei as outras obras de Haruki Murakami, e talvez passe algum tempo agora para eu ler outra obra do autor. 

Enfim, pela primeira vez na vida, vou dar apenas uma estrelinha de avaliação para uma leitura. Recomendo, no entanto, Caçando Carneiros. 

Releitura e breves observações de A Fúria e outros contos, Silvina Ocampo

Li pela primeira vez  A Fúria e outros contos em 2019, quando foi lançada pela Companhia das Letras. Publicada na Argentina em 1959, foi a primeira vez que estava sendo publicada no Brasil esta coletânea de contos da escritora argentina Silvina Ocampo (1903-1993).

Os únicos livros que consegui trazer comigo do Brasil para os EUA são os e-books. 
Só pude reler Silvina Ocampo graças a essa conveniência enorme do Kindle! 

Voltei à obra por dois motivos. Primeiro, porque Lucia Berlin fez eu olhar com outros olhos para contistas mulheres. Quis revisitar este gênero escrito por outra mulher de outra parte do mundo que, entretanto, estava escrevendo ao mesmo tempo que Berlin. Segundo, porque lembrava do horror e do tom sombrio dos contos e achei que seria interessante escrever sobre ele para o Querido Clássico. Talvez eu o faça no futuro, mas por enquanto esta ideia foi engavetada. 

A Fúria é uma personagem da mitologia grega. De acordo com a sábia Wikipedia, são "entidades da vingança". Na verdade, Fúria é o termo romano. Em grego, são Erínias. Estão presentes no submundo, e são representadas pela imagem de mulheres horríveis e aterrorizantes. Elas seriam o equivalente aos nossos "diabinhos" no inferno punindo as almas condenadas. 

Silvina Ocampo foi esposa de Adolfo Bioy Casares e bastante amiga de Jorge Luis Borges. Era a mais nova de seis irmãs e sua irmã mais velha, Victoria Ocampo, teve também bastante reconhecimento como escritora. No meio de tantas personalidades, Silvina acabou sendo deixada de lado e não recebeu a atenção que merecia. Talvez pelo círculo literário que faz parte, alguns dizem que seus contos podem ser classificados dentro do realismo mágico, mas eu não concordo. Vi uma análise em algum lugar que também defende meu ponto de vista: seus contos não chegam propriamente ao fantástico, mas tratam com muita força o abismo e escuridão humana de forma onírica. Ou seja, muitas vezes a narrativa faz parecer que estamos lendo um sonho. 

Em sua grande maioria, os contos se passam dentro do ambiente doméstico e têm como protagonistas crianças, mulheres, esposas. O "fantástico" de Silvina Ocampo está no fato de falar desses lugares e dessas histórias sob um outro ponto de vista - mais obscuro. Inspirada aqui pela série Stranger Things, é como se as histórias se passassem no mundo invertido. 

Estes espaços são como submundos, enquanto as crianças e donas de casa, longe de serem passivas, submissas e sofredoras, são as Fúrias. As "brincadeiras" e os trabalhos domésticos, inclusive as boas ações (como, por exemplo, proteger uma criança de linchamento!), tornam-se meios de vingança e atos de crueldade. Outro ponto fundamental que me fascina muito nos contos de Ocampo: em nenhum desses atos estes "monstros" de carinha inocente são "castigados". Não existe moralidade. Nenhum ato cruel é julgado como "ruim". Pelo contrário, estes "monstros" saem triunfantes das histórias. 

É como se, realmente, estivéssemos no submundo da mitologia grega e os protagonistas fossem Fúrias. A diferença, no entanto, está na aparência. Ao invés de mulheres aterrorizantes, são donas de casas comuns e crianças. 

Comparando as personagens femininas de Berlin e Ocampo, nos contos da primeira a realidade é um soco no estômago. São mães e esposas que se sentem sufocadas pela solidão e abandono dentro de suas funções domésticas e fortemente relacionadas ao ambiente: New York, Oklahoma, Albuquerque, e Santiago, Chile. Em Ocampo, reina a universalidade: estas mesmas personagens estão limitadas pelas funções domésticas e poderiam se passar em qualquer lugar do mundo - apesar de algumas referências de Buenos Aires aqui e acolá - e sua resistência contra o machismo e patriarcado são suas "inocentes" crueldades. As mulheres de Ocampo têm um cinismo particular cuja luta vai terminar de alguma forma dramática e trágica - elas conseguem se vingar e triunfar. As mulheres de Berlin, muito mais realistas, travam uma luta incessante e sem fim. 

Esse livro é maravilhoso. Sinceramente acho a capa da edição da Companhia das Letras lastimável de horrorosa, mas os contos são incríveis. Entre meus favoritos estão: A continuação, A Casa de Açúcar, O Rebento, As fotografias, Nós, A fúria, Voz ao Telefone, 

A Sucessora: nostalgia, futuro e eleições 2022

Um rápido comentário sobre A Sucessora porque o tempo tá passando, outros livros estão sendo lidos e este está ficando cada vez mais longe no tempo. Aviso: quis discutir um pouco como li o desfecho do livro, então tem spoiler! 


Em A Sucessora, Carolina Nabuco coloca uma questão que me é muito cara na cultura brasileira: a nostalgia. A maior herança que tivemos dos portugueses e que, até hoje, alimentamos e cuidamos com zelo através da nossa língua, é essa nostalgia que nunca nos deixa olhar para frente. A maldita palavra "saudade" que só existe no português... 

Olhamos sempre para o passado com um olhar saudosista. Aprendemos, desde pequenos, que no "passado isso ou aquilo era muito melhor".  Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém mais velho dizer isso. Por isso que gostei tanto de A Sucessora. Carolina Nabuco trata a questão da nostalgia de maneira muito delicada e central na trama. Marina é a representação desse Brasil colonial completamente idealizado, de um sentimento nacional que nasceu dentro das grandes fazendas cafeeiras, escravocratas, onde a natureza nacional era reverenciada e a relação Casa Grande e Senzala era falsamente pensada como harmoniosa. 

Enquanto Alice e Roberto são o Brasil republicano, urbano, industrial, de empregados dos casarões que são apenas empregados e não a extensão da família. São o casal cujo luxo e diversão são importados e copiados da cultura europeia. Alice e Roberto são a cara do futuro do Brasil e Marina é o passado. 

Mas, é claro, assim como não sabemos o que levou à morte de Alice - sabemos somente que ela estava doente - o Brasil como nação nunca poderia seguir em frente sem olhar, depender e amar o seu passado. Por mais progressista, o Brasil precisa de suas raízes nostálgicas para se ver como nação. Por isso que, alegoricamente, Alice morre e deixa Roberto sem herdeiros. 

E então o Brasil do futuro e do passado, num dia de festa, se encontram e se apaixonam instantaneamente. Marina e Roberto logo se casam. O futuro é urbano e Marina sai da fazenda para morar na casa de seu marido na capital. Lá, a sensação é de que a falecida esposa de Roberto, Alice, a está assombrando, como se ela não fosse boa o suficiente para Roberto, como se ela não estivesse sendo uma boa esposa, ou, então, como se ela estivesse tentando roubar aquele lugar. 

Enfim, Marina sente-se perseguida. Ela está sempre olhando para trás. O passado se sente ameaçado pela figura do futuro. Ela lamenta esse ambiente, sente-se sufocada e gostaria de voltar para a fazenda. É só no momento em que Marina 

"compreendeu que era filha desta terra brasileira, filha até a medula, desta natureza misteriosa e temível, onde lutaram seus avós, e de onde lhe vinha essa nostalgia da alma que a perseguia na vida"

que a moça consegue olhar para frente, realizar-se com o futuro. E o futuro, no Brasil, vem na forma de herdeiro: o progresso, pelo pai Roberto, e a nostalgia profunda da alma pela mãe, Marina. 

Terminei de ler o livro em meados de dezembro. Havia outras tarefas na frente e deixei para publicar agora esta resenha. Qual a minha surpresa, dia 1 de janeiro de 2022, ver pessoas tão jovens, da minha geração e mais novos, comemorando o ano novo com "2002", referindo-se às eleições em Outubro e Lula eleito. 

A nostalgia, no Brasil, não tem idade. Muitos comemorando Lula 2002/22 eram crianças no primeiro mandato do ex-presidente! Enfim, desde muito novos olhamos para o passado - às vezes um passado que nem vivemos, mas um passado absolutamente sempre idealizado, e ficamos sempre repetindo. No Brasil, não há espaço para o novo, para o progresso. Só há espaço para Marinas, que ficam olhando o passado, sentem-se assombrados, e reproduzem uma tentativa de progresso sem se desprender de suas raízes coloniais.

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A Sucessora (Carolina Nabuco)

Evening in Paradise, a continuação de Manual da Faxineira, Lucia Berlin

Eu tenho essa mania de retornar a autores que eu gostei muito num espaço curto de tempo. Sou um pouco repetitiva? Talvez. Depois de A Época da Inocência, repeti Edith Wharton com A Casa da Alegria. Agora, dobradinha com Lucia Berlin. Gostei tanto de Manual da Faxineira, me senti tão envolvida e mergulhada em seus contos, que não pensei duas vezes em ler Evening in Paradise, outra coleção de contos da autora e ainda não publicada no Brasil. 

Nesta coletânea, os contos têm os mesmos cenários, as mesmas temáticas, a mesma força narrativa, mas parece uma continuação de Manual.  Em Manual, somos apresentados ao "universo Lucia Berlin". Demora um pouco para a gente conseguir mergulhar de cabeça e começar a se sentir familiarizada com a narrativa. Como as estórias são inspiradas em sua própria vida, personagens e lugares vão se repetindo nos contos, mas nada é explicadinho. É com a leitura de conto atrás de conto, página após página, que vamos montando esse "quebra cabeça" da vida da autora. 

A leitura individual dos contos de Lucia diz bastante, mas é no conjunto, como se fossem capítulos de uma grande estória, que os contos ganham mais poder narrativo. Por isso senti que eu já cheguei preparada em Evening in Paradise: apesar de nomes trocados, eu já pude identificar quem eram os personagens e quais os momentos da vida de autora. Recomendo, justamente, fazer este caminho. Primeiro Manual da Faxineira e depois Evening in Paradise, porque me parece que os contos aqui são menos óbvios, menos "explicados". Me parece que eles já pressupõem uma certa familiariade. 

Não vou me estender nesta resenha porque pretendo escrever um texto sobre Lucia Berlin para o site Querido Clássico (depois atualizo este post com o link), mas gostaria de registrar brevemente o caminho que os contos percorrem em Evening in Paradise.

Os contos seguem uma ordem cronológica e começamos durante sua infância na casa de seus avós, enquanto seu pai está na guerra. Lucia nos conta sobre o Texas, os mexicanos e a família síria vizinha. Depois partimos para Santiago, Chile, onde a adolescente Lucia nos conta um pouco sobre suas amizades, sua mãe alcoolatra e sua sexualidade. Em Itinerary, uma descrição lindíssima de seu longo caminho entre Santiago, Chile, para o college em New Mexico. Um caminho com várias paradas: Santiago - Lima - Panama - Miami - Albuquerque, New Mexico: a mudança da estação, as pessoas que conheceu pelo caminho, o abandono de sua vida confortável e familiar para a solidão da vida adulta no destino final. 

A partir daí, o fim precoce de sua vida colegial e o início prematuro da vida de esposa, mãe e dona de casa. Relacionamentos amorosos, drogas, álcool, Nova York, Natal em família no Texas, resort de férias no México, touradas, a fragilidade da vida e a presença constante da morte. Como na primeira coletânea, muitos cenários, muitos temas, mas a solidão, o deslocamento e a busca constante de sentir-se parte de algo, de um lugar, continua presente. Uma espécie de autobiografia completamente ficcionalizada. 

Tomara que esta coletânea seja logo publicada no Brasil, pois é uma linda continuação do Manual da Faxineira, indispensável para quem leu Manual e se sentiu encantado. 

Jogo, luxo, solidão e casamento em A Casa da Alegria, de Edith Wharton

O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.

Eclesiastes 7:4


Quando a gente gosta muito da leitura de um livro, é perigoso emendar outro em seguida do mesmo autor. Pode gerar comparações injustas, ou uma leitura bastante enviesada. Definitivamente, não foi o que aconteceu com a minha segunda experiência literária com Edith Wharton. 


Muito recentemente terminei A Época da Inocência. Um livro para o qual eu me entreguei. Eu li com atenção e até carinho. Tanto que escrevi uma análise bastante cuidadosa para o site Querido Clássico. Quando comecei, portanto, A Casa da Alegria, eu já sabia o ambiente que devia esperar: a cidade de Nova York na virada do século XIX-XX, as carruagens, os casarões da Quinta Avenida, os vestidos, viagem e todo o luxo da sociedade aristocrática desta época e lugar. O que eu não esperava era uma protagonista tão intensa e complexa cujas idas e vindas são tudo, menos fáceis de encarar. Foi como se A Época da Inocência tivesse preparado o terreno para uma leitura que seria ainda mais envolvente e cheia de desolação para mim. 

Em A Casa da Alegria acompanhamos dois anos da jovem nova-iorquina Lily Barth. Aos 29 anos, possuidora de grande beleza, Lily está a procura de um casamento que continue financiando seu gosto pelo luxo, pelo belo, fins de semana e viagens com a aristocracia e suas jogatinas. Lily foi criada em meio ao luxo, mas ficou orfã ainda criança. Depois que perdeu todo o dinheiro, seu pai morreu e, pouco tempo depois, sua mãe. Criada por uma tia, Lily tem uma pensão e seus custos de costureira assumidos pela protetora, mas isso é insuficiente para seu estilo de vida. Depois de perder o pouco que tinha em jogo de cartas, Lily toma decisões desacertadas uma atrás da outra, até que fica sem saída. 

O tema “jogo” permeia toda a narrativa, como se tudo o que Lily tem e deseja estivesse em aposta. As relações sociais é um grande jogo nos quais os personagens estão, a todo momento, querendo “ganhar” e Lily, assim como com as cartas, tenta manter o controle das situações, mas sempre acaba vítima das melhores cartas que estão na manga dos outros. Tudo porque Lily, apesar de seu gosto pelo belo e pelo luxo, ainda sonha com o matrimônio por amor, o que é quase incompatível no meio social que frequenta.

Apesar de gostar de Lawrence Selden e por ele sentir afinidade, Selden é um advogado, não é rico, nem aristocrático. Pior, ele é aquele ombro amigo que diz ajudar, mas quem mais julga o gosto e as amizades aristocráticas de Lily apesar de ele mesmo não escapar deste entorno. 

Gus Trenor, marido de Judy Trenor e amiga de Lily, diz ter especulado com o dinheiro de Lily na Bolsa de Valores e lhe entrega um lucro de 9 mil dólares. Na hora de cobrar sua comissão, descobre-se que ele tirou de seu próprio bolso esse dinheiro e cobra de Lily um pagamento que não é material. Como narrar uma cena de estupro em 1902, ano da publicação do livro? Como colocar tamanha violência em páginas num contexto de tempo e lugar que nunca admitiria uma narrativa assim publicada? Edith Wharton, com toda sua genialidade, consegue essa proeza. Ela coloca toda a dor, o sofrimento, o sentimento de solidão e culpa da vítima e os olhares julgadores da sociedade de modo a não deixar dúvidas que, apesar de não dito, uma violência foi consolidada. 

Ainda temos o judeu Simon Rosedale, um capitalista em ascensão que está enriquecendo e aumentando sua reserva e fluxo de dinheiro. Ele almeja fazer parte destes círculos aristocráticos e, por isso, vê no casamento com Lily uma porta de entrada. Lily o acha desprezível, mas quando percebe que sua vida está em maus lençóis, aceita o pedido de Rosedale, que retira a oferta. Em nenhum outro diálogo literário vi a mulher e o casamento tão bem descritos como uma mercadoria. Uma moeda de troca. Um papel na bolsa de valores que, conforme o contexto, pode ter seu valor em alta ou em queda. 

Finalmente, George Dorset, que propõe um casamento com Lily como forma de vingança contra sua esposa, Bertha Dorset. Ambos foram vítimas de uma situação criada por Bertha que faz todos acreditarem que Lily e George tinham um caso. Um casamento entre eles, nas condições que são colocadas, seria uma volta por cima e um “cala boca” contra Bertha. 

Lily tem ainda um segredo em suas mãos que envolve alguns destes personagens, mas ela decide manter-se firme, justa, não faz uso desta “carta” e decide procurar um emprego. Tenta sobreviver com a ajuda da única amiga que não lhe deu as costas, mas tudo torna-se cada vez mais difícil. Pequenas situações vão sendo criadas e cada vez mais ela vai sendo isolada de sua sociedade. Mas é como se, sem um casamento, ela não conseguisse. Não importa o quanto tentasse e o que fizesse, a impressão é que Lily seria mau vista, manipulada e desamparada enquanto estivesse solteira e só um casamento poderia salvá-la. Além disso, a dívida com Gus Trenor vai consumindo seu coração e suas noites... Até que uma hora ela não consegue mais dormir e não dá mais. 

Neste romance, Edith Wharton constrói personagens dúbios e situações constrangedoras que nos fazem nos sentir desconfortáveis. A autora também consegue nos passar o sentimento crescente de solidão. A cada página, junto com a situação cada vez mais difícil de Lily, a desolação vai crescendo em nós leitores. Um desespero que culmina em tristeza e desamparo. Muito recentemente a José Olympio do Grupo Editoral Record lançou uma nova edição com tradução de Julia Romeu. Recomendo fortemente. 

O título A Casa da Alegria vem do livro de Eclasiastes 7:4. É como se o coração de Lily, enquanto vivia de forma tola e descompromissada em seu círculo rico e aristocrático, fosse feliz – ou pelo menos se sentia feliz. Mas conforme seu mundo vai se tornando nu e cru, o lado mais perverso das pessoas vão sendo escancarados e sua preocupação com dinheiro lhe consome, seu coração cada vez mais caminha em direção à casa do luto e lamento. 

Quando o livro é bom, mas os santos não batem

Antes de virar o mês, um rápido registro sobre a última leitura finalizada. Vai ser rápido porque não vou ficar aqui reclamando. Se for para falar muito, que seja para falar bem. 

A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin, foi um dos livros mais arrastados que eu li na vida. Eu não sei como não desisti. É um gênero totalmente fora da minha zona de conforto. Não costumo ler fantasia e muito menos ficção científica. Na virada de 2020-21, li a trilogia "O Problema dos Três Corpos", de Cixin Liu e, por mais que eu tenha gostado dos dois primeiros volumes, o terceiro não consegui terminar. Quando a narrativa fica abstrata demais, eu não consigo acompanhar.

Cheguei em "A mão esquerda da escuridão" por causa do clube do livro do Querido Clássico. Eu gosto de ler autores novos, me desafiar em leituras desconhecidas e, por isso, acho que não desisti do livro. Infelizmente, não consegui participar do encontro. Tivemos feriado de Dia de Ação de Graças aqui nos Estados Unidos, fomos viajar, tivemos corrida de rua no dia, mais fuso horário, um cansaço enorme e eu dormi a tarde inteira perdendo o encontro. 

De qualquer maneira, eu dei uma chance ao livro até a última página e não gostei.

Eu li algumas resenhas e achei que o livro merece a importância que ele tem. É bastante original o universo criado pela autora. Também reconheço o valor de uma mulher escrevendo ficção científica, um gênero tão dominado pelos autores homens. 

Mas, infelizmente, não deu. Eu demorei muito para compreender e engatar naquele universo. Ela já chega contando as coisas e a pessoa sem imaginação aqui sentiu falta de uma introdução. Fiquei perdida demais até meados do livro. Quando um dos protagonistas é capturado e levado para uma espécie de campo de concentração daquele planeta onde se passa a história, ficou mais interessante, mas ele logo é resgatado pelo outro protagonista e, pelas 100 páginas seguintes, eles atravessam um deserto de gelo. Tão difícil para eles quanto para mim, que achei a leitura desta parte tão desolada quanto o próprio cenário. Me deu sono, cansaço, preguiça e uma dificuldade imensa de continuar. Neste aspecto, muito realista a narrativa.

Única coisa que lamento foi não ter consigo participar do encontro, mas ler um livro e não gostar faz parte. Quanto mais a gente lê e se expõe, maiores as chances de encontrarmos algo com o qual não temos afinidade. 


Manual da Faxineira, de Lucia Berlin: seus contos são como um mergulho em alto mar

Tem uns livros que mexem com a gente e se tornam marcos de passagem. A gente é um antes e se torna outro depois que acabaram as páginas. Claro que são pouquíssimas as obras que conseguem ganhar essa estrelinha de reconhecimento. No meu caso, A Manual for Cleaning Woman de Lucia Berlin (1936-2004) ganhou. Não é só por causa do livro em si. Para ganhar esse status, a obra precisa ser também lida no momento certo. Há um ano, Lucia Berlin não teria me tocado tanto como agora. 


A Manual for Cleaning Woman foi traduzido e publicado no Brasil com o título "Manual da faxineira" pela Companhia das Letras, mas eu peguei o livro na NYPL e foi em inglês mesmo. Cheguei até ele porque no curso de crônica que fiz pela Escrevedeira, o professor discutiu as diferenças e semelhanças entre os gêneros conto e crônica e, entre outros exemplos, nos enviou o conto Melina. 

Quando comecei a ler Melina, foi como um mergulho em alto mar sem tanque de oxigênio. Conforme foram avançando os parágrafos, eu ia cada vez mais fundo. Eu estava tão envolvida que praticamente não conseguia piscar. Quando acabei, foi como se em apenas um segundo eu estivesse na superfície recuperando o fôlego. Não são todos, mas são quase todos os contos escolhidos para esta coletânea trazem essa experiência. No texto de introdução da coletânea, Lydia Davis se pergunta "por que não conseguimos parar de ler um conto de Lucia depois que começamos?". Ela traz algumas respostas técnicas, mas para mim, no meu caso, é porque eles estavam falando diretamente comigo. 

Lucia Berlin nasceu no Alasca numa família americana, morou em algumas cidades dos EUA e viveu com seus avós maternos no Texas enquanto seu pai combatia na Segunda Guerra Mundial. Quando retornou, a família mudou-se para o Chile, onde ela passou boa parte da infância e adolescência. Ela voltou para os EUA somente quando começou o college em Albuquerque, New Mexico. Berlin nasceu com um problema grave na coluna, ela não viveria muito nem poderia ter filhos, disseram os médicos. Mas acabou se casando três vezes, teve vários amantes e quatro filhos. Trabalhou como recepcionista em hospital, diarista, professora, e foi mãe e dona de casa. Enfrentou anos de alcoolismo e por muito tempo lutou contra sua dependência. 

É desse cenário, a sua própria vida, que Berlin tira as referências para escrever seus contos. Li por aí que ela escreve autoficção. Não vou entrar na questão técnica, mas adianto que para mim autobiografias e biografias já são um tipo de ficção. Por que dizer que a água é molhada? Acho que suas histórias são tão bem narradas e envolventes que o leitor fica procurando "verdades", mas como é impossível negar a ficcionalização diz que é "autoficção". Berlin não escreve seus contos dizendo que são autobiográficos tampouco se os fatos narrados aconteceram de verdade, ela diz que o que importa "é a estória"*.  

Manual da Faxineira tem 43 contos que têm como cenário os lugares onde Berlin viveu e as pessoas com quem conviveu. Eu não li tudo de uma vez. Os contos são tão envolventes que no meio fiz uma pausa. Li outros dois livros neste interim e só depois retomei. 

Alguns contos são sobre coisas aparentemente banais, como os que se passam nas lavanderias coletivas: é como se nós ficássemos um dia como turista (ou antropólogo) em lavanderias norte-americanas com Berlin vendo como funciona essa lavação de roupa que máquinas, secadoras e espaços são divididos com pessoas tão diferentes. Justamente neste momento em que me mudei para os EUA e estou tendo que aprender a usar estas máquinas e dividir a lavanderia com desconhecidos. Um "lugar" que fica exatamente na divisão entre o  público e privado. Pessoas que você nunca viu e nunca verá novamente vê as roupas que você usa em momentos de intimidade e você vê as delas. Pessoas que dividem com você uma atividade doméstica fora de casa. 

Os contos de sua adolescência no Chile me tocaram de forma profunda. Principalmente porque muito recentemente eu vi os Andes, os chilenos e a Santiago sobre a qual ela fala. Em um conto, quando é mencionada a Embaixada dos EUA, eu pude com muita clareza visualizar o prédio e lembrar do dia que eu estive lá. Seu conto era tão real. Tão palpável. Era como se as palavras pudessem se materializar na minha frente.

Em Good and Bad, Berlin narra em primeira pessoa (acho que todos são em primeira pessoa, se não me engano) a relação de uma aluna e sua professora freira comunista. Foi uma das coisas mais incríveis que eu li em toda a minha vida e eu não estou exagerando aqui. Good and Bad  é sobre a adolescente Lucia, americana, estudando e vivendo no Chile, seu pai é funcionário do governo dos EUA, e uma de suas professoras tenta convencê-la de que aquele seu mundo rico e privilegiado é opressivo. Por isso, passa a levá-la, todo fim de semana, em orfanatos, instituições de caridade, recitais de poemas e reuniões de agricultores e classe operária chilena para ela ouvir e conhecer "os oprimidos". 

Em nenhum momento Lucia fala de bem ou mal explicitamente, ela não discute moralidade em tons abertos, ela apenas vai narrando os acontecimentos e escancarando como tentar definir o que é bom e o que é mal na sociedade e na política é impossível e sufocante. Não há dualidade. Na verdade, só há lamento. Ela viveu no Chile nos anos pré-golpe e neste conto ela está descrevendo, do ponto de vista da menina estrangeira, justamente este momento histórico.

Mas Good and Bad é uma exceção, pois é o único que traz essa abordagem política de forma tão aberta. Os outros contos trazem as dores da existência e do constante sentimento de estar fora de lugar no cenário mais cotidiano e banal.  A narradora dos contos está sempre deslocada, não importa onde e com quem ela esteja. 

Os contos que se passam no hospital são tristes. Trazem temas como infanticídio, alcoolismo, abuso infantil, aborto e a finitude da vida. São tratados com frases curtas, rápidas, e por isso parece que o mergulho é de uma vez só. Sua forma de narrar coloca lado a lado a normalidade e o choque que envolvem esses temas. 

Em Bluebonnets, a narradora é uma professora universitária de meia idade, que escreve poemas e faz traduções espanhol-inglês. Ela vai se encontrar com outro professor com quem tem se comunicado por cartas e cujo livro de crítica literária ela traduziu para o espanhol. Ele é misterioso, solitário, cuida com zelo de sua fazenda e, em sua mesa de trabalho, centenas de fichas de estudo. Ela é poetisa, solta, leve. Eles se envolvem de maneira fluída, natural a princípio, mas quando ela diz não entender o que ele diz, a relação fica tensa e impossível de ser quebrada. Ela diz que escreve, mas não entende a teoria sobre o escrever e que aquilo não importa para ela. Ele não compreende, afinal, ela traduziu os livros dele! Ele fica nervoso, se afastam e depois retomam a relação. É uma metáfora linda e intensa sobre a relação literatura e teoria. São conectadas, mas imposssíveis de viverem juntos.

Mijito é sobre uma moça jovem mexicana que, seguindo o amor da sua vida, entra nos EUA. Ele logo é preso por envolvimento com tráfico de drogas e ela fica sozinha. Ela mal fala inglês, não tem família e descobre estar grávida. É acolhida de forma temporária por conhecidos do marido, que a tratam mal, abusam de seu trabalho para serviços doméstico e fisicamente de seu corpo. 

Seu bebê nasce e chora. Chora muito. Ela não tem ninguém. Tudo acontece de forma que o labirinto que ela esteja vivendo fique cada vez mais complicado e impossível de achar a saída. Ninguém ajuda, explica, acolhe. O parágrafo no qual ela começa a enumerar o vocabulário em inglês que ela conseguiu apreender até ali é de cortar o coração. Ela está tão perdida e desamparada que o conto culmina com um dos finais mais tristes de toda a coletânea. 

Em  So Long, como um simples "Hello" pelo telefone pode fazer ela mergulhar na lembrança e na saudade de quem ela é ao falar inglês, depois de tanto tempo morando no México falando apenas espanhol. "Of course I have a self here, and a new family, new cats, new jokes. But I keep trying to remember who I was in English." 

Unmanageable é desesperador. Conto curto, poucas páginas. É sobre a agonia de uma mulher alcoolatra que acorda sufocada na madrugada e precisa de uma bebida, a todo custo, e ainda estar em casa a tempo de preparar o café da manhã para os filhos. 

Apesar de tantos cenários diferentes, o sentimento de deslocamento e solidão estão presentes em todos os contos. Eu sempre falo aqui que leitura, para mim, é experiência e que as resenhas deste blog não são uma análise "inteligente" dos livros que leio, mas sim um registro da experiência que tive com cada leitura. Pois bem, A Manual for Cleaning Woman foi uma das mais intensas dos últimos tempos. Me deixou feliz, triste, agoniada e pensativa. Recomendo para todos que estejam procurando uma narrativa envolvente que nos faz esquecer de comer e dormir para não abandonar a leitura. 


Obs: sobre o título desta postagem, em um dos contos a narradora passa um tempo com mergulhadores, num povoado isolado do México.  E é um conto tão mágico e envolvente que parece que podemos sentir a pele molhada e o cheiro do mar enquanto mergulhamos com ela. 

*Na introdução da coletânea Evening in Paradise, o filho de Lucia Berlin, Mark Berlin, diz: "Our family stories and memories have been slowly reshaped, embellished, and edited to the extent that I'm not sure what really happened all the time. Lucia Said this didn't matter: they story is the thing." 

Memórias, Patti Smith, Just Kids, Nova York e o 11 de Setembro - reflexões jogadas que dizem tudo e ao mesmo tempo nada

Na Broadway, altura 116, acontece às quintas e domingos uma feira de produtores. Tínhamos ido comprar uns leguminhos para o almoço e vimos uma barraca vendendo second-hand books. Na hora, os olhos do Allan vibraram. Eu sou um pouco resistente à ideia de comprar livros físicos. Nossa vida de mudanças e a situação intermediária de estar neste apartamento por no máximo dois anos me desanima a comprar algo que terá um peso daqui um tempo. Mas o Allan sempre me lembra que precisamos - também - viver o momento e ele se animou em marcar este início de nossa vida em Nova York com novos livros, comprados na Farmer's Market de Columbia. 

Havia uma boa seleção de titulos e quando vi Just Kids, Patti Smith, não pensei duas vezes. Que melhor leitura para marcar minha recente mudança para Nova York do que as memórias da poeta e cantora que começou sua carreira artística aqui - em Nova York? 



Memórias é um gênero interessante porque ele permite uma flexibilidade que outros gêneros englobados pelo guarda-chuva "escrita de si" não tem. Ao contrário de (auto)biografias, memórias tem um compromisso menor com a "verdade", ou com a "história". É um gênero mais flexível que permite ao narrador recortar o período e o tema que quiser de sua vida e contar, assumidamente, que aquele é seu ponto de vista e é dessa maneira que ele se lembra. 

É assim que Patti Smith nos conta sobre seus anos vivendo em Nova York e o início da sua carreira artística. Corajosamente, ela sai da casa dos pais com o mínimo de recursos possíveis e vai para a Big Apple. Passa fome, dorme nos parques, mas aos poucos vai conseguindo se instalar, arranja empregos que permite o mínimo de sustento e encontra Robert Maplethorpe. 

Just Kids é sobre Patti e Robert em Nova York. Não é sobre si que ela escreve, é sobre eles na cidade onde se conheceram e viveram. Depois de brevemente falar sobre sua infância, o livro começa com o encontro dos dois e termina quando Patti se casa, muda para Detroit e Robert, que permanece em Nova York, morre. Por isso, por mais flexível que o gênero memórias possa ser, é limitante pensar que Just Kids é só isso. É também uma homenagem a Robert. 




Uma homenagem póstuma belíssima. Patti fala sobre Robert com carinho e uma humanidade gigantesca, sem cair em pedantismo. Temas como sexualidade, drogas, BDSM e arte são tocados com naturalidade. Sem julgamentos e sem juízos de valores. Patti nos fala de fome e prostituição com muita leveza e, assim, viramos as páginas, uma atrás da outra, como se estivéssemos andando pelos blocks de Nova York... Um atrás do outro, vendo o tempo passar e as mudanças acontecerem com muita tranquilidade. 

A Nova York de 1970 de Patti é incrível. Eu adorei como ela coloca a cidade quase como um outro personagem. A gente até poderia lamentar as mudanças de lá para cá, mas ela não coloca estes lugares de forma nostálgica. Patti, em nenhum momento, narra de forma idealizada sua juventude com Robert. Ela simplesmente narra. De forma poética. Simples. E essa simplicidade não dá espaço para nostalgia, tampouco idealização. É apenas homenagem e poesia. 

Eu queria ter ido visitar alguns dos locais que ela menciona no livro. Muitos foram transformados em grandes lojas de rede ou em prédios espelhados, mas mesmo assim eu queria ir. Não foi possível, porque estamos aqui em casa nos recuperando de Covid e decidimos não fazer passeios muitos grandes. Mas, durante a atividade física pela manhã, fiquei refletindo um pouco sobre o que significa estar fisicamente em Nova York neste 11 de Setembro e ter lido este último livro. 

Como pode tanta coisa acontecer ao mesmo tempo numa cidade? Como pode tantas linhas temporais num mesmo lugar? Patti chega em Nova York em 1967, se instala no Brooklyn, depois muda-se para Manhattan, onde vive até 1979. As Torres Gêmeas foram inauguradas em 1973, o que significa que durante sua construção e seus primeiros anos de vida, Patti e Robert estavam andando ali pertinho, por Greenwich Village. Em 2001, as Torres Gêmeas são atacadas. Eu era criança e, lá da periferia do ABC Paulista, eu entendi nada do que estava acontecendo e passando nos jornais. Fui entender apenas em 2018, quando vim para Nova York pela primeira e visitei o 9/11 Memorial. 

Só andando ali nas ruas do Financial District e vendo a profundidade e extensão de onde estavam os prédios e a movimentação das pessoas, deu para sentir o impacto do que aconteceu. Foi aí que compreendi. 

Me desculpem, mas neste texto disse muita coisa dizendo nada. Confusamente, na minha cabeça, parece que tudo tem relação, mas não necessariamente. Compreendo o trauma do 11 de Setembro e estar aqui, nesta cidade neste momento, faz eu compartilhar a dor da ferida que ficou em Nova York. Talvez, minha homenagem tenha sido esta leitura. Meio que sem querer, ler Just Kids foi um pouco além de ler sobre Patti e Robert, foi também ler sobre suas vidas em Nova York e sentir um pouco as transformações históricas dessa cidade que, em tão pouco tempo, é capaz de mudar tanto. 


9/11 Memorial. Fevereiro de 2018. 


9/11 Memorial. Novembro de 2019


A insustentável leveza do ser: exilados em sua própria terra

A primeira vez que li "A insustentável leveza do ser", Milan Kundera, foi, muito provavelmente, há 10 anos. Eu era estudante de graduação em História e morava ainda numa pensão de estudantes perto da USP. Um colega, que estava no mestrado em psicologia leu este livro, disse que era muito bom e me emprestou. 

Curioso que, na época, eu não tinha muitas referências sobre Praga, Tchecoslováquia, Boêmia, Primavera de Praga, 1968, Exército Vermelho, comunismo, literatura pós-moderna... Tudo era meio confuso e eu conhecia as palavras, mas não os conceitos ou a história. Não que agora eu seja uma especialista, mas pelo menos estes assuntos não são mais de outro mundo. Me lembro que, na época, eu li rapidíssimo. Achei provocante. Bonito e misterioso. Mas se alguém me perguntasse sobre o que o livro falava, eu talvez teria dito: 

- Ahn... Fala sobre amor. Uns casais que tentam se entender, mas não conseguem. Num país que foi comunista. 

E depois disso eu apaguei. Pouquíssimas coisas do romance ficaram registradas na minha memória. Quando fui para Praga em 2019, tudo o que eu lembrava era que eu havia lido um livro cujo autor era tcheco e cuja história se passava nesta cidade. Só. Eu não lembrava do nome dos personagens, tampouco de Karenin. Muito menos da resistência tcheca contra a ocupação soviética. 

Só retomei a leitura porque vi uma blogueira compartilhando este livro no Instagram (me julguem) e me toquei como tão pouco eu me lembrava do que tinha lido. E fiquei me perguntando como uma narrativa tão densa e nada óbvia tinha ganhado projeção nas camadas mais superficiais das redes sociais. Fui lá na Amazon e comprei.  Eu não fui atrás para ver o que esses influencers falaram sobre o livro, mas tenho uma teoria que vou dividir com vocês no final do texto. 



Acho que os motivos de todo esse "apagamento" da minha memória se encontra um pouco na conclusão que tirei nesta segunda leitura. Em "A Insustentável Leveza do Ser", Kundera fala sobre tudo e nada. É um pouco aquela crítica (que eu adoro) contra o pós-moderno: as correntes pós-modernas querem relativizar absolutamente tudo e acabam explicando nada. Do ponto de vista científico, isso pode ser um problema, mas para a literatura eu acho maravilhoso. 

Por isso a "A insustentável leveza do ser" tem tantas possibilidades de leituras diferentes. Ela pode ser superficial e se atentar ao erotismo e à relação entre Tereza - Tomas - Sabina - Franz, ou ir se aprofundando em centenas de questões filosóficas trazidas pelo autor e que mudam a cada página. 

Não, eu não fiz desta vez uma leitura de estudo profundo. Comecei a ler em São Paulo durante meus preparativos de mudança para os EUA. Precisei parar e retomei já na minha nova casa. Foi o único livro físico que trouxe nas malas. 

Esse apanhado de tudo e nada é também o motivo pelo qual é tão difícil escrever sobre essa leitura: sobre o que eu gostaria de falar? Que temas mais me chamaram atenção? Mas isso é complicado, porque a cada mudança de capítulo, um novo tema aparecia com força. As reflexões filosóficas do narrador que se misturam com o pensamento e intrigas dos próprios personagens foram criando uma sopa de letrinhas: cada colherada era ótima, mas em cada uma vinha uma letra diferente. 

É um livro amargo, triste. Como muitos que li ano passado, fala da desconexão entre lugar e indivíduo. Ao contrário de autores que narram sobre o Holocausto e a diáspora judaica (e sobre os quais escrevi neste blog no ano passado), desta vez não são os personagens que saem de sua terra natal e tornam-se desterrados no mundo, procurando e não encontrando seu lugar. Isso talvez se passe um pouco com Sabina, que sai da Tchecoslováquia em direção e Europa e depois muda-se para os Estados Unidos. Seu desapego é tão grande que, além de ir cada vez mais a oeste e distanciar-se de suas origens geográficas, ela chega a morar junto com um casal idoso mecenas - abrindo mão até de uma casa própria. 

Isso, contudo, não se passa com os protagonistas Terezas e Tomas. Eles estão em Praga, vão para a Suiça, mas Tereza logo volta porque ela não se vê e nem é mais vista como Tereza neste outro país - é vista pelos outros como uma extensão de Tomas. Volta para Praga e Tomas logo vai atrás, encontrando uma outra cidade. Não foram eles que saíram do lugar, foi o lugar que saiu dele mesmo. Com a invasão, o país deixa de ser o que era e, consequentemente, também suas pessoas. O presidente Alexander Dubcek, depois de ter sido capturado pelos russos, volta transformado. Não é mais o mesmo. Por isso Tereza e Tomas, apesar de voltarem, também não são mais os mesmo. A transformação da Tchecoslováquia e de Praga também os transformaram: perderam suas profissões e suas referências.

Sabina exila-se saindo. Tomas e Tereza são exilados sem sair do lugar.

"Tomas dirigia, Tereza ia ao seu lado e Karenin no banco de trás; de vez em quando, esticava a cabeça para lamber a orelha deles. Duas horas depois, chegaram a uma pequena estação de águas onde tinham passado alguns dias juntos cinco ou seis anos antes. Pretendiam pernoitar ali. [...]

Tomas mostrava o hotel. Afinal alguma coisa havia mudado. Em outros tempos, chamava-se Grande Hotel e agora, de acordo com o letreiro, chama-se Baikal. Olharam para a placa, na esquina do prédio: era a praça Moscou. Em seguida percorreram todas as ruas que conheciam (Karenin os seguia sozinha, sem guia), lendo os nomes: havia a rua Stalingrado, a rua Leningrado, a rua Rostov, a rua Novossibirsk, a rua Kiev, a rua Odessa, havia o Sanatório Tchaikovski, o Sanatório Rimski-Korsakov, o Hotel Suvorov, o Cinema Górki e o Café Púchkin. Todos os nomes eram tirados da Rússia e da história russa. 

Tereza se lembrou dos primeiros dias da invasão. As pessoas retiravam as placas das ruas de todas as cidades e arrancavam das estradas os painéis indicativos. O país se tornara anônimo numa noite. Durante sete dias, o Exército russo ficara errando pelo país sem saber onde estava. Os oficiais procuravam os prédios dos jornais, da televisão, da rádio para ocupá-los, mas não conseguiam encontrar nenhum deles. Perguntavam às pessoas, mas elas davam de ombros ou indicavam endereços falsos e um intinerário falso. 

Com o passar dos anos, esse anonimato se mostrou nocivo ao país. Nem as ruas nem as casas conseguiram encontrar de novo seu nome original. Uma estação termal da Boêmia se tornara assim, do dia para a noite, uma pequena Rússia imaginária, e Tereza constatou que o passado que procuravam lhes fora confiscado. Era impossível pernoitar ali." (KUNDERA, M. A Insustentável Leveza do Ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 162-3)

Enquanto em Levi, por exemplo, a urgência é voltar para seu lugar, em Kundera a ânsia é para que este lugar lhes seja devolvido. São duas formas distintas de exílio. 

A saída do governo soviético se deu em 1989. Em Junho de 2019 eu visitei Praga com meu marido numa espécie de segunda lua de mel. E mesmo já tendo se passado trinta anos da redemocratização, o que vimos foi um país que repetidamente afirma os anos obscuros que foram a invasão comunista. "O Museu do Comunismo" é inteiro dedicado a este período sob um ponto de vista do horror e há monumentos e marcas relembrando eventos de resistência do povo tcheco contra o governo soviético em múltiplos lugares da cidade. 

Depois de uma longa história de ocupações, é como se o país procurasse estabelecer e afirmar sua identidade em completa oposição a estes momentos históricos. Tereza é a metáfora da República Tcheca. Ela se olha no espelho e fica procurando insistentemente a conexão entre sua alma e corpo, desvencilhando-se da imagem da autoridade materna. Ela renega completamente este passado. Notei essa tentativa de busca na cidade de Praga: monumentos, museus, passeios turísticos, tudo procura afirmar quem é este país e porque ele é único e diferente de todos aqueles que o ocuparam. 

É um livro que, provavelmente, vou ler novamente. Quanto mais "bagagem cultural" (odeio esse termo, mas no momento ela convém), mais camadas vão aparecendo durante a leitura. Só deixo aqui como nota registrada (e não apenas mental) de que na próxima leitura, se o tema "exílio" me for ainda de interesse, pesquisar o caminho do exílio do autor. Kundera parece ter tido uma relação conflituosa com seu país de origem e, apesar de escrever de maneira tão empática, me parece que, como Sabina, ele preferiu sair para nunca mais voltar. 




Memorial às vítimas do comunismo. Monte Petrin. Praga, Junho de 2019. 

O mesmo monte onde Tereza sonha que está indo ser assassinada. Em seu sonho, Tereza obedece Tomas que a manda subir o Monte Petrin. No topo, ela encontra três algozes que a matarão - caso assim seja sua vontade. Eu e o Allan visitamos o Monte Petrin e visitamos este memorial. Flagramos, neste momento, uma senhorinha colocando flores. 

"Quando chegou ao monte Petrin, a colina verdejante situada no centro de Praga, notou com espanto que não havia ninguém. Era curioso, pois, em geral, multidões sempre passeavam por ali. Sentia-se angustiada, mas os caminhos estavam tão silenciosos e o silêncio era tão repousante que relaxopu e se entregou cofiante à colina. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, via um aglomerado de torres e pontes. Os santos brandiam punhos ameaçadores, os olhos de pedra fizados nas nuvens. Era a cidade mais bonita do mundo." (Idem, p. 146)


 Eu descendo o Monte Petrin. Praga ao fundo. Junho, 2019.


Outros textos nos quais falei sobre o tema exílio e publiquei aqui no blog:



Finalmente, por que o livro "A insustentável leveza do ser" sendo divulgado por influencers nas redes sociais que falam sobre tudo, menos literatura? Imagino que transformaram o livro de Kundera no horror de Sabina. O que Sabina mais detesta no mundo é o kitsch e, no contexto político e social que vivemos, os logos e palavras de ordem que imperam é o próprio kitsch. O governo Bolsonaro, Lula elegível, a aproximação das eleições, crise, etc... Uma leitura superficial e descontextualizada transforma a obra de Kundera num slogan anti-comunista tosco. E é isso que o transforma em poderoso.

"A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não tinha um caráter ético, mas estético. O que lhe repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista (os castelos convertidos em estábulos), mas a máscara de beleza com que ele se cobrira, isto é, o kitsch comunista. O modelo desse kitsch era a chamada festa do Primeiro de Maio. 

[...]
A festa do Primeiro de Maio se abastecia na fonte profunda do acordo categórico com o ser. A palavra de ordem tácita e não escrita do desfile não era "Viva o comunismo!", e sim "Viva a vida!". A força e a estúcia da política comunista foi ter se apossado dessa palavra de ordem. Era precisamente essa estúpida tautologia ("Viva a vida!") que levava ao desfile comunista até mesmo os que eram completamente indiferentes às ideias comunistas. 

[...]
Por volta de dez anos mais tarde (ela já morava na América), um senador americano amigo de seus amigos a levou para passear num carro enorme. Quatro garotos se apertavam no banco de trás. O senador parou; as crianças desceram e desataram a correr num gramado imenso em direção a um estádio onde havia um rinque. O senador ficou ao volante olhando com ar sonhador as quatro pequenas silhuetas que corriam; virou para Sabina: "Olhe para eles!", disse, descrevendo com a mão um círculo que englobava o estádio, o gramado e as crianças: "É isso que eu chamo de felicidade".

[...], nesse momento, Sabina imaginou o senador num palanque de uma praça de Praga. Em seu rosto, havia examente o mesmo sorriso que os estadistas comunistas dirigiam do alto de seu palanque aos cidadãos igualmente sorridentes, que desfilavam a seus pés. [...]

O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os movimentos políticos." (Idem, p. 244-6)