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Hamnet, de Maggie O'Ferrell: breves comentários sobre mulheres, heroínas, espaço doméstico

Não sei porque essa mania de ficar se justificando, mas decidi mudar de ideia e escrever sim sobre Hamnet, minha última leitura, já que aparentemente eu estou com dificuldade de começar um novo livro. Criei um vício bobo de precisar fechar um ciclo de leitura com alguns apontamentos para começar outro? Seria poético. 

O Instagram esses dias me sugeriu a página Literatura Inglesa Brasil e o post de chamada era o do Clube do Livro, que estava lendo Hamnet, de Maggie O'Ferrell e publicado em 2020. Eu nunca tinha ouvido falar do título, tampouco da autora. Só conhecia a história de Hamlet e sabia que Shakespeare tinha tido de fato um filho chamado Hamnet que morreu anos antes que o autor escrevesse a peça Hamnlet. Achei tudo isso interessante e resolvi dar uma chance. 

Foi amor a primeira vista. Que livro magnífico!


Apesar do título e de Hamnet ser um personagem importante, a protagonista é Agnes. As mulheres ocupam um lugar tão importante na narrativa que o marido de Agnes, o famoso Shakespeare, não é uma única vez nomeado em todo o livro. O professor, o marido, o pai, o tutor, etc. Ele é sempre referido de outros jeitos, menos de Shakespeare. Imagina o quanto o poder de Agnes seria diminuído só pelo famoso nome, Shakespeare. 

O livro intercala dois momentos: quando Agnes e o Shakespeare se conhecem, se casam e têm seus filhos, e quando Hamnet e sua irmã gêmea Judith ficam doentes e todos os esforços de Agnes para curá-los. 

Sob o ponto de vista de Agnes, acompanhamos o dia a dia das atividades domésticas, sua conexão com a natureza. Ela gosta de cuidar do jardim, das abelhas, de sua águia de estimação. Ela conhece as plantas e faz remédios caseiros, sendo procurada por toda a vizinhança pelos suas habilidades medicinais. Ela também tem um passado meio curioso: sua mãe, morta quando ela ainda era pequena, veio da floresta, diziam. Agnes é meio selvagem, meio bruxa. Ela tem sonhos premonitórios e ao segurar a mão de alguém e pressionar suas mãos, ela consegue "ver" suas almas e o futuro. Ela causa admiração e ao mesmo tempo medo aos vizinhos. 

Agnes me lembrou muito Morgana, de As Brumas de Avalon. Me lembrou da formação da Inglaterra entre os saxões e os bretões, os bárbaros e os civilizados. Shakespeare era da cidade, urbano, ligado ao comércio e às artes. Agnes era do campo, do meio rural, da terra e da casa. Juntos eles formam um novo povo. 

A lembrança de As Brumas de Avalon também veio pela relação entre as mulheres e suas habilidades com as plantas e os animais, ligando-as aos pagãos e condenando-as como bruxas. Finalmente pela centralidade da mulher na história, colocando os homens, o Rei Arthur e o grande Shakespeare, como coadjuvantes numa história na qual as mulheres, escondidas atrás da cortina do teatro, manipularam situações para que estes homens chegassem onde chegaram. 

Agnes não sabe ler. Durante os longos meses de ausência de Shakespeare, que trabalhava na capital, é sua filha mais velha que lê as cartas recebidas e redige as missivas ao pai. Agnes nem sempre entende o que vem escrito: comédia? atores? teatro? Porém, algo une o casal: ambos entendem a alma humana, mesmo que seja cada um do seu jeito. 

Assim como as peças de Shakespeare conversam até hoje, séculos depois, com a natureza humana, Agnes lia a alma daqueles ao seu redor. Ela entendia suas necessidades, compreendia seus medos, sabia como convencê-los. Agnes é uma ótima esposa, ótima mãe, uma filha que guarda a memória da sua mãe com carinho. Acompanhamos a história dessa mulher no casamento, nos partos e na cama de seus filhos doentes, fazendo de tudo para salvá-los da peste. Depois, acompanhamos o seu luto e o sentimento de que, como mãe, ela havia falhado. 

A autora mistura ficção e história, portanto não podemos acreditar que tudo ali tenha acontecido. O único fato histórico do qual realmente temos certeza é que Shakespeare teve um filho chamado Hamnet que morreu ainda criança. Ele ter sido vítima da peste negra é uma teoria da autora, e ela faz isso de maneira fenomenal, conversando com nossa realidade pandêmica Covid-19. (Lembrando que o livro foi lançado em março de 2020!!) O capítulo no qual acompanhamos a pulga que causou o adoecimento de Judith e Hamnet, saindo de Alexandria, Egito, embarcando em um navio e passando meses em alto mar e atravessando continentes, até chegar numa pequena vila rural da Inglaterra, é fenomenal. 

Enfim, Agnes me fez perceber que em minhas últimas leituras tenho procurado a heroína que não luta pelo seu espaço no mundo masculino. Pelo contrário. Minhas heroínas reafirmam seus papeis dentro do ambiente doméstico e familiar. Como as donas de casa dos contos de Lucia Berlin, as esposas dos contos de Silvana Ocampo, mesmo a personagem Phoebe de A Casa das 7 Torres, e a própria Morgana de As Brumas. São mulheres que na rotina e no cotidiano transformam a vida doméstica daqueles que com elas habitam. Suas grandes habilidades são a arrumação, a cozinha, o olhar atencioso e cuidadoso e às vezes maléfico. As mulheres de Silvana Ocampo, em suas habilidades femininas, são manipuladoras e vingativas. 

Livro recomendadíssimo. Chorei bastante nos capítulos de morte e luto. A leitura é envolvente, bastante visual, e coloca em evidência uma coisa que as vezes é deixada de lado: quando lembramos das mulheres "apagadas" e "esquecidas" da história, não podemos nomear apenas artistas, poetisas, musicistas, cientistas e descobridoras. Se começamos, como sociedade, a falar da "economia do cuidado", então temos também que lembrar de multidões de mulheres que nunca saíram do espaço doméstico e familiar e, nem por isso, não deixaram de ter um impacto enorme nos rumos e na vida daqueles que - de fato - deixaram seus nomes impressos na história. 

Persuasão, Jane Austen - o livro que não me convenceu

Faz um tempo que não passo por aqui, o que não significa que não tenho lido. Além da vida tumultuada, minhas últimas leituras foram para o Querido Clássico e por isso as resenhas têm sido publicadas lá. Também fiz uma viagem de uma semana para o Texas durante o que eles chamam aqui nos EUA de Spring Break. Foi uma experiência incrível e, se der tempo, escreverei sobre algumas coisas no blog nos próximos dias. Mas hoje vim falar sobre o último livro que li: Persuasão, de Jane Austen.


Como um leitora que adora literatura anglófona, clássicos e um romancizinho, eu achava um erro nunca ter lido Jane Austen. Inclusive, nunca nem vi os filmes e só sei quem é Mr. Darcy porque a fanbase da autora é muito fiel. Aproveitei que a obra do mês de março do Clube de Leitura do Querido Clássico era Persuasão, e que eu havia ouvido falarem muito bem desta obra (escrita num momento mais maduro da autora), para conhecer a tão famosa Jane Austen. 

Infelizmente, o santo não bateu. Quando cheguei na metade, eu queria deixar o livro de lado, mas insisti porque, afinal, às vezes vem surpresa boa. Não foi o caso. O livro é chatíssimo do começo ao fim. Não gostei dos personagens: achei que faltou carisma. Tirando a protagonista Anne (ela mesma muito apática), todos os outros personagens ou são chatos, implicantes e odiosos (como suas irmãs e pai), ou aparecem muito pouco. Lady Russel, a personagem que achei mais interessante, é mencionada sempre, mas nunca está presente nas cenas e, se está, sua participação é mínima. Ou seja, aquele "poder de persuasão" todo, a gente não conhece, só ouve falar. 

É uma história de amor. Anne e Frederick Wentworth se amam e querem se casar, mas pelo fato de Wentworth ser um zé ninguém, Anne é "persuadida" pela Lady Russel e sua família a não se casar. Os pombinhos se separam e a história do livro começa oito anos depois quando, adivinhem, Wentworth volta RICO. (Gente, desculpa, achei tosco esse clichê) Ele volta amargurado, de coração partido, procurando uma noiva e Anne descobre ainda gostar muito dele. No decorrer das páginas vamos acompanhando essa reaproximação dos pombinhos. 

O que faltou, no entanto, é o próprio Wentworth nessa história. Ele mal fala, sua presença nas cenas é mínima, ele é uma ideia praticamente. Uma ideia de Anne. E no final, sua declaração vem em forma de carta. CARTA. Enfim, que homem apaixonante é esse? Um homem que não tem voz, calado, que se comunica por vias escritas? Achei este herói o mais sem personalidade possível. Esse "amor" não me convenceu e achei chatíssima toda a interação dos dois. 

Outra coisa que desgostei no final foi a conclusão de que "sim, foi melhor a gente não ter se casado há oito anos. Apesar de sofrido todo esse tempo e reaproximação, eu faria tudo de novo", enquanto esse sobrenome - Wentworth - pode ser lido como "a ida que valeu a pena"? 

Fiquei pensando porque desgostei tanto. Acabei achando o livro um filme de princesas da Disney, na qual a protagonista, Anne, é a coitada rejeitada pela família, e o príncipe bonito que não fala vem salvá-la. Ou então, uma Malhação da vida, com muitos personagens, todos rasos e pouco interessantes, cuja história se desenvolve em torno de um casal apaixonado que vai ficar junto no final apesar da resistência de todos que estão a sua volta. Mas, não é possível! É a Jane Austen, sabe? Ela tem seus méritos, eu acredito nisso. 

Concluí que se eu fosse mais nova, eu teria gostado mais desta história romântica, idealizada. Mas casada há alguns anos, eu vejo o amor e o casamento como uma construção, uma batalha que é feita diariamente, porque nenhum companheiro/a é calado e se comunica por cartas. O amor é construído na fala, no toque, na risada e no choro. Na briga e na conciliação, porque ninguém é perfeito. A gente vai errando e aprendendo a consertar os erros juntos. Por mais que às vezes eu goste de uma história romântica, não há heróis e heroínas perfeitas como Wentworth e Anne. Enfim, entendo o gênero, mas não me convenceu. 

Outro fator que me fez desgostar deste casal e romance apático foram minhas últimas leituras. Em Charles Dickens, Edith Wharton, Henry James, Silvina Ocampo e Lucia Berlin, o casamento aparece como um elemento perigoso, que destrói e, as vezes, mata. E o amor? Bom, ele existe, mas ele é só mais um elemento dentro de uma série de conjecturas sociais que sufocam e colocam em xeque toda a supremacia idealizada deste sentimento. 

Bom, é isso. Não gosto muito de ficar falando mal dos livros neste meu diário de leitura, mas é a vida, né. Pelo menos tirei da frente a vontade de conhecer Jane Austen. Com certeza, só por isso, já valeu a leitura. 

A leitura de Drácula, Bram Stoker, e meu primeiro Halloween em Nova York

Havia um tempo que não lia nenhuma obra do século XIX. Por mais que meu preferido seja o século XX, eu gosto muito de me voltar aos clássicos mais antigos vez ou outra. Drácula foi a oportunidade de corrigir esse erro, ler algo temático com o Halloween e voltar a ler com os grupos de leitura. Por causa do ano cheio de mudanças, não consegui acompanhar as leituras coletivas do Querido Clássico em 2021. Mas agora que estou já bem instalada e minha vida voltou ao normal, pude corrigir também este outro erro. 

Drácula não foi o primeiro livro que peguei na New York Public Library, mas foi o primeiro livro que terminei e será devolvido. Isso traz um carinho especial para a leitura, porque tirar a carteirinha da biblioteca teve um significado especial para mim: o sentimento de pertencimento, de casa. Depois de tanto tempo "em transição", vivendo no Brasil, Chile, Brasil de novo e esperando as fronteiras abrirem, tirar a carteirinha da NYPL significou "agora aqui é meu endereço por um bom tempo e essa é a prova!". É também mais um jeito legal de interagir com a cidade. Afinal, a NYPL é muito "Os caçadores de fantasmas". 



Apesar da referência do filme, eu não preciso ir até o prédio com a fachada e a sala de leitura famosas. Existem várias unidades menores pela cidade e uma muito perto da minha casa. É lá onde tenho indo retirar os livros que peço para reservar pelo site. É menos glamuroso, mas facilita muito a vida! 

Agora voltando ao Drácula. 

É uma ótima experiência ler do começo ao fim uma obra onde estão todas as referências que vemos em tantos outros lugares. O "arsenal vampiresco" que eu tinha era picotado: pedacinhos que a gente vê lá ou aqui. Então quando eu li a origem de tudo isso, junto e de uma vez só, algumas coisas se iluminaram e também tive surpresas. 

Por exemplo, o fato de que o Drácula não tem voz no livro. Em nenhum momento. Tudo o que sabemos dele é pelo relato de outras pessoas. Poderíamos dizer, talvez, que o Drácula nem existiu e tudo foi um delírio coletivo daquelas pessoas ali envolvidas. 

Outra surpresa foi a estrutura narrativa. Eu não esperava que ela fosse formada por cartas, trechos de diários e notícias recortadas de jornal. A primeira vez que li algo assim foi "O médico e o monstro" e eu adorei. É preciso ter paciência com esse tipo de leitura, mas é legal porque vamos montando o quebra-cabeça da história. Especialmente em Drácula, a gente vai se deixando seduzir pelos múltiplos narradores. Ainda mais por se tratar de cartas e diários, nós, leitores ingênuos, gostamos de acreditar no que dizem sem desconfiança. 

E assim Bram Stoker nos guia pela leitura de uma história na qual um grupo de quatro homens vão tentar salvar duas moças e a própria Inglaterra das garras do Conde Drácula. Este grupo de cinco homens  é formado por um médico inglês John Seward, o Lord Arthur Holmwood, o procurador inglês John Harker, o americano rico do Texas Quincey Morris e o médico holandês Abraham Van Helsing. As "donzelas" são Lucy Westenra e Mina Murray, que depois se casa com Jonathan Harker e vira Mina Harker. São alguns destes personagens que registram seus dias em diários e trocam cartas que nos contam quem é Conde Drácula e sua história. Sob uma perspectiva do final do século XIX, é praticamente uma história de cavaleiros lutando contra o mal e salvando donzelas inocentes. 

Ano passado eu li "Imunidade", de Eula Biss, publicado pela Editora Todavia, e a autora fala sobre Drácula como uma metáfora para o surgimento de doenças infecciosas, principalmente a sífilis, que é transmitda por sexo/sangue e cuja principal porta de entrada é pelos portos e navios. Exatamente como o Conde Drácula chega na Inglaterra, "contamina" Lucy que, depois, contamina crianças. É a metáfora do Outro, nesse caso o estrangeiro, trazendo doenças e contaminando "a pureza" daqueles que são donos do lugar. Afinal, Lucy, a "luz", é uma moça sensível, jovem e angelical. Uma vez "contaminada" e transformada, ela ataca outros seres mais inocentes: as crianças. 

A narrativa de Bran Stoker é cheia de tensão. Principalmente os diários de Jonathan no Castelo do Conde e, depois, a chegada do Drácula na Inglaterra. Estas foram minhas partes favoritas. Confesso que, do meio para o final, fiquei um pouco cansada. Achei a leitura um pouquinha arrastada, mas minha edição tinha mais de 600 páginas e, realmente, não dá para ter o mesmo ritmo 100% do tempo. 

Outra leitura possível é a da sexualidade (que também é um meio de "contaminação" de doenças e se liga com o que a Eula Biss diz no seu livro, Imunidade). Apesar de "monstruoso" os momentos nos quais o Conde ataca Lucy e Mina e as noivas do Drácula se aproximam de Jonathan, existe sim uma tensão sexual nas entrelinhas. Este ponto, sutil no livro, é exacerbado no filme Dracula de Bram Stoker, de 1992 e dirigido por Francis Ford Coppola. Esta adaptação também conta com algo que não existe no livro: a voz do próprio Drácula. É como se o filme desse a chance para o Conde contar sua versão da história. 

Eu acabei a leitura ontem, dia 30 de outubro, pela tarde. Assisti o filme que mencionei acima a noite e hoje, dia 31, dia de Halloween, foi a videochamada do clube de leitura do Querido Clássico. Foi muito bom! Eu estava com saudades de ouvir as impressões e pontos de vistas de outras pessoas que leram a mesma coisa, mas que tem opiniões diferentes. E isso é muito enriquecedor. A noite, eu e o Allan fomos até a rua 69th, aqui em Manhattan, para ver as decorações de Halloween e as crianças fantasiadas. 

Em geral, foi uma experiência ótima. Muitas coisas se somaram nessa leitura: o primeiro livro que acabei de ler da NYPL, a temática do Halloween e a volta ao Clube de Leitura Querido Clássicos. 







Sobre o médico e o monstro, escrevi sobre ele aqui: Dr. Jekyll e Mr. Hyde - a ambiguidade do público e do privado no homem moderno
O Clube de Leitura do Querido Clássico: Clube do Livro Querido Clássico

Memória individual e coletiva no romance de Kazuo Ishiguro, "O Gigante Enterrado"

Comentei no post anterior como meu hábito de leitura foi meio atrapalhado neste ano. Em 2021 acabei o volume 1 da trilogia de "O Problema dos Três Corpos", li o segundo volume, mas o terceiro desisti depois de já ter completado mais de 60%. Como forma de passar o tempo, li até metade a edição chilena de "Uma breve história do tempo", S. Hawking. Portanto, posso dizer que "O gigante enterrado", de Kazuo Ishiguro, foi a primeira narrativa que eu li inteirinha, de uma vez só. Senti, pela primeira vez, aquele "todo" do começo-meio-fim que um romance nos proporciona. 

Eu comecei a lê-lo porque 1) estava disponível no meu kindle, já que comprei em uma ótima promoção da Amazon ano passado e 2) eu precisava de coisas bonitas. Eu fiquei encantada ano passado com a beleza nostálgica e triste de "Um artista no mundo flutuante" e, além de narrativa leve, linda e triste, a história tocava em assuntos que me são muito caros, como a memória individual e coletiva, a identidade, períodos de conflito histórico e a Segunda Guerra Mundial. 

"O gigante enterrado" foi meu segundo livro do autor japonês e completamente diferente do que eu esperava. Há muita beleza e muita tristeza, como eu já sabia que encontraria, mas não esperava que fosse uma história que se passava na Alta Idade Média no território que hoje conhecemos como Inglaterra. Não esperava ver Arthur, Merlin, dragões e elfos. Foi uma surpresa muito boa. 

Na minha total ignorância sobre romances de cavalaria, quando comecei a ver a apresentação dos personagens, a descrição das paisagens, o início da viagem do casal protagonista, a menção de uma dragoa e outras referências deste universo, fiquei com a impressão de que "O Gigante Enterrado" era uma mistura de "O Hobbit" e  "As Brumas de Avalon". No final, continuo com essa impressão, mas uma mistura com muito mais profundidade. Com uma tristeza e melancolia que nos leva a ficar refletindo e pensando no que tudo o que se passa naquelas páginas querem dizer para além do que está escrito. Ficamos procurando as metáforas e significados que estão nas entrelinhas. 

Assim como em "Um artista no mundo flutuante", a memória tem um protagonismo grande na história de "O gigante entererrado". No primeiro, o protagonista é um homem japonês idoso, cuja participação na Segunda Guerra Mundial tem consequencias diretas nas tratativas de casamento de sua filha mais nova e no futuro das novas gerações de sua família. Seu passado nos é apresentado como uma mistura de suas próprias memórias com o que os outros dizem que aconteceu. 

Com Beatriz e Axl, protagonistas de "O Gigante Enterrado", algo se passa de forma similar. O casal de idosos decide partir em uma jornada atrás de seu filho, do qual não lhes restam muitas lembranças. Não se lembram muito bem de seu rosto, onde ele está examenta e porque partiu. Aliás, todas as lembranças parecem escapar pelos seus dedos e dos demais. Mesmo nas ações e atividades mais cotidianas, as pessoas parecem esquecer com muita facilidade os eventos - recentes ou não - e as pessoas. Mas algo acontece e eles partem para a aldeia do filho. Nesta jornada, vamos conhecendo outros personagens e percebemos que este esquecimento é um problema generalizado. Mas as pessoas estão "vivendo", estão preocupadas em viver o momento, e não percebem - ou não dão muita atenção para isto. Porém, algo falta. É como um mal estar presente e constante, mas inominável. Que ninguém sabe muito dizer o que é e porque.

As observações que seguem revelam um pouco demais sobre a história. Para quem tem interesse em ler o livro um dia e não saber spoilers, não continue a leitura.

Descobrimos mais para frente que este mal coletivo do esquecimento é causado pelo bafo de uma dragoa adormecida, que havia sido enfeitiçada por Merlin. Para amenizar o conflito entre os bretões e saxões, o bafo da dragoa faz os povos estrangeiros esquecerem as atrocidades cometidas pelo exército comandada pelo Rei Arthur. Assim, porque esqueceram, os povos vêm vivendo ao longo do últimos anos "em paz". 

Mas a que custo? Axl e Beatriz não lembravam da guerra, dos massacres, do sangue... Mas também não se lembravam de coisas boas, de como se conheceram, porque se amavam, do rosto de seu filho. A todo momento estão procurando as lembranças boas de seu passado para se sentirem um pouco mais feliz diante de uma velhice tão difícil e dura.

O esquecimento da guerra implica no esquecimento também da vida pessoal. Da intimidade. Esquecem-se mortes e massacre, mas também as boas lembranças da juventude, do amor, do companheirismo. Quando um esquece o passado coletivo, também esquece sobre si. Perde-se um pouco de sua própria identidade. Na medida que Axl e Beatriz seguem a jornada em busca de seu filho e de suas lembranças, eles estão também procurando saber quem eles são e isso implica saber quem eles foram, pelo que eles passaram e o que fizeram.

Eu acho isso muito bonito. Melancólico também. E não posso deixar de pensar como vários livros que li nos últimos anos - aqueles sobre os conflitos de guerra do século XX, trazem exatamente esta mensagem que Kazuo Ishiguro traz em "O Gigante Enterrado". Aliás, como várias outras metáforas que recheiam a narrativa, este gigante é tanto a criatura mística - a dragoa - quanto as lembranças, ou o passado, escondido. 

Não vou listar todos, mas penso imediatamente em Primo Levi e os testemunhos levantados e transcritos por Svetlana Aleksievitch. Os relatos sobre si são também os relatos sobre a guerra, a fuga, a perseguição e o ideal e dor coletivos. Quando Primo Levi fala sobre si, ele fala sobre Holocausto. E quando ele fala do Holocausto, ele fala sobre si. O mesmo com os testemunhos recolhidos por Svetlana. Quando estas pessoas falam sobre si e suas carteirinhas do partido, eles estão falando sobre um tempo e um lugar. 

Por isso é importante sempre lembrar. Sempre falar. E devemos sempre ouvir. Roubar a história é roubar também a identidade das pessoas. Devemos isso a todos que viveram os dolorosos conflitos e às  futuras gerações. Devemos isso para continuar sobrevivendo coletivamente - como humanidade, como civilização. 

Não vou me alongar sobre outro tema, mas quero pelo menos registrá-lo aqui. É muito sensível e lírico como Kazuo Ishiguro coloca o tema da velhice e da morte em sua narrativa. Axl e Beatriz são idosos, ela está doente, e conhecem durante a viagem várias mulheres cujos maridos foram levados por barqueiros a uma ilha e nunca voltaram para buscá-las. Estes casais foram separados porque, segundo o barqueiro, as mulheres e homens não se lembravam porque se amavam. Não compartilhavam uma memória juntos. Em toda sua jornada, Beatriz e Axl querem suas lembranças de volta porque não querem ser separados pelo barqueiro. Eles querem ir juntos para a ilha. Por isso é tão importante eles compartilharem as memórias e não viverem de migalhas de lembranças: porque um dia eles serão postos a prova. Como isso se desenrola é triste, mas bonito. Me fez chorar.

Senhor das Moscas: de uma primeira impressão morna para um dos livros mais legais que já li

O Senhor das Moscas mexeu comigo. Assim como assombrou Simon, me deixou também muito chocada.

Eu li a resenha já fazia um bom tempo. Talvez ano passado, não sei com certeza, mas foi nesta Black Friday que eu comprei. Na versão e-book estava menos de 10 reais e nem considerei não comprar. Um grupo de crianças sobreviventes de uma queda de avião em uma ilha deserta? Eu achei "UAU", não tinha como ser ruim para uma fã de Lost. Escrito pelo escrito inglês William Golding e publicado em 1954, o livro traz múltiplas possibilidades de leituras e metáforas... Abaixo, segue um pouco sobre as minhas reflexões. (Trata-se de uma reflexão sobre todo o livro, inclusive o final. Não é uma resenha. Se você tem a intenção de ler este livro um dia e não quer spoiler, não continue.)

Antes de "O Jardim Secreto", o último livro que li com personagens infantis foi o de contos de Silvina Ocampo, chamado "A Fúria". Foi um livro incrível, nada infantil. Apesar dos personagens crianças, os contos são bastante obscuros, desconfortáveis. Há uma "maldade", uma "falta de inocência", talvez até um sadismo infantil que perpassa a vida cotidiana e nos deixa muito chocados. Quando comecei a ler Senhor das Moscas, pensei em encontrar algo do tipo. 

Por isso uma decepção enorme até a metade do livro. É muito parado, mas depois compreendi que é tudo a preparação de um terreno para o que vem a seguir.  E o que vem, vem com tudo. 

Na verdade, a falta de preocupação das crianças-sobreviventes numa ilha paradisíaca, sem adultos por perto, me lembrou muito eu mesma no começo da quarentena lá em março/abril: parecia férias! O livro começa com esse sentimento: apesar do desastre (afinal, um avião caiu e não temos comunicação com o mundo civilizado, estamos por nossa própria conta e risco), não está tão ruim assim. 

Mas é claro que as coisas começam a piorar e a ausência de organização social, autoridades e instituições começa a pesar nos mais simples atos da vida do grupo. Apesar do líder eleito na maior alegria e unanimidade entre as crianças nas primeiras páginas, decisões difíceis criam divergências, rivalidades e, em última instância, tragédia. O que se torna mais importante: manter uma fogueira acessa como sinal para um possível resgate, ou caçar carne para alimentar o grupo? 

E até mais ou menos 50% do livro, as dificuldades óbvias que vão pressionando as crianças pela sobrevivência os divide entre dois grupos. Uns são os mais "civilizados", aos quais a sujeira incomoda e cuja preocupação maior é manter a fogueira acessa com a esperança de um resgaste e retorno ao mundo que conhecem. Os outros são os caçadores, que têm uma relação diferente com a ilha: aprendem a ser predadores, caçar e matar javalis e tornam-se mais "primitivos", desenvolvem rituais e crenças e estão preocupados com o aqui e agora. Enquanto os primeiros aguardam o retorno e se vêem na ilha em situação momentânea, os demais adotam uma postura mais integrada e assimilativa ao ambiente.

Isso torna a leitura um pouco chata, como se fosse uma aula de sociologia de ensino médio na qual a gente discute "o que é democracia?" e Rousseau e o homem primitivo. Esta é minha leitura de 2020, claro. No contexto da década de 1950, as atrocidades da Segunda Guerra Mundial haviam colocado em nova perspectiva a civilização ocidental e questionava-se estes valores iluministas até então considerados irrefutáveis.

Porém, da metade em diante, eu fiquei muito mais agarrada ao livro. Assustada. Tensa. Chegou um pouco naquela "falta de inocência" que eu estava esperando. As crianças perdem toda a aura infantil e tornam-se autoritários, caçadores, briguentos, egoístas, egocêntricos e assassinos. Ao mesmo tempo que os mistérios e segredos da ilha também começam a ter mais espaço na narrativa, o que torna tudo mais interessante. 

Gostei muito. Mesmo! Achei o final incrível. Ficava me perguntando se todos morreriam, se seriam resgatados, se virariam selvagens ou cresceriam na ilha e formariam uma nova civilização, ou se seria uma espécie de "A Lagoa Azul" e eles viveriam lá de boas aproveitando o sol da praia, ou se seriam vítimas do monstro da ilha... Mas quando eles são resgatados e caem em prantos, sabendo que apesar de voltarem para casa nada será como antes, me lembrou Primo Levi e a libertação dos campos de concentração. As experiências na ilha não lhes tiraram apenas a inocência infantil, mas também consumiram a "humanidade" de seus corações. Essa desumanização é didaticamente apresentada na cenal final: um ato de caça animalizado entre presa e predadores, o mais fraco e o grupo mais forte, a disputa pelo espaço e dominância pelo macho alpha, o líder do bando. 

Finalmente, ano passado eu maratonei Lost, que se tornou uma das minhas séries favoritas de todos os tempos. Até então, eu não sabia de Senhor das Moscas e é impossível não fazer a relação entre eles. Depois, procurando na internet, vi que - além da referência óbvia - existem em alguns episódios da série menções claras ao livro. Agora, parece que será lançada na Netflix outra série com um enredo inspirado na obra de Golding, mas agora será um grupo de garotas adolescentes. 

Ler um clássico assim, que inspira tantas outras produções contemporâneas e tornou-se referência, é muito bacana.

#estacaoblogagem - Se existiu um livro que eu amei e desprezei, este livro foi O Jardim Secreto

 

Semana passada, eu estava em outro tempo e espaço e por isso perdi o tema Ouros da Estação Blogagem. Eu e meu marido tiramos uma mini-férias e fomos viajar para uma cidadezinha maravilhosa na Serra da Mantiqueira. Lá, não ligamos a TV e tampouco abri o notebook. Ficamos recolhidos e isolados com os passarinhos. Não me senti inspirada a escrever, mas quis ler bastante, tomar sol, observar a paisagem, comer bem e dormir. Por isso, vou fazer esse pulinho e partir logo para o tema desta semana: Copas. 

 

Um dia antes de partir para as mini-férias, terminei O Jardim Secreto. Baixei no Kindle quando vi uma promoção que me parecia imperdível. É uma história que me lembra muito as tardes que eu passava sozinha quando era criança. Eu tinha uma fita VHS da coleção Videoteca Criança, da Folha de São Paulo, e assisti o desenho baseado no livro incontáveis vezes. Uma vez ou outra também vi o filme na Sessão da Tarde, mas eu não sabia, na época, que era baseado num livro de 1911. 

Para mim, leitura não tem compromisso. É uma experiência de sentimentos e O Jardim Secreto brincou muito com as minhas emoções. Acho até curioso a coincidência com o tema da semana. 

Minha relação com a obra de Frances Hodgson Burnett foi levemente esquizofrênica. Em certos momentos eu amei e me senti inpirada. Em outros, detestei e achei até nocivo. A verdade é que, apesar de alguns pontos bastante datados da narrativa - e que envelheceram muito mal, é um livro leve, fácil de ler e que me trouxe um suspiro no meio de leituras mais densas. 

É muito forte o tom colonialista. Mesmo não sendo o ponto central da narrativa, a relação de Mary com a Índia é lamentável para quem lê o livro 110 anos depois e do Brasil. O conservadorismo também se mostra presente na hiper idealização da pobreza rural. Ao mesmo tempo que Dickon, Martha e sua mãe e irmãos vivem em situação miserável, são também apresentados como personagens mais puros, mais sensíveis, mais "humanos", em contraste com a rudeza e insensibilidade daqueles da cidade grande - ou "mais civilizados". Eu sei que são características de um estilo muito datado, mas não estamos aqui para fazer uma análise de documento histórico, né? 

Ao lado oposto destes pontos que me deixavam desgostosa e incomodada, as brincadeiras de Mary, sua curiosidade infantil e seu interesse pelas plantas e animais são gostosos de ler e imaginar. Quem não gosta de um jardim? De um verde? Uma brisa e um passarinho cantando? A cada botãozinho de flor que abre no meu vasinho de violeta e orquídea, eu pulo de alegria. (Eu, uma adulta de 30 anos, sempre levo os vasinhos para o Allan para mostrar para ele os novos botãozinhos e florzinhas.) Apesar da enorme distância dos quase 110 anos de diferença entre a publicação do livro e a minha leitura, essa parte me aproximou de Mary, do Jardim e da narrativa.

Ele me inspirou a olhar com mais atenção às minhas plantinhas dentro de casa e, como Dickon e Mary que arrancavam as folhas e raízes mortas para deixar os brotos respirarem, cortei com tesourinha as folhinhas já amarelas e murchas dos meus vasos. 

 




Depois, por coincidência, partimos para a Serra da Mantiqueira nas nossas mini-férias e eu vi a beleza que Mary via no Jardim Secreto em vários cantinhos por onde olhava. Fosse no centrinho da cidade, fosse no jardim em volta da casa avarandada onde estávamos. E eu lembrava do pisco que conversava com a Mary e o Dickon toda vez que observava os passarinhos ciscando a grama em frente a janela da cozinha. 

 

Uma tarde, entrou um passarinho dentro da casa. Ele não conseguia sair e se debatia na parede. O Allan com calma foi até ele, o pegou com tanto carinho e, ao soltá-lo no lado de fora, o passarinho ficou lá no dedo dele. E eu pensei o quanto o Allan era o meu Dickon - o encantador de animais - naquele momento. Foi uma beleza muito grande. 


 

Talvez, uma reflexão que eu gostaria de fazer - quem sabe um outro dia - é a relação do homem com a natureza controlada, organizada, manipulada. A natureza enfeitada em um espaço delimitado e completamente sujeita ao homem. O quanto esta é uma natureza - que não deixa de ser "civilizada" - que nos agrada. Algo completamente aposto, por exemplo, à natureza de Moby Dick, de 1851, que li no começo do ano. A natureza que desconhecemos e não controlamos é ameaçadora, não bonita. Tampouco desejável. (Eu falei um pouco disso aqui.) Daí, poderíamos pensar um pouco sobre outros livros que li este ano sobre a relação do ser humano com a natureza e que partem para outro prisma. Livros contemporâneos, como os da Ana Paula Maia e Olga Tokarczuk falam sobre esta relação conflituosa não a partir do dominar ou ser dominado, mas do integrar-se. (Falei um pouco disso aqui.)

Enfim, a leitura d'O Jardim Secreto foi marcada por altos e baixos. Mexeu com emoções boas e ruins. Apesar dos momentos de revolta e xingamentos durante a leitura, não desgrudei do livro. Só precisei depois de um corte no espaço e tempo - um momento de férias e pausa, no meio da Serra da Mantiqueira, para perceber as partes boas e as belezas do que eu tinha lido.