O Apanhador no Campo de Centeio: o privilégio de viver um dos seus livros preferidos
The Road, by Cormac McCarthy: a messianic tale in a post-apocalyptic world
The Tender Bar, by J.H. Moehringer: a coming-of-age novel inspired by Scott Fitzgerald and the men from the bar
Retrato de Uma Senhora, de Henry James: tradição versus modernidade, casamento e liberdade
Retrato de uma Senhora está entre as obras mais importantes de Henry James e da literatura norte-americana. Depois de A Outra Volta do Parafuso e A Herdeira de Washington Square, Henry James me conquistou e outras obras entraram na lista. E assim comecei The Portrait of a Lady. Foi um dos livros mais difíceis que li nos últimos tempos. Li em inglês e o começo, até me familiarizar com os personagens e ambientes, foi muito devagar e complicado. Mas insisti, funcionou, e segui pelas 800 páginas.
O enredo
Publicado em forma seriada durante o ano de 1881, Retrato de Uma Senhora conta a história de Isabel Archer, uma jovem moça da cidade de Albany, capital do estado de Nova York. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel estava pobre, sozinha e um casamento era a única coisa que lhe restava. É aí que chega sua tia Mrs. Touchett, irmã de sua mãe e também nascida nos Estados Unidos, e convida-a a seguir com ela para suas casas na Europa, onde já morava há muitos anos. E assim começamos a saga da heroína Isabel Archer: sua chegada nos jardins de uma mansão inglesa, onde ela conhece seu primo Ralph Touchett e seu tio Mr. Touchett.
Na Inglaterra ela conhece Lord Warburton, um dos vários candidatos que vai pedi-la em casamento. O outro galã, ao contrário do lord inglês (como nos romances, Isabel diz), será Caspar Goodwood, um jovem businessman de Harvard, que enriqueceu com a indústria de algodão. (É curioso como James caracteriza este personagem fisicamente: de maxilar quadrado e um porte excessivamente masculino, me trouxe imediatamente a imagem do Gaston, personagem do filme da Disney, A Bela e a Fera.)
Isabel chega na mansão dos Touchett, chamada de Gardencourt, trazendo um frescor inocente, curioso e cheio de otimismo e desejos pela vida. Ela conquista a afeição de seu tio que, no leito de sua morte, decide deixar para a pobre moça uma pequena herança. Ralph, no entanto, de saúde frágil e baixa expectativa de vida, pede ao pai que diminua a sua própria herança e deixe a maior parte para Isabel. Provida de muita dinheiro, diz Ralph, Isabel poderia conquistar a liberdade que tanto desejava. "Mas ela não será vítima de caçadores de fortuna?", pergunta o pai. Ralph confirma que este risco ela irá correr, mas que ele está curioso e gostaria de ver e acompanhar como a prima vai lidar com essas questões.
Mr. Touchett morre, Isabel torna-se uma moça solteira muitíssimo rica e, sedenta por liberdade, recusa os pedidos de casamento do Lord Warburton e de Caspar Goodwood, partindo em direção à Itália com sua tia. A partir daí, a história se desenrola em casarões e ruínas nas cidades de Florença e Roma.
Ainda na Inglaterra, Isabel conhece uma amiga de sua tia que, assim como elas, havia nascido nos EUA, mas morava na Europa já há muitos anos. Mrs. Merle, para Isabel, é a perfeição: elegante, inteligente, culta e sabe agradar. Mrs. Merle também mora na Itália e, depois das pequenas férias em Gardencourt, partirá com Mrs. Touchett e Isabel para Roma e Florença, sendo um personagem importante na segunda parte da história.
Através de Mrs. Merle, Isabel conhece o viúvo Gilbert Osmond, outro expatriado que tem uma filha adolescente, chamada Pansy. Osmond é um personagem interessantíssimo: ele quer ser um aristocrata e vive, fala e se comporta como um. Seu gosto é o puro refinamento da aristocracia e sua visão de mundo é conservadora, mesmo ele sendo pobre e nascido nos EUA. Ele condena tudo o que é do novo mundo, dos novos costumes, e tem um gosto excessivo pelo convencional. (Praticamente um Caco Antibes.)
Mrs. Merle e Osmond têm uma relação bastante suspeita e, após a morte de Mr. Touchett e o recebimento da herança por Isabel, tramam um casamento entre a moça e Osmond. Bom, a partir daí, não vou continuar a história, mas adianto que Isabel - contra tudo e contra todos - decide-se casar com Osmond.
O Novo no Velho Mundo
Apesar da dificuldade que encontrei no começo do livro, por que continuei? Logo de entrada, me interessei demais pela relação de Isabel, uma moça do Novo Mundo, descobrindo as coisas no Velho Mundo. Eu me vi muito nela, quando fui pela primeira vez para a Europa, em 2017. Existe um impacto enorme quando nós, que nascemos e crescemos em países de histórias tão recentes - ex-colônias que conquistaram suas independência há menos de 200 anos -, pisamos em lugares que reinvindicam o início de suas histórias em tempos antes de Cristo.
Não é sem intenção que o autor coloca sua heroína caminhando pelas ruínas do Coliseu. É o velho versus o novo, a modernidade versus a tradição. No campo da geopolítica, era o recente país Estados Unidos da América se legitimar como uma nação potente e não mais como ex-colônia; no campo da literatura, era Henry James colocando sua obra no panteão da literatura ocidental.
Temos uma tendência de idealizar o passado, e mais ainda idealizar um lugar que tem um passado que nós não temos. Estar na Inglaterra e conhecer um verdadeiro Lord, diz Isabel, é "como viver um grande romance". Por isso os personagens deixam os Estados Unidos e, na Europa, vivem uma vida aristocrática parada no tempo, andando a cavalo e caminhando pelas ruas milenares europeias, enquanto do outro lado do Atlântico, linhas ferroviárias estavam sendo construídas para ligar o Atlântico e o Pacífico, metrópoles estavam sendo erguidas, e o avanço tecnológico e financeiro se desenvolvia rapidamente de um dia para o outro.
O progresso tecnológico bate de frente com o conservadorismo social e é aí que entra o casamento frustrado de Isabel Archer.
O casamento como liberdade e prisão
Eu li Isabel Archer e sua saga de duas maneiras.
A primeira, como uma personagem feminina que, com os privilégios de uma boa e confortável educação burguesa, cresce com a inocência e vontade de conhecer o mundo. Ela quer ter novas experiências. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel se vê sozinha, encantada pelo mundo dos livros e é apenas curiosa. Ela vê no casamento o risco de ficar presa e, com a companhia de sua tia e, depois, absolutamente rica, ela rejeita os pedidos de casamento de Lord Warburton e Caspar Goodwood sob o pretexto de preservar sua liberdade.
Mas o que é liberdade para a mulher no século XIX? Caspar Goodwood diz a ela: solteira, ela não pode andar sozinha por onde bem entender. Uma dama deve estar sempre acompanhada e é constantemente vigiada. Existe uma série de regras sociais do que uma mulher solteira deve ou não fazer para não sujar sua reputação. Só um casamento traria à ela a liberdade que ela desejava.
E é aí que ela vê em Gilbert Osmond, um compatriota, amante da beleza Antiga, que vive na Europa há muitos anos e cria sua filha com o rigor do conservadorismo Católico, a oportunidade de tornar-se uma dama e conquistar sua desejada liberdade nos círculos mais aristocrático europeus.
A segunda leitura foi de Isabel como uma metáfora do próprio país Estados Unidos, que vinha discutindo o conceito de liberdade intensivamente no último século. Quando o livro foi publicado, os EUA eram um país de apenas 105 anos, tendo conquistado sua independência da Grã-Bretanha em 1776. Depois disso, entre 1861 a 1865, o país enfrentou a Guerra de Secessão e, só em 1863 os EUA assinaram a abolição da escravidão. Liberdade era o tema do dia há muito tempo. Além disso, um país extremamente novo, estava procurando se encontrar, construir sua própria identidade, e apesar da tão desejada liberdade, era para a Europa que o país se virava para construir suas referências identitárias e culturais.
Isabel Archer, como uma metáfora dos Estados Unidos, olha encantada para os modos aristocráticos, as ruínas e a tradição do Velho Mundo. Por isso, ela decide casar-se com Gilbert Osmond, o compatriota americano mais conservador que ela poderia encontrar. Caspar Goodwood, o jovem industrialista de Boston, representava o progresso tecnológico, financeiro e o futuro; Lorde Warburton, apesar do título de nobreza, tinha ideias revolucionárias e um engajamento político relevante; Gilbert Osmond era o retrocesso do retrocesso. Sua admiração pelo passado, pelas coisas tradicionais e estáticas, seu gosto pelo Antigo, faz dele um retrógrado. Isabel, na sua inocência, viu no casamento com Gilbert Osmond a possibilidade de unir sua liberdade e juventude com o passado e a tradição.
Essa tentativa de união foi frustrada e deixo aos interessados descobrir porque. Mas acrescento brevemente que, recentemente li A Casa das Sete Torres, de 1850 e escrito Nathaniel Hawthorne. Neste livro, o autor também faz uma crítica à cultura aristocrática numa pequena cidade da Nova Inglaterra, colocando em personagens fantasmagóricos e uma casa mal-assombrada o passado vergonhoso da história de seu país que resistia ao progresso e às mudanças sociais.
Retrato de Uma Senhora é um livro difícil, mas maravilhoso, que pode ser lido sob diversos pontos de vista, principalmente por quem se interessa pela história dos EUA. Minha formação sempre faz eu ir para o lado mais histórico, mas também achei muito interessante como James fala sobre a mulher e o casamento no século XIX. É um autor que constrói grandes mulheres protagonistas, assim como Catherine Hopper, de A Herdeira de Washington Square. Em Retrato de Uma Senhora, Isabel Archer se sente toda hora deslocada, procurando seu lugar e sua identidade. Em alguns momentos ela só quer ser curiosa e aprender, descobrir as coisas. Ao mesmo tempo que existe uma força social daqueles que a rodeiam que manipulam suas ações, mesmo que ela ache que não.
Finalmente, só porque "Persuasão" é o tema do dia
Para finalizar, e ainda nesse assunto mulher e casamento, bem que o livro poderia ser chamar Persuasão, como a obra de Jane Austen. A palavra em si aparece inúmeras vezes durante a narrativa. Isabel é uma vítima da influência de Mrs. Merle e Osmond e, a todo momento, acontece um jogo de quem consegue persuadir quem, sem que a vítima da persuasão perceba que está sendo persuadida.
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Retrato de Uma Senhora foi traduzido por Gilda Stuart e publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras. Há uma versão em e-book para Kindle por menos de 5 reais.
Ethan Frome - tragédia, solidão e a Nova Inglaterra de Edith Wharton
Ethan Frome me fez conhecer uma nova face de Edith Wharton. Depois de A Época da Inocência e A Casa da Alegria, saí da Velha Nova York aristocrática para conhecer Ethan Frome, um fazendeiro pobre de uma cidade gelada da Nova Inglaterra. Apesar do cenário diferente, a melancolia de Wharton continua. Li por aí uma crítica desfavorável, não lembro mais onde, que felicidade e vida são incompatíveis nas histórias desta autora, como se Ethan Frome fosse exageradamente e desnecessariamente triste demais.
Eu concordo que o que eu li de Wharton até agora é muito triste, mas são tragédias que evidenciam a dificuldade da vida e a hipocrisia social. Não acho, absolutamente, que são tristes por serem tristes, tampouco pedantes. São narrativas sempre envolventes que mostram as condições limitantes da vida humana e a promessa de uma felicidade inalcançavel. Além disso, como veremos, o livro onde li Ethan Frome trouxe outros quatro contos, sendo um deles uma sátira divertidíssima. Ou seja, Edith Wharton pode ser também engraçada.
Obs: como isso é um diário de leitura e a história foi publicada há mais de 100 anos, eu fiz comentários sobre o desfecho do livro.
Ethan Frome
Publicada em 1911, a história do fazendeiro Ethan Frome é emoldurada pela história de um homem que está passando uma temporada de trabalho numa pequena cidade da Nova Inglaterra, Starkfield. Ele não é nomeado e nos apresenta um pouco a dinâmica daquela comunidade. É inverno, faz muito frio, está nevando muito e ele repara, todo dia, no velho aleijado triste Ethan Frome, que todos os dias vai ao correio, não fala com ninguém e logo depois volta para sua casa. O homem fica curioso, conversa com algumas pessoas e descobre que Ethan é um sobrevivente, tendo saído vivo de um acidente muito perigoso. As condições do tempo pioram e o homem contrata Ethan para transportá-lo até o trabalho todos os dias. Um dia, uma tempestade de neve bloqueia o caminho de volta ao vilarejo e Ethan convida este homem a passar uma noite em sua casa. A partir daí, voltamos 25 anos para o passado e a história de Ethan é contada em flashbacks por uma narrador em terceira pessoa.
Resumidamente, Ethan Frome é um fazendeiro pobre, que sonhava em ser engenheiro mas largou seus estudos precocemente depois da morte de seu pai, indo cuidar de sua mãe e, depois, casando-se e cuidando da propriedade que herdou. Com medo da solidão e do silêncio, depois da morte da sua mãe, casou-se com Zeena, a cuidadora, para que ela não fosse embora e continuasse a deixar as impressões femininas naquela casa. De saúde debilitada, Zeena recebe sua jovem sobrinha orfã, Mattie, para ajudá-la com as atividades domésticas. Ethan se apaixona por essa moça, que corresponde seus sentimentos.
Zeena não fala nada, mas percebe o que está acontecendo e constrói um situação na qual uma nova garota será contratada para assumir as tarefas domésticas para Mattie ir embora. Ethan e Mattie ficam devastados e, durante suas últimas horas juntas, eles decidem fazer algo que acaba de forma inesperada. Para nunca mais se separarem, Mattie propõe que eles se suicidem e Ethan acaba cedendo. Só que o acidente não os mata, mas os deixa inválidos para sempre. Ethan aleijado e Mattie paraplégica. No epílogo, voltamos para o tempo presente e descobrimos, pelos olhos do narrador sem nome, que há 25 anos, Mattie e Ethan continuam morando na mesma fazenda sob os cuidados de Zeena.
Essa tragédia me deixou fascinada. Apesar da paisagem fria e congelante da Nova Inglaterra e da pobreza e miséria em que vivem os personagens de Ethan Frome, há um aspecto similar das outras obras de Wharton que se passam na Velha Nova York: o vazio, a ausência, o silêncio, o não dito, a idealização frustrada do casamento e a procura de felicidade sufocada pelas condições materiais e sociais da vida humana. O que resta é a promessa vazia, relações miseráveis e uma solidão profunda.
Tanto a história moldura quanto os flashbacks se passam num longo e rigoroso inverno de Massachussets, o que torna a fazenda de Ethan ainda mais isolada do resto do mundo. Tão definitivo é o inverno na vida das pessoas, que a contagem do tempo é feita pelo número de invernos passados. Esse isolamento faz de Ethan um homem frustrado, que abdicou do seu sonho de estudar e tornar-se engenheiro para cuidar de sua família e propriedade. Casou-se com Zeena com o medo do silêncio, apenas para ter mais alguém vivendo sob o mesmo teto. Mas a relação entre eles é tão fria quanto o lugar onde moram. Mattie é a jovem forasteira que chega trazendo beleza, juventude e um frescor para esse ambiente opressor. Ethan sonha com uma outra vida com ela, mas não tem recursos para pedir um divórcio ou fugir com a amada, restando apenas a amargura e mesquinharia de sua esposa.
Mas veja, o narrador em terceira pessoa escreve principalmente sob o ponto de vista de Ethan e, por isso, neste triângulo amororo criamos compaixão com Ethan e Mettie, enquanto Zeena é a bruxa amargurada da história que trama contra a união dos pombinhos. Porém, Zeena era uma pessoa cheia de vida que iluminava a casa da fazenda e, sob a promessa de que depois do casamento iriam vender a propriedade e mudar-se para uma cidade, aceitou a proposta de união de Ethan. Mas o tempo foi passando, a fazenda não foi vendida e lá eles foram ficando. O isolamento e o frio da região e de seu marido foram tornando sua figura cada vez mais amargurada e hipocondríaca.
Mattie, a jovem inocente vítima das artimanhas de Zeena sob os olhos de Ethan, também não é tão coitada assim. Apesar de sua obediência e esforço diário nas atividades domésticas e cuidados com a saúde de Zeena - habilidades para as quais ela não tem vocação - confronta sua prima quando pega uma louça escondida do armário.
Ou seja, esses personagens vivem uma vida que odeiam. Ninguém é vítima, mas as amarras sociais, ou seja, o fato de que não têm dinheiro nem lugar para irem, faz com que eles fiquem presos uns aos outros. Sem conseguir se rebelar, largar tudo e fugir, eles acabam desafiando uns aos outros nas pequenices da vida doméstica. Os confrontos existem e estão lá, mas eles são sutis.
Estou falando tudo isso porque pesquisando brevemente sobre o livro vi duas coisas. Primeiro, muita gente não gosta do livro. Ele é leitura obrigatória no ensino básico nos EUA e fazer adolescente ler por obrigação um livro desse, completamente niilista e melancólico, com a paisagem fria, congelante, onde pouca coisa acontece, só pode dar nisso mesmo. Por causa desse descontentamento, alguns comentários tendem a diminuir o livro porque tiram sarro de algumas situações, como o prato de picles e o acidente de trenó. Porém, a história se passa no meio do nada, onde é possível fazer menos ainda por causa do frio. É justamente por causa desse vazio que pequenas coisas, como uma louça quebrada, ganham dimensões enormes. Além disso, uma vida dominada pelo tédio, sem televisão, luz elétrica, aquecimento interno, etc, escorregar de trenó na neve é uma das pouquíssimas coisas que sobram para fazer.
A segunda coisa que vi é a interpretação de que se trata de uma história romântica. Eu discordo desta leitura. Acho que Ethan é um homem infeliz, fraco, que prendeu Zeena nessa situação que ela nunca quis, a ignora como marido, e projeta nestas duas mulheres com quem vive suas frustrações e desejos e acaba tornando tudo muito miserável.
Infelizmente, colocar livros clássicos como obrigatórios no ensino básico diminui bastante a popularidade da obra. Eu lembro com agonia os livros que fui obrigada a ler no Ensino Médio. Quando somos adolescentes, esses livros são chatos. É preciso ter certa maturidade de leitura para ler Ethan Frome e estar preparado para o nada. Para a ausência. Para o que é dito pelo não dito. Com certeza a leitura dos dois romances anteriores me preparou para isso.
O meu comentário final se refere à dificuldade da leitura. Como é um livro muito descritivo onde pouca coisa acontece, foi muito difícil ler em inglês. Com certeza demorei mais por isso e várias vezes precisei procurar palavras no dicionário. Nesse sentido, o Kindle ajudou.
Ah, uma outra coisa: recentemente li A Casa das Sete Torres, de Nathaniel Hawthorne, uma história que também se passa numa cidadezinha da Nova Inglaterra. Ethan Frome foi um ótimo complemento, porque enquanto no primeiro a leitura nos coloca num cenário urbano, Wharton nos leva para um ambiente rural. Em ambos, todavia, são as atividades domésticas, a casa e a relação entre aqueles que vivem juntos sob quatro paredes que constituem o motor principal das tramas.
Os quatro contos
Dos outros quatro contos que vieram no livro, falarei brevemente sobre os dois que mais gostei. Afterward é um conto gótico, no qual um casal norte-americano muda-se para um antigo casarão de uma cidade rural da Inglaterra. Para eles, esta é uma experiência exótica e nesta nova residência eles esperam encontrar fantasmas. No entanto, antes mesmo da compra, eles haviam sido avisados que nesta casa havia sim muitos fantasmas, mas quem os vê, não sabe que os vê. Indignados, eles perguntam novamente "- Ou seja, se você viu um fantasma, você não sabe que viu e vai viver sua vida normalmente? Qual a graça disso?". E a resposta: "Bom, pode até ser que acabe sabendo, mas só depois".
Essa premissa do conto deixa tudo interessante e o ambiente misterioso da casa é ótimo. A descrição da biblioteca, os vultos, o comportamento estranho do marido e a desconfiança da esposa que passa a duvidar de si mesma tornam a história muito interessante. O desfecho é ótimo!
Xingu é uma sátira. Um grupo de seis mulheres aristocráticas montam um clube de leitura e estudos e, periodicamente, se reunem para discussões de "alto nível intelectual". Mas a verdade é que elas não sabem nada e fazem isso apenas pela aparência. Até que uma delas volta de uma viagem do Brasil e passa a ser ridicularizada pelo restante do grupo. Durante uma reunião, convidam para o almoço a autora do livro que vinham discutindo e elas ficam perdidas quando a autora, de sacanagem, começa a fazer perguntas cabeludas as quais elas nao conseguem responder. A mulher que voltou de viagem aproveita a brexa e, também por sacanagem, diz que elas estão sem conseguir responder porque nos últimos tempos estavam muito preocupadas com um tema importantíssimo: o "Xingu". Ninguém sabe o que é Xingu, mas todas conduzem a conversa como se soubessem do que estão falando e acaba sendo muito engraçado.
Eu amo Edith Wharton. Acho uma pena ela não ser muito conhecida no Brasil e não ter mais obras traduzidas. Alguns contos ou passagens mais descritivas têm uma leitura mais difícil. Enfim, leitura magnífica e recomendadíssima.
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No Brasil, Ethan Frome foi lançado pela Editora Penalux, com tradução de Chico Lopes, em 2017.
Goodbye, Columbus and five short stories - primeira vez lendo Philip Roth nos Estados Unidos
Venho lendo Philip Roth desde 2019, mas esta foi a primeira leitura que fiz nos Estados Unidos. Não é que tudo mudou, mas algo mudou.
Goodbye, Columbus and five short stories foi o livro de estreia do autor em 1959. Diferentemente dos outros que eu já li, este tem um ritmo mais tranquilo. Não tem aquela velocidade verborrágica de O Complexo de Portnoy ou Pastoral Americana. Adeus, Columbus se passa durante as férias de verão e descreve o romance entre Neil Klugman e Brenda Patimkin. Os dois são de família judias, mas a de Neil é pobre. Seus pais moram em outro estado e ele vive de favor com seus tios. Neil é também o narrador da história e tem um trabalho de baixa remuneração na Biblioteca Pública de Newark.
Ele conhece Brenda na piscina do clube que está frequentando. A família de Brenda tem uma situação financeira muito mais confortável. Ela é estudante em Radcliff College, Massachussets, e está passando as férias de verão com sua família em Newark. São pelos olhos de Neil que conhecemos Brenda, uma moça atlética, bonita, inteligente, e a sua família. Quando Neil é convidado para jantar com os Patimkin, é com Neil que entramos nos cômodos da enorme casa onde boa parte da história se passa, visualizamos o jardim, acompanhamos a rotina e conhecemos as personalidades dos integrantes daquela família.
A diferença entre os Klugman e Patimkin vão além do dinheiro. A mãe de Brenda se diz ortodoxa, seu marido é conservador e Brenda, segundo ela, não segue nenhuma linha. Quando Mrs. Patimkin pergunta para Neil qual corrente ele seguia e qual Sinagoga frequentava, Neil responde "- Eu sou apenas judeu".
Eu gosto muito como Roth coloca essas questões de identidade, religião e família dentro do espaço doméstico e das relações mais cotidianas da vida, pois são nesses momentos onde as diferenças se tornam mais problemáticas. Estes elementos já eram bem sensíveis para mim nas outras leituras, mas este livro trouxe uma vivência nova para mim. Aqui nos Estados Unidos estamos entrando na primavera depois de um frio horroroso, as temperaturas estão subindo, e as aulas já acabaram para dar início às férias de verão. Aqui as estações são muito bem demarcadas e há uma vontade coletiva de aproveitar cada segundo as altas temperaturas do verão. Por isso, as férias longuíssimas que começam em maio e vão até meados de agosto.
Brenda estuda em Massachussets, na Nova Inglaterra. Um lugar frio e desagradável (eu acho desagradável sim) para passar de 3 a 4 meses na casa dos seus pais apenas curtindo as férias e o calor, indo para a piscina, jogando tênis, saindo com os amigos. É um momento fora da realidade. Com data e hora para acabar. Já aprendemos nos filmes da Sessão da Tarde que qualquer romance que começa numa férias de verão é como um sonho e que, na chegada do outono, precisa encarar a realidade. Assim, já é esperado que Brenda vá embora de Newark no fim das férias. A dúvida que resta é como será o desfecho do romance entre o casal.
Ler ou já conhecer o lugar sobre o qual o autor fala também nos dá uma dimensão muito palpável do que ele está descrevendo. Na passagem em que Neil e Brenda vão para New York para que ela se consulte com um médico em frente ao Central Park, eu senti que estava lendo algo muito familiar. Por mais que seja uma delícia voar para outros mundos e realidades através da leitura, a proximidade com certos elementos - como a descrição da esquina onde estava o consultório - cria uma relação diferente - diria até íntima - com o autor e sua obra.
É uma história curta, gostosa de ler. As questões das famílias judaicas americanas ficam nas entrelinhas - salvo alguns momentos específicos como este breve diálogo entre Mrs. Patimkin e Neil. É um ótimo livro inicial para quem nunca leu Roth, pois O Complexo de Portnoy pode assustar um pouco, e Pastoral Americana e A Marca Humana é de uma leitura frenética que nos impede de suspirar.
Junto com Goodbye, Columbus, vieram cinco contos - ou short stories. Algumas já haviam sido publicadas em revistas. Mais uma vez vemos elementos como identidade, subjetividade, as famílias judias nos Estados Unidos e seus descendentes, os dogmas e fanatismo religioso. Veja o que eu acho louvável em Roth: em seus livros - e nestes cinco contos - ele fala do deslocamento do homem judeu nascido na América, o preconceito, a sensação de estar fora do lugar, os traumas históricos, colocando um olhar crítico também dentro deste círculo. Seus ataques afiados não se limitam do fora para dentro dessa comunidade, mas também traz críticas severas que ficam dentro deste grupo. Não há vítimas nas histórias de Roth. Todo mundo é ambíguo e problemático: quase uma questão genética.
Dentre os cinco contos, The Conversion of Jews, Defender of the Faith e Eli, the Fanatic, foram meus favoritos. Na primeira, um menino judeu curioso chamado Ozzie, pergunta ao Rabino por que Deus, que é absolutamente todo poderoso, não poderia ter engravidado Maria sem relação sexual e, portanto, ter tido um filho com ela. Por que, ele se pergunta, se Deus criou até a luz, ele nao poderia ter um filho sem penetração com uma mulher? O resultado para o pequeno Ozzie não é agradável. Ao invés de receber uma resposta satisfatória, ele apanha do Rabino e sangra. Sua mãe também reprova seus questionamentos. No dia seguinte, ele sobe no telhado e, diante de uma ameaça, faz todos reconhecerem que Jesus era sim filho de Deus. Neste conto, Roth faz uma alusão à passagem bíblica Romanos 11:25, que prevê a conversão de todos os judeus ao cristianismo como um evento do fim dos tempos. Roth é sempre muito simbólico, mas este conto consegue ser desesperadamente simbólico.
O segundo conto dentre meus favoritos, Defender of the Faith, conta a história de um tenente judeu americano, Marx, que lutou em batalhas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial e agora está recrutando e treinando novos soldados em Missouri. No seu campo de treinamento ele conhece três soldados judeus e um deles, Sheldon Grossbart, procura insistentemente benefícios e regalias justificando a origem judia comum entre eles. Ele se diz defensor da fé por requisitar dias de descanso, saídas para almoço em família, comida kosher e tudo o que lhe permitisse continuar com os rituais religiosos apesar do ambiente e rotina militar.
Num determinado momento, o superior de Marx, o Captain, fala para Grossbart que Marx estava há 3 anos e dois meses no exército, sendo um ano em combate, e que o Lieutenant nunca havia pedido saídas especiais, tampouco comida diferente. Grossbart responde que isso acontece porque algumas coisas são mais importantes para alguns judeus do que para outros. E o Capitão responde:
- Look, Grossbart. Marx, here, is a good man - o goddam hero. When you were in high school, Sargeant Marx was killing Germans. Who does more for the Jews - you, by throwing up over a lousy piece of sausage, as piece of first-cut meat [porque não são kosher], or Marx, by killing those Nazi bastards? If I was a Jew, Grossbart, I'd kiss this man's feet. He's a goddam hero, and he eats what we give him.
Olhando este diálogo, fica a questão: quem é aqui o defensor da fé?
Enfim, quando publicado, este conto foi muito mal recebido pela comunidade judaica, que acusou Roth de ser um self-hating jew.
Finalmente, Eli, the Fanatic, conta a história de Eli, um advogado judeu que mora numa comunidade com protestantes que se vêem "ameaçados" pela chegada de judeus ortodoxos. Fugindo dos combates da Segunda Guerra, estes judeus se instalam nessa pequena cidade americana com vários meninos e começam a montar uma escola Talmund Torah. A violência já começa com a tentativa de segregação no processo jurídico que a atual comunidade - de judeus e protestantes - querem abrir contra a instalação dos recém-chegados. Mas tudo ganha uma nova dimensão quando o advogado veste as roupas negras do seu "inimigo" e ele mesmo se torna o "outro".
Recomendadíssimo. Com certeza um dos melhores livros que lerei este ano. Vi na Amazon Brasil que tem uma edição da Companhia da Bolso e disponível também para Kindle.
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Alguns links interessantes:
Evening in Paradise, a continuação de Manual da Faxineira, Lucia Berlin
Eu tenho essa mania de retornar a autores que eu gostei muito num espaço curto de tempo. Sou um pouco repetitiva? Talvez. Depois de A Época da Inocência, repeti Edith Wharton com A Casa da Alegria. Agora, dobradinha com Lucia Berlin. Gostei tanto de Manual da Faxineira, me senti tão envolvida e mergulhada em seus contos, que não pensei duas vezes em ler Evening in Paradise, outra coleção de contos da autora e ainda não publicada no Brasil.
Nesta coletânea, os contos têm os mesmos cenários, as mesmas temáticas, a mesma força narrativa, mas parece uma continuação de Manual. Em Manual, somos apresentados ao "universo Lucia Berlin". Demora um pouco para a gente conseguir mergulhar de cabeça e começar a se sentir familiarizada com a narrativa. Como as estórias são inspiradas em sua própria vida, personagens e lugares vão se repetindo nos contos, mas nada é explicadinho. É com a leitura de conto atrás de conto, página após página, que vamos montando esse "quebra cabeça" da vida da autora.
A leitura individual dos contos de Lucia diz bastante, mas é no conjunto, como se fossem capítulos de uma grande estória, que os contos ganham mais poder narrativo. Por isso senti que eu já cheguei preparada em Evening in Paradise: apesar de nomes trocados, eu já pude identificar quem eram os personagens e quais os momentos da vida de autora. Recomendo, justamente, fazer este caminho. Primeiro Manual da Faxineira e depois Evening in Paradise, porque me parece que os contos aqui são menos óbvios, menos "explicados". Me parece que eles já pressupõem uma certa familiariade.
Não vou me estender nesta resenha porque pretendo escrever um texto sobre Lucia Berlin para o site Querido Clássico (depois atualizo este post com o link), mas gostaria de registrar brevemente o caminho que os contos percorrem em Evening in Paradise.
Os contos seguem uma ordem cronológica e começamos durante sua infância na casa de seus avós, enquanto seu pai está na guerra. Lucia nos conta sobre o Texas, os mexicanos e a família síria vizinha. Depois partimos para Santiago, Chile, onde a adolescente Lucia nos conta um pouco sobre suas amizades, sua mãe alcoolatra e sua sexualidade. Em Itinerary, uma descrição lindíssima de seu longo caminho entre Santiago, Chile, para o college em New Mexico. Um caminho com várias paradas: Santiago - Lima - Panama - Miami - Albuquerque, New Mexico: a mudança da estação, as pessoas que conheceu pelo caminho, o abandono de sua vida confortável e familiar para a solidão da vida adulta no destino final.
A partir daí, o fim precoce de sua vida colegial e o início prematuro da vida de esposa, mãe e dona de casa. Relacionamentos amorosos, drogas, álcool, Nova York, Natal em família no Texas, resort de férias no México, touradas, a fragilidade da vida e a presença constante da morte. Como na primeira coletânea, muitos cenários, muitos temas, mas a solidão, o deslocamento e a busca constante de sentir-se parte de algo, de um lugar, continua presente. Uma espécie de autobiografia completamente ficcionalizada.
Tomara que esta coletânea seja logo publicada no Brasil, pois é uma linda continuação do Manual da Faxineira, indispensável para quem leu Manual e se sentiu encantado.
Jogo, luxo, solidão e casamento em A Casa da Alegria, de Edith Wharton
O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.
Eclesiastes 7:4
Quando a gente gosta muito da leitura de um livro, é perigoso emendar outro em seguida do mesmo autor. Pode gerar comparações injustas, ou uma leitura bastante enviesada. Definitivamente, não foi o que aconteceu com a minha segunda experiência literária com Edith Wharton.
Muito recentemente terminei A Época da Inocência. Um livro para o qual eu me entreguei. Eu li com atenção e até carinho. Tanto que escrevi uma análise bastante cuidadosa para o site Querido Clássico. Quando comecei, portanto, A Casa da Alegria, eu já sabia o ambiente que devia esperar: a cidade de Nova York na virada do século XIX-XX, as carruagens, os casarões da Quinta Avenida, os vestidos, viagem e todo o luxo da sociedade aristocrática desta época e lugar. O que eu não esperava era uma protagonista tão intensa e complexa cujas idas e vindas são tudo, menos fáceis de encarar. Foi como se A Época da Inocência tivesse preparado o terreno para uma leitura que seria ainda mais envolvente e cheia de desolação para mim.
Em A Casa da Alegria acompanhamos dois anos da jovem nova-iorquina Lily Barth. Aos 29 anos, possuidora de grande beleza, Lily está a procura de um casamento que continue financiando seu gosto pelo luxo, pelo belo, fins de semana e viagens com a aristocracia e suas jogatinas. Lily foi criada em meio ao luxo, mas ficou orfã ainda criança. Depois que perdeu todo o dinheiro, seu pai morreu e, pouco tempo depois, sua mãe. Criada por uma tia, Lily tem uma pensão e seus custos de costureira assumidos pela protetora, mas isso é insuficiente para seu estilo de vida. Depois de perder o pouco que tinha em jogo de cartas, Lily toma decisões desacertadas uma atrás da outra, até que fica sem saída.
O tema “jogo” permeia toda a narrativa, como se tudo o que Lily tem e deseja estivesse em aposta. As relações sociais é um grande jogo nos quais os personagens estão, a todo momento, querendo “ganhar” e Lily, assim como com as cartas, tenta manter o controle das situações, mas sempre acaba vítima das melhores cartas que estão na manga dos outros. Tudo porque Lily, apesar de seu gosto pelo belo e pelo luxo, ainda sonha com o matrimônio por amor, o que é quase incompatível no meio social que frequenta.
Apesar de gostar de Lawrence Selden e por ele sentir afinidade, Selden é um advogado, não é rico, nem aristocrático. Pior, ele é aquele ombro amigo que diz ajudar, mas quem mais julga o gosto e as amizades aristocráticas de Lily apesar de ele mesmo não escapar deste entorno.
Gus Trenor, marido de Judy Trenor e amiga de Lily, diz ter especulado com o dinheiro de Lily na Bolsa de Valores e lhe entrega um lucro de 9 mil dólares. Na hora de cobrar sua comissão, descobre-se que ele tirou de seu próprio bolso esse dinheiro e cobra de Lily um pagamento que não é material. Como narrar uma cena de estupro em 1902, ano da publicação do livro? Como colocar tamanha violência em páginas num contexto de tempo e lugar que nunca admitiria uma narrativa assim publicada? Edith Wharton, com toda sua genialidade, consegue essa proeza. Ela coloca toda a dor, o sofrimento, o sentimento de solidão e culpa da vítima e os olhares julgadores da sociedade de modo a não deixar dúvidas que, apesar de não dito, uma violência foi consolidada.
Ainda temos o judeu Simon Rosedale, um capitalista em ascensão que está enriquecendo e aumentando sua reserva e fluxo de dinheiro. Ele almeja fazer parte destes círculos aristocráticos e, por isso, vê no casamento com Lily uma porta de entrada. Lily o acha desprezível, mas quando percebe que sua vida está em maus lençóis, aceita o pedido de Rosedale, que retira a oferta. Em nenhum outro diálogo literário vi a mulher e o casamento tão bem descritos como uma mercadoria. Uma moeda de troca. Um papel na bolsa de valores que, conforme o contexto, pode ter seu valor em alta ou em queda.
Finalmente, George Dorset, que propõe um casamento com Lily como forma de vingança contra sua esposa, Bertha Dorset. Ambos foram vítimas de uma situação criada por Bertha que faz todos acreditarem que Lily e George tinham um caso. Um casamento entre eles, nas condições que são colocadas, seria uma volta por cima e um “cala boca” contra Bertha.
Lily tem ainda um segredo em suas mãos que envolve alguns destes personagens, mas ela decide manter-se firme, justa, não faz uso desta “carta” e decide procurar um emprego. Tenta sobreviver com a ajuda da única amiga que não lhe deu as costas, mas tudo torna-se cada vez mais difícil. Pequenas situações vão sendo criadas e cada vez mais ela vai sendo isolada de sua sociedade. Mas é como se, sem um casamento, ela não conseguisse. Não importa o quanto tentasse e o que fizesse, a impressão é que Lily seria mau vista, manipulada e desamparada enquanto estivesse solteira e só um casamento poderia salvá-la. Além disso, a dívida com Gus Trenor vai consumindo seu coração e suas noites... Até que uma hora ela não consegue mais dormir e não dá mais.
Neste romance, Edith Wharton constrói personagens dúbios e situações constrangedoras que nos fazem nos sentir desconfortáveis. A autora também consegue nos passar o sentimento crescente de solidão. A cada página, junto com a situação cada vez mais difícil de Lily, a desolação vai crescendo em nós leitores. Um desespero que culmina em tristeza e desamparo. Muito recentemente a José Olympio do Grupo Editoral Record lançou uma nova edição com tradução de Julia Romeu. Recomendo fortemente.
O título A Casa da Alegria vem do livro de Eclasiastes 7:4. É como se o coração de Lily, enquanto vivia de forma tola e descompromissada em seu círculo rico e aristocrático, fosse feliz – ou pelo menos se sentia feliz. Mas conforme seu mundo vai se tornando nu e cru, o lado mais perverso das pessoas vão sendo escancarados e sua preocupação com dinheiro lhe consome, seu coração cada vez mais caminha em direção à casa do luto e lamento.
Quando o livro é bom, mas os santos não batem
Antes de virar o mês, um rápido registro sobre a última leitura finalizada. Vai ser rápido porque não vou ficar aqui reclamando. Se for para falar muito, que seja para falar bem.
A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin, foi um dos livros mais arrastados que eu li na vida. Eu não sei como não desisti. É um gênero totalmente fora da minha zona de conforto. Não costumo ler fantasia e muito menos ficção científica. Na virada de 2020-21, li a trilogia "O Problema dos Três Corpos", de Cixin Liu e, por mais que eu tenha gostado dos dois primeiros volumes, o terceiro não consegui terminar. Quando a narrativa fica abstrata demais, eu não consigo acompanhar.
Cheguei em "A mão esquerda da escuridão" por causa do clube do livro do Querido Clássico. Eu gosto de ler autores novos, me desafiar em leituras desconhecidas e, por isso, acho que não desisti do livro. Infelizmente, não consegui participar do encontro. Tivemos feriado de Dia de Ação de Graças aqui nos Estados Unidos, fomos viajar, tivemos corrida de rua no dia, mais fuso horário, um cansaço enorme e eu dormi a tarde inteira perdendo o encontro.
De qualquer maneira, eu dei uma chance ao livro até a última página e não gostei.
Eu li algumas resenhas e achei que o livro merece a importância que ele tem. É bastante original o universo criado pela autora. Também reconheço o valor de uma mulher escrevendo ficção científica, um gênero tão dominado pelos autores homens.
Mas, infelizmente, não deu. Eu demorei muito para compreender e engatar naquele universo. Ela já chega contando as coisas e a pessoa sem imaginação aqui sentiu falta de uma introdução. Fiquei perdida demais até meados do livro. Quando um dos protagonistas é capturado e levado para uma espécie de campo de concentração daquele planeta onde se passa a história, ficou mais interessante, mas ele logo é resgatado pelo outro protagonista e, pelas 100 páginas seguintes, eles atravessam um deserto de gelo. Tão difícil para eles quanto para mim, que achei a leitura desta parte tão desolada quanto o próprio cenário. Me deu sono, cansaço, preguiça e uma dificuldade imensa de continuar. Neste aspecto, muito realista a narrativa.
Única coisa que lamento foi não ter consigo participar do encontro, mas ler um livro e não gostar faz parte. Quanto mais a gente lê e se expõe, maiores as chances de encontrarmos algo com o qual não temos afinidade.




















