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Porque não gostei de Norwegian Wood - o livro, não a música

Depois da leitura pesada que foi Silvina Ocampo, pensei em ler algo que fosse mais minha zona de conforto. Logo veio à minha mente Haruki Murakami, pois há muito tempo não lia nada deste autor, apesar de sua vastíssima obra e da forte simpatia que eu tinha com os livros que li. Eu não queria fugir dos elementos fantásticos que tanto nos lembra os contos de Silvina Ocampo, mas eu queria algo mais leve e encantado. 

Adorei Kafka a Beira Mar: uma releitura da tragédia de Édipo, com os gatinhos que se comunicam com um dos protagonistas, etc. Amei. Depois, Caçando Carneiros foi um dos meus livros favoritos da vida. Finalmente, a trilogia 1Q84, que eu achei divertidíssima e envolvente. 

Então fui para Norwegian Wood, que é uma das obras referências do autor japonês. Sua escrita é sedutora. É muito fácil ler Haruki Murakami. E por isso eu fui. Fui... Fui. E só foi piorando. Não que o começo tenha sido ruim, mas do meio para o final foi péssimo. 

Foi publicado em 1987. Trata-se de um romance de formação. A história é contada por Toru Watanabe que, mais velho, relembra seus 17 e 20 anos durante os anos de 1968-1970 no Japão. Tem todos os elementos clichês para qualquer história de adolescente/ jovem adulto desta época: muita música, protestos, greves, sexualidade, álcool, depressão, retiros alternativos. Só não tem drogas. Boa parte da história se passa num alojamento masculino cheio de universitários e não tem... Drogas. Ok. Isso não é tão importante assim. 

O problema, a meu ver, são dois. O primeiro, não gostei como a depressão e o suicídio são tratados no livro. Vários personagens têm problemas depressivos profundos e vários se matam. Parece que mais personagens comentem suicídio do que chegam vivo até o final. A discussão que permeia toda a narrativa é "quem é normal e quem não é", ou "o que é ser normal?". Bom, tudo bem, o livro foi escrito em 1987, mas o máximo que acontece é um tratamento alternativo num retiro de pacientes que não tem acompanhamento médico convencional. Ou seja, eles estão lá para "se" tratar com o ar das montanhas, cuidando de passarinhos e conversando bastante. Enfim, uma abordagem completamente "antivax". De novo, compreendo que é uma obra de 1987 falando de um período de 20 anos atrás, mas faltou um "q" de levar essa situação um pouco mais para além de "tristeza-não-faz-de-ninguém-anormal-vamos-aproveitar-a-natureza-porque-as-montanhas-são-lindas-e-tudo-o-que-você-precisa-é-boa-vontade-para-se-curar". 

O segundo tem a ver com críticas que olhei de relance por aí na internet e para o qual eu sempre fiz vista grossa: as personagens femininas de Murakami. Nas outras obras que li, não tive nenhum problema com as personagens femininas, achei que ou elas não apareciam e não eram importantes para a história, ou então eu até gostava delas. Em 1Q84 eu adoro a protagonista. 

Porém, em Norwegian Wood, um livro que trata justamente sobre o "despertar', vamos dizer assim, da sexualidade do protagonista, as mulheres aparecem como bonecas/fantoches sexuais, com diálogos completamente apelativos e ridículos. Sinceramente, fica parecendo muito menos um romance de formação e muito mais os devaneios de um adolescente bobo egocêntrico cheio dos hormônios. Podemos falar que o narrador é em primeira pessoa e tudo o que nos conta é uma digressão e, portanto, pode ser essa imaginação mesmo e acabamos sendo enganados. Tudo bem, isso é até válido. O problema é que a leitura se torna um clichê sexual tosco cansativo e misógino. 

Uma passagem lamentável é quando uma das personagens, na casa dos 40 anos, paciente da tal clínica alternativa, vai contar para o protagonista o episódio que a levou a esta situação. São páginas e páginas de sua história: ela era professora de piano, na casa dos 30 anos, bem casada e com uma filha bebê. Uma de suas alunas de 13 anos a seduz e elas vão para a cama. Depois, tanto o sentimento de culpa quanto o julgamento de seus vizinhos a destrói. São páginas e páginas de descrição desta cena de pedofilia, onde a menina de 13 anos seduziu a professora, e - o mais importante - tem absolutamente nenhuma conexão com o antes e o depois da história. É uma narrativa, dentro de outra narrativa, puramente pela descrição sexual de uma mulher e uma adolescente.

Tenho a impressão de que é um livro adorado por leitores homens. O que é uma tristeza. Eu adoro romances de formação, adorei as outras obras de Haruki Murakami, e talvez passe algum tempo agora para eu ler outra obra do autor. 

Enfim, pela primeira vez na vida, vou dar apenas uma estrelinha de avaliação para uma leitura. Recomendo, no entanto, Caçando Carneiros. 

Um Artista do Mundo Flutuante, Kazuo Ishiguro: as dores e a melancolia daqueles que perderam a guerra

Acabei sem querer tropeçando em Kazuo Ishiguro e Um artista do mundo flutuante foi meu livro de estreia do autor. Circulando pelos perfis literários no Instagram, vi uma referência à beleza da capa de Um Gigante Adormecido. Como eu estava ainda mexida pela recente leitura de Miso Soup, obra de outro autor japonês, fui atrás de Kazuo Ishiguro na Amazon e acabei me interessando.

Este post não chegará aos pés da atenção que merece Um artista do Mundo Flutuante. Sinto que eu deveria voltar às páginas do livro e fazer uma segunda leitura mais cuidadosa, mais reflexões, mais parágrafos grifados e páginas marcadas com post-it caso se eu quisesse cumprir com louvor a minha ousadia de escrever sobre este livro aqui. Não obstante, segue algumas ideias e um relato da minha experiência de leitura.  

Eu não sei porque, mas eu sou um ímã de leituras relacionadas à Segunda Guerra Mundial. Já mencionei sobre isso em outros posts. Talvez - só talvez, seja porque eu sou uma apaixonada pelo século XX e a Segunda Guerra foi o maior evento deste período. Nos últimos dois anos, li muita coisa sobre o Holocausto e o Exército Vermelho, mas nunca sobre o ponto de vista político. Sempre - absolutamente sempre - meu interesse está na relação do indivíduo e sua identidade com o momento histórico vivido (ou herdado). Hitler não me interessa. Me interessa a dona de casa que compra pão todo dia na União Soviética e, um dia, sai às ruas para protestar por mais liberdade. Me interessa o filho do judeu imigrante que nasceu nos EUA, viu o Holocausto do outro lado do Atlântico e um belo dia vai para Israel. Me interessam as pessoas comuns e como elas vêem o mundo - e a si mesmas! -  a partir das vicissitudes históricas.

Engraçado que, apesar de todo esse interesse, eu nunca havia me atentado para um dos antagonistas desta Guerra. Frequentemente falamos de Pearl Harbor, kamikazes, Bomba Atômica, Hiroshima e Nagasaki. Este vocabulário está aí, em todo o lugar, mas acho que se tornaram um pouco vazios. Tanto quanto as vezes "Holocausto" parece estar se desgrudando de todo o significado que a palavra carrega.  Parece que quando falamos da participação e derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, a queda das bombas nucleares e a rendição estamos falando apenas de dados históricos. Precisamos relembrar os significados destes eventos - tanto para o momento em que ocorreram como para o tempo presente.

Neste sentido, Um Artista do Mundo Flutuante me lembrou Talvez Esther, de Katya Petrovskaya, que eu li ano passado. São leituras que falam sobre as feridas que não se fecham e os traumas que a Segunda Guerra Mundial trouxe nos níveis individuais e familiar. Como uma falha em um único ponto que deixa marcada toda a continuidade da trama de um tecido. Ou a colocação dos tijolos de um muro: quando uma peça não é bem assentada, todo o restante vai sendo construído torto. Passei tanto tempo na faculdade de História, há tantas e tantas horas de séries, documentários e filmes sobre eventos históricos, mas pouco se fala da dimensão de um trauma histórico naqueles que acordam no dia seguinte, vivem sua vida, almoçam, vão trabalhar, voltam para a casa e dormem para viver outro dia. Como diz Primo Levi em seus livros: é impossível voltar à vida de antes. 

Mas estou divagando - como diria Masuji Ono, o protagonista de Um artista do Mundo Flutuante. O livro é contado em primeira pessoa durante os primeiros anos da ocupação, entre Outubro de 1948 e Junho de 1950. A partir de quatro datas marcadas, que funcionariam como quatro grandes capítulos, Masuji Ono, um artista já aposentado, nos conta os problemas que envolvem as tratativas de casamento de sua filha mais nova, Noriko. A filha mais velha, Setsuko, já casada e com um filho pequeno, Ichiro,  mora longe com seu marido e visita o pai em ocasiões específicas. 

A partir destas questões que envolvem Noriko, Masuji Ono vai recuperando algumas situações passadas e, tomando de sua memória, nos conta eventos que viveu nos períodos pré e durante a guerra. Nos relata também, aos poucos, sua formação como artista, sua ocupação oficial no governo, a relação com seus alunos, o ambiente artístico e cultural boêmio do Japão dos anos 20 e, após, sua virada para uma arte mais patriótica e engajada às causas sociais. 

Contando sobre si, os lugares que frequentou e as relações cultivadas e rompidas ao longo de sua vida, Masuji Ono narra a própria história do Japão e faz um mea culpa, uma retrospectiva das responsabilidades e consequencias da Segunda Guerra Mundial para o que restou àqueles que sobreviveram e agora habitam um outro Japão - um lugar completamente diferente do que conheciam. Tudo isso sem mencionar, nem uma vez sequer, um evento específico ou todo aquele vocabulário já exaustivamente utilizado: bombas incendiárias, kamikazes, Hiroshima, Nagasaki, etc. Mesmo "guerra" é um vocábulo que quase não aparece.

Esta retrospectiva é feita sob as motivações que envolvem o futuro - os problemas das gerações mais jovens: a vergonha da perda, a humilhação da ocupação, a ofensa da rendição, as mortes dos entes queridos e a destruição das paisagens. Quem responsabilizar? Quem é o culpado de tudo isso? São traidores aqueles que levaram o Japão ao seu aniquilamento? 

Por mais que nosso conhecimento sobre o leste asiático seja muito tangencial, sabemos que a história tradicional do Japão é marcada pelos samurais, casas de chás, gueixas e uma forte cultura de expansão imperialista. Uma sociedade bélica, violenta, patriarcal, sanguinária. O que aconteceu com esta tradição após a derrota da Segunda Guerra e a ocupação do território pelos EUA?

Masuji Ono, um intelectual e artista patriota, que ocupou cargos oficiais importantes durante a guerra e participou ativamente da promoção artística das campanhas de recrutamento, apesar de não ser acusado diretamente, é visto como um dos responsáveis - culpados - pelos erros geopolíticos recentes do país. Que posição agora ele ocupa? Sem ser diretamente acusado, suas filhas acham que a proposta de casamento de Noriko do ano anterior foi frustrada por causa do passado de Masuji Ono. Sua família, apesar de tratá-lo com muito respeito, na verdade trata-o com excesso de formalismo e o exclui. Ele está lá. Ele faz parte, mas ao mesmo tempo não faz. 

Abre parênteses.

O neto Ichiro, uma criança pequena, está brincando - do que parece ser - de super-herói. Quem ele está imitando? Um grande samurai da história do Japão, como Musashi? Não. Um cowboy. Seu pai, genro de Masuji Ono, acha melhor seu filho não conhecer os heróis/ samurais da história japonesa, pois não são boa influência. É melhor ele aprender com a cultura norte-americana. 

Depois, mais para frente, a criança enche a boca com espinafre - muito mais do que é capaz - e bate em seu próprio peito para imitar o Popeye. Aos olhos de Masuji Ono, a criança faz isso de modo besta. Tosco. Vergonhoso. 

O tempo passa e Masuji Ono, depois de conversar com seu neto sobre saquê, diz que o Ichiro está grande, tornando-se um homem e poderia experimentar um pouco da bebiba alcoolica. A filha Setsuko se nega a diluir um pouco de saquê na água para dar a seu filho, apesar da expectativa da criança. Mesmo aos protestos de Masuji Ono, dizendo que o momento que um menino experimenta o saquê é um ritual de passagem - uma ocasião importante para a formação do menino-homem e que ele se lembrará para sempre com carinho desse momento, Setsuko nega. O pai de Ichiro discordaria também. 

Fecha parênteses.

Masuji Ono ouve dos jovens adultos que o Japão tem muito a aprender com os EUA e com a "democracia". Ele vê a chegada dos costumes ocidentais ocupando todos os espaços do Japão: desde a "comodidade" dos novos conjuntos habitacionais sendo construídos (apartamentos que, segundo ele, são minúsculos), até os cartazes de cinema e pequenas intervenções de mau-gosto nas decorações para agradar os norte-americanos. 

Os outros de sua geração se suicidam - a fim de "ajudar" as novas gerações a superar a vergonha passada e poderem se voltar ao futuro. Masuji Ono vê a doença e a velhice atingir a geração daqueles que um dia lutaram pela grandiosidade de seu país e que paassaram a serem vistos como "traidores", responsáveis pela decadência, destruição e sujeição do país às forças externas. 

Certo momento, Masuji Ono nos conta que teve uma conversa com sua filha Setsuko e começa dizendo que "se irritou" porque ela estava errada em sua suposição. Para nós, Masuji Ono vai aos poucos recuperando lembranças, nos contando a partir de sua memória, vários momentos e detalhes de sua vida que justificam os motivos pelos quais sua filha estava errada. Em nenhum momento eles se confrontam, mas, no mesmo almoço do evento do saquê, o artista aposentado sugere uma afirmação que indicaria que a filha estava errada - e ele acredita que ela entendeu o recado. De qualquer maneira, ele nos mostra com convicção: ela estava errada. 

Já ouvi falar outras vezes sobre o "choque" de gerações entre os japoneses. O choque entre tradição versus modernidade. Kazuo Ishiguro coloca essas questões de modo sensível e profundo. A partir da personagem de Masuji Ono, o autor nos mostra a importância de uma revisão histórica, que os responsáveis assumam seus papeis na tragédia que assolou o Japão para que o futuro venha a ser, que os jovens e as futuras gerações tenham possibilidades e possam superar os desafios impostos pela guerra e continuar suas vidas e a vida do seu país.

Porém, existe também uma crítica severa contra estas novas gerações que - seja por vergonha, ou outros sentimentos de remorso - transformam esta reflexão em uma completa substituição de seu passado. Parece que não se trata mais de uma autocrítica, mas uma completa substituição de suas história e tradição. Uma hiper-valorização da cultura ocidental, as tentativas sutis de agradar os americanos e a ideia de que o Japão tanto tem a aprender com a democracia norte-americana vem a borrar todo a cultura, tradição e identidade japonesas. Borrar - não apagar - porque, como Masuji Ono mesmo diz ao reconhecer traços de seu filho no seu neto Ichiro, as novas gerações nunca deixam de carregar e levar adiante características herdadas de suas famílias e até mestres. 

"Na verdade, nesse dia, ao ver Ichiro com o rosto colado ao vidro para olhar a rua lá embaixo, percebi o quanto estava ficando parecido com o pai. Havia traços de Setsuko também, mas isso se via principalmente em seu jeito e nas pequenas expressões faciais. E claro, me surpreendeu também a semelhança de Ichiro com meu próprio filho, Kenji, quando tinha essa idade. Confesso que sinto uma estranha consolação ao observar as crianças herdarem essas semelhanças de outros membros da família, e minha esperança é que meu neto as mantenha em seus anos adultos. 

Claro, não é apenas na infância que estamos sujeitos a essas pequenas heranças; um professor ou mentor que admiramos muito no começo da vida adulta deixará sua marca e, de fato, mesmo muito depois que se reavalia, talvez até se rejeita, o grosso dos ensinamentos desse homem, certos traços tenderão a sobreviver, como alguma sombra dessa influência, para ficar com a pessoa pelo resto da vida."

Apesar do sentimento consolador de ver as heranças sendo transmitidas de geração em geração, também é presente o sofrimento. Uma dor tanto entre aqueles que viveram a guerra, foram responsáveis por ela e, se antes eram heróis, tornam-se excluídos e acusados, quanto entre os mais jovens, que tentam apagar o passado herdado. As tentativas de apagamento são frustrantes, pois, como aponta Masuji Ono, inevitalmente os traços e semelhanças são herdados: as tentativas de importação da cultura ocidental e apagamento da tradição são, portanto, dolorosas para todos - independente da geração e da idade. É a melancolia que os afasta e, contraditoriamente, também os une.

Esta foi minha última leitura de 2020 e, com certeza, uma das mais belas.

Duas leituras de novembro que foram um pulinho para o outro lado do mundo

Os perfis literários no Instagram, blogs de resenhas de livros e clubes de leitura tem diversificado bastante o tipo de literatura que eu leio. Graças à Gabi Barbosa, este mês li dois autores japoneses que desconhecia: Ryu Murakami e Hiromi Kawakami. Duas leituras muito diferentes entre si e que me trouxeram experiências também antagônicas.

De literatura japonesa, só conheço talvez um dos mais famosos: Haruki Murakami, de quem sou muito fã. Kafka a Beira Mar, 1Q84 e Caçando Carneiros foram leituras que devorei. Adoro o universo fantasioso dos livros, os diálogos filosóficos e a sutileza com a qual traços ocidentais aparecem imbrincados no cotidiano dos personagens. Fora isso, a imagem que tenho do Japão é carregada de preconceitos e esteriótipos do universo de anime herdados da adolescência e alguns passeios na Liberdade. 

Vou falar brevemente sobre as duas leituras porque o intuito do blog é este: mapear minhas experiências literárias. Sinto que consigo mais falar sobre o processo da leitura do que sobre o conteúdo em si, porque é um universo muito novo, sobre o qual nunca estudei e nem vivenciei.

Quinquilharias Nakano - Hiromi Kawakami

"- Tenho uma notícia boa e uma notícia ruim, qual você quer primeiro?" O Allan vive fazendo essa pergunta e minha resposta é SEMPRE: - A notícia ruim. 

Por isso começo com Quinquilharias Nakano, porque eu desgostei demais. Que livro chato de ler! Se não fosse o encontro do clube de leitura e a vontade de dar uma chance ao final, eu acho que teria desistido. 


O microcosmo da loja "Quinquilharias Nakano" tem um "q" de inocência boba que me irritava. A relação dos empregados com o Sr. Nakano, dono da loja, me pareceu estúpida. Ele é, afinal, o patrão, mas aparece o livro inteiro como um amigo, talvez. Não sei. Mas o fato é que não existia uma relaçao patrão-empregado ali, eles apenas "estavam" lá o tempo todo.

Há claramente uma dificuldade de comunicação entre os personagens e pouco se mostra sobre suas vidas fora do universo da loja. Quando falam sobre o que ocorre fora das quatro paredes e com pessoas que não participam daquele microcosmo, é justamente através dos diálogos entre os quatro personagens principais: Sr. Nakano, o proprietário, sua irmã Masayo, a protagonista Hitomi, funcionária da loja e Takeo, o outro empregado. 

Existe uma tensão sexual que não passa. Seja entre o Sr. Nakano e sua amante, o namorado/parceiro sexual de Masayo, Hitomi e Takeo, ou fotografias de pessoas fazendo sexo. Há, inclusive, uma cena entre Hitomi e Masayo comendo torta de maçã cheia de metáforas e bastante interessante. No entanto, em todo o resto, essa tensão é sufocante e não desenrola. E quando desenrola, é incômoda, estranha. Hitomi e Takeo, o casal núcleo, são dois jovens que se sentem atraídos sexualmente um pelo outro, mas não compreendem isso. Ou talvez compreendem e tentam ignorar. Os diálogos são cheios de "- Ahn..." e frases inacabadas. Muitas vezes há um vácuo de silêncio e um constrangimento no ar. A sensação é que eles estavam todos presos, sufocados por um monte de quinquilharias e assim eu me senti em toda a leitura.

Hitomi, a protagonista, muitas vezes me lembrava aquelas personagens femininas bobas de anime, com brilhinhos nos olhos, bochechas rosadas e cabelo amarrado igual Chiquinha do Chaves. Enquanto seu colega de trabalho me lembrava aqueles personagens masculinos de anime, fechados, de poucas palavras, sempre com o semblante sério. Talvez fosse mea culpa, por carregar essa imagem esterotipada. Ou talvez fosse assim mesma a descrição. Não sei. 

Em geral, não gostei dos personagens, da relação entre eles, tampouco dos diálogos. O que me agradou e me chamou a atenção foi a relação das pessoas com os objetos da loja. Essa parte da materialidade, dos objetos antigos, velhos, a oposição entre o analógico e o digital, pôsteres, objetos valiosos e outros que não valem nada, o quanto estes objetos dizem sobre as pessoas e a história do próprio Japão, colecionismo, leilão, etc... Isso é bem interessante de observar.

Miso Soup - Ryu Murakami

Agora a notícia boa. Publicado em 1997 no Japão e em 2005 no Brasil, o livro me surpreendeu em vários sentidos. Eu li a resenha no site da Gabi e vi de cara que houve um match entre eu e o livro e logo comprei.  

Ele foi completamente o oposto da leitura anterior. Não há nada de inocente, nada de bonito. É um livro muito cru, de frases curtas, diretas. Há algumas cenas um tanto gore e até me lembrou um pouco o gênero Pulp e Tarantino. Nas duas primeiras partes do livro rola um mistério, uma tensão e, só na última e terceira parte, um pouco de suspiro. 

Kenji, o protagonista, é um "guia de turismo sexual" e leva seus clientes às ruas e atrações de Tokyo que, em oposição ao que a palavra "turismo" nos remete, o Japão gostaria de esconder. O que é colocado em jogo, durante toda a narrativa, é justamente a oposição entre progresso e decadência. Apesar de ser uma das maiores economias do mundo, a sociedade japonesa do pós-segunda guerra é marcada por muitas contradições internas que, aos olhos dos estrangeiros, tornam-se estranhas e, portanto, escancaradas.

Ryu Murakami coloca a tensão entre o capitalismo ocidental e a cultura tradicional japonesa num espaço justamente onde não há meio termos: no sexo. Diria que, ainda mais, no sexo capitalista, como mercadoria, oferecido pelo Japão e consumido pelo estrangeiro (aqui representado pelos Estados Unidos). Por isso, as contradições ficam tão evidentes, desconfortáveis e sem explicações. Elas são jogadas. A começar pelo próprio jogo de palavras entre turismo e sexo. Não é um turismo que se mostra. Os turistas que procuram sexo não tiram fotos e exibem no Instagram ou fazem álbuns de viagem. Não há propagandas e campanhas de política nacional para atrair este tipo de turista. É um turismo sim, mas do submundo. Escondido. Disfarçado. Um turismo que faz-de-conta-que-não-existe. 

A partir daqui eu queria falar um pouquinho sobre uma cena que se passa na segunda metade do livro, a partir da página 100 mais ou menos. Então, se tiver alguém lendo este texto e não quiser saber spoiler, pare por aqui. 

 

Fiquei pensando muito no quanto a cena na qual Frank hipnotiza algumas de suas vítimas, depois as ataca de modo brutal e, inclusive, queima aos poucos o rosto de uma delas, não é uma metáfora da própria Segunda Guerra. As bombas incendiárias e as bombas atômicas, matando sistematicamente civis a fim de que? Uma causa nobre entre o bem e o mal? A fim de mostrar quem é a maior potência mundial e, portanto, detentora da moral?

Nem sabemos se Frank é o nome verdadeiro deste americano assassino. Ele pode ser qualquer norte-americano estadunidense. O quanto Frank hipnotizando e sabendo como cortar uma garganta sem esguichar muito sangue não é o próprio Robert McNamara analisando friamente a eficiência dos bombardeamentos aéreos na Segunda Guerra Mundial? 

E também o espaço. A geografia onde ocorreu o massacre e quem foram as vítimas. No livro, o omiai pub é duplamente parte do submundo. Além de situar-se numa região periférica de Tokyo, era também um espaço menos procurado pelos consumidores da região. Era um estabelecimento "menor" que os demais, onde frequentavam prostitutas menos interessantes e consumidores menos exigentes. Por isso, com as portas fechadas, as vítimas demorariam a ser encontradas. Num contexto geopolítico, onde ficam o Japão e os demais países do leste asiático? Nossa cultura ocidental importa a superficialidade da cultura de entretenimento desses países, tecnologias, mas o que conhecemos e o quão relevante é o Japão para o mundo? Fico pensando na gravidade desta questão durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. O Japão perdeu a guerra e, pior, não situava-se na Europa. Na geopolítica eurocêntrica e ocidental, o Japão é periferia do mundo. Assim como o omiai pub palco da clímax da narrativa.

Com certeza Miso Soup foi um dos melhores livros que li este ano. Outra parte que me deixou a refletir foi a história de Frank e a lobotomia. Me lembrou vagamente "Um estranho no ninho". Ele é um sintoma da sociedade capitalista ocidental e seus problemas em lidar com a ordem. Onde chegou-se com a civilização ocidental e a ausência total de tradições? Em tirar pedaços de cérebros fora? Sobre isso, não me sinto preparada para discorrer, mas é interessante refletir um pouco. 

Caçando Carneiros: depois dos 30, o que há é um grande "?"

Se o livro perfeito para toda criança de 11 anos é Harry Potter, o livro ideal do adulto prestes a fazer 30 anos é Caçando Carneiros.

Eu comecei a ler Haruki Murakami por um motivo muito mesquinho: pela capa. A arte da Companhia das Letras nos livros do autor japonês me encanta e, numa feira de livros, lá estava Kafka a Beira Mar. Achei lindo, com desconto, e comprei. Devorei o livro, achei maravilhoso, depois disso li 1Q84 em janeiro e, por último - já na quarentena- Caçando Carneiros.

Curiosamente, 1Q84 foi quase uma previsão: assim como os protagonistas, de uma hora para outra euzinha me vi numa realidade paralela onde "quase" tudo parece igual, mas não é.

Em Caçando Carneiros, o protagonista não-nomeado entra numa jornada em busca de uma criatura mística (um carneiro estrelado) nos últimos seis meses de seus 29 anos. Em setembro, eu também completo 30 anos. Por que sair da casa dos 20 é inquietante? Incômodo? Por que essa mania chata de marcar e atribuir significados às temporalidades? Por que essa busca por valores, sentidos e criaturas místicas que não sabemos nem se existem de fato?

"Eu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, diria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo que eu obtivera."

E diante deste momento de transição, fica a questão: os 30 serão uma continuação dos 29? Mas de uma hora para a outra, ele é confrontado a abandonar tudo, soltar qualquer laço ou lembrança da vida dos 20, para partir numa caça de dois meses a um animal místico, sem saber qual será o resultado ao fim deste prazo. Eu, de fato, estou vivendo a transição 29-30, mas a quarentena/ COVID/ corona vírus/ pandemia (são tantos nomes para a mesma coisa) está sendo um período de passagem comum a todos da minha geração. A transição para uma incógnita, cujo depois a gente até tem alguma ideia do que será, mas não sabe exatamente o que. Só sabemos que a casa dos 30 não será igual aos 20, não só na relaçao de nós com nós mesmos, mas de nós com o mundo.

Muito difícil saber lidar com esse momento intermediário. Aceitar o que era e o que será é mais simples, mas o agora indefinido é ainda um desafio.  

Outro ponto-mais-que-perfeito-e-didático de transposição da narrativa de Murakami para nossa vida-que-parece-ficção-mas-não-é é o nome. Nenhum personagem do livro é nomeado e, se isso parece estranho, percebe-se que o nome é dispensável, indiferente para a narrativa. Além disso, muito safadinho esse Murakami! Afinal, quem não sofre para nomear as coisas? Desde a primeira atividade infantil de escrever um texto de ficção, uma das partes mais difíceis (na minha opinião) é nomear os personagens. Recentemente, eu quase chorei procurando um nome para a minha dissertaçao de mestrado. Olha o nome desse blog. Eu odeio ele, mas não consigo pensar num melhor. Essa tentativa de dar match entre signo, significado, significante, e outros sigs, é 99% das vezes frustrante.

"- Gatinho, gatinho - chamou o motorista sem estender os braços, mais que compreensivelmente. - Como é que ele se chama?
- Ele não tem nome.
- Como assim? De que jeito o chamam, nesse caso?- Não o chamo, simplesmente. - respondi. - Ele apenas existe."

Incrível como o inimigo comum invisível é bem nomeado: SARS-CoV-2. Siglas, letras maiúsculas, minúsculas e até um numeral. Mas para facilitar na linguagem corrente, tem também a designação COVID-19, ou Corona Vírus. Na verdade, nem eu sei muito bem a diferença entre um termo e outro, mas é de compreensão comum não especializada à que esta diversidade de nomes se refere. O que não tem nome são os números: os mortos, os infectados, os desempregados, os excluídos... Todos estes "apenas existem" e fazem parte de estatísticas.

Nos momentos finais de procura ao carneiro estrelado e de seus 29 anos, o protagonista se encontra num confinamento involuntário, numa casa sem vizinhos, construída num vale isolado de difícil acesso. O protagonista passa seus dias de solidão refletindo, comendo, fazendo pão, ouvindo música, e tentando controlar o aumento de peso com exercícios físicos matinais. Este livro foi publicado em 1982. Não consigo deixar de pensar que ele somos também todos nós, dos 28 aos 32 anos, mais ou menos, vivendo o ano de 2020.