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#estacaoblogagem - Apesar das melhores das intenções, admito: não consegui, falhei. E está tudo bem.

 

 

Eu fiquei pensando por muito tempo sobre o que eu poderia escrever para o tema desta semana da #estacaoblogagem. Racionalidade, ideologia, verdade, conflitos internos, problemas que só existem na minha cabeça... Por uma semana eu pensei, pensei e pensei mais um pouco. Esta é a terceira tentativa de produção de um texto. Decidi que ou eu ficava só no plano mental pensando ou eu vinha aqui e agia - de uma forma ou de outra.

 


A verdade é que este blog foi retomado justamente na tentativa de organizar um pouco os pensamentos, que estão uma zona. A vida neste 2020 está sendo adaptada e a minha mente ainda está se acostumando. Então, estou aqui de coração aberto, aos 45 minutos do segundo tempo, para admitir: não consegui. Não consegui materializar em palavras qualquer assunto que se relacionasse ao tema da semana. 

Isso me lembra um pouco quando comecei a escrever minha dissertação de mestrado. Foram anos de pesquisa e leituras. Eu tinha uma ideia vaga do que eu queria dizer, mas não sabia como organizar os argumentos a favor desta ideia, dialogar contra as visões opostas e, muito menos, sintetizar em um parágrafo sobre o que era meu trabalho. Esta foi a parte mais difícil, custosa e demorada: materializar em palavras, frases, parágrafos e capítulos o que se passava na minha cabeça. O que eu via e o que eu pensava com toda aquela documentação era muito mais difícil de explicar do que as horas e horas passadas no arquivo, as discussões e conversas infinitas com a orientadora, as leituras teóricas chatíssimas, o sono na sala de estudos sem ar condicionado no verão, etc.

Neste novembro de 2020, perto de uma segunda onda de covid, meu plano racional luta a todo momento contra o irracional. Sabe aquelas cenas de desenho de anime, nas quais dois personagens estão lutando e jogam um contra o outro colunas de energia, cada uma de uma cor, e vence quem resiste por mais tempo e supera à do adversário? Então, esta sou eu: as duas forças antagônicas do "calma, pense, seja paciente e cuidadosa, controle o que está ao seu controle" está disputando com um medo de "vamos todos mooooooooooorrer" o tempo todo. (Goku e Cell na imagem abaixo, soltando cada um seu ka-me-ha-me-há exemplificam o que quero dizer.)

Hoje o texto é curtíssimo porque é mais uma campanha - uma demonstração de desejo - que essa energia racional, apesar de bagunçada e caótica pelo contexto, sobreviva. Que ela continue resistindo à batalha é o mais importante. O que eu não queria também era perder o prazo e deixar apenas no plano mental a intenção e vontade de participar da #estacaoblogagem. Isso consegui concretizar.

Em Imunidade, Eula Biss explora o poder da metáfora e eu reflito um pouco sobre a perda de espaços na pandemia

A última vez que busquei este blog nos cafundós da estante - como um caderno de anotação que existe e está lá ao nosso socorro, mas não é sempre usado – foi no auge do meu isolamento social durante a pandemia. Em São Paulo, a quarentena começou na segunda metade de março e o medo (e eu estava com muito medo!) me levou ao total isolamento até o dia 1 de Julho, quando não aguentei mais.

Em março, no mesmo período que se discutia o início do isolamento social, eu depositei minha dissertação de mestrado, que passei os últimos meses em uma intensa rotina de escrita, revisão, leituras e releituras. E também em março, no meio desse caos social, sanitário, político e econômico, a editora Todavia disponibilizou de graça a obra da Eula Biss publicado em 2017, Imunidade, para download no Kindle. Durante todo esse tempo de sete meses eu não toquei no livro. Ele estava lá, mas eu o ignorei. Deliberadamente. Mas nas últimas semanas tenho refletido sobre esse “fim” do isolamento, a existência de uma pandemia que está sendo – devagar e constante – tornando-se menos definitiva em nossas vidas. 

 

Antes, justamente porque COVID, pandemia, coronavírus e todo esse vocabulário e assunto ocupavam todas as horas do meu dia, todos os meus pensamentos, todas as notícias que eu lia, todos os feeds das minhas redes sociais, todas as minhas tomadas de decisões, etc, não havia mais espaço disponível para ler o livro da Eula Biss com a atenção merecida. Teria sido uma leitura contaminada pelo medo, pela paranóia, e não pelo valor da própria palavra escrita. Agora, que estou respirando outros ares, outros assuntos, outros problemas, deu para ler com carinho os ensaios da autora.

Sim, foi assim que o li. Como uma coletânea de curtos ensaios que refletem – a partir de experiências pessoais e outras leituras - sobre saúde, imunidade, epidemia, vacina, maternidade, gripe, contaminação, etc. Onde começa e onde termina nossos corpos como indivíduos dentro de um sistema social dividido por classe, preconceitos, crenças e fronteiras históricas e geográficas. Apesar do assunto pesado, Eula Biss traz de forma muito leve e didática, instigante, o histórico das epidemias e das vacinas: varíola, H1N1, aids e outras doenças infecciosas. E também destrincha em vários pedacinhos o pensamento anti-vacina: desde a desconfiança causada pela falta de assepsia nos primórdios da medicina e vacinação, até o discurso “naturalista” que condena como nocivos à saúde humana substâncias criadas pelo desenvolvimento industrial e que incluem tanto inseticidas como o DDT como polímeros tóxicos que revestem colchões e travesseiros infantis. 

Porém, para além dos dados científicos e históricos que a autora traz, o que mais me chamou atenção são as observações em relação a linguagem: o uso de metáforas para a compreensão do universo científico. Pensamos, por exemplo, em termos bélicos a questão da imunidade: nosso corpo é um cenário de guerra cujas células protetoras do sistema imunológico procuram, perseguem, sufocam e eliminam unidades exógenas e nocivas. Uma batalha sem fim para nos proteger de doenças infecciosas. 

Ou então, a infeliz metáfora (tão em voga nos últimos meses) da imunidade de rebanho. Trata-se de imunidade de grupo, um dos objetivos das campanhas de vacinação: quando muitos já estão protegidos, não há desenvolvimento da doença e, portanto, não há transmissão àqueles que não estão imunizados. O discurso anti-vacina - alimentado pelo extremo individualismo que vê os corpos como unidades autônomas e desconectados dos outros corpos - se favorece desta ideia que sugere que somos gado. Efeito rebanho, mentalidade de rebanho, corpos de animais sendo direcionados ao abate e também uma ideia de fronteira de fazendas: a saúde da propriedade vizinha não é meu problema. 

"Se trocássemos a metáfora do rebanho pela da colméia, talvez o conceito de imunidade compartilhada fosse mais atraente. As abelhas são matriarcais, fazem bem ao meio ambiente e são inteiramente interdependentes. A saúde de qualquer abelha individual, como sabemos a partir da recente epidemia de colapso das colônias, depende da saúde da colmeia." 

Mas talvez a metáfora mais interessante exposta pela autora seja a do Drácula, de Bram Stroker. (Graças também ao fato de que estou influenciadíssima por tudo que li em sites de literatura e clubes de leitura sobre o gótico nesse mês de Halloween) A comparação é sugerida logo nas primeiras páginas e nos acompanha por toda a leitura. A desconfiança em relação à vacinação vem desde o seu surgimento, mas se hoje as acusações antivax são relacionadas à ganância pelo lucro, capitalismo e poluição, antes a resistência e o medo se confundiam com o pensamento fantástico. 

"Um folheto de 1881 intitulado 'O vampiro da vacinação' adverte sobre a 'poluição universal' transferida pelo vacinador ao 'bebê puro'. Conhecidos por se alimentarem do sangue de bebês, os vampiros daquela época se tornaram uma metáfora pronta para os vacinadores que infligiram ferimentos às crianças. [...] De todas as metáforas sugeridas nas abundantes páginas de Drácula, a doença é uma das mais óbvias. O conde chega à Inglaterra exatamente como uma doença nova podia chegar: de navio. Ele invoca hordas de ratos e seu mal infeccioso se espalha da primeira mulher que ele morde às crianças que ela alimenta à noite, sem saber o mal que está causando. O que torna Drácula particularmente aterrorizante e o que faz sua trama levar tanto tempo para se resolver é que ele é um monstro cuja monstruosidade é contagiosa."

Ao publicar Imunidade, Eula Biss menciona a previsão feita, em 2004, pelo então diretor da OMS de que uma pandemia num futuro próximo era inevitável. Ainda que ela não fale de coronavírus, COVID, síndrome respiratória, isolamento social e quarentena, todo o resto dialoga o tempo todo e diretamente com o que estamos vivendo com nossos corpos no individual e no coletivo. 

Quando finalizei a leitura, fiquei pensando na questão do espaço. Como antes, apesar da disponibilidade de tempo e interesse em ler o livro, o assunto pandemia estava ocupando todos os espaços: minha cabeça, minha casa, meus pulmões.. Eu estava me afogando e, às vezes, no desespero, me agarrava ao meu marido tentando me salvar, o que deixava ele também mais sufocado.

Falo de espaços físicos e metafísicos. Não são apenas os sonhos, as tomadas de decisão, os pensamentos e o medo do futuro, foi também a minha casa que se transformou. Eu perdi meu escritório, minha escrivaninha. Todo o espaço físico onde eu passei os últimos meses estudando e escrevendo minha dissertação de mestrado tornou-se home office do marido. Perdi meu sofá e minha TV para uma sala de jogos. Perdi a sala de jantar, pois a mesa virou uma escrivaninha adaptada para o meu computador e livros, enquanto o chão tinha um step, pesinhos e uma bicicleta ergométrica alugada, que me lembravam todos os dias que eu não podia deixar de me exercitar (nem que fosse um pouquinho).

E nesse sufoco, onde todos os espaços foram metamorfoseados, eu não consegui mais estudar e trabalhar. Não consegui mais escrever. Meu objetivo de escrever artigos para publicação e o projeto de doutorado também se afogou. Além do meu escritório, eu não tinha mais o arquivo e a biblioteca da universidade. Quanto mais eu me cobrava de produzir, pior eu me sentia. Eu acho que esse foi um dos motivos pelo qual eu retornei ao espaço deste blog - ele estava lá disponível. Sem pressão. Sem objetivos. Ele continuava igualzinho ao que era antes da pandemia. Me pareceu mais convidativo e menos sufocante. Menos contaminado.

Procurando depois outros blogs para seguir e ler, percebi que está havendo este movimento para retomada da blogosfera. Tantos espaços nos foram retirados, doméstica e socialmente, que os blogs têm sido esse espaço em branco - como cadernos novos - que podem ser preenchidos do zero. 

A pandemia não acabou - e não me arrisco a dizer o contrário. Sei dos perigos. A vida não voltou ao que era antes e não há previsão de quando isso irá acontecer. Eula Biss diz que, quando se tornou mãe, o medo de que algo acontecesse ao seu filho lhe dominou. O sentimento de impotência, ela afirma, vem desde o mito de Aquiles: apesar da tentativa de sua mãe de torná-lo imortal, seu calcanhar, onde sua mãe o segurou, não fora banhado pelas águas mágicas. Por mais que ela fizesse tudo o que lhe fosse possível, ainda sim não seria suficiente para proteger seu filho de todos os riscos existentes. Aos poucos, vamos compreendendo nossos alcances e nossos limites. 

Minha sala de estar e de jantar voltaram às suas funções originais. Outros espaços reapareceram, como academia, parque, restaurantes. Mais recentemente os museus e cinemas. Na minha mente e no meu coração, também pela demanda da continuidade da vida, alegrias e outros problemas dividem espaço com a pandemia. Meu escritório e minha escrivaninha ainda não voltaram, mas sei que voltarão. E já prevendo meus retornos e abandonos a este espaço/caderno, possivelmente quando voltar as práticas de escrita e leitura da vida acadêmica, este blog volte para a estante. Será? Talvez. Não sei. Apesar de não estar mais me afogando e ter recuperado certo controle, não sei como sairei deste mar pandêmico onde ainda estamos todos mergulhados.

Estou presa na década de 60? Partindo de Mad Men, visitamos Alex Portnoy e, por último, um pulinho em Mrs Maisel

Continuando na linha de Mad Med do post anterior, eu queria registrar um pouquinho as minhas impressões de "O Complexo de Portnoy". Eu já tinha lido ano passado "A marca humana" e "Pastoral Americana", livros que eu gostei demais. Deixei Philip Roth um pouco de lado até ver Don Draper lendo "Portnoy's Complaint" durante seu próprio exílio dentro da Roger, Sterling and Associates. 

As questões de identidade, de deslocamento do protagonista frente aos grupos que ele (não)pertence, o que é esperado dele VERSUS o que ele é ou quer ser, são grandes temas já de "A marca humana", publicado em 2000. O fenótipo e o genótipo sob os choques dos costumes, da história e da cultura já haviam aparecido em 1969, data de publicação de "O Complexo de Portnoy". Uma leitura muito difícil porque, como o próprio título original sugere, trata-se de uma gigante reclamação - Portnoy's Complaint. Uma hora eu precisei dar um tempo porque, afinal, ouvir/ler tanta reclamação é um pouco complicado. 

(Aliás, genial esse jogo de palavras do título. Uma pena que se perde um pouco disso na tradução.)

Se tem uma coisa que aproxima talvez os judeus e os brasileiros é a tal autodepreciação. Eu não sabia, mas "se zoar" é um fenômeno comum entre a comunidade judaica. O desabafo de Alex está entre o desespero e a risada. Por exemplo, o pânico que ele sente de ter que contar aos seus pais que estava numa tentativa frustrada de perder a virgindade com uma menina não-judia e, sem querer, espirrou esperma no seu olho: desespero imenso de ficar cego e tornar-se uma decepção para seus pais, tudo porque quis ser chupado por uma shikse.

O sentimento de culpa que persegue Alex é o que torna as situações tragicômicas. Quem mandou ficar patinando no gelo atrás das shikses? Por isso caiu e quebrou a perna, ficará para o resto da vida deficiente e ouvirá para sempre seu pai reclamar e jogar na sua cara seu interesse pelas moças não judias. (Nós brasileiros também somos experts em rir da nossa própria desgraça, só não temos o sentimento de culpa nos intimidando. Pelo contrário, somos bons em culpar sempre os outros pelas nossas próprias mazelas.)

"Dr. Spielvogel, esta é a minha vida, minha única vida, e estou vivendo minha vida no meio de uma piada de judeu! Eu sou o filho de uma piada de judeu - só que não é piada não!" 

Apesar de Alex não conseguir controlar seus impulsos sexuais na intimidade, aos olhos de sua família e comunidade ele é o menino perfeito, o filhinho da mamãe, o melhor aluno da classe. e por isso se formou advogado e assumiu uma importantíssima posição na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York. E seu esforço em tornar-se esse "menino exemplo", tanto pelo sentimento de superioridade moral quanto pelo medo que sua família impunha a ele quando criança, deixa-o inconformado quando descobre, já adulto, que seus colegas de infância também se tornaram homens normais e bem sucedidos, apesar de seus comportamentos nada exemplar.

"Mas não pode ser! Sem sopa de tomate quente no almoço de dias frios? Com aqueles pijamas imundos? Com todos queles preservativos de borracha vermelha cheios de pontas espetadas, que segundo ele enlouqueciam o mulherio lá em Paris? Smolka, que nadava da piscina do Olympic Park, também está vivo? E é professor de Princeton ainda por cima? Em que departamento, letras clássicas ou astrofísica? Ba-ba-lu, você está falando que nem minha mãe. Você certamente quer dizer encanador, ou eletricista. Porque eu me recuso a acreditar! Quer dizer, no fundo do meu kishka, das minhas emoções mais profundas, minhas crenças mais antigas, por trás do eu que compreende perfeitamente que Smolka e Mandel continuam vivos, morando em boas casas e desfrutando das oportunidades profissionais abertas aos homens deste planela, não consigo acreditar que esses dois meninos maus sobreviveram, muito menos que se tornaram homens de classe média bem-sucedido. Ora, eles deviam estar na cadeia - ou na sarjeta. Eles nem faziam o dever de casa, porra!"

Achei ótima essa parte. Quantas vezes nesses últimos cinco meses de pandemia/quarentena a galera não pensou, de forma indignada, como é possível siclano e fulano não terem MORRIDO DE COVID porque não cumprem isolamento, não higienizam suas compras e não se preocupam em lavar as roupas quando chegam em casa? O medo nos prende em casa, nos faz sentir enorme culpa se furarmos a quarentena, e desejamos a morte/doença daqueles que saem - ou que não compartilham o mesmo medo e princípios morais que nós.

Porém, as críticas mais ácidas e degradantes são do Alex para ele mesmo: "Eu vivo numa piada de judeu" e, sob uma ótica freudiana e foucaultiana, seus impulsos sexuais são atos de resistência contra um mundo controlador e de culpa no qual ele não se encaixa. Na superfície, ele faz o que se espera de um menino judeu, mas sob os olhos dos outros não. O exemplo mais alegórico é a punheta que ele bate a caminho de seu bar mitzvah. 

"Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto! Chega!"

E tudo isso é condensado no último capítulo. Se o Alex não se encontra nos EUA, na sua comunidade em Nova York, se encontraria ele em Israel? O lugar onde todo mundo é judeu. O lugar onde os judeus são os WASPs. 

Absolutely not. Uma jovem israelene explica: 

"'Ah, não concordo', repliquei. 'A autodepreciação, afinal de contas, é uma forma clássica de humor judaico'.

'Humor judaico, não! Não! Humor de gueto.'

Um comentário não muito amoroso, não é? Quando o dia raiou, ela já havia me explicado que eu era o representante típico do que havia de mais vergonhoso na 'cultura da diáspora'. Aqueles séculos e mais séculos sem pátria haviam produzido homens desagradáveis como eu - assustados, defensivos, autodepreciativos, emasculados e corrompidos pela vida num mundo de gentios."  

E daí, fui pesquisar. Me intrigava como foi recebido o livro em 1969 pela comunidade judaica. Algumas aproximações com a série Mrs. Maisel eu já tinha reparado: a 'autozuação', a mãe controladora, a culpa na tradição judaica... E eis que descubro que Lenny Bruce, que pagou a fiança de Midge logo nos primeiros episódios, foi de fato um personagem real e, portanto, contemporâneo de Philip Roth. Neste turbilhão que foi os anos 60, a liberdade sexual, emancipação da mulher, civil rights, pós-guerra, os debates em torno da identidade e da linguagem tomaram espaço e o pós-estruturalismo ganha espaço. 

E diante desta nova questão da identidade, quem é esse judeu pós-segunda guerra mundial? Exilado nos EUA, exilado em Israel... Alex não encontra seu lugar, porque parecem ser incompatíveis o que ele é (ou quer ser? ou tenta ser?) com o que é esperado dele - não importa onde esteja. E por isso o sentimento de deslocamento e vazio. Irônico sua ocupação ser na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York, profissão que decidiu seguir quando, ainda adolescente, teve uma epifania durante uma viagem de caminhão a trabalho com seu cunhado. É o conflito entre vontade de ajudar a todos com o direito de serem humanos sendo que, o próprio Alex, nunca foi visto como humano, mas como o judeu da mamãe, do rabino, o judeu exilado, o judeu narigudo, o judeu emasculado, etc. 

"Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está transbordando dos meus ouvidos, a saga dos judeus sofredores! me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu - porque por acaso eu também sou um ser humano!"

Foi uma leitura cansativa, mas instigante. Me vi várias vezes em Alex quando ele entra em pânico por fazer algo errado. No começo da pandemia, eu achava que ia morrer quando buscasse a pizza na portaria do prédio; eu ia ficar entubada se não limpasse cuidadosamente com álcool em gel o novo frasco em alcool em gel que comprei no mercado; que eu ia contaminar todos da minha família se eu abrisse o vidro do carro e depois os visitasse. E, ao mesmo tempo, vi vários Alex que não compreendem como os os fura-quarenteners não morreram de COVID, ou pelo menos não ficaram seriamente doentes. A culpa e o medo continuam presentes. Ainda que tem sido flexibilizada as atividades nessa quarentena, o medo de sair e se contaminar e a culpa e vergonha de estar saindo ainda são dominantes.

(Respondendo minha própria pergunta do título, estou tão presa na década de 60 que ontem, domingão, eu e Allan assistimos Rosemary's Baby, que também é bastante referenciado em Mad Men. Que filme, minha gente. Que filme!)

Moby Dick: três anos em alto mar em busca da baleia branca ou quanto tempo em quarentena até uma cura

Há muito tempo que eu não entrava numa máquina do tempo e lia alguma obra do século XIX. A última vez foi em dezembro de 2018, com Jane Eyre, de Charlotte Bronte. Mas, por causa da situação permanente de estar em vias de me mudar e em vias de encaixotar meus livros, lacrá-los, colocá-los em algum porão/ armário/ quarto vazio, comecei a olhar com carinho obras da minha estante que a partir de algum momento deixarão de ver a luz do sol.

Nisso, eu vi os dois volumes de Moby Dick e lembrei do meu preconceito de "como deve ser chato um livro de 800 páginas que se passa em alto mar". Só que estamos de quarentena, cujo fim não se sabe quando será. Quão diferente a monotonia do livro poderia ser da minha?

Exceto o ponto central da narrativa - a "busca monomaníaca" do captão Ahab pela Moby Dick - eu não sabia nada sobre o livro e por isso foi uma leitura cheia de surpresas. A começar pelo vocabulário do universo baleeiro do século XIX. Que universo era esse, meu deus? Apesar de já possuir anteriormente uma ideia de que existem diferentes espécies de baleias, por exemplo, sinto que sabia nada e acabei me tornando quase uma especialista em cetáceos e cachalotes. 

A exposição exaustiva do funcionamento de um navio baleeiro, a tripulação e suas funções, as armas, ferramentas, a operação de caça, dissecamento e retirada do óleo das baleias cachalotes - tudo em alto mar - configura um didatismo espetacular. Tudo isso numa leitura fragmentária, composta por 136 capítulos curtos mais epílogo, de onde saltam capítulos reflexivos, analíticos e até de pequenas histórias que orbitam a narrativa principal.

Tudo é curioso e diferente.... Aos meus olhos do século XXI, baleias são amigas e fofas e não monstros assassinos. Afinal, milênios separam qualquer semelhança entre a Bolha (a baleia-maternal-de-Flap-Jack) e o leviatã que engole Jonas. Apesar de serem apresentados como ameaças, os cachalotes também são descritos como seres superiores, inteligentes, fortes e incríveis. Uma manada brincando no horizonte, com as caudas contra o pôr-do-sol é uma visão dos céus, enquanto o barulho ensurdecedor dos tubarões comendo a carne da baleia morta, é descrito como o som dos infernos.

Ao mesmo tempo que o narrador e tripulante Ismael admira estes animais, ele também os caça, mata, decapita, esvazia seu interior e solta sua carcaça ao mar. Não há um problema moral nisso. Não há culpa. Não há o que questionar. É uma obra do século XIX. Há, contudo, sugestões reflexivas sobre a relação do homem e a natureza. Uma das passagens que mais me marcou, foi a do capitão Stubb que, depois de matar um cachalote, embebeda-se em comemoração e exige comer filés do animal morto e pendurado ao lado do navio. Tudo isso, iluminado pela lanterna que consumia o óleo de espermacete da baleia:

"O fato de nutrir-se um homem com um ser que lhe alimenta a lanterna e, como fez Stubb, comendo à luz projetada por esse mesmo ser é algo tão singular que reclama um pouco de história e filosofia. (...)

A evidente repugnância com que os terrícolas consideram a baleia como alimento não se funda, aliás, inteiramente na excessiva gordura da carne. Talvez provenha muito mais da observação feita acima, isto é, o homem não se resigna a comer a carne de um ser marítimo recentemente morto e a iluminar-se ao mesmo tempo com ele. (...)

Ide uma noite de sábado a um açougue e observai as multidões de bípedes vivos com os olhos cravados nas grandes filas de quadrúpedes mortos. Cada um desses canibais não sente que a água lhe vem a boca? Canibais? Qual de nós não o é? Asseguro-vos que o juízo final será mais leve para um indígena de Fidji que salga um magro missionário na sua cela, na iminência de uma fome próxima, do que para ti, civilizado e sábio gastronômo, que abates os gansos no solo e te regozijas com o seu fígado inchado, no paté de fois gras."

Ao longo de toda a leitura eu me vi no Google, Youtube e Wikipedia pesquisando sobre baleias, cachalotes, esparmecete, Nantucket, etc e, depois de já ter acabado o livro, passei por este texto de 2013, The Endless Dephts of Moby-Dick Symbolism, e uma coisa me saltou aos olhos. Os navios partem dos portos para ficar três anos em alto mar. É quase uma máquina do tempo. Esta tripulação está alheia a tudo. O mundo que deixaram não será o mesmo que encontrarão no retorno. Ao mesmo tempo, a fórmula da busca, a jornada do capitão por algo, torna Moby Dick um livro sobre tudo. Cada um terá sua leitura, a depender de onde e quando é o leitor.

"Moby-Dick is about everything, a bible written in scrimshaw, an adventure spun in allegory, a taxonomy tripping on acid. It seems to exit outside its own time, much like Don Quixote and Tristam Shandy, the poetry of Emily Dickinson. It is so broad and so deep as to accept any interpretaton while also staring back and mocking this man-made desire toward interpretation."

E é por isso que eu não consigo deixar de comparar nosso presente à uma caça a Moby Dick. "Não eram trinta homens, era apenas um". E somos uma só sociedade, com os indivíduos isolados, com medo de um vírus que surgiu na própria relação doentia entre o homem e a natureza. Alheios a tudo. O mundo que deixamos pré-pandemia não será mais o mesmo no pós-pandemia. E assistimos, como a tripulação, uma busca insana e "monomaníaca" por uma cura, uma solução, uma saída dessa situação. Ou então somos nós mesmos o capitão Ahab, um dia após o outro à procura de um hobby, uma atividade produtiva, um pensamento positivo, uma esperança, em uma realidade marcada pelo isolamento e perigos.

Considerando o fim da história, é uma pena que esta comparação só traz mais desalento.

Caçando Carneiros: depois dos 30, o que há é um grande "?"

Se o livro perfeito para toda criança de 11 anos é Harry Potter, o livro ideal do adulto prestes a fazer 30 anos é Caçando Carneiros.

Eu comecei a ler Haruki Murakami por um motivo muito mesquinho: pela capa. A arte da Companhia das Letras nos livros do autor japonês me encanta e, numa feira de livros, lá estava Kafka a Beira Mar. Achei lindo, com desconto, e comprei. Devorei o livro, achei maravilhoso, depois disso li 1Q84 em janeiro e, por último - já na quarentena- Caçando Carneiros.

Curiosamente, 1Q84 foi quase uma previsão: assim como os protagonistas, de uma hora para outra euzinha me vi numa realidade paralela onde "quase" tudo parece igual, mas não é.

Em Caçando Carneiros, o protagonista não-nomeado entra numa jornada em busca de uma criatura mística (um carneiro estrelado) nos últimos seis meses de seus 29 anos. Em setembro, eu também completo 30 anos. Por que sair da casa dos 20 é inquietante? Incômodo? Por que essa mania chata de marcar e atribuir significados às temporalidades? Por que essa busca por valores, sentidos e criaturas místicas que não sabemos nem se existem de fato?

"Eu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, diria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo que eu obtivera."

E diante deste momento de transição, fica a questão: os 30 serão uma continuação dos 29? Mas de uma hora para a outra, ele é confrontado a abandonar tudo, soltar qualquer laço ou lembrança da vida dos 20, para partir numa caça de dois meses a um animal místico, sem saber qual será o resultado ao fim deste prazo. Eu, de fato, estou vivendo a transição 29-30, mas a quarentena/ COVID/ corona vírus/ pandemia (são tantos nomes para a mesma coisa) está sendo um período de passagem comum a todos da minha geração. A transição para uma incógnita, cujo depois a gente até tem alguma ideia do que será, mas não sabe exatamente o que. Só sabemos que a casa dos 30 não será igual aos 20, não só na relaçao de nós com nós mesmos, mas de nós com o mundo.

Muito difícil saber lidar com esse momento intermediário. Aceitar o que era e o que será é mais simples, mas o agora indefinido é ainda um desafio.  

Outro ponto-mais-que-perfeito-e-didático de transposição da narrativa de Murakami para nossa vida-que-parece-ficção-mas-não-é é o nome. Nenhum personagem do livro é nomeado e, se isso parece estranho, percebe-se que o nome é dispensável, indiferente para a narrativa. Além disso, muito safadinho esse Murakami! Afinal, quem não sofre para nomear as coisas? Desde a primeira atividade infantil de escrever um texto de ficção, uma das partes mais difíceis (na minha opinião) é nomear os personagens. Recentemente, eu quase chorei procurando um nome para a minha dissertaçao de mestrado. Olha o nome desse blog. Eu odeio ele, mas não consigo pensar num melhor. Essa tentativa de dar match entre signo, significado, significante, e outros sigs, é 99% das vezes frustrante.

"- Gatinho, gatinho - chamou o motorista sem estender os braços, mais que compreensivelmente. - Como é que ele se chama?
- Ele não tem nome.
- Como assim? De que jeito o chamam, nesse caso?- Não o chamo, simplesmente. - respondi. - Ele apenas existe."

Incrível como o inimigo comum invisível é bem nomeado: SARS-CoV-2. Siglas, letras maiúsculas, minúsculas e até um numeral. Mas para facilitar na linguagem corrente, tem também a designação COVID-19, ou Corona Vírus. Na verdade, nem eu sei muito bem a diferença entre um termo e outro, mas é de compreensão comum não especializada à que esta diversidade de nomes se refere. O que não tem nome são os números: os mortos, os infectados, os desempregados, os excluídos... Todos estes "apenas existem" e fazem parte de estatísticas.

Nos momentos finais de procura ao carneiro estrelado e de seus 29 anos, o protagonista se encontra num confinamento involuntário, numa casa sem vizinhos, construída num vale isolado de difícil acesso. O protagonista passa seus dias de solidão refletindo, comendo, fazendo pão, ouvindo música, e tentando controlar o aumento de peso com exercícios físicos matinais. Este livro foi publicado em 1982. Não consigo deixar de pensar que ele somos também todos nós, dos 28 aos 32 anos, mais ou menos, vivendo o ano de 2020.