sábado, 8 de janeiro de 2022

A Sucessora: nostalgia, futuro e eleições 2022

Um rápido comentário sobre A Sucessora porque o tempo tá passando, outros livros estão sendo lidos e este está ficando cada vez mais longe no tempo. Aviso: quis discutir um pouco como li o desfecho do livro, então tem spoiler

Eu não leio tanta literatura brasileira. Primeiro, porque acho que os anos que trabalhei no arquivo, com tantos documentos de autores brasileiros, fez eu encarar a literatura brasileira mais como trabalho do que diversão literária. Igual confeiteiras que não têm mais prazer em comer brigadeiros e bolos que elas mesmas preparam. Segundo, porque alguns livros - assim como o cinema - têm forçosamente traços nacionais, o que faz reforçar o sentimento descrito anteriormente. 

Eu não senti isso com A Sucessora. Pelo contrário, achei que os elementos nacionais - apesar de fortemente presentes - são bem colocados. 


Em sua narrativa, Carolina Nabuco coloca uma questão que me é muito cara na cultura brasileira: a nostalgia. A maior herança que tivemos dos portugueses e que, até hoje, alimentamos e cuidamos com zelo através da nossa língua, é essa nostalgia que nunca nos deixa olhar para frente. A maldita palavra "saudade" que só existe no português... 

Olhamos sempre para o passado com um olhar saudosista. Aprendemos, desde pequenos, que no "passado isso ou aquilo era muito melhor".  Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém mais velho dizer isso. Por isso que gostei tanto de A Sucessora. Carolina Nabuco trata a questão da nostalgia de maneira muito delicada e central na trama. Marina é a representação desse Brasil colonial completamente idealizado, de um sentimento nacional que nasceu dentro das grandes fazendas cafeeiras, escravocratas, onde a natureza nacional era reverenciada e a relação Casa Grande e Senzala era falsamente pensada como harmoniosa. 

Enquanto Alice e Roberto são o Brasil republicano, urbano, industrial, de empregados dos casarões que são apenas empregados e não a extensão da família. São o casal cujo luxo e diversão são importados e copiados da cultura europeia. Alice e Roberto são a cara do futuro do Brasil e Marina é o passado. 

Mas, é claro, assim como não sabemos o que levou à morte de Alice - sabemos somente que ela estava doente - o Brasil como nação nunca poderia seguir em frente sem olhar, depender e amar o seu passado. Por mais progressista, o Brasil precisa de suas raízes nostálgicas para se ver como nação. Por isso que, alegoricamente, Alice morre e deixa Roberto sem herdeiros. 

E então o Brasil do futuro e do passado, num dia de festa, se encontram e se apaixonam instantaneamente. Marina e Roberto logo se casam. O futuro é urbano e Marina sai da fazenda para morar na casa de seu marido na capital. Lá, a sensação é de que a falecida esposa de Roberto, Alice, a está assombrando, como se ela não fosse boa o suficiente para Roberto, como se ela não estivesse sendo uma boa esposa, ou, então, como se ela estivesse tentando roubar aquele lugar. 

Enfim, Marina sente-se perseguida. Ela está sempre olhando para trás. O passado se sente ameaçado pela figura do futuro. Ela lamenta esse ambiente, sente-se sufocada e gostaria de voltar para a fazenda. É só no momento em que Marina 

"compreendeu que era filha desta terra brasileira, filha até a medula, desta natureza misteriosa e temível, onde lutaram seus avós, e de onde lhe vinha essa nostalgia da alma que a perseguia na vida"

que a moça consegue olhar para frente, realizar-se com o futuro. E o futuro, no Brasil, vem na forma de herdeiro: o progresso, pelo pai Roberto, e a nostalgia profunda da alma pela mãe, Marina. 

Terminei de ler o livro em meados de dezembro. Havia outras tarefas na frente e deixei para publicar agora esta resenha. Qual a minha surpresa, dia 1 de janeiro de 2022, ver pessoas tão jovens, da minha geração e mais novos, comemorando o ano novo com "2002", referindo-se às eleições em Outubro e Lula eleito. 

A nostalgia, no Brasil, não tem idade. Muitos comemorando Lula 2002/22 eram crianças no primeiro mandato do ex-presidente! Enfim, desde muito novos olhamos para o passado - às vezes um passado que nem vivemos, mas um passado absolutamente sempre idealizado, e ficamos sempre repetindo. No Brasil, não há espaço para o novo, para o progresso. Só há espaço para Marinas, que ficam olhando o passado, sentem-se assombrados, e reproduzem uma tentativa de progresso sem se desprender de suas raízes coloniais.

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