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Hamnet, de Maggie O'Ferrell: breves comentários sobre mulheres, heroínas, espaço doméstico

Não sei porque essa mania de ficar se justificando, mas decidi mudar de ideia e escrever sim sobre Hamnet, minha última leitura, já que aparentemente eu estou com dificuldade de começar um novo livro. Criei um vício bobo de precisar fechar um ciclo de leitura com alguns apontamentos para começar outro? Seria poético. 

O Instagram esses dias me sugeriu a página Literatura Inglesa Brasil e o post de chamada era o do Clube do Livro, que estava lendo Hamnet, de Maggie O'Ferrell e publicado em 2020. Eu nunca tinha ouvido falar do título, tampouco da autora. Só conhecia a história de Hamlet e sabia que Shakespeare tinha tido de fato um filho chamado Hamnet que morreu anos antes que o autor escrevesse a peça Hamnlet. Achei tudo isso interessante e resolvi dar uma chance. 

Foi amor a primeira vista. Que livro magnífico!


Apesar do título e de Hamnet ser um personagem importante, a protagonista é Agnes. As mulheres ocupam um lugar tão importante na narrativa que o marido de Agnes, o famoso Shakespeare, não é uma única vez nomeado em todo o livro. O professor, o marido, o pai, o tutor, etc. Ele é sempre referido de outros jeitos, menos de Shakespeare. Imagina o quanto o poder de Agnes seria diminuído só pelo famoso nome, Shakespeare. 

O livro intercala dois momentos: quando Agnes e o Shakespeare se conhecem, se casam e têm seus filhos, e quando Hamnet e sua irmã gêmea Judith ficam doentes e todos os esforços de Agnes para curá-los. 

Sob o ponto de vista de Agnes, acompanhamos o dia a dia das atividades domésticas, sua conexão com a natureza. Ela gosta de cuidar do jardim, das abelhas, de sua águia de estimação. Ela conhece as plantas e faz remédios caseiros, sendo procurada por toda a vizinhança pelos suas habilidades medicinais. Ela também tem um passado meio curioso: sua mãe, morta quando ela ainda era pequena, veio da floresta, diziam. Agnes é meio selvagem, meio bruxa. Ela tem sonhos premonitórios e ao segurar a mão de alguém e pressionar suas mãos, ela consegue "ver" suas almas e o futuro. Ela causa admiração e ao mesmo tempo medo aos vizinhos. 

Agnes me lembrou muito Morgana, de As Brumas de Avalon. Me lembrou da formação da Inglaterra entre os saxões e os bretões, os bárbaros e os civilizados. Shakespeare era da cidade, urbano, ligado ao comércio e às artes. Agnes era do campo, do meio rural, da terra e da casa. Juntos eles formam um novo povo. 

A lembrança de As Brumas de Avalon também veio pela relação entre as mulheres e suas habilidades com as plantas e os animais, ligando-as aos pagãos e condenando-as como bruxas. Finalmente pela centralidade da mulher na história, colocando os homens, o Rei Arthur e o grande Shakespeare, como coadjuvantes numa história na qual as mulheres, escondidas atrás da cortina do teatro, manipularam situações para que estes homens chegassem onde chegaram. 

Agnes não sabe ler. Durante os longos meses de ausência de Shakespeare, que trabalhava na capital, é sua filha mais velha que lê as cartas recebidas e redige as missivas ao pai. Agnes nem sempre entende o que vem escrito: comédia? atores? teatro? Porém, algo une o casal: ambos entendem a alma humana, mesmo que seja cada um do seu jeito. 

Assim como as peças de Shakespeare conversam até hoje, séculos depois, com a natureza humana, Agnes lia a alma daqueles ao seu redor. Ela entendia suas necessidades, compreendia seus medos, sabia como convencê-los. Agnes é uma ótima esposa, ótima mãe, uma filha que guarda a memória da sua mãe com carinho. Acompanhamos a história dessa mulher no casamento, nos partos e na cama de seus filhos doentes, fazendo de tudo para salvá-los da peste. Depois, acompanhamos o seu luto e o sentimento de que, como mãe, ela havia falhado. 

A autora mistura ficção e história, portanto não podemos acreditar que tudo ali tenha acontecido. O único fato histórico do qual realmente temos certeza é que Shakespeare teve um filho chamado Hamnet que morreu ainda criança. Ele ter sido vítima da peste negra é uma teoria da autora, e ela faz isso de maneira fenomenal, conversando com nossa realidade pandêmica Covid-19. (Lembrando que o livro foi lançado em março de 2020!!) O capítulo no qual acompanhamos a pulga que causou o adoecimento de Judith e Hamnet, saindo de Alexandria, Egito, embarcando em um navio e passando meses em alto mar e atravessando continentes, até chegar numa pequena vila rural da Inglaterra, é fenomenal. 

Enfim, Agnes me fez perceber que em minhas últimas leituras tenho procurado a heroína que não luta pelo seu espaço no mundo masculino. Pelo contrário. Minhas heroínas reafirmam seus papeis dentro do ambiente doméstico e familiar. Como as donas de casa dos contos de Lucia Berlin, as esposas dos contos de Silvana Ocampo, mesmo a personagem Phoebe de A Casa das 7 Torres, e a própria Morgana de As Brumas. São mulheres que na rotina e no cotidiano transformam a vida doméstica daqueles que com elas habitam. Suas grandes habilidades são a arrumação, a cozinha, o olhar atencioso e cuidadoso e às vezes maléfico. As mulheres de Silvana Ocampo, em suas habilidades femininas, são manipuladoras e vingativas. 

Livro recomendadíssimo. Chorei bastante nos capítulos de morte e luto. A leitura é envolvente, bastante visual, e coloca em evidência uma coisa que as vezes é deixada de lado: quando lembramos das mulheres "apagadas" e "esquecidas" da história, não podemos nomear apenas artistas, poetisas, musicistas, cientistas e descobridoras. Se começamos, como sociedade, a falar da "economia do cuidado", então temos também que lembrar de multidões de mulheres que nunca saíram do espaço doméstico e familiar e, nem por isso, não deixaram de ter um impacto enorme nos rumos e na vida daqueles que - de fato - deixaram seus nomes impressos na história. 

Minha mudança de país e a materialidade do lar

Há muito tempo eu não tenho tempo para sentar e me dedicar ao blog. Já mencionei aqui como tempo tem sido absolutamente nada óbvio para mim. Eu sempre penso naquele texto do Hobsbawn sobre a mudança social e cultural da percepção de tempo com a Revolução Industrial e fico imaginando que eu também estou vivendo um momento de mudança de percepção de tempo: tanto pela mudança do mundo analógico para o digital quanto pela pandemia. 

E cá estou eu novamente para me justificar porque não consegui engatar nenhuma leitura nas últimas semanas. Depois de ter lido e escrito sobre "Casei com um Comunista", eu mesma vim parar na terra onde Philip Roth nasceu e escreveu seus livros. Mudei-me para os Estados Unidos. Pelo menos pelos próximos dois anos. 

Uma mudança de país envolve muito trabalho. Físico e emocional. Passei por muitas fases: melancolia, tristeza, empolgação, felicidade e, agora, paz. Esta viagem foi adiada por um ano por causa da pandemia. Durante todo o tempo em que fiquei sentada na sala de espera pandêmica eu li. Li muito e escrevi. A prova disso é o arquivo deste blog, que foi muito bem preenchido no ano passado. Só  que na virada de 2020-21 acabou a espera. Eu tive que me mexer para concretizar essa mudança. 

Depois que voltei do Chile, foram mais ou menos 50 dias em São Paulo vendendo e me desfazendo de tudo o que eu tinha no meu apartamento. Depois de anos construindo uma casa, em pouco mais de um mês toda a materialidade dela se apagou. O que não sumiu no ar, coube em quatro malas. A fragilidade da vida concreta é assustadora. Nos apegamos fortemente ao apalpável, mas ao primeiro sinal de mudança, é a primeira coisa que se esvai. 

Por um momento, eu lamentei bastante isso. Chorei nos meus paninhos de pratos que fui ganhando como presentinhos nos últimos 7/8 anos. São as mulheres da família que ajudam a gente a construir o lar: conjunto de panelas, batedeira, toalhas de mesa, de banho, lençol... Tudo foram presentes de mãe, tia, vó ou amigas queridas. Lembro um Natal, abri um embrulho lindo de presente da minha tia. Na hora, vi dois panos de pratos todo decorados e pensei "puxa! um presente para casa e não para mim". Depois olhei de novo e vi um envelope com notas generosas. Percebi como isso foi lindo. Um presente para mim, Giovana, e para minha casa, que também sou eu. 

A partir de um momento, nosso lar torna-se nós mesmas. Mas essa conexão só acontece na figura feminina. Depois que casei e o ambiente doméstico tornou-se meu, foi acontecendo uma troca. Não era mais a casa dos meus pais, tampouco a pensão de estudantes onde vivi por muitos anos. Na minha casa, eu fui me tornando cada vez mais o lar e o lar foi se tornando cada vez mais eu. Isso não acontece na figura masculina. A casa de um homem solteiro é "a casa de um homem solteiro". No Natal, ele não vai ganhar panos de prato junto com o perfume ou o sapato, porque não tem essa troca de identidade. 

Esse apelo tem o risco de nos tornar muito materialistas e o lado virginiano da minha personalidade grita. Tenta fincar as raízes com muita força na terra e usa como adubo essa ligação material da nossa história e identidade.

Só que eu tenho um lado ariano e impulsivo que mora comigo. Também tenho um pouco de ar no mapa astral. Minhas raízes são fortes, mas não no lado material. Lar é onde nosso coração está, não é assim que se fala? É onde a gente faz um arroz com feijão, dá risada, chora, assiste um filme e resolve os problemas da vida. 

Por isso que, se no começo eu queria trazer absolutamente tudo - dos meus panos de prato até minha bicicleta -, no final acabei vindo apenas com uma mala grande e uma média. 

Durante esses 50 dias de transição, eu comecei a ler "A insustentável leveza do ser" e me tocou como Kundera fala do exílio de seus personagens. Não estou vivendo o exílio de Kundera, tampouco o de Primo Levi. Mas estou longe de casa e também vivo uma espécie de exílio. Primeiro no Chile e agora nos Estados Unidos. 

Mudei-me para Nova York. Isso tem um significado especial. Assim como existem vários Brasis, existem vários Estados Unidos. (Ficou até curiosa essa frase, né? Mostrou a obviedade e redundância - afinal são vários Estados que estão Unidos) 

Nova York sempre esteve nas minhas leituras:  J.D. Salinger, Philip Roth, Fitzgerald, Donna Tartt... Para citar alguns entre os autores mais recentes. Sem falar na cultura midiática de filmes e série. Talvez por isso eu esteja me sentindo tão a vontade aqui. Depois de mais de um ano vivendo na situação "estou para me mudar", finalmente cheguei e pude me instalar. Por isso estou me sentindo "em casa". Não existe mais a fase transitória. (pelo menos pelos próximos dois anos! rs) 

Estou há minutos andando da Universidade de Columbia e a quantidade de estrangeiros é enorme. Ouço nas ruas as mais diversas línguas e, pela cidade, espanhol se impõe quase como segunda língua oficial. Eu não me sinto de fora. Eu me sinto parte de toda essa diversidade. De toda essa "estrangeiridade". 

Foi um ano de planos sendo adiados e colocados em espera. Um ano onde a única certeza era a pandemia. Chegando aqui, fomos vacinados no segundo dia e a sensação é de que estamos muito mais próximos da normalidade do que nunca estivemos desde aquele fatídico março de 2020. Pela primeira vez desde muito tempo, estou com uma grande tranquilidade no coração e, por isso, a vontade de voltar à literatura. 

Vou começar pelo livro que não consegui acabar em São Paulo e, por isso, foi o único livro físico que trouxe no meio das roupas em uma das malas: "A insustentável leveza do ser". O que não deixa de ser irônico, pois, ao contrário de Sabina, o que estava insustentável para mim era viver o peso da transição que não acabava. O peso de estar "prestes a se mudar", o peso do medo de não se conseguir. Mas depois de toda tempestade, vem a calmaria e só me resta a aproveitar e curtir como eu puder. 

Abaixo umas fotos do verde do verão de Morningside Heights. 









Morningside Heights. Manhattan, NYC. Verão. Julho 2021. 

Minha estréia em ficção científica e uma reflexão sobre a passagem do tempo e sensibilidade

O tempo está passando de uma forma muito estranha para mim. Não é rápido, tampouco devagar. É uma constante espera, cheia de imprevisibilidade, que faz o tempo presente ser extremamente vagaroso, enquanto o passado parece ter acontecido num estalar de dedos. 

Quando penso que já estamos entrando na segunda quinzena de Abril, fico com a sensação de que eu não tive tempo de escrever sobre a trilogia "O Problema dos Três Corpos" do autor chinês, Cixin Liu. Eu virei 2020-21 lendo o primeiro volume e, aos trancos e barrancos, passei os meses de Janeiro e Fevereiro lendo os volumes dois e três. 

Mas como eu não pude ter tempo de escrever se meus dias são inertes e contabilizam - assustadoramente - horas excessivas e não-saudáveis de tempo gasto em frente a tela do celular?

Entre Março e Abril, também aos trancos e barrancos, li metade do livro de Stephen Hawking, "Uma breve história do tempo". Entre catálogos de livros de viagem sobre paisagens turísticas chilenas, estava esta obra - em espanhol, claro - disponível na mesinha de cabeceira. Quão irônico é isso? Decidi, voluntariamente, enterrar esta questão. 

Este mês comecei outro livro e percebi hoje, dia 15 de abril, que se eu não escrever sobre "O Problema dos Três Corpos", ele ficará perdido para sempre no tempo e, aos poucos, se esvaindo da minha memória. 

E já que o tempo está sendo tão ingrato comigo, decidi enfrentá-lo e escrever minhas impressões hoje, sem rodeios, mesmo que de maneira breve e incompleta. Não importa o que aconteça e qual seja minha motivação.  Hoje estas linhas saem do plano das ideias para o papel, digo, computador. 

É o problema matemático dos três corpos que intitula o primeiro livro da trilogia de Cixin Liu.
 

 Eu nunca tinha lido ficção científica, apesar de gostar muito do gênero nas telas e meu marido ser um grande leitor. Me interessei pela obra do Cixin Liu porque também nunca tinha lido um autor chinês e neste tempo histórico, é importante se voltar para a China. Como meu olhar não é econômico, geopolítico, ecológico, mas sim cultural, Cixin Liu me pareceu uma boa estreia para a literatura contemporânea chinesa e, de quebra, ficção científica. Por isso o livro me cativou logo nas primeiras páginas: uma parte da narrativa é ambientada nos anos 1960 na Revolução Cultural Chinesa.

Os livros são relacionados e, ao mesmo tempo, independentes entre si. O segundo e terceiro são expansões do que é iniciado no primeiro. Surge o problema, mas a história continua com outros problemas, outros personagens e uma passagem temporal tão grande, cheias de idas e vindas, que ficou confuso - mas não impossível. O mérito da leitura (pelo menos o que mais me interessou) foi a junção dos elementos da astrofísica com as grandes questões metafísicas da humanidade. Estes elementos são bem trabalhados nos dois primeiros volumes, mas se perdem no terceiro e, por isso, este último foi o mais difícil de concluir a leitura. 

O primeiro foi meu favorito. Através de um jogo de realidade virtual, nosso protagonista "entra" num mundo diferente e a partir de personagens e fatos da nossa própria história da ciência, vai descobrindo que lugar é este e quais os "problemas" naturais que devem ser compreendidos e resolvidos. Eram meus capítulos favoritos. O primeiro livro junta questões da astrofísica, história da ciência e história política e cultural da China com suspense de uma maneira muito didática e envolvente. 

No segundo volume, o problema já está colocado e a história pode ser resumida com um "como vamos resolver essa questão e não vamos todos morrer?". O problema do problema é de que qualquer solução não pode ser falada, tampouco demonstrada. Ela não pode ser comunicada sob nenhum pretexto. Por isso, esta empreitada fica nas mãos de meia dúzia de pessoas, sendo uma delas nosso protagonista. Acompanhá-lo nessa trajetória também é muito interessante. 

No terceiro, tudo se perde. Percorremos um espaço temporal e galático gigantesco, que resulta num descolamento da ficção com o que é palpável, concreto. Tudo se torna imensamente abstrato e, por isso, fora de contexto da nossa realidade, ao menos do que nos é tangível. Eu não conseguia mais ver sentido no que estava lendo. Por que ficar lendo sobre explosões do sol, planetas a milhões de Unidades Astronômicas de distância da terra e cérebros descolados de seus respectivos corpos que ficam vagando pelo espaço que se passam daqui 600-800 anos, sendo que nossa preocupação atual é sobreviver dia a dia e chegar no mês que vem? Infelizmente, é o maior volume de todos. 

Não estamos vivendo um momento fácil e a imprevisibilidade me consome. Lidar diariamente com a ansiedade, aprender a não me cobrar demais e, ao mesmo tempo, não me abandonar e aprender a me cobrar um pouquinho, tem sido muito difícil. Por isso a leitura lenta e a demora em doar este tempo para a escrita. Estou sentada o dia inteiro em casa e extreamamente cansada. Parece que o jeito é aprender a lidar com isso. Assim como aprender a lidar com esta nova forma de passagem do tempo. 

A passagem do tempo, além da dimensão física e natural, é uma percepção. De 1990 até março de 2020, eu aprendi a ter uma percepção temporal. A pandemia fez surgir novas relações e dinâmicas do indivíduo e da sociedade com o tempo, portanto, uma nova sensibilidade de passagem temporal que ainda estamos tentando conhecer. Por isso, a ficção científica de Cixin Liu, ou Stephen Hawking e seu livro de divulgação científica sobre o tempo, me parecem ser um pouco incompletos. Por mais interessantes que sejam, as leituras me deixaram com a sensação de que faltava algo. Com certeza isso diz mais sobre mim e minha experiência de tempo/espaço de leitura do que sobre as obras em si.

#estacaoblogagem - Apesar das melhores das intenções, admito: não consegui, falhei. E está tudo bem.

 

 

Eu fiquei pensando por muito tempo sobre o que eu poderia escrever para o tema desta semana da #estacaoblogagem. Racionalidade, ideologia, verdade, conflitos internos, problemas que só existem na minha cabeça... Por uma semana eu pensei, pensei e pensei mais um pouco. Esta é a terceira tentativa de produção de um texto. Decidi que ou eu ficava só no plano mental pensando ou eu vinha aqui e agia - de uma forma ou de outra.

 


A verdade é que este blog foi retomado justamente na tentativa de organizar um pouco os pensamentos, que estão uma zona. A vida neste 2020 está sendo adaptada e a minha mente ainda está se acostumando. Então, estou aqui de coração aberto, aos 45 minutos do segundo tempo, para admitir: não consegui. Não consegui materializar em palavras qualquer assunto que se relacionasse ao tema da semana. 

Isso me lembra um pouco quando comecei a escrever minha dissertação de mestrado. Foram anos de pesquisa e leituras. Eu tinha uma ideia vaga do que eu queria dizer, mas não sabia como organizar os argumentos a favor desta ideia, dialogar contra as visões opostas e, muito menos, sintetizar em um parágrafo sobre o que era meu trabalho. Esta foi a parte mais difícil, custosa e demorada: materializar em palavras, frases, parágrafos e capítulos o que se passava na minha cabeça. O que eu via e o que eu pensava com toda aquela documentação era muito mais difícil de explicar do que as horas e horas passadas no arquivo, as discussões e conversas infinitas com a orientadora, as leituras teóricas chatíssimas, o sono na sala de estudos sem ar condicionado no verão, etc.

Neste novembro de 2020, perto de uma segunda onda de covid, meu plano racional luta a todo momento contra o irracional. Sabe aquelas cenas de desenho de anime, nas quais dois personagens estão lutando e jogam um contra o outro colunas de energia, cada uma de uma cor, e vence quem resiste por mais tempo e supera à do adversário? Então, esta sou eu: as duas forças antagônicas do "calma, pense, seja paciente e cuidadosa, controle o que está ao seu controle" está disputando com um medo de "vamos todos mooooooooooorrer" o tempo todo. (Goku e Cell na imagem abaixo, soltando cada um seu ka-me-ha-me-há exemplificam o que quero dizer.)

Hoje o texto é curtíssimo porque é mais uma campanha - uma demonstração de desejo - que essa energia racional, apesar de bagunçada e caótica pelo contexto, sobreviva. Que ela continue resistindo à batalha é o mais importante. O que eu não queria também era perder o prazo e deixar apenas no plano mental a intenção e vontade de participar da #estacaoblogagem. Isso consegui concretizar.

Em Imunidade, Eula Biss explora o poder da metáfora e eu reflito um pouco sobre a perda de espaços na pandemia

A última vez que busquei este blog nos cafundós da estante - como um caderno de anotação que existe e está lá ao nosso socorro, mas não é sempre usado – foi no auge do meu isolamento social durante a pandemia. Em São Paulo, a quarentena começou na segunda metade de março e o medo (e eu estava com muito medo!) me levou ao total isolamento até o dia 1 de Julho, quando não aguentei mais.

Em março, no mesmo período que se discutia o início do isolamento social, eu depositei minha dissertação de mestrado, que passei os últimos meses em uma intensa rotina de escrita, revisão, leituras e releituras. E também em março, no meio desse caos social, sanitário, político e econômico, a editora Todavia disponibilizou de graça a obra da Eula Biss publicado em 2017, Imunidade, para download no Kindle. Durante todo esse tempo de sete meses eu não toquei no livro. Ele estava lá, mas eu o ignorei. Deliberadamente. Mas nas últimas semanas tenho refletido sobre esse “fim” do isolamento, a existência de uma pandemia que está sendo – devagar e constante – tornando-se menos definitiva em nossas vidas. 

 

Antes, justamente porque COVID, pandemia, coronavírus e todo esse vocabulário e assunto ocupavam todas as horas do meu dia, todos os meus pensamentos, todas as notícias que eu lia, todos os feeds das minhas redes sociais, todas as minhas tomadas de decisões, etc, não havia mais espaço disponível para ler o livro da Eula Biss com a atenção merecida. Teria sido uma leitura contaminada pelo medo, pela paranóia, e não pelo valor da própria palavra escrita. Agora, que estou respirando outros ares, outros assuntos, outros problemas, deu para ler com carinho os ensaios da autora.

Sim, foi assim que o li. Como uma coletânea de curtos ensaios que refletem – a partir de experiências pessoais e outras leituras - sobre saúde, imunidade, epidemia, vacina, maternidade, gripe, contaminação, etc. Onde começa e onde termina nossos corpos como indivíduos dentro de um sistema social dividido por classe, preconceitos, crenças e fronteiras históricas e geográficas. Apesar do assunto pesado, Eula Biss traz de forma muito leve e didática, instigante, o histórico das epidemias e das vacinas: varíola, H1N1, aids e outras doenças infecciosas. E também destrincha em vários pedacinhos o pensamento anti-vacina: desde a desconfiança causada pela falta de assepsia nos primórdios da medicina e vacinação, até o discurso “naturalista” que condena como nocivos à saúde humana substâncias criadas pelo desenvolvimento industrial e que incluem tanto inseticidas como o DDT como polímeros tóxicos que revestem colchões e travesseiros infantis. 

Porém, para além dos dados científicos e históricos que a autora traz, o que mais me chamou atenção são as observações em relação a linguagem: o uso de metáforas para a compreensão do universo científico. Pensamos, por exemplo, em termos bélicos a questão da imunidade: nosso corpo é um cenário de guerra cujas células protetoras do sistema imunológico procuram, perseguem, sufocam e eliminam unidades exógenas e nocivas. Uma batalha sem fim para nos proteger de doenças infecciosas. 

Ou então, a infeliz metáfora (tão em voga nos últimos meses) da imunidade de rebanho. Trata-se de imunidade de grupo, um dos objetivos das campanhas de vacinação: quando muitos já estão protegidos, não há desenvolvimento da doença e, portanto, não há transmissão àqueles que não estão imunizados. O discurso anti-vacina - alimentado pelo extremo individualismo que vê os corpos como unidades autônomas e desconectados dos outros corpos - se favorece desta ideia que sugere que somos gado. Efeito rebanho, mentalidade de rebanho, corpos de animais sendo direcionados ao abate e também uma ideia de fronteira de fazendas: a saúde da propriedade vizinha não é meu problema. 

"Se trocássemos a metáfora do rebanho pela da colméia, talvez o conceito de imunidade compartilhada fosse mais atraente. As abelhas são matriarcais, fazem bem ao meio ambiente e são inteiramente interdependentes. A saúde de qualquer abelha individual, como sabemos a partir da recente epidemia de colapso das colônias, depende da saúde da colmeia." 

Mas talvez a metáfora mais interessante exposta pela autora seja a do Drácula, de Bram Stroker. (Graças também ao fato de que estou influenciadíssima por tudo que li em sites de literatura e clubes de leitura sobre o gótico nesse mês de Halloween) A comparação é sugerida logo nas primeiras páginas e nos acompanha por toda a leitura. A desconfiança em relação à vacinação vem desde o seu surgimento, mas se hoje as acusações antivax são relacionadas à ganância pelo lucro, capitalismo e poluição, antes a resistência e o medo se confundiam com o pensamento fantástico. 

"Um folheto de 1881 intitulado 'O vampiro da vacinação' adverte sobre a 'poluição universal' transferida pelo vacinador ao 'bebê puro'. Conhecidos por se alimentarem do sangue de bebês, os vampiros daquela época se tornaram uma metáfora pronta para os vacinadores que infligiram ferimentos às crianças. [...] De todas as metáforas sugeridas nas abundantes páginas de Drácula, a doença é uma das mais óbvias. O conde chega à Inglaterra exatamente como uma doença nova podia chegar: de navio. Ele invoca hordas de ratos e seu mal infeccioso se espalha da primeira mulher que ele morde às crianças que ela alimenta à noite, sem saber o mal que está causando. O que torna Drácula particularmente aterrorizante e o que faz sua trama levar tanto tempo para se resolver é que ele é um monstro cuja monstruosidade é contagiosa."

Ao publicar Imunidade, Eula Biss menciona a previsão feita, em 2004, pelo então diretor da OMS de que uma pandemia num futuro próximo era inevitável. Ainda que ela não fale de coronavírus, COVID, síndrome respiratória, isolamento social e quarentena, todo o resto dialoga o tempo todo e diretamente com o que estamos vivendo com nossos corpos no individual e no coletivo. 

Quando finalizei a leitura, fiquei pensando na questão do espaço. Como antes, apesar da disponibilidade de tempo e interesse em ler o livro, o assunto pandemia estava ocupando todos os espaços: minha cabeça, minha casa, meus pulmões.. Eu estava me afogando e, às vezes, no desespero, me agarrava ao meu marido tentando me salvar, o que deixava ele também mais sufocado.

Falo de espaços físicos e metafísicos. Não são apenas os sonhos, as tomadas de decisão, os pensamentos e o medo do futuro, foi também a minha casa que se transformou. Eu perdi meu escritório, minha escrivaninha. Todo o espaço físico onde eu passei os últimos meses estudando e escrevendo minha dissertação de mestrado tornou-se home office do marido. Perdi meu sofá e minha TV para uma sala de jogos. Perdi a sala de jantar, pois a mesa virou uma escrivaninha adaptada para o meu computador e livros, enquanto o chão tinha um step, pesinhos e uma bicicleta ergométrica alugada, que me lembravam todos os dias que eu não podia deixar de me exercitar (nem que fosse um pouquinho).

E nesse sufoco, onde todos os espaços foram metamorfoseados, eu não consegui mais estudar e trabalhar. Não consegui mais escrever. Meu objetivo de escrever artigos para publicação e o projeto de doutorado também se afogou. Além do meu escritório, eu não tinha mais o arquivo e a biblioteca da universidade. Quanto mais eu me cobrava de produzir, pior eu me sentia. Eu acho que esse foi um dos motivos pelo qual eu retornei ao espaço deste blog - ele estava lá disponível. Sem pressão. Sem objetivos. Ele continuava igualzinho ao que era antes da pandemia. Me pareceu mais convidativo e menos sufocante. Menos contaminado.

Procurando depois outros blogs para seguir e ler, percebi que está havendo este movimento para retomada da blogosfera. Tantos espaços nos foram retirados, doméstica e socialmente, que os blogs têm sido esse espaço em branco - como cadernos novos - que podem ser preenchidos do zero. 

A pandemia não acabou - e não me arrisco a dizer o contrário. Sei dos perigos. A vida não voltou ao que era antes e não há previsão de quando isso irá acontecer. Eula Biss diz que, quando se tornou mãe, o medo de que algo acontecesse ao seu filho lhe dominou. O sentimento de impotência, ela afirma, vem desde o mito de Aquiles: apesar da tentativa de sua mãe de torná-lo imortal, seu calcanhar, onde sua mãe o segurou, não fora banhado pelas águas mágicas. Por mais que ela fizesse tudo o que lhe fosse possível, ainda sim não seria suficiente para proteger seu filho de todos os riscos existentes. Aos poucos, vamos compreendendo nossos alcances e nossos limites. 

Minha sala de estar e de jantar voltaram às suas funções originais. Outros espaços reapareceram, como academia, parque, restaurantes. Mais recentemente os museus e cinemas. Na minha mente e no meu coração, também pela demanda da continuidade da vida, alegrias e outros problemas dividem espaço com a pandemia. Meu escritório e minha escrivaninha ainda não voltaram, mas sei que voltarão. E já prevendo meus retornos e abandonos a este espaço/caderno, possivelmente quando voltar as práticas de escrita e leitura da vida acadêmica, este blog volte para a estante. Será? Talvez. Não sei. Apesar de não estar mais me afogando e ter recuperado certo controle, não sei como sairei deste mar pandêmico onde ainda estamos todos mergulhados.

Moby Dick: três anos em alto mar em busca da baleia branca ou quanto tempo em quarentena até uma cura

Há muito tempo que eu não entrava numa máquina do tempo e lia alguma obra do século XIX. A última vez foi em dezembro de 2018, com Jane Eyre, de Charlotte Bronte. Mas, por causa da situação permanente de estar em vias de me mudar e em vias de encaixotar meus livros, lacrá-los, colocá-los em algum porão/ armário/ quarto vazio, comecei a olhar com carinho obras da minha estante que a partir de algum momento deixarão de ver a luz do sol.

Nisso, eu vi os dois volumes de Moby Dick e lembrei do meu preconceito de "como deve ser chato um livro de 800 páginas que se passa em alto mar". Só que estamos de quarentena, cujo fim não se sabe quando será. Quão diferente a monotonia do livro poderia ser da minha?

Exceto o ponto central da narrativa - a "busca monomaníaca" do captão Ahab pela Moby Dick - eu não sabia nada sobre o livro e por isso foi uma leitura cheia de surpresas. A começar pelo vocabulário do universo baleeiro do século XIX. Que universo era esse, meu deus? Apesar de já possuir anteriormente uma ideia de que existem diferentes espécies de baleias, por exemplo, sinto que sabia nada e acabei me tornando quase uma especialista em cetáceos e cachalotes. 

A exposição exaustiva do funcionamento de um navio baleeiro, a tripulação e suas funções, as armas, ferramentas, a operação de caça, dissecamento e retirada do óleo das baleias cachalotes - tudo em alto mar - configura um didatismo espetacular. Tudo isso numa leitura fragmentária, composta por 136 capítulos curtos mais epílogo, de onde saltam capítulos reflexivos, analíticos e até de pequenas histórias que orbitam a narrativa principal.

Tudo é curioso e diferente.... Aos meus olhos do século XXI, baleias são amigas e fofas e não monstros assassinos. Afinal, milênios separam qualquer semelhança entre a Bolha (a baleia-maternal-de-Flap-Jack) e o leviatã que engole Jonas. Apesar de serem apresentados como ameaças, os cachalotes também são descritos como seres superiores, inteligentes, fortes e incríveis. Uma manada brincando no horizonte, com as caudas contra o pôr-do-sol é uma visão dos céus, enquanto o barulho ensurdecedor dos tubarões comendo a carne da baleia morta, é descrito como o som dos infernos.

Ao mesmo tempo que o narrador e tripulante Ismael admira estes animais, ele também os caça, mata, decapita, esvazia seu interior e solta sua carcaça ao mar. Não há um problema moral nisso. Não há culpa. Não há o que questionar. É uma obra do século XIX. Há, contudo, sugestões reflexivas sobre a relação do homem e a natureza. Uma das passagens que mais me marcou, foi a do capitão Stubb que, depois de matar um cachalote, embebeda-se em comemoração e exige comer filés do animal morto e pendurado ao lado do navio. Tudo isso, iluminado pela lanterna que consumia o óleo de espermacete da baleia:

"O fato de nutrir-se um homem com um ser que lhe alimenta a lanterna e, como fez Stubb, comendo à luz projetada por esse mesmo ser é algo tão singular que reclama um pouco de história e filosofia. (...)

A evidente repugnância com que os terrícolas consideram a baleia como alimento não se funda, aliás, inteiramente na excessiva gordura da carne. Talvez provenha muito mais da observação feita acima, isto é, o homem não se resigna a comer a carne de um ser marítimo recentemente morto e a iluminar-se ao mesmo tempo com ele. (...)

Ide uma noite de sábado a um açougue e observai as multidões de bípedes vivos com os olhos cravados nas grandes filas de quadrúpedes mortos. Cada um desses canibais não sente que a água lhe vem a boca? Canibais? Qual de nós não o é? Asseguro-vos que o juízo final será mais leve para um indígena de Fidji que salga um magro missionário na sua cela, na iminência de uma fome próxima, do que para ti, civilizado e sábio gastronômo, que abates os gansos no solo e te regozijas com o seu fígado inchado, no paté de fois gras."

Ao longo de toda a leitura eu me vi no Google, Youtube e Wikipedia pesquisando sobre baleias, cachalotes, esparmecete, Nantucket, etc e, depois de já ter acabado o livro, passei por este texto de 2013, The Endless Dephts of Moby-Dick Symbolism, e uma coisa me saltou aos olhos. Os navios partem dos portos para ficar três anos em alto mar. É quase uma máquina do tempo. Esta tripulação está alheia a tudo. O mundo que deixaram não será o mesmo que encontrarão no retorno. Ao mesmo tempo, a fórmula da busca, a jornada do capitão por algo, torna Moby Dick um livro sobre tudo. Cada um terá sua leitura, a depender de onde e quando é o leitor.

"Moby-Dick is about everything, a bible written in scrimshaw, an adventure spun in allegory, a taxonomy tripping on acid. It seems to exit outside its own time, much like Don Quixote and Tristam Shandy, the poetry of Emily Dickinson. It is so broad and so deep as to accept any interpretaton while also staring back and mocking this man-made desire toward interpretation."

E é por isso que eu não consigo deixar de comparar nosso presente à uma caça a Moby Dick. "Não eram trinta homens, era apenas um". E somos uma só sociedade, com os indivíduos isolados, com medo de um vírus que surgiu na própria relação doentia entre o homem e a natureza. Alheios a tudo. O mundo que deixamos pré-pandemia não será mais o mesmo no pós-pandemia. E assistimos, como a tripulação, uma busca insana e "monomaníaca" por uma cura, uma solução, uma saída dessa situação. Ou então somos nós mesmos o capitão Ahab, um dia após o outro à procura de um hobby, uma atividade produtiva, um pensamento positivo, uma esperança, em uma realidade marcada pelo isolamento e perigos.

Considerando o fim da história, é uma pena que esta comparação só traz mais desalento.

Caçando Carneiros: depois dos 30, o que há é um grande "?"

Se o livro perfeito para toda criança de 11 anos é Harry Potter, o livro ideal do adulto prestes a fazer 30 anos é Caçando Carneiros.

Eu comecei a ler Haruki Murakami por um motivo muito mesquinho: pela capa. A arte da Companhia das Letras nos livros do autor japonês me encanta e, numa feira de livros, lá estava Kafka a Beira Mar. Achei lindo, com desconto, e comprei. Devorei o livro, achei maravilhoso, depois disso li 1Q84 em janeiro e, por último - já na quarentena- Caçando Carneiros.

Curiosamente, 1Q84 foi quase uma previsão: assim como os protagonistas, de uma hora para outra euzinha me vi numa realidade paralela onde "quase" tudo parece igual, mas não é.

Em Caçando Carneiros, o protagonista não-nomeado entra numa jornada em busca de uma criatura mística (um carneiro estrelado) nos últimos seis meses de seus 29 anos. Em setembro, eu também completo 30 anos. Por que sair da casa dos 20 é inquietante? Incômodo? Por que essa mania chata de marcar e atribuir significados às temporalidades? Por que essa busca por valores, sentidos e criaturas místicas que não sabemos nem se existem de fato?

"Eu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, diria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo que eu obtivera."

E diante deste momento de transição, fica a questão: os 30 serão uma continuação dos 29? Mas de uma hora para a outra, ele é confrontado a abandonar tudo, soltar qualquer laço ou lembrança da vida dos 20, para partir numa caça de dois meses a um animal místico, sem saber qual será o resultado ao fim deste prazo. Eu, de fato, estou vivendo a transição 29-30, mas a quarentena/ COVID/ corona vírus/ pandemia (são tantos nomes para a mesma coisa) está sendo um período de passagem comum a todos da minha geração. A transição para uma incógnita, cujo depois a gente até tem alguma ideia do que será, mas não sabe exatamente o que. Só sabemos que a casa dos 30 não será igual aos 20, não só na relaçao de nós com nós mesmos, mas de nós com o mundo.

Muito difícil saber lidar com esse momento intermediário. Aceitar o que era e o que será é mais simples, mas o agora indefinido é ainda um desafio.  

Outro ponto-mais-que-perfeito-e-didático de transposição da narrativa de Murakami para nossa vida-que-parece-ficção-mas-não-é é o nome. Nenhum personagem do livro é nomeado e, se isso parece estranho, percebe-se que o nome é dispensável, indiferente para a narrativa. Além disso, muito safadinho esse Murakami! Afinal, quem não sofre para nomear as coisas? Desde a primeira atividade infantil de escrever um texto de ficção, uma das partes mais difíceis (na minha opinião) é nomear os personagens. Recentemente, eu quase chorei procurando um nome para a minha dissertaçao de mestrado. Olha o nome desse blog. Eu odeio ele, mas não consigo pensar num melhor. Essa tentativa de dar match entre signo, significado, significante, e outros sigs, é 99% das vezes frustrante.

"- Gatinho, gatinho - chamou o motorista sem estender os braços, mais que compreensivelmente. - Como é que ele se chama?
- Ele não tem nome.
- Como assim? De que jeito o chamam, nesse caso?- Não o chamo, simplesmente. - respondi. - Ele apenas existe."

Incrível como o inimigo comum invisível é bem nomeado: SARS-CoV-2. Siglas, letras maiúsculas, minúsculas e até um numeral. Mas para facilitar na linguagem corrente, tem também a designação COVID-19, ou Corona Vírus. Na verdade, nem eu sei muito bem a diferença entre um termo e outro, mas é de compreensão comum não especializada à que esta diversidade de nomes se refere. O que não tem nome são os números: os mortos, os infectados, os desempregados, os excluídos... Todos estes "apenas existem" e fazem parte de estatísticas.

Nos momentos finais de procura ao carneiro estrelado e de seus 29 anos, o protagonista se encontra num confinamento involuntário, numa casa sem vizinhos, construída num vale isolado de difícil acesso. O protagonista passa seus dias de solidão refletindo, comendo, fazendo pão, ouvindo música, e tentando controlar o aumento de peso com exercícios físicos matinais. Este livro foi publicado em 1982. Não consigo deixar de pensar que ele somos também todos nós, dos 28 aos 32 anos, mais ou menos, vivendo o ano de 2020.