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A insustentável leveza do ser: exilados em sua própria terra

A primeira vez que li "A insustentável leveza do ser", Milan Kundera, foi, muito provavelmente, há 10 anos. Eu era estudante de graduação em História e morava ainda numa pensão de estudantes perto da USP. Um colega, que estava no mestrado em psicologia leu este livro, disse que era muito bom e me emprestou. 

Curioso que, na época, eu não tinha muitas referências sobre Praga, Tchecoslováquia, Boêmia, Primavera de Praga, 1968, Exército Vermelho, comunismo, literatura pós-moderna... Tudo era meio confuso e eu conhecia as palavras, mas não os conceitos ou a história. Não que agora eu seja uma especialista, mas pelo menos estes assuntos não são mais de outro mundo. Me lembro que, na época, eu li rapidíssimo. Achei provocante. Bonito e misterioso. Mas se alguém me perguntasse sobre o que o livro falava, eu talvez teria dito: 

- Ahn... Fala sobre amor. Uns casais que tentam se entender, mas não conseguem. Num país que foi comunista. 

E depois disso eu apaguei. Pouquíssimas coisas do romance ficaram registradas na minha memória. Quando fui para Praga em 2019, tudo o que eu lembrava era que eu havia lido um livro cujo autor era tcheco e cuja história se passava nesta cidade. Só. Eu não lembrava do nome dos personagens, tampouco de Karenin. Muito menos da resistência tcheca contra a ocupação soviética. 

Só retomei a leitura porque vi uma blogueira compartilhando este livro no Instagram (me julguem) e me toquei como tão pouco eu me lembrava do que tinha lido. E fiquei me perguntando como uma narrativa tão densa e nada óbvia tinha ganhado projeção nas camadas mais superficiais das redes sociais. Fui lá na Amazon e comprei.  Eu não fui atrás para ver o que esses influencers falaram sobre o livro, mas tenho uma teoria que vou dividir com vocês no final do texto. 



Acho que os motivos de todo esse "apagamento" da minha memória se encontra um pouco na conclusão que tirei nesta segunda leitura. Em "A Insustentável Leveza do Ser", Kundera fala sobre tudo e nada. É um pouco aquela crítica (que eu adoro) contra o pós-moderno: as correntes pós-modernas querem relativizar absolutamente tudo e acabam explicando nada. Do ponto de vista científico, isso pode ser um problema, mas para a literatura eu acho maravilhoso. 

Por isso a "A insustentável leveza do ser" tem tantas possibilidades de leituras diferentes. Ela pode ser superficial e se atentar ao erotismo e à relação entre Tereza - Tomas - Sabina - Franz, ou ir se aprofundando em centenas de questões filosóficas trazidas pelo autor e que mudam a cada página. 

Não, eu não fiz desta vez uma leitura de estudo profundo. Comecei a ler em São Paulo durante meus preparativos de mudança para os EUA. Precisei parar e retomei já na minha nova casa. Foi o único livro físico que trouxe nas malas. 

Esse apanhado de tudo e nada é também o motivo pelo qual é tão difícil escrever sobre essa leitura: sobre o que eu gostaria de falar? Que temas mais me chamaram atenção? Mas isso é complicado, porque a cada mudança de capítulo, um novo tema aparecia com força. As reflexões filosóficas do narrador que se misturam com o pensamento e intrigas dos próprios personagens foram criando uma sopa de letrinhas: cada colherada era ótima, mas em cada uma vinha uma letra diferente. 

É um livro amargo, triste. Como muitos que li ano passado, fala da desconexão entre lugar e indivíduo. Ao contrário de autores que narram sobre o Holocausto e a diáspora judaica (e sobre os quais escrevi neste blog no ano passado), desta vez não são os personagens que saem de sua terra natal e tornam-se desterrados no mundo, procurando e não encontrando seu lugar. Isso talvez se passe um pouco com Sabina, que sai da Tchecoslováquia em direção e Europa e depois muda-se para os Estados Unidos. Seu desapego é tão grande que, além de ir cada vez mais a oeste e distanciar-se de suas origens geográficas, ela chega a morar junto com um casal idoso mecenas - abrindo mão até de uma casa própria. 

Isso, contudo, não se passa com os protagonistas Terezas e Tomas. Eles estão em Praga, vão para a Suiça, mas Tereza logo volta porque ela não se vê e nem é mais vista como Tereza neste outro país - é vista pelos outros como uma extensão de Tomas. Volta para Praga e Tomas logo vai atrás, encontrando uma outra cidade. Não foram eles que saíram do lugar, foi o lugar que saiu dele mesmo. Com a invasão, o país deixa de ser o que era e, consequentemente, também suas pessoas. O presidente Alexander Dubcek, depois de ter sido capturado pelos russos, volta transformado. Não é mais o mesmo. Por isso Tereza e Tomas, apesar de voltarem, também não são mais os mesmo. A transformação da Tchecoslováquia e de Praga também os transformaram: perderam suas profissões e suas referências.

Sabina exila-se saindo. Tomas e Tereza são exilados sem sair do lugar.

"Tomas dirigia, Tereza ia ao seu lado e Karenin no banco de trás; de vez em quando, esticava a cabeça para lamber a orelha deles. Duas horas depois, chegaram a uma pequena estação de águas onde tinham passado alguns dias juntos cinco ou seis anos antes. Pretendiam pernoitar ali. [...]

Tomas mostrava o hotel. Afinal alguma coisa havia mudado. Em outros tempos, chamava-se Grande Hotel e agora, de acordo com o letreiro, chama-se Baikal. Olharam para a placa, na esquina do prédio: era a praça Moscou. Em seguida percorreram todas as ruas que conheciam (Karenin os seguia sozinha, sem guia), lendo os nomes: havia a rua Stalingrado, a rua Leningrado, a rua Rostov, a rua Novossibirsk, a rua Kiev, a rua Odessa, havia o Sanatório Tchaikovski, o Sanatório Rimski-Korsakov, o Hotel Suvorov, o Cinema Górki e o Café Púchkin. Todos os nomes eram tirados da Rússia e da história russa. 

Tereza se lembrou dos primeiros dias da invasão. As pessoas retiravam as placas das ruas de todas as cidades e arrancavam das estradas os painéis indicativos. O país se tornara anônimo numa noite. Durante sete dias, o Exército russo ficara errando pelo país sem saber onde estava. Os oficiais procuravam os prédios dos jornais, da televisão, da rádio para ocupá-los, mas não conseguiam encontrar nenhum deles. Perguntavam às pessoas, mas elas davam de ombros ou indicavam endereços falsos e um intinerário falso. 

Com o passar dos anos, esse anonimato se mostrou nocivo ao país. Nem as ruas nem as casas conseguiram encontrar de novo seu nome original. Uma estação termal da Boêmia se tornara assim, do dia para a noite, uma pequena Rússia imaginária, e Tereza constatou que o passado que procuravam lhes fora confiscado. Era impossível pernoitar ali." (KUNDERA, M. A Insustentável Leveza do Ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 162-3)

Enquanto em Levi, por exemplo, a urgência é voltar para seu lugar, em Kundera a ânsia é para que este lugar lhes seja devolvido. São duas formas distintas de exílio. 

A saída do governo soviético se deu em 1989. Em Junho de 2019 eu visitei Praga com meu marido numa espécie de segunda lua de mel. E mesmo já tendo se passado trinta anos da redemocratização, o que vimos foi um país que repetidamente afirma os anos obscuros que foram a invasão comunista. "O Museu do Comunismo" é inteiro dedicado a este período sob um ponto de vista do horror e há monumentos e marcas relembrando eventos de resistência do povo tcheco contra o governo soviético em múltiplos lugares da cidade. 

Depois de uma longa história de ocupações, é como se o país procurasse estabelecer e afirmar sua identidade em completa oposição a estes momentos históricos. Tereza é a metáfora da República Tcheca. Ela se olha no espelho e fica procurando insistentemente a conexão entre sua alma e corpo, desvencilhando-se da imagem da autoridade materna. Ela renega completamente este passado. Notei essa tentativa de busca na cidade de Praga: monumentos, museus, passeios turísticos, tudo procura afirmar quem é este país e porque ele é único e diferente de todos aqueles que o ocuparam. 

É um livro que, provavelmente, vou ler novamente. Quanto mais "bagagem cultural" (odeio esse termo, mas no momento ela convém), mais camadas vão aparecendo durante a leitura. Só deixo aqui como nota registrada (e não apenas mental) de que na próxima leitura, se o tema "exílio" me for ainda de interesse, pesquisar o caminho do exílio do autor. Kundera parece ter tido uma relação conflituosa com seu país de origem e, apesar de escrever de maneira tão empática, me parece que, como Sabina, ele preferiu sair para nunca mais voltar. 




Memorial às vítimas do comunismo. Monte Petrin. Praga, Junho de 2019. 

O mesmo monte onde Tereza sonha que está indo ser assassinada. Em seu sonho, Tereza obedece Tomas que a manda subir o Monte Petrin. No topo, ela encontra três algozes que a matarão - caso assim seja sua vontade. Eu e o Allan visitamos o Monte Petrin e visitamos este memorial. Flagramos, neste momento, uma senhorinha colocando flores. 

"Quando chegou ao monte Petrin, a colina verdejante situada no centro de Praga, notou com espanto que não havia ninguém. Era curioso, pois, em geral, multidões sempre passeavam por ali. Sentia-se angustiada, mas os caminhos estavam tão silenciosos e o silêncio era tão repousante que relaxopu e se entregou cofiante à colina. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, via um aglomerado de torres e pontes. Os santos brandiam punhos ameaçadores, os olhos de pedra fizados nas nuvens. Era a cidade mais bonita do mundo." (Idem, p. 146)


 Eu descendo o Monte Petrin. Praga ao fundo. Junho, 2019.


Outros textos nos quais falei sobre o tema exílio e publiquei aqui no blog:



Finalmente, por que o livro "A insustentável leveza do ser" sendo divulgado por influencers nas redes sociais que falam sobre tudo, menos literatura? Imagino que transformaram o livro de Kundera no horror de Sabina. O que Sabina mais detesta no mundo é o kitsch e, no contexto político e social que vivemos, os logos e palavras de ordem que imperam é o próprio kitsch. O governo Bolsonaro, Lula elegível, a aproximação das eleições, crise, etc... Uma leitura superficial e descontextualizada transforma a obra de Kundera num slogan anti-comunista tosco. E é isso que o transforma em poderoso.

"A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não tinha um caráter ético, mas estético. O que lhe repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista (os castelos convertidos em estábulos), mas a máscara de beleza com que ele se cobrira, isto é, o kitsch comunista. O modelo desse kitsch era a chamada festa do Primeiro de Maio. 

[...]
A festa do Primeiro de Maio se abastecia na fonte profunda do acordo categórico com o ser. A palavra de ordem tácita e não escrita do desfile não era "Viva o comunismo!", e sim "Viva a vida!". A força e a estúcia da política comunista foi ter se apossado dessa palavra de ordem. Era precisamente essa estúpida tautologia ("Viva a vida!") que levava ao desfile comunista até mesmo os que eram completamente indiferentes às ideias comunistas. 

[...]
Por volta de dez anos mais tarde (ela já morava na América), um senador americano amigo de seus amigos a levou para passear num carro enorme. Quatro garotos se apertavam no banco de trás. O senador parou; as crianças desceram e desataram a correr num gramado imenso em direção a um estádio onde havia um rinque. O senador ficou ao volante olhando com ar sonhador as quatro pequenas silhuetas que corriam; virou para Sabina: "Olhe para eles!", disse, descrevendo com a mão um círculo que englobava o estádio, o gramado e as crianças: "É isso que eu chamo de felicidade".

[...], nesse momento, Sabina imaginou o senador num palanque de uma praça de Praga. Em seu rosto, havia examente o mesmo sorriso que os estadistas comunistas dirigiam do alto de seu palanque aos cidadãos igualmente sorridentes, que desfilavam a seus pés. [...]

O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os movimentos políticos." (Idem, p. 244-6) 

Minha mudança de país e a materialidade do lar

Há muito tempo eu não tenho tempo para sentar e me dedicar ao blog. Já mencionei aqui como tempo tem sido absolutamente nada óbvio para mim. Eu sempre penso naquele texto do Hobsbawn sobre a mudança social e cultural da percepção de tempo com a Revolução Industrial e fico imaginando que eu também estou vivendo um momento de mudança de percepção de tempo: tanto pela mudança do mundo analógico para o digital quanto pela pandemia. 

E cá estou eu novamente para me justificar porque não consegui engatar nenhuma leitura nas últimas semanas. Depois de ter lido e escrito sobre "Casei com um Comunista", eu mesma vim parar na terra onde Philip Roth nasceu e escreveu seus livros. Mudei-me para os Estados Unidos. Pelo menos pelos próximos dois anos. 

Uma mudança de país envolve muito trabalho. Físico e emocional. Passei por muitas fases: melancolia, tristeza, empolgação, felicidade e, agora, paz. Esta viagem foi adiada por um ano por causa da pandemia. Durante todo o tempo em que fiquei sentada na sala de espera pandêmica eu li. Li muito e escrevi. A prova disso é o arquivo deste blog, que foi muito bem preenchido no ano passado. Só  que na virada de 2020-21 acabou a espera. Eu tive que me mexer para concretizar essa mudança. 

Depois que voltei do Chile, foram mais ou menos 50 dias em São Paulo vendendo e me desfazendo de tudo o que eu tinha no meu apartamento. Depois de anos construindo uma casa, em pouco mais de um mês toda a materialidade dela se apagou. O que não sumiu no ar, coube em quatro malas. A fragilidade da vida concreta é assustadora. Nos apegamos fortemente ao apalpável, mas ao primeiro sinal de mudança, é a primeira coisa que se esvai. 

Por um momento, eu lamentei bastante isso. Chorei nos meus paninhos de pratos que fui ganhando como presentinhos nos últimos 7/8 anos. São as mulheres da família que ajudam a gente a construir o lar: conjunto de panelas, batedeira, toalhas de mesa, de banho, lençol... Tudo foram presentes de mãe, tia, vó ou amigas queridas. Lembro um Natal, abri um embrulho lindo de presente da minha tia. Na hora, vi dois panos de pratos todo decorados e pensei "puxa! um presente para casa e não para mim". Depois olhei de novo e vi um envelope com notas generosas. Percebi como isso foi lindo. Um presente para mim, Giovana, e para minha casa, que também sou eu. 

A partir de um momento, nosso lar torna-se nós mesmas. Mas essa conexão só acontece na figura feminina. Depois que casei e o ambiente doméstico tornou-se meu, foi acontecendo uma troca. Não era mais a casa dos meus pais, tampouco a pensão de estudantes onde vivi por muitos anos. Na minha casa, eu fui me tornando cada vez mais o lar e o lar foi se tornando cada vez mais eu. Isso não acontece na figura masculina. A casa de um homem solteiro é "a casa de um homem solteiro". No Natal, ele não vai ganhar panos de prato junto com o perfume ou o sapato, porque não tem essa troca de identidade. 

Esse apelo tem o risco de nos tornar muito materialistas e o lado virginiano da minha personalidade grita. Tenta fincar as raízes com muita força na terra e usa como adubo essa ligação material da nossa história e identidade.

Só que eu tenho um lado ariano e impulsivo que mora comigo. Também tenho um pouco de ar no mapa astral. Minhas raízes são fortes, mas não no lado material. Lar é onde nosso coração está, não é assim que se fala? É onde a gente faz um arroz com feijão, dá risada, chora, assiste um filme e resolve os problemas da vida. 

Por isso que, se no começo eu queria trazer absolutamente tudo - dos meus panos de prato até minha bicicleta -, no final acabei vindo apenas com uma mala grande e uma média. 

Durante esses 50 dias de transição, eu comecei a ler "A insustentável leveza do ser" e me tocou como Kundera fala do exílio de seus personagens. Não estou vivendo o exílio de Kundera, tampouco o de Primo Levi. Mas estou longe de casa e também vivo uma espécie de exílio. Primeiro no Chile e agora nos Estados Unidos. 

Mudei-me para Nova York. Isso tem um significado especial. Assim como existem vários Brasis, existem vários Estados Unidos. (Ficou até curiosa essa frase, né? Mostrou a obviedade e redundância - afinal são vários Estados que estão Unidos) 

Nova York sempre esteve nas minhas leituras:  J.D. Salinger, Philip Roth, Fitzgerald, Donna Tartt... Para citar alguns entre os autores mais recentes. Sem falar na cultura midiática de filmes e série. Talvez por isso eu esteja me sentindo tão a vontade aqui. Depois de mais de um ano vivendo na situação "estou para me mudar", finalmente cheguei e pude me instalar. Por isso estou me sentindo "em casa". Não existe mais a fase transitória. (pelo menos pelos próximos dois anos! rs) 

Estou há minutos andando da Universidade de Columbia e a quantidade de estrangeiros é enorme. Ouço nas ruas as mais diversas línguas e, pela cidade, espanhol se impõe quase como segunda língua oficial. Eu não me sinto de fora. Eu me sinto parte de toda essa diversidade. De toda essa "estrangeiridade". 

Foi um ano de planos sendo adiados e colocados em espera. Um ano onde a única certeza era a pandemia. Chegando aqui, fomos vacinados no segundo dia e a sensação é de que estamos muito mais próximos da normalidade do que nunca estivemos desde aquele fatídico março de 2020. Pela primeira vez desde muito tempo, estou com uma grande tranquilidade no coração e, por isso, a vontade de voltar à literatura. 

Vou começar pelo livro que não consegui acabar em São Paulo e, por isso, foi o único livro físico que trouxe no meio das roupas em uma das malas: "A insustentável leveza do ser". O que não deixa de ser irônico, pois, ao contrário de Sabina, o que estava insustentável para mim era viver o peso da transição que não acabava. O peso de estar "prestes a se mudar", o peso do medo de não se conseguir. Mas depois de toda tempestade, vem a calmaria e só me resta a aproveitar e curtir como eu puder. 

Abaixo umas fotos do verde do verão de Morningside Heights. 









Morningside Heights. Manhattan, NYC. Verão. Julho 2021. 

Os dois anos de exílio de Primo Levi: entre Auschwitz e o retorno, entre os alemães e o Exército Vermelho

Um autor que estava há um tempo na minha cabeceira era Primo Levi. Como assim leio toda essas coisas sobre Segunda Guerra Mundial, Holocausto, União Soviética, Exército Vermelho, antissemitismo, identidade, diáspora, etc, e nunca tinha lido Primo Levi? Curioso também que o primeiro livro que eu li na vida - aquele que a gente pede "Mãe, eu quero ler um livro, compra para mim?" - foi "O Diário de Anne Frank" na quarta-série, porque tinha uma chamadinha no livro didático. 

O Allan ficou repetindo - "De novo, Gi, nesse assunto? Lê algo diferente... Você está muito presa nesse século XX." Mas como não ler? Como não conhecer/ ouvir/ tentar compreender algo que para nós é tão incompreensível e tão definitivo da nossa realidade atual? Como não escutar Levi cujo maior medo é não ser ouvido? Tanto em "A trégua" quanto em "É isto um homem?", sua maior vontade é contar para o outro e, seu pesadelo é não ser ouvido. Isso é tão significativo. Parece que o mínimo, o mínimo do mínimo que eu posso fazer diante de tanta mostruosidade é apenas ouvir - ficar sabendo.

Eu comecei do fim para o começo. Primeiro li "A Trégua" pelo simples motivo besta de estar disponível em e-book no kindle e, como me sensibilizou demais, comprei depois "É isto um homem?", da Rocco. No meio termo, li Philip Roth, "O Complexo de Portnoy". Autores judeus, personagens judeus contemporâneos, mas separados por um oceano: os paralelos e as divergências são gritantes e incomodam bastante.

É isto um homem?

O cotidiano, a economia, o trabalho, a sociabilidade e o que "resta" de humanidade no campo de concentração. A des-personalização, des-caracterização do indivíduo. Tira-o de sua casa, sua geografia, lhes usurpam seus bens materiais, nome, dignidade, esperança e lhes privam de alimento e abrigo. A questão é sobreviver. 

O que mais me tocou, porém, é algo que talvez não se fala muito, ou que me passou despercebido até então: a comunicação. Tantas pessoas de origens diferentes, da Europa inteira- como se comunicar? Como se entender? Está aí a questão: a máquina nazista, do holocausto, do extermínio, é feita para a incompreensão. A comunicação é perdida.

"Aqui a confusão das línguas é um elemento constante da nossa maneira de viver; a gente fica no meio de uma perpétua Babel, na qual todos berram ordens e ameaças em línguas nunca antes ouvidas, e ai de quem não entende logo o sentido. Aqui ninguém tem tempo, ninguém tem paciênca, ninguém te dá ouvidos; nós, os recém-chegados, instintivamente nos juntamos nos cantos contra as paredes, como um rebanho de ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas."

Os mecanismos de funcionamento dos campos de extermínio tem sido bastante denunciados ao longo do século XX e, por mais que talvez nunca conseguiremos compreender a totalidade do que foi a realidade para os que viveram a estas condições tão extremas e desumanas, a gente tem uma vaga ideia do terror. Há, porém, dois pontos importantíssimos que Levi traz que, até então, refleti muito pouco: o fim e o depois. 

Como se dá o fim? O fim é um processo, não é de um dia para o outro. Não se dorme prisioneiro e acorda homem livre. Não nas condições que estão Primo Levi e os outros. Existe uma super exposição, especialmente hollywoodiana, da participação dos EUA, da invasão da Normandia e até da Bomba Atômica para o fim da guerra, mas para a percepção daqueles presos sob o regime nazista, o fim veio aos poucos, sob a forma de rumores, quebra das miudezas da rotina super-sistematizada alemã... Veio com o barulho, ao fundo, do Exército Vermelho se aproximando, cujos sons da marcha eram, a cada dia um pouquinho mais, sentidos e ouvidos. 

E, mesmo assim, não foi num exato dia que se deu a chegada do soldado soviético e a dabandada dos alemães. Não. Levi faz um recorte perspicaz no capítulo "História de dez dias": como se deu essa "transição" entre o antes e o depois - entre o domínio alemão e a conquista soviética. Diante da notícia de que os russos chegariam no dia seguinte e a sensação de que os alemães estavam saindo, ficava a dúvida do que viria a seguir. Muitos, sem saber, saíram dos campos para a Marcha da Morte. Levi, como estava doente, ficou e isso o salvou. 

"Todos os sãos (a não ser os poucos que, atendendo a sábios conselhos, no último instante tiraram a roupa e sumiram em algum beliche da enfermaria) partiram na noite do dia 18 de janeiro de 1945. Eram uns 20 mil, procedentes de vários campos. Quase todos desapareceram durante a marcha de evacuação, Alberto entre eles. Talvez um dia alguém escreva a sua história."

O início da marcha significou, para aqueles que ficaram, os "10 dias fora do mundo e do tempo". De 18 a 27 de janeiro (dia da chegada enfim dos russos), Levi escreve dia a dia os limites físicos e psicológicos nos quais viveram aqueles que ficaram a própria sorte, sem alimento, aquecimento, água e doentes. Abandonados.  

A trégua

Quando chegam os russos, uma nova fase, um novo e aparentemente-sem-fim-processo até voltar para casa. Uma nova Odisséia... A do século XX. Marcada pela paisagem da destruição da guerra, da fome, dos isolamentos e do trem. Um artigo muito interessante, chamado Trajetórias e paisagens de exílio na narrativa de Primo Levi, de Anna Basevi, aponta para esta questão. O exílio que marca o povo judeu, o deserto de Moisés e as planícies da Europa Central... O exílio, aponta a autora, não é só geográfico, é também linguístico. A Babel do primeiro livro citado, continua agora nos campos de refugiados, sob os cuidados do Exército Vermelho. 

Os alemães tornam-se raros no relato e aparecem agora os russos soviéticos, de cultura e educação tão diferentes, e que muito me lembram os testemunhos coletados pela Svetlana Aleksiévitch, em "O fim do homem soviético".

"Mas os russos, diferentemente dos alemães, possuem apenas em pequena medida o talento para as distinções e as classificações. Poucos dias depois, estávamos todos de viagem para o Norte, para um destino impreciso, de todas as maneiras, para um novo exílio. Italianos-romenos e italianos-italianos, todos, nos mesmos vagões de carga, todos com o coração apertado, todos em poder da indecifrável burocracia soviética, obscura e gigantesca potência, que não era malévola contra nós, mas desconfiada, insipiante, contraditória, e cega nos efeitos tal uma força da natureza." (grifo meu)

Antes de terminar, eu queria registrar aqui um dos pequenos relatos contados por Levi que me marcou muito. Parados em uma estação em Proskurov, Ucrânia, Levi e seus companheiros ouviam duas moças de Minsk conversando em ídiche, língua que não compreendiam. Não obstante, estimulado pelo forte chá açucarado que havia tomado mais cedo, Levi ensaia uma conversa com elas. Em alemão, ele apresenta a si e seus amigos como judeus e perguntam se elas também são judias. Em seguida elas riem e dizem que se eles não falam ídiche, portanto, não são judeus. Ele tenta explicar que ele é um judeu italiano e que na Itália e em toda a Europa Ocidental os judeus não falam ídiche. 

"Mas então, se éramos judeus, todos os outros também o eram, disse-me, acenando com gesto circular para os oitocentos italianos que abarrotavam a sala. Que diferença havia entre nós e eles? A mesma língua, os mesmos rostos, as mesmas roupas. Não, expliquei-lhes: aqueles eram cristãos, vinham de Gênova, de Nápoles, da Sicília: talvez alguns daqueles tivessem sangue árabe nas veias. Sore [uma das meninas] olhava, perplexa: era uma grande confusão. Em seu país as coisas eram muito mais claras: um judeu é um judeu, e um russo um russo, não havia ambiguidades." (grifo meu)

Se as fronteiras políticas são tênues, também são as fronteiras identitárias. Levi e Sore nos jogam na cara como os critérios identitários são problemáticos, delicados, móveis... São imprecisos. Como é impreciso definir quem é quem, o que e porque é quem, com bases em critérios tão frágeis! Isso me lembra muito Alexander Portnoy, de Philip Roth, suplicando para que o vejam como humano, de forma pura e simplesmente humana - e não como judeu.

Os livros são a narração de seu exílio - começa quando é levado da Itália e acaba no seu retorno. Em "É isto um homem?", Levi é feito prisioneiro em dezembro de 1943 e em 1944 é deportado para Auschwitz. Em Janeiro de 1945 é libertado pelo Exército Vermelho, e aí começa "A Trégua", com toda a trajetória até outubro, quando chega, finalmente, em Turim. São livros doídos de ler. Tristes. Por tantas e tantas vezes, Levi mostra como foi agraciado com momentos de sorte, que possibilitou sua sobrevivência e retorno. 

Eu demorei muito para ler Primo Levi. Todos precisamos ouvi-lo. Todos precisamos saber, não podemos esquecer, nunca. O tempo passa, outras guerras acontecem, outros problemas surgem, mas não pode ser colocado de lado, ou no esquecimento, ou ainda na categoria já-faz-muito-tempo-não-é-mais-tão-importante o genocídio, a violência, a perseguição e esse momento da história que moldou o mundo de hoje, tanto geopoliticamente quanto nas identidades do homem contemporâneo.

Estou presa na década de 60? Partindo de Mad Men, visitamos Alex Portnoy e, por último, um pulinho em Mrs Maisel

Continuando na linha de Mad Med do post anterior, eu queria registrar um pouquinho as minhas impressões de "O Complexo de Portnoy". Eu já tinha lido ano passado "A marca humana" e "Pastoral Americana", livros que eu gostei demais. Deixei Philip Roth um pouco de lado até ver Don Draper lendo "Portnoy's Complaint" durante seu próprio exílio dentro da Roger, Sterling and Associates. 

As questões de identidade, de deslocamento do protagonista frente aos grupos que ele (não)pertence, o que é esperado dele VERSUS o que ele é ou quer ser, são grandes temas já de "A marca humana", publicado em 2000. O fenótipo e o genótipo sob os choques dos costumes, da história e da cultura já haviam aparecido em 1969, data de publicação de "O Complexo de Portnoy". Uma leitura muito difícil porque, como o próprio título original sugere, trata-se de uma gigante reclamação - Portnoy's Complaint. Uma hora eu precisei dar um tempo porque, afinal, ouvir/ler tanta reclamação é um pouco complicado. 

(Aliás, genial esse jogo de palavras do título. Uma pena que se perde um pouco disso na tradução.)

Se tem uma coisa que aproxima talvez os judeus e os brasileiros é a tal autodepreciação. Eu não sabia, mas "se zoar" é um fenômeno comum entre a comunidade judaica. O desabafo de Alex está entre o desespero e a risada. Por exemplo, o pânico que ele sente de ter que contar aos seus pais que estava numa tentativa frustrada de perder a virgindade com uma menina não-judia e, sem querer, espirrou esperma no seu olho: desespero imenso de ficar cego e tornar-se uma decepção para seus pais, tudo porque quis ser chupado por uma shikse.

O sentimento de culpa que persegue Alex é o que torna as situações tragicômicas. Quem mandou ficar patinando no gelo atrás das shikses? Por isso caiu e quebrou a perna, ficará para o resto da vida deficiente e ouvirá para sempre seu pai reclamar e jogar na sua cara seu interesse pelas moças não judias. (Nós brasileiros também somos experts em rir da nossa própria desgraça, só não temos o sentimento de culpa nos intimidando. Pelo contrário, somos bons em culpar sempre os outros pelas nossas próprias mazelas.)

"Dr. Spielvogel, esta é a minha vida, minha única vida, e estou vivendo minha vida no meio de uma piada de judeu! Eu sou o filho de uma piada de judeu - só que não é piada não!" 

Apesar de Alex não conseguir controlar seus impulsos sexuais na intimidade, aos olhos de sua família e comunidade ele é o menino perfeito, o filhinho da mamãe, o melhor aluno da classe. e por isso se formou advogado e assumiu uma importantíssima posição na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York. E seu esforço em tornar-se esse "menino exemplo", tanto pelo sentimento de superioridade moral quanto pelo medo que sua família impunha a ele quando criança, deixa-o inconformado quando descobre, já adulto, que seus colegas de infância também se tornaram homens normais e bem sucedidos, apesar de seus comportamentos nada exemplar.

"Mas não pode ser! Sem sopa de tomate quente no almoço de dias frios? Com aqueles pijamas imundos? Com todos queles preservativos de borracha vermelha cheios de pontas espetadas, que segundo ele enlouqueciam o mulherio lá em Paris? Smolka, que nadava da piscina do Olympic Park, também está vivo? E é professor de Princeton ainda por cima? Em que departamento, letras clássicas ou astrofísica? Ba-ba-lu, você está falando que nem minha mãe. Você certamente quer dizer encanador, ou eletricista. Porque eu me recuso a acreditar! Quer dizer, no fundo do meu kishka, das minhas emoções mais profundas, minhas crenças mais antigas, por trás do eu que compreende perfeitamente que Smolka e Mandel continuam vivos, morando em boas casas e desfrutando das oportunidades profissionais abertas aos homens deste planela, não consigo acreditar que esses dois meninos maus sobreviveram, muito menos que se tornaram homens de classe média bem-sucedido. Ora, eles deviam estar na cadeia - ou na sarjeta. Eles nem faziam o dever de casa, porra!"

Achei ótima essa parte. Quantas vezes nesses últimos cinco meses de pandemia/quarentena a galera não pensou, de forma indignada, como é possível siclano e fulano não terem MORRIDO DE COVID porque não cumprem isolamento, não higienizam suas compras e não se preocupam em lavar as roupas quando chegam em casa? O medo nos prende em casa, nos faz sentir enorme culpa se furarmos a quarentena, e desejamos a morte/doença daqueles que saem - ou que não compartilham o mesmo medo e princípios morais que nós.

Porém, as críticas mais ácidas e degradantes são do Alex para ele mesmo: "Eu vivo numa piada de judeu" e, sob uma ótica freudiana e foucaultiana, seus impulsos sexuais são atos de resistência contra um mundo controlador e de culpa no qual ele não se encaixa. Na superfície, ele faz o que se espera de um menino judeu, mas sob os olhos dos outros não. O exemplo mais alegórico é a punheta que ele bate a caminho de seu bar mitzvah. 

"Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto! Chega!"

E tudo isso é condensado no último capítulo. Se o Alex não se encontra nos EUA, na sua comunidade em Nova York, se encontraria ele em Israel? O lugar onde todo mundo é judeu. O lugar onde os judeus são os WASPs. 

Absolutely not. Uma jovem israelene explica: 

"'Ah, não concordo', repliquei. 'A autodepreciação, afinal de contas, é uma forma clássica de humor judaico'.

'Humor judaico, não! Não! Humor de gueto.'

Um comentário não muito amoroso, não é? Quando o dia raiou, ela já havia me explicado que eu era o representante típico do que havia de mais vergonhoso na 'cultura da diáspora'. Aqueles séculos e mais séculos sem pátria haviam produzido homens desagradáveis como eu - assustados, defensivos, autodepreciativos, emasculados e corrompidos pela vida num mundo de gentios."  

E daí, fui pesquisar. Me intrigava como foi recebido o livro em 1969 pela comunidade judaica. Algumas aproximações com a série Mrs. Maisel eu já tinha reparado: a 'autozuação', a mãe controladora, a culpa na tradição judaica... E eis que descubro que Lenny Bruce, que pagou a fiança de Midge logo nos primeiros episódios, foi de fato um personagem real e, portanto, contemporâneo de Philip Roth. Neste turbilhão que foi os anos 60, a liberdade sexual, emancipação da mulher, civil rights, pós-guerra, os debates em torno da identidade e da linguagem tomaram espaço e o pós-estruturalismo ganha espaço. 

E diante desta nova questão da identidade, quem é esse judeu pós-segunda guerra mundial? Exilado nos EUA, exilado em Israel... Alex não encontra seu lugar, porque parecem ser incompatíveis o que ele é (ou quer ser? ou tenta ser?) com o que é esperado dele - não importa onde esteja. E por isso o sentimento de deslocamento e vazio. Irônico sua ocupação ser na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York, profissão que decidiu seguir quando, ainda adolescente, teve uma epifania durante uma viagem de caminhão a trabalho com seu cunhado. É o conflito entre vontade de ajudar a todos com o direito de serem humanos sendo que, o próprio Alex, nunca foi visto como humano, mas como o judeu da mamãe, do rabino, o judeu exilado, o judeu narigudo, o judeu emasculado, etc. 

"Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está transbordando dos meus ouvidos, a saga dos judeus sofredores! me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu - porque por acaso eu também sou um ser humano!"

Foi uma leitura cansativa, mas instigante. Me vi várias vezes em Alex quando ele entra em pânico por fazer algo errado. No começo da pandemia, eu achava que ia morrer quando buscasse a pizza na portaria do prédio; eu ia ficar entubada se não limpasse cuidadosamente com álcool em gel o novo frasco em alcool em gel que comprei no mercado; que eu ia contaminar todos da minha família se eu abrisse o vidro do carro e depois os visitasse. E, ao mesmo tempo, vi vários Alex que não compreendem como os os fura-quarenteners não morreram de COVID, ou pelo menos não ficaram seriamente doentes. A culpa e o medo continuam presentes. Ainda que tem sido flexibilizada as atividades nessa quarentena, o medo de sair e se contaminar e a culpa e vergonha de estar saindo ainda são dominantes.

(Respondendo minha própria pergunta do título, estou tão presa na década de 60 que ontem, domingão, eu e Allan assistimos Rosemary's Baby, que também é bastante referenciado em Mad Men. Que filme, minha gente. Que filme!)