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Porque não gostei de Norwegian Wood - o livro, não a música

Depois da leitura pesada que foi Silvina Ocampo, pensei em ler algo que fosse mais minha zona de conforto. Logo veio à minha mente Haruki Murakami, pois há muito tempo não lia nada deste autor, apesar de sua vastíssima obra e da forte simpatia que eu tinha com os livros que li. Eu não queria fugir dos elementos fantásticos que tanto nos lembra os contos de Silvina Ocampo, mas eu queria algo mais leve e encantado. 

Adorei Kafka a Beira Mar: uma releitura da tragédia de Édipo, com os gatinhos que se comunicam com um dos protagonistas, etc. Amei. Depois, Caçando Carneiros foi um dos meus livros favoritos da vida. Finalmente, a trilogia 1Q84, que eu achei divertidíssima e envolvente. 

Então fui para Norwegian Wood, que é uma das obras referências do autor japonês. Sua escrita é sedutora. É muito fácil ler Haruki Murakami. E por isso eu fui. Fui... Fui. E só foi piorando. Não que o começo tenha sido ruim, mas do meio para o final foi péssimo. 

Foi publicado em 1987. Trata-se de um romance de formação. A história é contada por Toru Watanabe que, mais velho, relembra seus 17 e 20 anos durante os anos de 1968-1970 no Japão. Tem todos os elementos clichês para qualquer história de adolescente/ jovem adulto desta época: muita música, protestos, greves, sexualidade, álcool, depressão, retiros alternativos. Só não tem drogas. Boa parte da história se passa num alojamento masculino cheio de universitários e não tem... Drogas. Ok. Isso não é tão importante assim. 

O problema, a meu ver, são dois. O primeiro, não gostei como a depressão e o suicídio são tratados no livro. Vários personagens têm problemas depressivos profundos e vários se matam. Parece que mais personagens comentem suicídio do que chegam vivo até o final. A discussão que permeia toda a narrativa é "quem é normal e quem não é", ou "o que é ser normal?". Bom, tudo bem, o livro foi escrito em 1987, mas o máximo que acontece é um tratamento alternativo num retiro de pacientes que não tem acompanhamento médico convencional. Ou seja, eles estão lá para "se" tratar com o ar das montanhas, cuidando de passarinhos e conversando bastante. Enfim, uma abordagem completamente "antivax". De novo, compreendo que é uma obra de 1987 falando de um período de 20 anos atrás, mas faltou um "q" de levar essa situação um pouco mais para além de "tristeza-não-faz-de-ninguém-anormal-vamos-aproveitar-a-natureza-porque-as-montanhas-são-lindas-e-tudo-o-que-você-precisa-é-boa-vontade-para-se-curar". 

O segundo tem a ver com críticas que olhei de relance por aí na internet e para o qual eu sempre fiz vista grossa: as personagens femininas de Murakami. Nas outras obras que li, não tive nenhum problema com as personagens femininas, achei que ou elas não apareciam e não eram importantes para a história, ou então eu até gostava delas. Em 1Q84 eu adoro a protagonista. 

Porém, em Norwegian Wood, um livro que trata justamente sobre o "despertar', vamos dizer assim, da sexualidade do protagonista, as mulheres aparecem como bonecas/fantoches sexuais, com diálogos completamente apelativos e ridículos. Sinceramente, fica parecendo muito menos um romance de formação e muito mais os devaneios de um adolescente bobo egocêntrico cheio dos hormônios. Podemos falar que o narrador é em primeira pessoa e tudo o que nos conta é uma digressão e, portanto, pode ser essa imaginação mesmo e acabamos sendo enganados. Tudo bem, isso é até válido. O problema é que a leitura se torna um clichê sexual tosco cansativo e misógino. 

Uma passagem lamentável é quando uma das personagens, na casa dos 40 anos, paciente da tal clínica alternativa, vai contar para o protagonista o episódio que a levou a esta situação. São páginas e páginas de sua história: ela era professora de piano, na casa dos 30 anos, bem casada e com uma filha bebê. Uma de suas alunas de 13 anos a seduz e elas vão para a cama. Depois, tanto o sentimento de culpa quanto o julgamento de seus vizinhos a destrói. São páginas e páginas de descrição desta cena de pedofilia, onde a menina de 13 anos seduziu a professora, e - o mais importante - tem absolutamente nenhuma conexão com o antes e o depois da história. É uma narrativa, dentro de outra narrativa, puramente pela descrição sexual de uma mulher e uma adolescente.

Tenho a impressão de que é um livro adorado por leitores homens. O que é uma tristeza. Eu adoro romances de formação, adorei as outras obras de Haruki Murakami, e talvez passe algum tempo agora para eu ler outra obra do autor. 

Enfim, pela primeira vez na vida, vou dar apenas uma estrelinha de avaliação para uma leitura. Recomendo, no entanto, Caçando Carneiros. 

A insustentável leveza do ser: exilados em sua própria terra

A primeira vez que li "A insustentável leveza do ser", Milan Kundera, foi, muito provavelmente, há 10 anos. Eu era estudante de graduação em História e morava ainda numa pensão de estudantes perto da USP. Um colega, que estava no mestrado em psicologia leu este livro, disse que era muito bom e me emprestou. 

Curioso que, na época, eu não tinha muitas referências sobre Praga, Tchecoslováquia, Boêmia, Primavera de Praga, 1968, Exército Vermelho, comunismo, literatura pós-moderna... Tudo era meio confuso e eu conhecia as palavras, mas não os conceitos ou a história. Não que agora eu seja uma especialista, mas pelo menos estes assuntos não são mais de outro mundo. Me lembro que, na época, eu li rapidíssimo. Achei provocante. Bonito e misterioso. Mas se alguém me perguntasse sobre o que o livro falava, eu talvez teria dito: 

- Ahn... Fala sobre amor. Uns casais que tentam se entender, mas não conseguem. Num país que foi comunista. 

E depois disso eu apaguei. Pouquíssimas coisas do romance ficaram registradas na minha memória. Quando fui para Praga em 2019, tudo o que eu lembrava era que eu havia lido um livro cujo autor era tcheco e cuja história se passava nesta cidade. Só. Eu não lembrava do nome dos personagens, tampouco de Karenin. Muito menos da resistência tcheca contra a ocupação soviética. 

Só retomei a leitura porque vi uma blogueira compartilhando este livro no Instagram (me julguem) e me toquei como tão pouco eu me lembrava do que tinha lido. E fiquei me perguntando como uma narrativa tão densa e nada óbvia tinha ganhado projeção nas camadas mais superficiais das redes sociais. Fui lá na Amazon e comprei.  Eu não fui atrás para ver o que esses influencers falaram sobre o livro, mas tenho uma teoria que vou dividir com vocês no final do texto. 



Acho que os motivos de todo esse "apagamento" da minha memória se encontra um pouco na conclusão que tirei nesta segunda leitura. Em "A Insustentável Leveza do Ser", Kundera fala sobre tudo e nada. É um pouco aquela crítica (que eu adoro) contra o pós-moderno: as correntes pós-modernas querem relativizar absolutamente tudo e acabam explicando nada. Do ponto de vista científico, isso pode ser um problema, mas para a literatura eu acho maravilhoso. 

Por isso a "A insustentável leveza do ser" tem tantas possibilidades de leituras diferentes. Ela pode ser superficial e se atentar ao erotismo e à relação entre Tereza - Tomas - Sabina - Franz, ou ir se aprofundando em centenas de questões filosóficas trazidas pelo autor e que mudam a cada página. 

Não, eu não fiz desta vez uma leitura de estudo profundo. Comecei a ler em São Paulo durante meus preparativos de mudança para os EUA. Precisei parar e retomei já na minha nova casa. Foi o único livro físico que trouxe nas malas. 

Esse apanhado de tudo e nada é também o motivo pelo qual é tão difícil escrever sobre essa leitura: sobre o que eu gostaria de falar? Que temas mais me chamaram atenção? Mas isso é complicado, porque a cada mudança de capítulo, um novo tema aparecia com força. As reflexões filosóficas do narrador que se misturam com o pensamento e intrigas dos próprios personagens foram criando uma sopa de letrinhas: cada colherada era ótima, mas em cada uma vinha uma letra diferente. 

É um livro amargo, triste. Como muitos que li ano passado, fala da desconexão entre lugar e indivíduo. Ao contrário de autores que narram sobre o Holocausto e a diáspora judaica (e sobre os quais escrevi neste blog no ano passado), desta vez não são os personagens que saem de sua terra natal e tornam-se desterrados no mundo, procurando e não encontrando seu lugar. Isso talvez se passe um pouco com Sabina, que sai da Tchecoslováquia em direção e Europa e depois muda-se para os Estados Unidos. Seu desapego é tão grande que, além de ir cada vez mais a oeste e distanciar-se de suas origens geográficas, ela chega a morar junto com um casal idoso mecenas - abrindo mão até de uma casa própria. 

Isso, contudo, não se passa com os protagonistas Terezas e Tomas. Eles estão em Praga, vão para a Suiça, mas Tereza logo volta porque ela não se vê e nem é mais vista como Tereza neste outro país - é vista pelos outros como uma extensão de Tomas. Volta para Praga e Tomas logo vai atrás, encontrando uma outra cidade. Não foram eles que saíram do lugar, foi o lugar que saiu dele mesmo. Com a invasão, o país deixa de ser o que era e, consequentemente, também suas pessoas. O presidente Alexander Dubcek, depois de ter sido capturado pelos russos, volta transformado. Não é mais o mesmo. Por isso Tereza e Tomas, apesar de voltarem, também não são mais os mesmo. A transformação da Tchecoslováquia e de Praga também os transformaram: perderam suas profissões e suas referências.

Sabina exila-se saindo. Tomas e Tereza são exilados sem sair do lugar.

"Tomas dirigia, Tereza ia ao seu lado e Karenin no banco de trás; de vez em quando, esticava a cabeça para lamber a orelha deles. Duas horas depois, chegaram a uma pequena estação de águas onde tinham passado alguns dias juntos cinco ou seis anos antes. Pretendiam pernoitar ali. [...]

Tomas mostrava o hotel. Afinal alguma coisa havia mudado. Em outros tempos, chamava-se Grande Hotel e agora, de acordo com o letreiro, chama-se Baikal. Olharam para a placa, na esquina do prédio: era a praça Moscou. Em seguida percorreram todas as ruas que conheciam (Karenin os seguia sozinha, sem guia), lendo os nomes: havia a rua Stalingrado, a rua Leningrado, a rua Rostov, a rua Novossibirsk, a rua Kiev, a rua Odessa, havia o Sanatório Tchaikovski, o Sanatório Rimski-Korsakov, o Hotel Suvorov, o Cinema Górki e o Café Púchkin. Todos os nomes eram tirados da Rússia e da história russa. 

Tereza se lembrou dos primeiros dias da invasão. As pessoas retiravam as placas das ruas de todas as cidades e arrancavam das estradas os painéis indicativos. O país se tornara anônimo numa noite. Durante sete dias, o Exército russo ficara errando pelo país sem saber onde estava. Os oficiais procuravam os prédios dos jornais, da televisão, da rádio para ocupá-los, mas não conseguiam encontrar nenhum deles. Perguntavam às pessoas, mas elas davam de ombros ou indicavam endereços falsos e um intinerário falso. 

Com o passar dos anos, esse anonimato se mostrou nocivo ao país. Nem as ruas nem as casas conseguiram encontrar de novo seu nome original. Uma estação termal da Boêmia se tornara assim, do dia para a noite, uma pequena Rússia imaginária, e Tereza constatou que o passado que procuravam lhes fora confiscado. Era impossível pernoitar ali." (KUNDERA, M. A Insustentável Leveza do Ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 162-3)

Enquanto em Levi, por exemplo, a urgência é voltar para seu lugar, em Kundera a ânsia é para que este lugar lhes seja devolvido. São duas formas distintas de exílio. 

A saída do governo soviético se deu em 1989. Em Junho de 2019 eu visitei Praga com meu marido numa espécie de segunda lua de mel. E mesmo já tendo se passado trinta anos da redemocratização, o que vimos foi um país que repetidamente afirma os anos obscuros que foram a invasão comunista. "O Museu do Comunismo" é inteiro dedicado a este período sob um ponto de vista do horror e há monumentos e marcas relembrando eventos de resistência do povo tcheco contra o governo soviético em múltiplos lugares da cidade. 

Depois de uma longa história de ocupações, é como se o país procurasse estabelecer e afirmar sua identidade em completa oposição a estes momentos históricos. Tereza é a metáfora da República Tcheca. Ela se olha no espelho e fica procurando insistentemente a conexão entre sua alma e corpo, desvencilhando-se da imagem da autoridade materna. Ela renega completamente este passado. Notei essa tentativa de busca na cidade de Praga: monumentos, museus, passeios turísticos, tudo procura afirmar quem é este país e porque ele é único e diferente de todos aqueles que o ocuparam. 

É um livro que, provavelmente, vou ler novamente. Quanto mais "bagagem cultural" (odeio esse termo, mas no momento ela convém), mais camadas vão aparecendo durante a leitura. Só deixo aqui como nota registrada (e não apenas mental) de que na próxima leitura, se o tema "exílio" me for ainda de interesse, pesquisar o caminho do exílio do autor. Kundera parece ter tido uma relação conflituosa com seu país de origem e, apesar de escrever de maneira tão empática, me parece que, como Sabina, ele preferiu sair para nunca mais voltar. 




Memorial às vítimas do comunismo. Monte Petrin. Praga, Junho de 2019. 

O mesmo monte onde Tereza sonha que está indo ser assassinada. Em seu sonho, Tereza obedece Tomas que a manda subir o Monte Petrin. No topo, ela encontra três algozes que a matarão - caso assim seja sua vontade. Eu e o Allan visitamos o Monte Petrin e visitamos este memorial. Flagramos, neste momento, uma senhorinha colocando flores. 

"Quando chegou ao monte Petrin, a colina verdejante situada no centro de Praga, notou com espanto que não havia ninguém. Era curioso, pois, em geral, multidões sempre passeavam por ali. Sentia-se angustiada, mas os caminhos estavam tão silenciosos e o silêncio era tão repousante que relaxopu e se entregou cofiante à colina. Subiu, parando de vez em quando para olhar para trás. A seus pés, via um aglomerado de torres e pontes. Os santos brandiam punhos ameaçadores, os olhos de pedra fizados nas nuvens. Era a cidade mais bonita do mundo." (Idem, p. 146)


 Eu descendo o Monte Petrin. Praga ao fundo. Junho, 2019.


Outros textos nos quais falei sobre o tema exílio e publiquei aqui no blog:



Finalmente, por que o livro "A insustentável leveza do ser" sendo divulgado por influencers nas redes sociais que falam sobre tudo, menos literatura? Imagino que transformaram o livro de Kundera no horror de Sabina. O que Sabina mais detesta no mundo é o kitsch e, no contexto político e social que vivemos, os logos e palavras de ordem que imperam é o próprio kitsch. O governo Bolsonaro, Lula elegível, a aproximação das eleições, crise, etc... Uma leitura superficial e descontextualizada transforma a obra de Kundera num slogan anti-comunista tosco. E é isso que o transforma em poderoso.

"A primeira revolta interior de Sabina contra o comunismo não tinha um caráter ético, mas estético. O que lhe repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista (os castelos convertidos em estábulos), mas a máscara de beleza com que ele se cobrira, isto é, o kitsch comunista. O modelo desse kitsch era a chamada festa do Primeiro de Maio. 

[...]
A festa do Primeiro de Maio se abastecia na fonte profunda do acordo categórico com o ser. A palavra de ordem tácita e não escrita do desfile não era "Viva o comunismo!", e sim "Viva a vida!". A força e a estúcia da política comunista foi ter se apossado dessa palavra de ordem. Era precisamente essa estúpida tautologia ("Viva a vida!") que levava ao desfile comunista até mesmo os que eram completamente indiferentes às ideias comunistas. 

[...]
Por volta de dez anos mais tarde (ela já morava na América), um senador americano amigo de seus amigos a levou para passear num carro enorme. Quatro garotos se apertavam no banco de trás. O senador parou; as crianças desceram e desataram a correr num gramado imenso em direção a um estádio onde havia um rinque. O senador ficou ao volante olhando com ar sonhador as quatro pequenas silhuetas que corriam; virou para Sabina: "Olhe para eles!", disse, descrevendo com a mão um círculo que englobava o estádio, o gramado e as crianças: "É isso que eu chamo de felicidade".

[...], nesse momento, Sabina imaginou o senador num palanque de uma praça de Praga. Em seu rosto, havia examente o mesmo sorriso que os estadistas comunistas dirigiam do alto de seu palanque aos cidadãos igualmente sorridentes, que desfilavam a seus pés. [...]

O kitsch é o ideal estético de todos os políticos, de todos os movimentos políticos." (Idem, p. 244-6) 

Minha estréia em ficção científica e uma reflexão sobre a passagem do tempo e sensibilidade

O tempo está passando de uma forma muito estranha para mim. Não é rápido, tampouco devagar. É uma constante espera, cheia de imprevisibilidade, que faz o tempo presente ser extremamente vagaroso, enquanto o passado parece ter acontecido num estalar de dedos. 

Quando penso que já estamos entrando na segunda quinzena de Abril, fico com a sensação de que eu não tive tempo de escrever sobre a trilogia "O Problema dos Três Corpos" do autor chinês, Cixin Liu. Eu virei 2020-21 lendo o primeiro volume e, aos trancos e barrancos, passei os meses de Janeiro e Fevereiro lendo os volumes dois e três. 

Mas como eu não pude ter tempo de escrever se meus dias são inertes e contabilizam - assustadoramente - horas excessivas e não-saudáveis de tempo gasto em frente a tela do celular?

Entre Março e Abril, também aos trancos e barrancos, li metade do livro de Stephen Hawking, "Uma breve história do tempo". Entre catálogos de livros de viagem sobre paisagens turísticas chilenas, estava esta obra - em espanhol, claro - disponível na mesinha de cabeceira. Quão irônico é isso? Decidi, voluntariamente, enterrar esta questão. 

Este mês comecei outro livro e percebi hoje, dia 15 de abril, que se eu não escrever sobre "O Problema dos Três Corpos", ele ficará perdido para sempre no tempo e, aos poucos, se esvaindo da minha memória. 

E já que o tempo está sendo tão ingrato comigo, decidi enfrentá-lo e escrever minhas impressões hoje, sem rodeios, mesmo que de maneira breve e incompleta. Não importa o que aconteça e qual seja minha motivação.  Hoje estas linhas saem do plano das ideias para o papel, digo, computador. 

É o problema matemático dos três corpos que intitula o primeiro livro da trilogia de Cixin Liu.
 

 Eu nunca tinha lido ficção científica, apesar de gostar muito do gênero nas telas e meu marido ser um grande leitor. Me interessei pela obra do Cixin Liu porque também nunca tinha lido um autor chinês e neste tempo histórico, é importante se voltar para a China. Como meu olhar não é econômico, geopolítico, ecológico, mas sim cultural, Cixin Liu me pareceu uma boa estreia para a literatura contemporânea chinesa e, de quebra, ficção científica. Por isso o livro me cativou logo nas primeiras páginas: uma parte da narrativa é ambientada nos anos 1960 na Revolução Cultural Chinesa.

Os livros são relacionados e, ao mesmo tempo, independentes entre si. O segundo e terceiro são expansões do que é iniciado no primeiro. Surge o problema, mas a história continua com outros problemas, outros personagens e uma passagem temporal tão grande, cheias de idas e vindas, que ficou confuso - mas não impossível. O mérito da leitura (pelo menos o que mais me interessou) foi a junção dos elementos da astrofísica com as grandes questões metafísicas da humanidade. Estes elementos são bem trabalhados nos dois primeiros volumes, mas se perdem no terceiro e, por isso, este último foi o mais difícil de concluir a leitura. 

O primeiro foi meu favorito. Através de um jogo de realidade virtual, nosso protagonista "entra" num mundo diferente e a partir de personagens e fatos da nossa própria história da ciência, vai descobrindo que lugar é este e quais os "problemas" naturais que devem ser compreendidos e resolvidos. Eram meus capítulos favoritos. O primeiro livro junta questões da astrofísica, história da ciência e história política e cultural da China com suspense de uma maneira muito didática e envolvente. 

No segundo volume, o problema já está colocado e a história pode ser resumida com um "como vamos resolver essa questão e não vamos todos morrer?". O problema do problema é de que qualquer solução não pode ser falada, tampouco demonstrada. Ela não pode ser comunicada sob nenhum pretexto. Por isso, esta empreitada fica nas mãos de meia dúzia de pessoas, sendo uma delas nosso protagonista. Acompanhá-lo nessa trajetória também é muito interessante. 

No terceiro, tudo se perde. Percorremos um espaço temporal e galático gigantesco, que resulta num descolamento da ficção com o que é palpável, concreto. Tudo se torna imensamente abstrato e, por isso, fora de contexto da nossa realidade, ao menos do que nos é tangível. Eu não conseguia mais ver sentido no que estava lendo. Por que ficar lendo sobre explosões do sol, planetas a milhões de Unidades Astronômicas de distância da terra e cérebros descolados de seus respectivos corpos que ficam vagando pelo espaço que se passam daqui 600-800 anos, sendo que nossa preocupação atual é sobreviver dia a dia e chegar no mês que vem? Infelizmente, é o maior volume de todos. 

Não estamos vivendo um momento fácil e a imprevisibilidade me consome. Lidar diariamente com a ansiedade, aprender a não me cobrar demais e, ao mesmo tempo, não me abandonar e aprender a me cobrar um pouquinho, tem sido muito difícil. Por isso a leitura lenta e a demora em doar este tempo para a escrita. Estou sentada o dia inteiro em casa e extreamamente cansada. Parece que o jeito é aprender a lidar com isso. Assim como aprender a lidar com esta nova forma de passagem do tempo. 

A passagem do tempo, além da dimensão física e natural, é uma percepção. De 1990 até março de 2020, eu aprendi a ter uma percepção temporal. A pandemia fez surgir novas relações e dinâmicas do indivíduo e da sociedade com o tempo, portanto, uma nova sensibilidade de passagem temporal que ainda estamos tentando conhecer. Por isso, a ficção científica de Cixin Liu, ou Stephen Hawking e seu livro de divulgação científica sobre o tempo, me parecem ser um pouco incompletos. Por mais interessantes que sejam, as leituras me deixaram com a sensação de que faltava algo. Com certeza isso diz mais sobre mim e minha experiência de tempo/espaço de leitura do que sobre as obras em si.

Rita Lee - uma autobiografia (e quando a gente tem a chance de contar o nosso lado)

O gênero (auto)biográfico me interessa muito. Tirando a biografia de Jorge Amado - escrito por uma mulher - as duas últimas autobiografias que li foram de mulheres: Becoming, de Michelle Obama, que li na virada do ano 2019/20 e, agora, Rita Lee - Uma Autobiografia. Que meus colegas eruditos da FFLCH, tampouco meus companheiros historiadores me vejam falando, mas para mim - enquanto leitora interessada, não especialista em gêneros textuais - os textos que envolvem as narrativas do eu não deixam de ser ficção (nisso se incluem também os textos historiográficos). 

Não quero entrar na toca do coelho de Alice, me dizendo pró-estruturalista, que tudo é relativo, etc. É um perigo eu cair nisso sem o cuidado necessário e nunca mais conseguir sair. Porém, todavia, entretanto... Ao longo de todo meu trabalho em arquivos pessoais, sempre me saltou aos olhos como nós - seres sociais que se utilizam das narrativas para diversos fins de organização social - utilizamos também a construção narrativa para dizer quem somos nós dentro de uma coletividade. A grande lição disso é que não cabe a nós julgar, decidir o que é verdadeiro ou não, porque a verdade está em quem fala o que fala. 

O texto de Rita Lee é uma delicinha de ler. Parece que estamos numa mesa de bar - ou no sofá da Hebe, que a ela era tão querido - ouvindo-a contar causos. Os capítulos curtíssimos organizados em ordem cronológica, comum às biografias, são na verdade muito mais lances de memória do que fatos explicados e datados. O uso do recurso de "eu me lembro" e dos sentidos - olfato, tato, sabor -, causa a nós, leitores, a impressão de uma confissão, de um relato autêntico. E Rita Lee faz isso muitíssimo bem. Acabamos a leitura com uma enorme vontade de conhecê-la pessoalmente e ter conhecido sua família excêntrica. 

Adorei a São Paulo que ela nos mostra. Essa cidade que me adotou e eu adotei - ela fala de uma São Paulo cheia de possibilidades, diversa, urbana e, ao mesmo tempo, linda. Eu mesma, paulistana por adoção e nascida no ABC Paulista, mais do que me identificava com os vislumbres da "caipirona" em sua primeira vez na Europa e no Rio de Janeiro. Eu também nasci e cresci "meio caipira" e viajar de avião ainda é uma maravilha.  Mas a "caipirice" de Rita, que se mostra como uma paulistana-jeca-tatu, é mais um recurso cômico de afirmação de suas origens e particularidades em oposição ao cosmopolitismo carioca. Afinal, seus pais tinham origem norte-americana e italiana e sua educação se deu em escola francesa.

De maneira geral, o livro parece ser um manifesto de auto-afirmação contra as críticas feitas por aqueles que lamentam o fim dos Mutantes e diminuem a carreira solo da cantora. Rita Lee foi uma mulher cantando rock, no meio de homens e mpbistas e bossanovistas: os ataques vinham de todos os lugares. Foi preciso muita força para resistir e continuar. E apesar do seu tom pouco friendly contra os irmãos Batistas, é preciso reconhecer a dificuldade de uma mulher se integrar num clube do bolinha. 

O fato é que o livro é a oportunidade da cantora e compositora mostrar que ela é mais que Os Mutantes e que o fim da banda não deve cair sobre seus ombros. Há mais: todo esse ar "cult" do grupo veio depois. Na época, eles estavam desbravando e não querendo ser cults, fazer história ou a revolução. Inclusive, esclarece sua posição política para aqueles fiscais do anti-ditadura: definitivamente não era a favor, mas também achava um porre fazer arte engajada. E isso não a diminui como mulher, como cantora, tampouco sua arte. Publicado em 2016, nos seus 69 anos, a autobiografia de Rita Lee é uma forma humorada, leve, de responder aqueles que a criticaram ao longo de seus mais de 50 anos de carreira. 

E aí, cabe a ela sim contar o lado dela dessa história, que faz de forma muito sincera:

Hoje, os Mutantes são considerados cult, especialmente na fase da qual fiz parte, o que muito me orgulha. Estávamos sim anos-luz à frente do nosso tempo, pena a nossa alegria espontânea ter perdido para a falsa ilusão da glória passageira. 

Eu aqui apenas conto o lado da minha moeda com o distanciamento inverso ao dos críticos-viúvos que teimam interpretar a história como se soubessem mais do que quem, como eu, fez parte dela.

Apesar de gostar muito da Rita Lee e saber muitas músicas de cor, não sou fã de carteirinha. Tampouco conheço muito essa história da cultura brasileira da qual Rita Lee é uma das protagonistas. Interessados neste assunto se deleitarão com os relatos mais históricos. De qualquer maneira, da minha leitura, despreende-se a genialidade e coragem de Rita Lee em se afirmar e afirmar sua arte num meio hostil, que não a reconhecia como cantora e artista e a critica/ responsabiliza pelo fim dos Mutantes. Rita Lee Jones conta os percalços que passou para não se deixar abater e se tornar a mulher que foda que é, solo, longe da sombra de homens e, deixa muito claro que, quando encontra Roberto de Carvalho, é parceria. E daí em diante, ela decola - tanto como mulher quanto como artista.

A Assombração da Casa da Colina: quando os fantasmas que nos perseguem somos nós mesmos

Parece que pipocaram clubes de leitura. Se reunir para discutir um livro me parecia tão coisa de filme americano. As senhorinhas donas de casas sentadas em poltronas numa sala confortável, conversando e trocando ideia sobre a mais recente leitura, comendo cookies e brownies... Em Lost, o episódio que apresenta com mais detalhes quem eram os outros, mostra os habitantes da ilha reunidos e discutindo o livro Carrie, de Stephen King, quando são interrompidos pela queda do avião dos nossos adoráveis protagonistas.

Ainda não me reuni presencialmente para discutir nada (só em salas de aula), mas minha bolha de perfis das redes sociais tem me apresentados clubes de leitura que propõem discussão online (o que faz muito sentido, considerando a quarentena). O fato é... O primeiro clube de leitura que entrei foi do site/revista  Valkirias, onde discutimos Sobre os Ossos dos Mortos. Agora, entrei em mais um, do site/revista Querido Clássico. Eu adorei a proposta de ler clássicos do terror no mês do Halloween e, por isso, a leitura coletiva deste mês é A Assombração da Casa da Colina, da autora norte-americana Shirley Jackson e publicado em 1959. Eu não conhecia o livro, tampouco a autora. Já tinha assistido a série da Netflix, A Maldição da Residência Hill, que eu gostei bastante, mas não sabia que tinha sido inspirada pela obra de Jackson. 

É um livro de leitura rápida, pouco mais de 200 páginas, que eu li em três dias numa viagem que fiz ao interior de São Paulo. Coincidências da vida, mas viajamos à região da Cuesta, em Botucatu, formada por grandes morros. Alugamos uma casinha pelo Airbnb e ficava bem no topo, com um mirante maravilhoso. Na primeira noite de leitura, ventava muito e, por ironia das deusas da leitura, estava eu lá lendo sobre a Casa da Colina. 

Anedotas curiosas a parte, gostei muito da leitura, mas pensava que eu não teria muito o que falar sobre este livro porque "não era uma história tão profunda" e que "ultimamente tenho lido obras tão densas, que esta é fichinha". Acabei pagando minha língua. 

O terror, na obra de Jackson, não está no campo do paranormal. Fantasmas, monstros, sustos não existem neste terror. O que existe é a tensão psicológica da protagonista, Eleanor, em saber quem é e qual o seu lugar na sociedade. Quando eu era criança, meu pai me dizia "não tenha medo de espíritos, é dos humanos que temos que ter medo". Essa é a grande lição do livro. 

As personagens aguardam ansiosamente uma atividade paranormal. Querem ser testemunhas de algum fenômeno inexplicável, mas no fundo, o que se passa na cabeça de Eleanor é o medo de como está sendo julgada pelos seus colegas, o medo de saber o que eles pensam dela. Se a casa é mal assombrada ou não, o medo da casa é contaminado pelo medo de parecer que tem medo e, por isso, a afirmação constante de "eu não senti medo". O curioso, no final, não é o medo de a casa não deixá-la ir embora. O medo é, de fato, ir embora. 

Quando a tensão aumenta e parece que estamos próximos do clímax, a chegada da esposa do Dr. Montague muda tudo. A dubiedade de sua crença no paranormal e, ao mesmo tempo, seu ceticismo, desestabiliza a conviccção de que a casa é realmente mal assombrada e, aí sim, percebemos que o problema está não na materialidade da residência, mas sim na cabeça de todos eles. É um livro que joga muito com a dualidade de expectativa versus realidade. O quanto daquilo que apuram os sentidos das personagens é real e o quanto é imaginação? O quanto o medo é do paranormal e o quanto é do julgamento do outro - outro de carne e osso. 

Pesquisando mais sobre a autora e a obra, vi que Shirley Jackson foi contemporânea de outros autores norte-americanos clássicos, como Philip Roth. Adeus, Columbus, inclusive, concorreu junto com A Assombração da Casa da Colina, pelo National Book Award. O primeiro livro ganhou, assim como Philip Roth é muito mais conhecido e Shirley Jackson foi ficando... Vamos dizer assim... Um pouco apagada. 

E no final, assim como os protagonistas de Roth buscam sua identidade e saber quem são no meio em que vivem, também Eleanor, de Jackson, está procurando seu lugar. Só que é uma mulher, que viveu até depois dos 30 anos cuidando de sua mãe julgadora, pouco amável e recentemente falecida, sem um lugar próprio, vivendo às custas e à sombra de sua irmã. A Casa da Colina é um lugar onde ela pode pensar em ser ela mesma, longe do julgamento da irmã e do cunhado, fazer amizades com outras pessoas... Mas a insegurança e o medo do olhar do outro são de fato o que a assombram. 

Gostaria de conhecer mais Shirley Jackson e suas protagonistas. Em um artigo publicado no The Guardian na ocasião da estréia da série da Netflix, a autora diz como Jackson sentia-se sufocada e oprimida pela sua vida familiar - mãe, marido e a faceta dona de casa. Ao fato, acrescenta-se como, ao contrário de autores como Philip Roth, Saul Bellow e John Updike cujas obras foram associadas à seriedade e profissionalismo, Jackson foi relegada ao plano da dona de casa, habilidosa com a escrita, mas cuja obra era um pouco "emocionadinha". 


Depois de ter terminado, voltei ao livro e reli a primeira página que funciona como uma introdução. O quanto a Casa e todo seu equilíbrio, assoalhos firmes, paredes em pé, portas "sensatamente" fechadas e, ao mesmo tempo, tão "desprovida de sanidade" não são as nossas próprias amarras sociais? Uma sociedade de bases institucionais sólidas, existentes há tanto tempo no passado e tão mais no futuro, também desprovida de sanidade: sufocando e oprimindo os que nela habitam (neste caso, exemplificado por Eleanor, uma mulher em seus trinta, procurando seu lugar e aprovação no mundo). Mas aí, talvez eu já esteja viajando demais!!

De qualquer maneira, é importante ler A Assombração da Casa da Colina situando-a em seu contexto temporal e social. Percebemos assim como a obra expressa magistralmente sob uma narrativa de terror e suspense problemas do feminino da época de 60 e, ainda, tão atuais - sem cair do pedantismo de um feminismo raso e escandaloso. 

(Ainda não foi o encontro de leitura, certamente haverão outros pontos interessantes!)

Estou presa na década de 60? Partindo de Mad Men, visitamos Alex Portnoy e, por último, um pulinho em Mrs Maisel

Continuando na linha de Mad Med do post anterior, eu queria registrar um pouquinho as minhas impressões de "O Complexo de Portnoy". Eu já tinha lido ano passado "A marca humana" e "Pastoral Americana", livros que eu gostei demais. Deixei Philip Roth um pouco de lado até ver Don Draper lendo "Portnoy's Complaint" durante seu próprio exílio dentro da Roger, Sterling and Associates. 

As questões de identidade, de deslocamento do protagonista frente aos grupos que ele (não)pertence, o que é esperado dele VERSUS o que ele é ou quer ser, são grandes temas já de "A marca humana", publicado em 2000. O fenótipo e o genótipo sob os choques dos costumes, da história e da cultura já haviam aparecido em 1969, data de publicação de "O Complexo de Portnoy". Uma leitura muito difícil porque, como o próprio título original sugere, trata-se de uma gigante reclamação - Portnoy's Complaint. Uma hora eu precisei dar um tempo porque, afinal, ouvir/ler tanta reclamação é um pouco complicado. 

(Aliás, genial esse jogo de palavras do título. Uma pena que se perde um pouco disso na tradução.)

Se tem uma coisa que aproxima talvez os judeus e os brasileiros é a tal autodepreciação. Eu não sabia, mas "se zoar" é um fenômeno comum entre a comunidade judaica. O desabafo de Alex está entre o desespero e a risada. Por exemplo, o pânico que ele sente de ter que contar aos seus pais que estava numa tentativa frustrada de perder a virgindade com uma menina não-judia e, sem querer, espirrou esperma no seu olho: desespero imenso de ficar cego e tornar-se uma decepção para seus pais, tudo porque quis ser chupado por uma shikse.

O sentimento de culpa que persegue Alex é o que torna as situações tragicômicas. Quem mandou ficar patinando no gelo atrás das shikses? Por isso caiu e quebrou a perna, ficará para o resto da vida deficiente e ouvirá para sempre seu pai reclamar e jogar na sua cara seu interesse pelas moças não judias. (Nós brasileiros também somos experts em rir da nossa própria desgraça, só não temos o sentimento de culpa nos intimidando. Pelo contrário, somos bons em culpar sempre os outros pelas nossas próprias mazelas.)

"Dr. Spielvogel, esta é a minha vida, minha única vida, e estou vivendo minha vida no meio de uma piada de judeu! Eu sou o filho de uma piada de judeu - só que não é piada não!" 

Apesar de Alex não conseguir controlar seus impulsos sexuais na intimidade, aos olhos de sua família e comunidade ele é o menino perfeito, o filhinho da mamãe, o melhor aluno da classe. e por isso se formou advogado e assumiu uma importantíssima posição na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York. E seu esforço em tornar-se esse "menino exemplo", tanto pelo sentimento de superioridade moral quanto pelo medo que sua família impunha a ele quando criança, deixa-o inconformado quando descobre, já adulto, que seus colegas de infância também se tornaram homens normais e bem sucedidos, apesar de seus comportamentos nada exemplar.

"Mas não pode ser! Sem sopa de tomate quente no almoço de dias frios? Com aqueles pijamas imundos? Com todos queles preservativos de borracha vermelha cheios de pontas espetadas, que segundo ele enlouqueciam o mulherio lá em Paris? Smolka, que nadava da piscina do Olympic Park, também está vivo? E é professor de Princeton ainda por cima? Em que departamento, letras clássicas ou astrofísica? Ba-ba-lu, você está falando que nem minha mãe. Você certamente quer dizer encanador, ou eletricista. Porque eu me recuso a acreditar! Quer dizer, no fundo do meu kishka, das minhas emoções mais profundas, minhas crenças mais antigas, por trás do eu que compreende perfeitamente que Smolka e Mandel continuam vivos, morando em boas casas e desfrutando das oportunidades profissionais abertas aos homens deste planela, não consigo acreditar que esses dois meninos maus sobreviveram, muito menos que se tornaram homens de classe média bem-sucedido. Ora, eles deviam estar na cadeia - ou na sarjeta. Eles nem faziam o dever de casa, porra!"

Achei ótima essa parte. Quantas vezes nesses últimos cinco meses de pandemia/quarentena a galera não pensou, de forma indignada, como é possível siclano e fulano não terem MORRIDO DE COVID porque não cumprem isolamento, não higienizam suas compras e não se preocupam em lavar as roupas quando chegam em casa? O medo nos prende em casa, nos faz sentir enorme culpa se furarmos a quarentena, e desejamos a morte/doença daqueles que saem - ou que não compartilham o mesmo medo e princípios morais que nós.

Porém, as críticas mais ácidas e degradantes são do Alex para ele mesmo: "Eu vivo numa piada de judeu" e, sob uma ótica freudiana e foucaultiana, seus impulsos sexuais são atos de resistência contra um mundo controlador e de culpa no qual ele não se encaixa. Na superfície, ele faz o que se espera de um menino judeu, mas sob os olhos dos outros não. O exemplo mais alegórico é a punheta que ele bate a caminho de seu bar mitzvah. 

"Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto! Chega!"

E tudo isso é condensado no último capítulo. Se o Alex não se encontra nos EUA, na sua comunidade em Nova York, se encontraria ele em Israel? O lugar onde todo mundo é judeu. O lugar onde os judeus são os WASPs. 

Absolutely not. Uma jovem israelene explica: 

"'Ah, não concordo', repliquei. 'A autodepreciação, afinal de contas, é uma forma clássica de humor judaico'.

'Humor judaico, não! Não! Humor de gueto.'

Um comentário não muito amoroso, não é? Quando o dia raiou, ela já havia me explicado que eu era o representante típico do que havia de mais vergonhoso na 'cultura da diáspora'. Aqueles séculos e mais séculos sem pátria haviam produzido homens desagradáveis como eu - assustados, defensivos, autodepreciativos, emasculados e corrompidos pela vida num mundo de gentios."  

E daí, fui pesquisar. Me intrigava como foi recebido o livro em 1969 pela comunidade judaica. Algumas aproximações com a série Mrs. Maisel eu já tinha reparado: a 'autozuação', a mãe controladora, a culpa na tradição judaica... E eis que descubro que Lenny Bruce, que pagou a fiança de Midge logo nos primeiros episódios, foi de fato um personagem real e, portanto, contemporâneo de Philip Roth. Neste turbilhão que foi os anos 60, a liberdade sexual, emancipação da mulher, civil rights, pós-guerra, os debates em torno da identidade e da linguagem tomaram espaço e o pós-estruturalismo ganha espaço. 

E diante desta nova questão da identidade, quem é esse judeu pós-segunda guerra mundial? Exilado nos EUA, exilado em Israel... Alex não encontra seu lugar, porque parecem ser incompatíveis o que ele é (ou quer ser? ou tenta ser?) com o que é esperado dele - não importa onde esteja. E por isso o sentimento de deslocamento e vazio. Irônico sua ocupação ser na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York, profissão que decidiu seguir quando, ainda adolescente, teve uma epifania durante uma viagem de caminhão a trabalho com seu cunhado. É o conflito entre vontade de ajudar a todos com o direito de serem humanos sendo que, o próprio Alex, nunca foi visto como humano, mas como o judeu da mamãe, do rabino, o judeu exilado, o judeu narigudo, o judeu emasculado, etc. 

"Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está transbordando dos meus ouvidos, a saga dos judeus sofredores! me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu - porque por acaso eu também sou um ser humano!"

Foi uma leitura cansativa, mas instigante. Me vi várias vezes em Alex quando ele entra em pânico por fazer algo errado. No começo da pandemia, eu achava que ia morrer quando buscasse a pizza na portaria do prédio; eu ia ficar entubada se não limpasse cuidadosamente com álcool em gel o novo frasco em alcool em gel que comprei no mercado; que eu ia contaminar todos da minha família se eu abrisse o vidro do carro e depois os visitasse. E, ao mesmo tempo, vi vários Alex que não compreendem como os os fura-quarenteners não morreram de COVID, ou pelo menos não ficaram seriamente doentes. A culpa e o medo continuam presentes. Ainda que tem sido flexibilizada as atividades nessa quarentena, o medo de sair e se contaminar e a culpa e vergonha de estar saindo ainda são dominantes.

(Respondendo minha própria pergunta do título, estou tão presa na década de 60 que ontem, domingão, eu e Allan assistimos Rosemary's Baby, que também é bastante referenciado em Mad Men. Que filme, minha gente. Que filme!)

O círculo perfeito entre o último e o primeiro episódio de Mad Men

Em 2017 eu assisti, sozinha, de uma só vez Mad Men. Meu marido até hoje fala como foi assustador a velocidade com a qual eu assisti todas as temporadas da série. Por conta da quarentena, eu consegui convencê-lo a assistir alguns episódios, para ver como é um ótimo show e entender um pouco os motivos que me fizeram ser grande fã. Ele amou e adotou-a como "nossa série oficial para a gente ver juntos". Neste fim de semana chegamos ao fim. Agora é só aproveitar o momento-ressaca-nostálgico-orfãos da série. Seguem alguns comentários e reflexões pessoais - nada de análise profunda ou coisas interessantes: não tenho arsenal teórico para isso e há muitas outras fontes mais interessantes na internet.

O legal de ver novamente um show tão denso é que vários detalhes da narrativa que me passaram despercebidos tornaram-se mais evidentes dessa vez - no perfeito modo irônico e simbólico de Mad Men. Em 2017, eu fiquei mais afeiçoada aos personagens e, pelo simples fato de não ter conhecimento prévio, várias referências históricas dos EUA da década de 60 me passaram batidas. Dessa vez, eu olhava com a maior atenção possível aos programas de TV e rádio que os personagens assistiam: o tour de Jackie pela Casa Branca no dia dos namorados, o assassinato de JFK, os protestos de 1968, Nixon pronunciando a retirada das tropas do Vietnã e, talvez o mais incrível e o meu favorito, a chegada do homem à lua.

Percebi (e lamentei muito) como a Betty já tinha seu destino trágico marcado desde o início. O último e o primeiro episódio fazem um arco perfeito: a criação de uma nova campanha para Lucky Strike, a ironia com que os homens em meio a fumaça debocham do risco de câncer, Don Draper completamente alheio à sua vida doméstica e, no final, isolado pela família que antes lhe era invisível, e a Betty representando o trágico ciclo do consumo capitalista vazio e autodestrutivo. Fui coletando, ao longo das temporadas,  frases e indiretas que antecipavam a doença fatal de Betty e como ela não conseguiria escapar de seu fim.

O grande tema da série é a sociedade dos Estados Unidos da década de 60. A emancipação feminina, os protestos pelo civil rights, a política, o próprio mundo da publicidade, a política, a sociedade de consumo norte-americana, o Don, a Peggy, a Betty, etc, são temas que compõem o grande assunto que é a marca temporal. O universo publicitário está lá porque é onde se exprime de maneira mais evidente a incompatibilidade da sociedade de consumo norte-americano: suas aspirações, promessas e como a vida material e perfeita - de propaganda - se dilui rapidamente, escorre pelas mãos e desaparece pelo ralo.

Por isso as primeiras temporadas tão "anos 1950": as roupas, móveis domésticos, o escritório, os temas da Guerra da Coréia, Segunda Guerra Mundial... É um ambiente mais sóbrio, analógico, excessivamente masculino e os assuntos são do "antes", de um passado recente. Aos poucos, não é apenas o "novo" que vai aparecendo, como o movimento hippie, as seitas religiosas (aquele episódio que o Paul Kinsey versão Hare Krishna aparece tentando vender o script de um episódio de Star Trek é um dos meus favoritos), o rock, os movimentos civis... Mas também outras coisas vão se tornando obsoletas. "-A Segunda Guerra Mundial foi há muito tempo, Sterling." O Japão deixa de ser inimigo e se torna um cliente. Não é só a estética que muda, as relações se transformam.

Ao longo do tempo/ temporadas, também o segredo de Don Draper vai se tornando pouco importante: se foi o pivô para a separação de Don e Betty Draper, ele é depois revelado para um affair e, como saberemos depois por uma fala mais do que breve e superficial, a Megan casou-se com Don sabendo de tudo. A troca de identidade do personagem principal, que a princípio tão bem o definia, aos poucos vai se materializando no que Cooper já havia previsto: "who cares?". Tá aí... No one cares.

Nos episódios finais, aqueles veteranos de guerra, velhos, bêbados, excitados por uma stripper vestida num maiôzinho com as cores e estrelas da bandeira norte-americana, mostra que esta cultura bélica - apesar de nunca ter cessado enquanto política de estado - tornou-se no sentimento coletivo obsoleta e decadente. Os veteranos de guerra, que lutaram contra Hitler, japoneses e coreanos, deixam de ser heróis para serem velhos gágá.

No primeiro episódio, ninguém fala (ninguém DEVE falar) o que sente. Fala-se o que é conveniente. A paleta de cores amarronzada e bege, o terno e gravata, os vestidos de saia bufantes, penteados perfeitos, conversas protegidas pelas paredes do escritório, da sala e da cozinha domésticas, vão cedendo espaço para para cabelos despenteados, nudez, uma moda mal vestida, suja, e práticas de yoja e tai chi chuan em espaços abertos, ensolarados, de contemplação a natureza, e uma hipervalorização dos sentimentos expostos no último episódio.

É por isso que a Betty é a tragédia personificada. Ela foi criada para ser a mulher perfeita daquele início da década. Enquanto o Don-camelão vai se adaptando ao ambiente, a Betty ficou fora de contexto. Não há mais espaço para as donas de casa versão Betty Draper. Mesmo sua ex-vizinha, Francine, que assim como ela era a perfeita-esposa-e-mãe-do-subúrbio, começa a trabalhar meio período. Mas e a Betty? O tempo passou e ela se descontextualizou.

No primeiro episódio, Don Draper questiona ao garçon negro que lhe serve qual marca de cigarro fuma e o porquê. Quem é esse homem americano que consome e por que consome? Como vender a ideia, a promessa, para estes homens e mulheres dos Estados Unidos da América? Como se comportam no mercado? Compreender este universo, problemas, dúvidas e trazer as respostas através dos produtos cujas marcas de venda devem crescer, faz parte da trajetória de Don e da agência.

Mas chegamos ao fim da década de 60 e esse homem já chegou na lua junto com Neil Armstrong. O próprio Don, para escrever um discurso sobre a Sterling Cooper, passa a questionar: quais os próximos passos? Considerando nosso caminho até agora, para onde iremos? O que queremos para a próxima década? Quais são nossos sonhos? Quão alto queremos chegar? Até onde podemos ir? Os produtos anunciados, as campanhas, já estão em todos os lares americanos. Don Draper e sua equipe, de dentro do escritório, sob a espessa neblina de cigarros, álcool, sexo, preconceito, deboche, conseguiram já entrar em todo o espaço doméstico, nos hábitos mais individuais e rotineiros dos cidadãos americanos.

Agora, no entanto, a estética é hippie e colorida. A mensagem não é de guerra ou bomba atômica, é de paz, liberdade, comunidade. É a busca pela conexão com a natureza e práticas religiosas e de filosofia orientais. Se no primeiro episódio, primórdios de 1960, o interesse era no homem americano e seu cigarro, nos fins de 1969 é a coca-cola, o símbolo capitalista americano, que estará não apenas em todas as casas, cozinhas, mesas de comunhão do Burger Chef (e que será - no futuro - um dos grandes responsáveis pela epidemia de obesidade ds EUA e outros países) mas nas mãos de todas as culturas, etnias e povos do mundo inteiro.


Em contraste com a foto protagonizada pela Betty para a campanha da coca-cola da temporada 1, onde, numa cena bucólica de pique-nique, oferece duas garrafas de coca-cola para o esposo, dois filhos e um cachorro, no fim da sétima temporada a coca-cola (o American-way of life) não está só nos hábitos e costume da família americana, mas nas mãos de todo o mundo. Se chegamos à Lua, porque não nas casas de todas as famílias de todo o mundo sob a mensagem de paz, união e liberdade? O último episódio faz um círculo perfeito com a primeira temporada e é como se toda a série fosse para mostrar como o destino de Don Draper era fazer uma propaganda perfeita para a Coca-Cola.


Finalmente, um personagem que me tocou desta vez profundamente, foi a Margareth. Recentemente li "Pastoral Americana", Philip Roth, e as semelhanças entre Merry Levov e Margareth são tocantes: a filha-única-princesa-perfeita, criada com tudo a sua disposição, em casas "perfeitas", pais dedicados e amorosos (e Roth descreve maravilhosamente bem como tudo isso parece ser perfeito, mas em sua essência não é) que um dia rebela-se, larga tudo, joga na cara de seus próprios pais a miséria de suas vidas e procura na pobreza e na margem da sociedade possibilidades de autorealização.

De fato, Mad Men é minha série dramática favorita. Um dia, gostaria de revê-la pela terceira vez e, desta vez, absorver melhor as referências do cinema norte-americano da década de 60.