sábado, 11 de setembro de 2021

Memórias, Patti Smith, Just Kids, Nova York e o 11 de Setembro - reflexões jogadas que dizem tudo e ao mesmo tempo nada

Na Broadway, altura 116, acontece às quintas e domingos uma feira de produtores. Tínhamos ido comprar uns leguminhos para o almoço e vimos uma barraca vendendo second-hand books. Na hora, os olhos do Allan vibraram. Eu sou um pouco resistente à ideia de comprar livros físicos. Nossa vida de mudanças e a situação intermediária de estar neste apartamento por no máximo dois anos me desanima a comprar algo que terá um peso daqui um tempo. Mas o Allan sempre me lembra que precisamos - também - viver o momento e ele se animou em marcar este início de nossa vida em Nova York com novos livros, comprados na Farmer's Market de Columbia. 

Havia uma boa seleção de titulos e quando vi Just Kids, Patti Smith, não pensei duas vezes. Que melhor leitura para marcar minha recente mudança para Nova York do que as memórias da poeta e cantora que começou sua carreira artística aqui - em Nova York? 



Memórias é um gênero interessante porque ele permite uma flexibilidade que outros gêneros englobados pelo guarda-chuva "escrita de si" não tem. Ao contrário de (auto)biografias, memórias tem um compromisso menor com a "verdade", ou com a "história". É um gênero mais flexível que permite ao narrador recortar o período e o tema que quiser de sua vida e contar, assumidamente, que aquele é seu ponto de vista e é dessa maneira que ele se lembra. 

É assim que Patti Smith nos conta sobre seus anos vivendo em Nova York e o início da sua carreira artística. Corajosamente, ela sai da casa dos pais com o mínimo de recursos possíveis e vai para a Big Apple. Passa fome, dorme nos parques, mas aos poucos vai conseguindo se instalar, arranja empregos que permite o mínimo de sustento e encontra Robert Maplethorpe. 

Just Kids é sobre Patti e Robert em Nova York. Não é sobre si que ela escreve, é sobre eles na cidade onde se conheceram e viveram. Depois de brevemente falar sobre sua infância, o livro começa com o encontro dos dois e termina quando Patti se casa, muda para Detroit e Robert, que permanece em Nova York, morre. Por isso, por mais flexível que o gênero memórias possa ser, é limitante pensar que Just Kids é só isso. É também uma homenagem a Robert. 




Uma homenagem póstuma belíssima. Patti fala sobre Robert com carinho e uma humanidade gigantesca, sem cair em pedantismo. Temas como sexualidade, drogas, BDSM e arte são tocados com naturalidade. Sem julgamentos e sem juízos de valores. Patti nos fala de fome e prostituição com muita leveza e, assim, viramos as páginas, uma atrás da outra, como se estivéssemos andando pelos blocks de Nova York... Um atrás do outro, vendo o tempo passar e as mudanças acontecerem com muita tranquilidade. 

A Nova York de 1970 de Patti é incrível. Eu adorei como ela coloca a cidade quase como um outro personagem. A gente até poderia lamentar as mudanças de lá para cá, mas ela não coloca estes lugares de forma nostálgica. Patti, em nenhum momento, narra de forma idealizada sua juventude com Robert. Ela simplesmente narra. De forma poética. Simples. E essa simplicidade não dá espaço para nostalgia, tampouco idealização. É apenas homenagem e poesia. 

Eu queria ter ido visitar alguns dos locais que ela menciona no livro. Muitos foram transformados em grandes lojas de rede ou em prédios espelhados, mas mesmo assim eu queria ir. Não foi possível, porque estamos aqui em casa nos recuperando de Covid e decidimos não fazer passeios muitos grandes. Mas, durante a atividade física pela manhã, fiquei refletindo um pouco sobre o que significa estar fisicamente em Nova York neste 11 de Setembro e ter lido este último livro. 

Como pode tanta coisa acontecer ao mesmo tempo numa cidade? Como pode tantas linhas temporais num mesmo lugar? Patti chega em Nova York em 1967, se instala no Brooklyn, depois muda-se para Manhattan, onde vive até 1979. As Torres Gêmeas foram inauguradas em 1973, o que significa que durante sua construção e seus primeiros anos de vida, Patti e Robert estavam andando ali pertinho, por Greenwich Village. Em 2001, as Torres Gêmeas são atacadas. Eu era criança e, lá da periferia do ABC Paulista, eu entendi nada do que estava acontecendo e passando nos jornais. Fui entender apenas em 2018, quando vim para Nova York pela primeira e visitei o 9/11 Memorial. 

Só andando ali nas ruas do Financial District e vendo a profundidade e extensão de onde estavam os prédios e a movimentação das pessoas, deu para sentir o impacto do que aconteceu. Foi aí que compreendi. 

Me desculpem, mas neste texto disse muita coisa dizendo nada. Confusamente, na minha cabeça, parece que tudo tem relação, mas não necessariamente. Compreendo o trauma do 11 de Setembro e estar aqui, nesta cidade neste momento, faz eu compartilhar a dor da ferida que ficou em Nova York. Talvez, minha homenagem tenha sido esta leitura. Meio que sem querer, ler Just Kids foi um pouco além de ler sobre Patti e Robert, foi também ler sobre suas vidas em Nova York e sentir um pouco as transformações históricas dessa cidade que, em tão pouco tempo, é capaz de mudar tanto. 


9/11 Memorial. Fevereiro de 2018. 


9/11 Memorial. Novembro de 2019


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