Minha mudança de país e a materialidade do lar

Há muito tempo eu não tenho tempo para sentar e me dedicar ao blog. Já mencionei aqui como tempo tem sido absolutamente nada óbvio para mim. Eu sempre penso naquele texto do Hobsbawn sobre a mudança social e cultural da percepção de tempo com a Revolução Industrial e fico imaginando que eu também estou vivendo um momento de mudança de percepção de tempo: tanto pela mudança do mundo analógico para o digital quanto pela pandemia. 

E cá estou eu novamente para me justificar porque não consegui engatar nenhuma leitura nas últimas semanas. Depois de ter lido e escrito sobre "Casei com um Comunista", eu mesma vim parar na terra onde Philip Roth nasceu e escreveu seus livros. Mudei-me para os Estados Unidos. Pelo menos pelos próximos dois anos. 

Uma mudança de país envolve muito trabalho. Físico e emocional. Passei por muitas fases: melancolia, tristeza, empolgação, felicidade e, agora, paz. Esta viagem foi adiada por um ano por causa da pandemia. Durante todo o tempo em que fiquei sentada na sala de espera pandêmica eu li. Li muito e escrevi. A prova disso é o arquivo deste blog, que foi muito bem preenchido no ano passado. Só  que na virada de 2020-21 acabou a espera. Eu tive que me mexer para concretizar essa mudança. 

Depois que voltei do Chile, foram mais ou menos 50 dias em São Paulo vendendo e me desfazendo de tudo o que eu tinha no meu apartamento. Depois de anos construindo uma casa, em pouco mais de um mês toda a materialidade dela se apagou. O que não sumiu no ar, coube em quatro malas. A fragilidade da vida concreta é assustadora. Nos apegamos fortemente ao apalpável, mas ao primeiro sinal de mudança, é a primeira coisa que se esvai. 

Por um momento, eu lamentei bastante isso. Chorei nos meus paninhos de pratos que fui ganhando como presentinhos nos últimos 7/8 anos. São as mulheres da família que ajudam a gente a construir o lar: conjunto de panelas, batedeira, toalhas de mesa, de banho, lençol... Tudo foram presentes de mãe, tia, vó ou amigas queridas. Lembro um Natal, abri um embrulho lindo de presente da minha tia. Na hora, vi dois panos de pratos todo decorados e pensei "puxa! um presente para casa e não para mim". Depois olhei de novo e vi um envelope com notas generosas. Percebi como isso foi lindo. Um presente para mim, Giovana, e para minha casa, que também sou eu. 

A partir de um momento, nosso lar torna-se nós mesmas. Mas essa conexão só acontece na figura feminina. Depois que casei e o ambiente doméstico tornou-se meu, foi acontecendo uma troca. Não era mais a casa dos meus pais, tampouco a pensão de estudantes onde vivi por muitos anos. Na minha casa, eu fui me tornando cada vez mais o lar e o lar foi se tornando cada vez mais eu. Isso não acontece na figura masculina. A casa de um homem solteiro é "a casa de um homem solteiro". No Natal, ele não vai ganhar panos de prato junto com o perfume ou o sapato, porque não tem essa troca de identidade. 

Esse apelo tem o risco de nos tornar muito materialistas e o lado virginiano da minha personalidade grita. Tenta fincar as raízes com muita força na terra e usa como adubo essa ligação material da nossa história e identidade.

Só que eu tenho um lado ariano e impulsivo que mora comigo. Também tenho um pouco de ar no mapa astral. Minhas raízes são fortes, mas não no lado material. Lar é onde nosso coração está, não é assim que se fala? É onde a gente faz um arroz com feijão, dá risada, chora, assiste um filme e resolve os problemas da vida. 

Por isso que, se no começo eu queria trazer absolutamente tudo - dos meus panos de prato até minha bicicleta -, no final acabei vindo apenas com uma mala grande e uma média. 

Durante esses 50 dias de transição, eu comecei a ler "A insustentável leveza do ser" e me tocou como Kundera fala do exílio de seus personagens. Não estou vivendo o exílio de Kundera, tampouco o de Primo Levi. Mas estou longe de casa e também vivo uma espécie de exílio. Primeiro no Chile e agora nos Estados Unidos. 

Mudei-me para Nova York. Isso tem um significado especial. Assim como existem vários Brasis, existem vários Estados Unidos. (Ficou até curiosa essa frase, né? Mostrou a obviedade e redundância - afinal são vários Estados que estão Unidos) 

Nova York sempre esteve nas minhas leituras:  J.D. Salinger, Philip Roth, Fitzgerald, Donna Tartt... Para citar alguns entre os autores mais recentes. Sem falar na cultura midiática de filmes e série. Talvez por isso eu esteja me sentindo tão a vontade aqui. Depois de mais de um ano vivendo na situação "estou para me mudar", finalmente cheguei e pude me instalar. Por isso estou me sentindo "em casa". Não existe mais a fase transitória. (pelo menos pelos próximos dois anos! rs) 

Estou há minutos andando da Universidade de Columbia e a quantidade de estrangeiros é enorme. Ouço nas ruas as mais diversas línguas e, pela cidade, espanhol se impõe quase como segunda língua oficial. Eu não me sinto de fora. Eu me sinto parte de toda essa diversidade. De toda essa "estrangeiridade". 

Foi um ano de planos sendo adiados e colocados em espera. Um ano onde a única certeza era a pandemia. Chegando aqui, fomos vacinados no segundo dia e a sensação é de que estamos muito mais próximos da normalidade do que nunca estivemos desde aquele fatídico março de 2020. Pela primeira vez desde muito tempo, estou com uma grande tranquilidade no coração e, por isso, a vontade de voltar à literatura. 

Vou começar pelo livro que não consegui acabar em São Paulo e, por isso, foi o único livro físico que trouxe no meio das roupas em uma das malas: "A insustentável leveza do ser". O que não deixa de ser irônico, pois, ao contrário de Sabina, o que estava insustentável para mim era viver o peso da transição que não acabava. O peso de estar "prestes a se mudar", o peso do medo de não se conseguir. Mas depois de toda tempestade, vem a calmaria e só me resta a aproveitar e curtir como eu puder. 

Abaixo umas fotos do verde do verão de Morningside Heights. 









Morningside Heights. Manhattan, NYC. Verão. Julho 2021. 

Opinião sobre "Casei com um Comunista": minha primeira frustração com Roth

Depois de quatro meses morando no Chile, estou de volta ao Brasil e à minha casa. Daqui do meu sofá, da minha sala, com minha televisão, mesa de jantar, cadeiras, almofadas e decoração escolhidas e montadas por mim, escrevo e publico neste blog meu primeiro texto escrito em terras tupiniquins sobre uma obra que li inteiramente no Chile.

Eu comentei em publicações anteriores a minha dificuldade em comprometer-me com leitura e escrita por causa das atribulações que estavam ocupando todo o tempo e espaço da minha vida. Por isso, escolhi um autor que eu sabia que seria muito envolvente. A primeira vez que li Philip Roth foi em 2019, "A marca humana".  O livro me sugou. Eu me senti completamente imersa. Gostei tanto, que logo depois li "Pastoral Americana", que também achei fenomenal. Consequentemente, Philip Roth está entre meus autores favoritos e faz parte daquela pequena lista de autores que eu gostaria de ler pelo menos uma vez ao ano. 

Ano passado, li "O Complexo de Portnoy" e "Homem Comum". Apesar de ter gostado muito mais do primeiro, o segundo também é muito bom! Desta vez, li o que faltava para completar a trilogia americana de Philip Roth: "Casei com um Comunista". Assim como "A marca humana" e "Pastoral Americana", é Nathan Zuckerman quem nos narra a história que, por sua vez, lhe é contada por Murray Ringold, irmão do nosso personagem principal: Ira Ringold. 


Durante a leitura, estava achando tudo excelente. Diria que até 2/3 do livro minha avaliação era 100% positiva. Eu gostei de como o autor trouxe em discussão alguns temas como o valor social da arte, o ambiente político estadunidense pós-Segunda Guerra Mundial, o sentimento de deslocamento do judeu na sociedade norte-americana e identidade. 

Estes últimos dois temas já centrais em "O complexo de Portnoy": o judeu americano raivoso, que não viveu o Holocausto, que não encontra seu lugar no seu país de nascimento e não compartilha desse "histórico" e identidade judaica é o próprio Alexander Portnoy. A diferença é que este reclama, grita, esperneia com seu psiquiatra e despeja toda a raiva e frustração num prisma sexual e freudiano. Ira, por outro lado, direciona sua insatisfação e deslocamento no mundo no aspecto ideológico e resistência política. 

A identidade e a ideologia se misturam em Ira: um personagem que não consegue ser ele mesmo porque está em função do partido/ ideologia, mas também não consegue ser o comunista ideal, pois sua personalidade o impede. Isso tudo contado, é claro, pelas memórias de seu irmão e do próprio Nathan, que o conheceu e o admirava quando entrava em sua adolêscencia. 

São várias camadas até chegar em Ira: Ira conta ao seu irmão Murray o que lhe passou, Murray conta para Nathan décadas depois e Nathan escreve para nós, juntando às memórias de Murray as suas próprias lembranças de menino. Dois idosos desiludidos, à margem, sozinhos no mundo, um com 90 anos e outro na casa dos 60 que vive recluso numa cabana, contando causos que aconteceram 40 e 50 anos antes sobre um outro homem. Muito suspeito, não?

Sob os olhos destes dois narradores, a história de Ira se funde à própria histórica política e cultural nos EUA na medida em que fala muito sobre os primórdios do rádio e da indústria de entretenimento, mencionando Broadway e o cinema mudo. A publicação de "Casei com um comunista", livro autobiográfico escrito pela personagem de Eve Frame, esposa de Ira e que intitula o livro que nós estamos lendo, é a representação do rompimento da fronteira entre público e privado e entre entretenimento e política na cultura norte-americana. É só um prenúncio de escândalos reais, como Bill Clinton e Monica Lewinsky, por exemplo. 

Uma pulga atrás da orelha, no entanto, ficou me incomodando. Esse papo infinito de seis noites regado a martini entre dois homens, fofocando sobre a vida dos outros e que, no fim, se resume a um julgamento de defesa de um outro homem que, apesar de impulsivo, adúltero, violento, assassino, etc, era uma boa pessoa, tinha bons princípios, era guiado pela vontade de fazer o bem e que foi "usado" pela ideologia comunista e sua ex-esposa, Eve Frame. Uma vítima. Coitado.

Eve é narrada por estes homens como a mulher louca, histérica, infeliz e frustrada como mãe, artista fracassada em fim de carreira, interesseira, manipulável, envergonhada de sua identidade judaica, cínica e - adivinha - injusta com o próprio coitado do Ira, cuja vida teria sido destruída não pelas suas próprias atitudes irresponsáveis ao longo de toda sua vida, mas pela publicação do livro escrito por Eve, "Casei com um comunista". 

Esse desconforto ficou comigo e, quando fui procurar textos e reviews sobre esta obra pude ver melhor o contexto de publicação. "Casei com um comunista" foi escrito e publicado como uma resposta ao livro "Leaving a Doll's House", de Claire Bloom, que foi ninguém mais ninguém menos que a ex-esposa de Philip Roth e cujas semelhanças com Eve Frame são gritantes. Não acredito em separar o autor da obra, mas também não espero ler na ficção um homem sexagenário ressentido de sua ex-esposa. Confesso que fiquei um pouco decepcionada. 

De todos os livros que li de Philip Roth este foi fraco e o que menos me agradou, apesar de tocar em assuntos que tanto me interessam: judaísmo, identidade, cultura norte-americana e comunismo. Existe uma ironia neste ponto de inflexão entre a minha relação com Philip Roth e a de Nathan com Ira. Em sua adolescência, Ira vê em Nathan um pupilo e este enxerga Ira com grande admiração, seguindo-o e idealizando-o. Aos poucos, no entanto, conforme vai crescendo e seu mundo se expandindo, Nathan começa achar Ira enfadonho, repetitivo e passa a se afastar. Chega a se questionar "como Eve pode aguentar Ira e seu discurso inflamado todos os dias, todas as horas, dentro de sua própria casa?". Pois bem, fiquei assim um pouco com Roth em "Casei com um comunista" - me desiludi. 

Terminei a leitura com a impressão de que Murray era um cunhado intrometido e chato, Ira um homem violento, impulsivo, adúltero e culpado de muita coisa. Mas Ira tinha quem o defendia - seu irmão, que direcionou toda a responsabilidade das frustrações e infelicidades de seu irmão para a cunhada, esposa de Ira, Eve. Quase uma novela mexicana.

_____________________________

Alguns textos interessantes:

https://www.theguardian.com/books/1998/oct/03/fiction.philiproth

https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/98/10/11/reviews/981011.11kellyt.html

https://livroecafe.com/2020/03/26/casei-com-um-comunista-de-philip-roth-fissuras-no-sonho-americano/

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs10019912.htm

https://www.lrb.co.uk/the-paper/v21/n03/alexander-star/what-the-hell-happened

09 de maio, o Dia da Vitória: homenagem às mulheres de "A Guerra não tem rosto de mulher"

Tenho uma pequena lista mental de alguns nomes de autores cujo trabalho eu gostaria de ler pelo menos uma vez ao ano. Svetlana Aleksietich é um desses nomes. Em 2019, li "Vozes de Tchernobil". Ano passado, devorei "O fim do homem soviético" e, neste ano de 2021, foi a vez de "A Guerra não tem rosto de mulher". 

Seu trabalho de história oral, coleta e transcrição de testemunhos, que fica no meio termo entre literatura e história, me fascina. Como historiadora, que passou anos em salas de arquivo lendo correspondência pessoal do século 20, acho que os relatos de si puxados de memória podem falar muito mais sobre os tempos passado e presente do que alguns documentos oficiais.

O trabalho de transcrição e curadoria de Svetlana é primoroso. Ela sabe fazer os cortes corretos para cada depoimento não ser longo demais e tornar a leitura cansativa, mas suficientemente comprida para prender nossa atenção. Ela conta uma grande história a partir de tantas outras pequenas histórias. Nós vamos, com a leitura, amarrando os pontos, imaginando o cenário e a linha do tempo. A intervenção da Svetlana é precisa: suficiente para não alterar as histórias individuais ao mesmo tempo que mantêm uma coerência entre si. É como se a autora pegasse as estrelas espalhadas e formasse a constelação. 

Dito tudo isso, fica claro o quanto eu gostei do livro. Apesar de indigesto, doloroso e triste, a leitura é fluída. É fácil o trabalho de leitura, difícil é encarar tudo aquilo como real. Como verdade. 

Eu gostei mais dos outros dois livros. Talvez porque os outros dois me trouxeram uma dimensão completamente nova de como esses traumas coletivos influenciaram na vida particular de cada indivíduo. Não tinha noção de como a maior parte da populaçao que sofreu com a explosão dos reatores eram camponeses - além de não terem compreensão do que significava radiotividade, eles tinham uma relação com a terra que nós não compreendemos. Expulsá-los de lá para garantir suas vidas era, praticamente, matá-los. 

Já "O Fim do Homem Soviético" tem uma linha temporal muito maior. Percorre quase todo o século XX e escancara o embate entre gerações que construíram a União Soviética, aqueles que desejaram uma nova ordem e os que já nasceram na Rússia. Os depoimentos vão revelando como avós, pais e filhos não se entendem, porque, apesar de compartilharem o mesmo lugar, seus tempos são completamente diferentes. E, no tempo de cada um, não existe espaço para o outro. Revela-se como o fim da URSS significou também silenciar uma história coletiva e individual. Talvez este tenha sido o meu favorito. 

"A guerra não tem rosto de mulher" é mais limitado no tempo. Reune depoimentos de mulheres ex-combatentes do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial. Da invasão da Alemanha na URSS, em 1941, até o Dia da Vitória, em 9 de maio de 1945. No primeiro depoimento, já me veio à memória "A Trégua", de Primo Levi. Desde o momento da libertação do campo de concentração e durante todo o seu percurso sobre os trilhos de trem pela Europa em ruínas, Levi fala sobre as mulheres entre os soldados vermelhos. Fiquei até imaginando se aquela moça que fala sobre a libertação de um dos campos de concentração teria se encontrado com o químico italiano. 

 


Os relatos são memórias do campo de batalha: meninas e mulheres, ainda adolescentes, se voluntariando para ir ao front e disputando seu lugar entre os homens, fazendo "tarefas masculinas". Conhecemos mulheres que atiram e matam, que cavam as trincheiras, que desarmam bombas, que dirigem tanques, que consertam tratores... Mas também temos as lavadeiras, as enfermeiras, as médicas. Essas mulheres dizem que envelheceram uma vida em apenas quatro anos. O coração incha. É difícil imaginar a dificuldade em ser mulher, tanto física quanto emocionalmente, num meio masculino e de morte.

As mulheres passam a usar uniforme masculino: capote, cuecas e botas de numeração muito maior que pés femininos costumam calçar. Não é o exército que se adapta ao corpo feminino, é a mulher que tem que se adaptar às regras e cultura do exército masculino.

Algumas deixam de menstruar. Deixam de ver todo mês aquilo que lhes lembram que são mulheres, que possuem corpo de mulheres. E as que continuam menstruando, morrem. Um dos relatos nos conta sobre a travessia a pé que fizeram sobre um deserto. As mulheres seguindo na frente deixavam um rastro de sangue na areia. E o sangue, ela nos conta, secava na calça, cortando-as e machucando-as. "E os homens fingiam que não viam". Quando chegaram ao destino final, havia um lago e todas entraram para se limpar. Haviam alemães por perto e bombardearam o lago. "A vergonha era pior que o medo de morrer".

Mais para frente, em outro depoimento, a ex-combatente também menciona como o sangue secava na roupa e cortava a pele. Mas desta vez o sangue eram dos mortos e feridos. A vida e a morte se misturam.

Esta é a materialidade da guerra que nos é contada, mas há uma outra dimensão que lemos a partir dos relatos. Elas se voluntariavam para defender algo que acreditavam. Elas iam para o front para defender suas famílias, suas terras. Existia um ideal forte o bastante que lhes faziam não temer a morte. Elas haviam sido educadas sob o regime comunista: uma cultura bélica e idealista. Idealizavam a guerra e sua mortalidade. Na verdade, era como se vivessem antes num mundo de sonhos e, só depois chegando no campo de batalha, acordassem. Apesar disso, nenhuma delas se diz arrependida. Nenhuma.

Sexo. Estupro. Muito pouco. A autora chega a perguntar "E amor? Existia amor nas trincheiras?". Há um ou outro depoimento que menciona a aproximação entre uma combatente e um homem de outra patente. Há mulheres que conheceram seus futuros maridos nas trincheiras. E há a denúncia dos estupros cometidos contra as mulheres alemãs capturadas. Mas estes episódios são mencionados como quem pisa em ovos. Absolutamente nenhuma delas relata ter sofrido violência sexual. Nenhuma. 

Ainda que haja a intervenção da autora, é curioso não ter arrependimento nem estupro no livro. O quanto isso vem das mulheres entrevistadas e o quanto vem da imagem da mulher soviética na guerra que a autora constrói? Falar, transcrever e publicar sobre um estupro no front soviético seria desmoralizar o próprio exército soviético e sua história e cultura bélica. O quanto isso fala do passado e o quanto fala do presente? Mesmo após a mudança do regime comunista para o capitalismo, mesmo após as "aberturas" e denúncias, ainda há muitos silêncios.

E depois da vitória? 

Ficou o vazio. Ficou a decepção de voltar para as casas vazias, pois todos os familiares haviam morrido. Ficou a dor de uma mutilação ou de uma saúde precária aos 20 e poucos anos. Ficou o preconceito de outras mulheres que viam estas que foram lutar como prostitutas. Ficou o medo de ficarem sozinhas e a tristeza de não serem reconhecidas pelos filhos que elas deixaram para trás. Se na guerra a luta é para viver, depois da guerra a luta pela vida continua, mas sob a forma de outras batalhas.

Mas não só isso. Aqueles que chegaram à Europa ocidental, foram enviados à Gulag. Uma vez capturado pelo inimigo, o dever pátrio era se matar. Aqueles que fugiram, foram considerados traidores e também enviados à Gulag. Ficou a decadência e o desarme de minas terrestres por longos anos após declarado o fim da guerra.

Eu li em ordem inversa. A continuação deste livro é "O fim do homem soviético". Entende-se a dor e desamparo dessa geração que lutou pela URSS, venceu Hitler, e viu seus filhos e netos lutando por "liberdade" e, depois, serem escanteado, jogados de lado, humilhados, por terem acreditado e lutado por Stalin. 

Programei para hoje, dia 9 de maio, o Dia da Vitória, a publicação desse post como uma homenagem a estas mulheres. Não posso compreende-las. Não compreendo o que viveram, tampouco o forte ideal que sentiam e as levaram para o front. Só posso ter empatia e ouvidos atentos para uma história que sempre precisa ser narrada e lembrada. Não podemos nunca esquecer as dores do século XX.

Memória individual e coletiva no romance de Kazuo Ishiguro, "O Gigante Enterrado"

Comentei no post anterior como meu hábito de leitura foi meio atrapalhado neste ano. Em 2021 acabei o volume 1 da trilogia de "O Problema dos Três Corpos", li o segundo volume, mas o terceiro desisti depois de já ter completado mais de 60%. Como forma de passar o tempo, li até metade a edição chilena de "Uma breve história do tempo", S. Hawking. Portanto, posso dizer que "O gigante enterrado", de Kazuo Ishiguro, foi a primeira narrativa que eu li inteirinha, de uma vez só. Senti, pela primeira vez, aquele "todo" do começo-meio-fim que um romance nos proporciona. 

Eu comecei a lê-lo porque 1) estava disponível no meu kindle, já que comprei em uma ótima promoção da Amazon ano passado e 2) eu precisava de coisas bonitas. Eu fiquei encantada ano passado com a beleza nostálgica e triste de "Um artista no mundo flutuante" e, além de narrativa leve, linda e triste, a história tocava em assuntos que me são muito caros, como a memória individual e coletiva, a identidade, períodos de conflito histórico e a Segunda Guerra Mundial. 

"O gigante enterrado" foi meu segundo livro do autor japonês e completamente diferente do que eu esperava. Há muita beleza e muita tristeza, como eu já sabia que encontraria, mas não esperava que fosse uma história que se passava na Alta Idade Média no território que hoje conhecemos como Inglaterra. Não esperava ver Arthur, Merlin, dragões e elfos. Foi uma surpresa muito boa. 

Na minha total ignorância sobre romances de cavalaria, quando comecei a ver a apresentação dos personagens, a descrição das paisagens, o início da viagem do casal protagonista, a menção de uma dragoa e outras referências deste universo, fiquei com a impressão de que "O Gigante Enterrado" era uma mistura de "O Hobbit" e  "As Brumas de Avalon". No final, continuo com essa impressão, mas uma mistura com muito mais profundidade. Com uma tristeza e melancolia que nos leva a ficar refletindo e pensando no que tudo o que se passa naquelas páginas querem dizer para além do que está escrito. Ficamos procurando as metáforas e significados que estão nas entrelinhas. 

Assim como em "Um artista no mundo flutuante", a memória tem um protagonismo grande na história de "O gigante entererrado". No primeiro, o protagonista é um homem japonês idoso, cuja participação na Segunda Guerra Mundial tem consequencias diretas nas tratativas de casamento de sua filha mais nova e no futuro das novas gerações de sua família. Seu passado nos é apresentado como uma mistura de suas próprias memórias com o que os outros dizem que aconteceu. 

Com Beatriz e Axl, protagonistas de "O Gigante Enterrado", algo se passa de forma similar. O casal de idosos decide partir em uma jornada atrás de seu filho, do qual não lhes restam muitas lembranças. Não se lembram muito bem de seu rosto, onde ele está examenta e porque partiu. Aliás, todas as lembranças parecem escapar pelos seus dedos e dos demais. Mesmo nas ações e atividades mais cotidianas, as pessoas parecem esquecer com muita facilidade os eventos - recentes ou não - e as pessoas. Mas algo acontece e eles partem para a aldeia do filho. Nesta jornada, vamos conhecendo outros personagens e percebemos que este esquecimento é um problema generalizado. Mas as pessoas estão "vivendo", estão preocupadas em viver o momento, e não percebem - ou não dão muita atenção para isto. Porém, algo falta. É como um mal estar presente e constante, mas inominável. Que ninguém sabe muito dizer o que é e porque.

As observações que seguem revelam um pouco demais sobre a história. Para quem tem interesse em ler o livro um dia e não saber spoilers, não continue a leitura.

Descobrimos mais para frente que este mal coletivo do esquecimento é causado pelo bafo de uma dragoa adormecida, que havia sido enfeitiçada por Merlin. Para amenizar o conflito entre os bretões e saxões, o bafo da dragoa faz os povos estrangeiros esquecerem as atrocidades cometidas pelo exército comandada pelo Rei Arthur. Assim, porque esqueceram, os povos vêm vivendo ao longo do últimos anos "em paz". 

Mas a que custo? Axl e Beatriz não lembravam da guerra, dos massacres, do sangue... Mas também não se lembravam de coisas boas, de como se conheceram, porque se amavam, do rosto de seu filho. A todo momento estão procurando as lembranças boas de seu passado para se sentirem um pouco mais feliz diante de uma velhice tão difícil e dura.

O esquecimento da guerra implica no esquecimento também da vida pessoal. Da intimidade. Esquecem-se mortes e massacre, mas também as boas lembranças da juventude, do amor, do companheirismo. Quando um esquece o passado coletivo, também esquece sobre si. Perde-se um pouco de sua própria identidade. Na medida que Axl e Beatriz seguem a jornada em busca de seu filho e de suas lembranças, eles estão também procurando saber quem eles são e isso implica saber quem eles foram, pelo que eles passaram e o que fizeram.

Eu acho isso muito bonito. Melancólico também. E não posso deixar de pensar como vários livros que li nos últimos anos - aqueles sobre os conflitos de guerra do século XX, trazem exatamente esta mensagem que Kazuo Ishiguro traz em "O Gigante Enterrado". Aliás, como várias outras metáforas que recheiam a narrativa, este gigante é tanto a criatura mística - a dragoa - quanto as lembranças, ou o passado, escondido. 

Não vou listar todos, mas penso imediatamente em Primo Levi e os testemunhos levantados e transcritos por Svetlana Aleksievitch. Os relatos sobre si são também os relatos sobre a guerra, a fuga, a perseguição e o ideal e dor coletivos. Quando Primo Levi fala sobre si, ele fala sobre Holocausto. E quando ele fala do Holocausto, ele fala sobre si. O mesmo com os testemunhos recolhidos por Svetlana. Quando estas pessoas falam sobre si e suas carteirinhas do partido, eles estão falando sobre um tempo e um lugar. 

Por isso é importante sempre lembrar. Sempre falar. E devemos sempre ouvir. Roubar a história é roubar também a identidade das pessoas. Devemos isso a todos que viveram os dolorosos conflitos e às  futuras gerações. Devemos isso para continuar sobrevivendo coletivamente - como humanidade, como civilização. 

Não vou me alongar sobre outro tema, mas quero pelo menos registrá-lo aqui. É muito sensível e lírico como Kazuo Ishiguro coloca o tema da velhice e da morte em sua narrativa. Axl e Beatriz são idosos, ela está doente, e conhecem durante a viagem várias mulheres cujos maridos foram levados por barqueiros a uma ilha e nunca voltaram para buscá-las. Estes casais foram separados porque, segundo o barqueiro, as mulheres e homens não se lembravam porque se amavam. Não compartilhavam uma memória juntos. Em toda sua jornada, Beatriz e Axl querem suas lembranças de volta porque não querem ser separados pelo barqueiro. Eles querem ir juntos para a ilha. Por isso é tão importante eles compartilharem as memórias e não viverem de migalhas de lembranças: porque um dia eles serão postos a prova. Como isso se desenrola é triste, mas bonito. Me fez chorar.

Minha estréia em ficção científica e uma reflexão sobre a passagem do tempo e sensibilidade

O tempo está passando de uma forma muito estranha para mim. Não é rápido, tampouco devagar. É uma constante espera, cheia de imprevisibilidade, que faz o tempo presente ser extremamente vagaroso, enquanto o passado parece ter acontecido num estalar de dedos. 

Quando penso que já estamos entrando na segunda quinzena de Abril, fico com a sensação de que eu não tive tempo de escrever sobre a trilogia "O Problema dos Três Corpos" do autor chinês, Cixin Liu. Eu virei 2020-21 lendo o primeiro volume e, aos trancos e barrancos, passei os meses de Janeiro e Fevereiro lendo os volumes dois e três. 

Mas como eu não pude ter tempo de escrever se meus dias são inertes e contabilizam - assustadoramente - horas excessivas e não-saudáveis de tempo gasto em frente a tela do celular?

Entre Março e Abril, também aos trancos e barrancos, li metade do livro de Stephen Hawking, "Uma breve história do tempo". Entre catálogos de livros de viagem sobre paisagens turísticas chilenas, estava esta obra - em espanhol, claro - disponível na mesinha de cabeceira. Quão irônico é isso? Decidi, voluntariamente, enterrar esta questão. 

Este mês comecei outro livro e percebi hoje, dia 15 de abril, que se eu não escrever sobre "O Problema dos Três Corpos", ele ficará perdido para sempre no tempo e, aos poucos, se esvaindo da minha memória. 

E já que o tempo está sendo tão ingrato comigo, decidi enfrentá-lo e escrever minhas impressões hoje, sem rodeios, mesmo que de maneira breve e incompleta. Não importa o que aconteça e qual seja minha motivação.  Hoje estas linhas saem do plano das ideias para o papel, digo, computador. 

É o problema matemático dos três corpos que intitula o primeiro livro da trilogia de Cixin Liu.
 

 Eu nunca tinha lido ficção científica, apesar de gostar muito do gênero nas telas e meu marido ser um grande leitor. Me interessei pela obra do Cixin Liu porque também nunca tinha lido um autor chinês e neste tempo histórico, é importante se voltar para a China. Como meu olhar não é econômico, geopolítico, ecológico, mas sim cultural, Cixin Liu me pareceu uma boa estreia para a literatura contemporânea chinesa e, de quebra, ficção científica. Por isso o livro me cativou logo nas primeiras páginas: uma parte da narrativa é ambientada nos anos 1960 na Revolução Cultural Chinesa.

Os livros são relacionados e, ao mesmo tempo, independentes entre si. O segundo e terceiro são expansões do que é iniciado no primeiro. Surge o problema, mas a história continua com outros problemas, outros personagens e uma passagem temporal tão grande, cheias de idas e vindas, que ficou confuso - mas não impossível. O mérito da leitura (pelo menos o que mais me interessou) foi a junção dos elementos da astrofísica com as grandes questões metafísicas da humanidade. Estes elementos são bem trabalhados nos dois primeiros volumes, mas se perdem no terceiro e, por isso, este último foi o mais difícil de concluir a leitura. 

O primeiro foi meu favorito. Através de um jogo de realidade virtual, nosso protagonista "entra" num mundo diferente e a partir de personagens e fatos da nossa própria história da ciência, vai descobrindo que lugar é este e quais os "problemas" naturais que devem ser compreendidos e resolvidos. Eram meus capítulos favoritos. O primeiro livro junta questões da astrofísica, história da ciência e história política e cultural da China com suspense de uma maneira muito didática e envolvente. 

No segundo volume, o problema já está colocado e a história pode ser resumida com um "como vamos resolver essa questão e não vamos todos morrer?". O problema do problema é de que qualquer solução não pode ser falada, tampouco demonstrada. Ela não pode ser comunicada sob nenhum pretexto. Por isso, esta empreitada fica nas mãos de meia dúzia de pessoas, sendo uma delas nosso protagonista. Acompanhá-lo nessa trajetória também é muito interessante. 

No terceiro, tudo se perde. Percorremos um espaço temporal e galático gigantesco, que resulta num descolamento da ficção com o que é palpável, concreto. Tudo se torna imensamente abstrato e, por isso, fora de contexto da nossa realidade, ao menos do que nos é tangível. Eu não conseguia mais ver sentido no que estava lendo. Por que ficar lendo sobre explosões do sol, planetas a milhões de Unidades Astronômicas de distância da terra e cérebros descolados de seus respectivos corpos que ficam vagando pelo espaço que se passam daqui 600-800 anos, sendo que nossa preocupação atual é sobreviver dia a dia e chegar no mês que vem? Infelizmente, é o maior volume de todos. 

Não estamos vivendo um momento fácil e a imprevisibilidade me consome. Lidar diariamente com a ansiedade, aprender a não me cobrar demais e, ao mesmo tempo, não me abandonar e aprender a me cobrar um pouquinho, tem sido muito difícil. Por isso a leitura lenta e a demora em doar este tempo para a escrita. Estou sentada o dia inteiro em casa e extreamamente cansada. Parece que o jeito é aprender a lidar com isso. Assim como aprender a lidar com esta nova forma de passagem do tempo. 

A passagem do tempo, além da dimensão física e natural, é uma percepção. De 1990 até março de 2020, eu aprendi a ter uma percepção temporal. A pandemia fez surgir novas relações e dinâmicas do indivíduo e da sociedade com o tempo, portanto, uma nova sensibilidade de passagem temporal que ainda estamos tentando conhecer. Por isso, a ficção científica de Cixin Liu, ou Stephen Hawking e seu livro de divulgação científica sobre o tempo, me parecem ser um pouco incompletos. Por mais interessantes que sejam, as leituras me deixaram com a sensação de que faltava algo. Com certeza isso diz mais sobre mim e minha experiência de tempo/espaço de leitura do que sobre as obras em si.