Ellie e os espelhos: o duplo na narrativa de Last of Us II

"- Hoje a tarde, vamos jogar Last of Us 2?". 

Eu não toquei no controle nenhuma vez, mas não teve cinco minutos que o Allan jogou sozinho Last Of Us II nos últimos dias. Eu quis acompanhar tudo, os vídeos, os diálogos, todos os bilhetinhos coletados durante o jogo. "- Faz mais scavage, Allan.", "- Dá para entrar ali!", "- Você já entrou aqui?". Pelos últimos dias, mesmo já tendo fechado o jogo, não paramos de falar sobre a Ellie, a Abby, o Lev, os Scars, os Wolves, etc. Foram 25 horas de jogo. 

A princípio, tive a ideia de escrever as minhas impressões do jogo no blog, mas não seria esta uma plataforma dedicada às minhas leituras? Pensei bem e, para mim, um livro sempre é uma experiência: você ama, odeia, as vezes é chato e massante, ou passa rápido, a gente chora e ri. Tudo porque a narrativa está lá para te causar este enorme rebuliço. Pois bem, videogames no séculos XXI não são mais aquela coisa de passar de fase e enfrentar chefão. Não é acompanhar o Mário andando de ponto em ponto em mapa. Last of Us II é, além dos confrontos e jogabilidade, estória/ narrativa. Por isso que 25 horas ao lado do Allan, vendo ele jogar, se passaram num estalar de dedos e eu me senti tão envolvida quanto ele. 

O primeiro jogo da franquia foi lançado em 2013 e já havia sido um sucesso. Eu acompanhei também - mas de longe - o Allan jogar. O mundo de Last of Us se passa no futuro, em 2033, 20 anos após o surto de uma infecção fúngica não controlada que causa o colapso das instituições e da sociedade tal como a conhecemos. Num tempo e lugar onde a lei é salve-se quem puder, Joel tem a função de levar Ellie, de 14 anos e que é imune à infecção, para o grupo paramilitar Fireflies produzir uma vacina. 

Ao longo do jogo, você vai vendo Joel "adotar" Ellie como filha e uma relação de carinho e cumplicidade nascer entre eles. No final, Joel descobre que para a produção da vacina, Ellie precisaria ser morta. Inconsciente, na mesa de operação, Ellie é resgatada por Joel, que mata o médico e todos os fireflies que estão no hospital. Ele diz à menina que há outros imunes e por isso não precisam mais dela. Eles fogem e passam a viver numa comunidade no meio das montanhas de Wyoming.

Foram sete anos de Joel-Ellie-lovers esperando com expectativa pela continuação, até que o jogo chega no meio de uma pandemia (se eu fosse fã de teorias de conspiração, me arriscaria dizer que há uma jogadinha de marketing aí. Que plano chinês de dominar o mundo o que! Foi tudo premeditado pela Naughty Dog e a indústria de videogames, isso sim!). O cenário é o mesmo de 2013: o nosso cenário. Nossas casas, nossas TVs, nossos coffee shops, teatros, consultórios de dentistas, metrôs, escritórios, teatros, hospitais, prédios, escolas, piscinas... Só que abandonados, destruídos, dominados pela grama e infectados. Todo o jogo é você lutando ora contra os infectados, ora contra outros humanos e ora contra a própria natureza que dominou tudo o que foi um dia construído pelo homem.

Em Last of Us II, começamos em Wyoming (onde acabou a primeira parte), numa paisagem de inverno belíssima e Ellie, já mais velha, agora com 19 anos de idade. Ou seja, no ano de 2038, 25 anos após o surto da infecção fúngica (ou o outbreak, como eles falam). Durante uma patrulha comum, Joel e Tommy encontram-se com Abby e seus colegas, que os atacam furiosamente. Ao saber que Joel e Tommy ainda não voltaram e estão sem comunicação, Ellie vai atrás de Joel e se depara com Abby matando-o cruelmente com um taco de golf. Bem no estilo FATALITY! Abby, uma personagem nova, que ninguém nunca tinha visto ou ouvido falar.

A partir daí, o jogo divide-se em duas partes. Primeiro, partimos com Ellie em busca de vingança. Ela e sua namorada, Dina, vão atrás dos Wolves, grupo ao qual integra Abby e seus companheiros. Há alguns momentos de retrospectivas, que mostram Ellie e Joel neste intervalo de anos entre os jogos e que implica, principalmente, na descoberta de Ellie de que Joel havia mentido: não havia outros imunes. Os Fireflies precisavam sim dela para fazer a vacina, mas isso implicava em sua morte e, por isso, Joel a resgatou da mesa de operações.  Em Seattle, cidade-base dos Wolves, vamos descobrindo aos poucos uma guerra entre facções. Wolves e Seraphites (chamados de Scars pelos Wolves) disputam território e integrantes. Os primeiros, de cultura muito mais militarizada e secular, enquanto os segundos se assemelham a uma seita, com rituais e costumes orientados por uma mártir. 

São três dias de Ellie em Seattle caçando Abby e matando todos os outros Wolves que participaram do assassinato de Joel, até que as duas se encontram.

Corta. 

Somos agora Abby, no mesmo dia 1 de Ellie em Seattle. Mesmo tempo, mesmo lugar, mas agora não jogamos mais com o caçador e sim com a caça. Descobrimos quem é Abby, quais as motivações que a levaram a matar Joel, seu passado dentro dos Fireflies e que papel ela teve no encerramento do primeiro jogo, quando Joel resgata Ellie do hospital e da mesa cirúrgica. Nesse ínterim de três dias, duas crianças Scars salvam sua vida, os irmãos Yara e Lev, que também estavam sendo perseguidos pela sua própria comunidade. 

Você passa a ajudá-las, conhecer mais sobre os Seraphites, entra em seu território, passa no meio da guerra entre eles e seus própios, os Wolves, e descobrimos que Lev é uma criança trans. Ele deveria casar-se com uns dos Elders, mas raspa sua cabeça, muda de nome e quer ser um guerreiro, como sua irmã, mas é condenado a morte pelo seu grupo. E aí, como no primeiro jogo, passamos a acompanhar uma aproximação entre a soldada-wolf Abby e o menino-scar Lev. Abby passa a protegê-lo como amigo (filho talvez?) e seu próprio grupo passa a condená-la por ter "mudado de lado". 

Passam-se os três dias e Abby e Ellie se encontram. Agora já conhecemos os dois lados e a compaixão pelas duas é gigantesca. Mas é um jogo, começa o embate físico entre as duas e para quem torcer? Quem tem (mais) razão? #teamAbby ou #teamEllie? Nasce aí um flaXflu bobo no mundo dos gamers.

E aí... Algumas reflexões sobre a narrativa do jogo. 

Durante todo o jogo, o Allan comentava "- todos os espelhos desse jogo são quebrados". 

Bingo. 

Os momentos nos quais Ellie consegue se ver no espelho são muito bem marcados e você consegue interagir com sua imagem: na casa de Joel após sua morte, num flashback dela mais nova, enquanto passeia com Joel em um museu e depois, no final, na casa onde vive com Dina e seu bebê JJ. Você se vê, faz caretas, comentários. Ou evita se olhar.

Dentre as análises que li sobre o jogo, esta foi a que melhor apontou para a questão de Ellie e os espelhos. No rancho em que vivem Ellie, Dina e JJ, você pode fazer Ellie se olhar e interagir com os os espelhos da casa. Depois de Santa Barbara, no mesmo espaço - agora vazio - a personagem te desobedece e não encara mais seu próprio reflexo. Mas o espelho não está quebrado, sua imagem agora está lá, é a decisão de Ellie não encará-la. 


 

Porém, o maior espelho está, na verdade, ao longo da própria narrativa do jogo. É uma narrativa espelhada. Abby é o duplo de Ellie, a doppelganger, seu nemesis. Os primeiros três dias de Ellie em Seattle versus os três dias de Abby, até os nomes Ellie/Abby são parecidos, ambas perdem os pais e essa morte é o que as motiva a buscar vingança, tudo é uma projeção de espelho. Não vou explorar o tema LGBT do jogo, mas existe até uma sutileza com os esteriótipos: Ellie é homossexual e feminina, Abby é heterossexual e musculosa, quase masculinizada. Abby toma para si Lev como seu protegido, como Ellie foi para Joel. É como se na primeira metade do jogo você jogasse um lado do espelho e, na segunda metade, o outro lado. 

Na literatura, o duplo é um tema que muito me fascina. O Retrato de Dorian Gray, O Estranho caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde, Alice no País dos Espelhos, Dois irmãos, O homem duplicado, e até mesmo o Clube da Luta, são apenas alguns poucos exemplos que me vêm imediatamente a mente. (O mundo das telenovelas também amam umas irmãs gêmeas) Não se trata de uma simples duplicação. O duplo funciona como um desdobramento do eu e, portanto, como formação de identidade na medida em que o eu se constrói a partir do outro. Trata-se da tensão do "um" e do "outro" na simultaneidade e no contexto social, para a definição do "um". 

Em alguns sites da internet, pesquisando mais sobre a questão do duplo, vi que a psicanálise se aprofunda bastante nesse tema e sugere que o embate entre estes dedobramentos do eu é bastante tensionado pela morte. Só a morte faz o Eu coincidir consigo mesmo e afirmar de novo a sua unicidade enquanto algo irredutível. Como por exemplo, Dorian Gray ao destruir seu retrato, acaba ele mesmo morrendo. Mesmo sem saber disso, no final da segunda parte do jogo, eu e o Allan especulávamos o desfecho e eu esperava que as duas morressem. A surpresa foi que aconteceu justamente o inverso: Ellie se salvou ao salvar seu duplo.

O jogo é sobre o processo de autoconhecimento da Ellie. Ao descobrir que Joel a resgata, mata a equipe médica, e foge, ela diz "- Era para eu ter morrido, e aí minha vida teria valido a pena". Ela não se vê naquele tempo e lugar: sua saga no primeiro jogo era salvar a humanidade e, agora, qual é? A relação entre ela e Joel está abalada e quando ela decide esforçar-se em perdoá-lo por ter impedido que ela se tornasse uma mártir, ele morre. Sua culpa são várias: sua vida não serviu para a cura, não conseguiu salvar o Joel e suas últimas interações foram frias e tensas. Não houve tempo, tampouco clima, para um adeus.

Os dois combates entre ela e a Abby são, na verdade, combates contra ela mesma. Somente na segunda vez, quando ela está prestes a matar seu duplo - a personificação da culpa que carrega e da obsessão por saber quem é e qual o seu lugar - que ela se encontra e, portanto, deixa Abby ir. Ela precisa primeiro salvar seu duplo e depois quase matá-la para poder se encontrar. Agora sim ela está inteira, ela se vê como inteira. Ela pode até não gostar, como fica claro ao evitar olhar seu reflexo na casa da fazenda onde vivia com Dina, mas é o que é.

O processo de transformação e auto-conhecimento, por mais doloroso e mortal, acabou. Em uma das cenas do embate final, como todas as outras em que Ellie se olha no espelho, agora a protagonista se encara em sua inimiga: Abby e Ellie esgotadas, quase morrendo, cansadas pela jornada que vêm enfrentando e olhando uma para a outra com a paisagem da praia ao fundo. 

 

O flaXflu surge porque, conforme vamos jogando com a antagonista Abby, vamos conhecendo sua história, se solidarizando com ela e passamos a sentir seu sofrimento e seus percalços. Quando Ellie decide ir atrás de Abby novamente, mesmo depois de sua vida ter sido poupada no combate anterior que tiveram e que perdeu, o sentimento é de cansaço. Ficamos "como assim, Ellie? Sério?? Sossega o facho aí, curte a Dina e o JJ". A ironia é que, se não fosse a Ellie, Abby teria morrido nas mãos dos rattlers californianos. E aí que está a chave da história: não se trata de flaXflu, Abby versus Ellie, porque é a Ellie contra ela mesma!

Tudo isso é contado dentro de uma míriade de outros temas, muitíssimos interessantes. A história de Lev e os Scars é muito emocionante também, e eu adorei acompanhar o Allan jogando com a dupla Abby e Lev, onde os opostos se ajudam e lutam um pelo outro. Também como o jogo coloca questões tão caras como homossexualismo e transexualismo de forma orgânica à estória. 

Chegamos num momento em que as narrativas já ultrapassaram os meios tradicionais de contação de história, livros, filmes, etc. Daqui para frente, não é possível mais ignorar a força narrativa das plataformas de videogames pois, elas sim, já têm explorado e muito os recursos tão bem sedimentados da literatura.

Fechando, o jogo é uma experiência narrativa incrível, é um privilégio meu poder acompanhar toda a história com alguém que, além de também ser apaixonado pela narrativa, adora jogar videogame!

Ecologia, sociedade e literatura: os "mortos" de Ana Paula Maia e Olga Tokarczuk

Dentre as leituras que fiz este ano, Enterre seus mortos de Ana Paula Maia, talvez tenha sido a mais grata surpresa. É um livro curtíssimo de apenas 136 páginas e publicado em março de 2018 pela Companhia das Letras. Dificílimo, na minha opinião, de classificar: é um thriller? Suspense? Terror? Drama? Denúncia social? Gostei muito da apresentação da editora: uma habilidosa mescla de novela policial, faroeste de horror e romance filosófico, escrito por uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea.


Eu acrescentaria mais algumas coisas: é um cenário apocalítptico composto por rodovias que cruzam lugares pouco habitados e que parecem ligar o nada a lugar nenhum, que só existem para atender as necessidades de uma pedreira que cumpre muito bem seu papel de explosões e destruição. Uma paisagem estilo Mad Max, marcada pela pouca vegetação, tom amarronzado e alguns poucos animais mortos, ou abutres sobrevoando as carcaças. O trabalho do protagonista, Edgard Wilson, parece um eterno sofrimento típico de um dos círculos do Inferno de Dante: interminavelmente coletar corpos de animais mortos pelas estradas e terrenos que, além de causar problemas sanitários, complicam a circulação de veículos. Quando não são mortos pelos carros e caminhões, seus corpos jogados e imóveis são a causa de novos acidentes. 

O sol, mesmo entre nuvens, deixa enfadados as aves e répteis, que evitam cruzar a estrada quente. O capim amarelento e esmorecido contorna o caminho que segue. Tudo parece morto ou quase morto debaixo do sol. Edgard Wilson apanha no meio da estada um gambá que morreu de olhos arregalados. Suspende-o pelo rabo usando luvas de borracha para se proteger. Joga-o na caçamba da caminhonete e deixa as luvas no chão do veículo.

E o que parece mais do mesmo é quebrado quando Edgar Wilson acha um corpo de uma mulher enforcada, pendurada numa árvore e sendo devorada pelos abutres. A partir disso, um enorme problema burocrático atormenta os próximos passos: a quem compete a responsabilidade por este corpo? É um lugar abandonado pelo poder público e as instituição são ausentes. Os animais, por mais cruel e indigno que possa parecer o fim de seus corpos num triturador que lhes transforma em adubo, ainda tem um fim que não é serem desconfigurados e devorados pelos animais necrófagos. 

Depois desta mulher, Edgard Wilson ainda encontra outro corpo. Como os animais, eles não têm nomes, não são reconhecidos, mas ao contrário dos corpos que são recolhidos e enviados ao triturador, estes corpos-humanos são ignorados. Não há polícia, não há necrotério. E o ato de humanidade que resta é tirá-los de lá, colocá-los num freezer para, AO MENOS, não serem devorados pelos abutres. 

Uma das riquezas da narrativa de Ana Paula Maia é a dificuldade de definir: o quanto disso tudo é realidade e o quanto é ficção? Por mais desconfortável e surreal que pareça ser o trabalho de Edgard Wilson e o cenário "faroeste de horror", tudo é muito palpável, fácil de reconhecer. É tanto um lugar imaginário quanto todos os lugares.

Em 2009 a autora polonesa Olga Tokarczuk (Nobel de literatura em 2018) publicou Sobre os Ossos dos Mortos e somente em novembro do ano passado foi traduzido e publicado no Brasil pela Todavia. No começo do ano, cheguei a esta obra de forma depretensiosa. Muito mais interessada no aspecto social e geopolítico de uma obra polonesa, um lugar tão marcado pelas invasões alemãs e soviéticas do século XX, campos de concentração - um lugar "tão século XX", de extermínio e sofrimento. Para além destas questões, Olga Tokarczuk e Ana Paula Maia tocam em outra que, me parece, ser importantíssimo para nosso futuro como humanidade e que, nem sempre, recebe a seriedade que merecem. Muitas vezes, fica no panfletismo e por isso, assim como eu mesma já fiz muitas vezes, é considerada como um campo "menor": a crise ambiental. (Afinal, diante de guerra, fome, violência, acesso à educação, corrupção, etc, quem liga para poluição e queimadas, não é verdade?)

Em Sobre os Ossos dos Mortos, o tom é um tanto oposto ao de Enterre seus Mortos. Naquele, é presente uma nostalgia bucólica e li por aí sugestões de que se trata de uma reformulação contemporânea do gênero fábula. A floresta, o verde, e a vida - tanto quanto a morte - se mostram muito presentes. Há um choque constante ao longo dos capítulos entre viver e morrer, criar/ nascer e matar. Há melancolia e até certa beleza nos cenários de fim. Na obra de Ana Paula Maia, porém, é só morte retratada de forma cru, escatológica, gore. 

O que os livros trazem em comum, no entanto, é a relação da sociedade e do meio ambiente: como lidamos com nosso entorno, a vida e a morte (tanto dos animais quanto humanas), diante da burocracia estatal, poder público, capitalismo, cultura, ética e moral. Ambos têm a o substantivo "mortos" no título (o Allan até me perguntou: "são dois livros diferentes?" rsrs) e suas tramas começam exatamente quando a morte/assassinato dos "seres humanos" se confundem com as dos "animais". Exatamente quando essa diferença entre seres racionais versus irracionais começa a se desfazer.

O mérito destas autoras está em expor como as relações e experiências individuais com a natureza e animais - a ecologia - é um problema sistêmico, que vai muito além de optar ou não pelo estilo de vida vegano, por exemplo. A heroína de Olga Tokarczuk, Janine Dusheiko é vegetariana, mas Edgard Wilson e seu amigo Tomás, os seres humanos "mais humanos" da história toda, não dispensam a rabada com agrião. A nossa relação com o meio ambiente e, consequentemente, a vida animal está vinculada aos meios de produção, à identidade cultural e às imposições da organização e burocracia social. A quem cabem as responsabilidades sobre a vida animal e humana? A preservação da natureza? A dignidade de um enterro?

Em determinada passagem de Sobre os Ossos dos Mortos, Dusheiko procura ajuda policial para denunciar os caçadores da região, que têm tirado muitas vidas animais de modo irregular - fora da época de caça. Ela é tratada com descrédito e chamada de louca, mas ela diz o quanto o modo que uma sociedade lida com seus animais diz sobre como essa sociedade lida com os próprios seres humanos. Os livros de Olga e Ana Paula Maia trazem essa discussão sobre discurso político, filosófico e ecológico de maneira profunda e rica. Uma oportunidade de trazer esse debate para níveis mais inteligentes e profundos, que não se perdem na superficialidade do veganismo versus carnívoro, plantar uma árvore no Ibirapuera e fazer compostagem no quintal de casa. 

- A senhora sente mais pena dos animais do que das pessoas. 

- Não é verdade. Sinto pena de ambos, de modo igual. Contudo, ninguém atira contra pessoas indefesas - disse ao funcionário da Guarda Municipal naquela esma noite. - Ao menos nos dias de hoje - acrescentei. 

- Sim, é verdade. Somo um estado de direito - o guarda confirmou. Pareceu-me bondoso e pouco sagaz. 

- Os animais mostram a verdade sobre um país - eu disse. - A atitude em relação aos animais. Se as pessoas tratarem os animais com crueldade, não adiantará de nada a democracia ou qualquer outra coisa.

Acho que são leituras importantíssimas: estamos vivendo uma pandemia causada, entre outros motivos, pelo modo errado e doentio que temos tratado a natureza, subjugando-a aos nossos caprichos de consumo exagerado. Além do mais, apesar de tantos problemas sociais que merecem nossa atençao e cuidado, o mundo encontra-se num momento privilegiado para que seja possível também olhar para as questões ecológicas de modo inteligente, sustentável e nada panfletário.

O Apanhador no Campo de Centeio - reflexões sobre crescer e ser phony

Eu nunca tinha ouvido alguém falar diretamente sobre O Apanhador no Campo de Centeio do tipo "Li, achei legal/uma bosta e recomendo/não recomendo". Mas eu já tinha visto várias vezes pequenas citações em variados lugares que agora não sei nomear. Ano passado, a Todavia publicou uma nova edição e aí sim vi bastante coisa publicada sobre a obra. A verdade é que a literatura norte-americana não nos é muito popular. O que chega até nós de forma marjoritária é através de filmes e, The Catcher in the Rye, não tem e nunca terá uma adaptação. 

O livro mexeu bastante comigo. A habilidade e os recursos usados para nos identificar de forma tão intensa com o protagonista/narrador, o adolescente de 16 anos Holden Caulfield, é impressionante. It depressed the helluva me. Considerando O Complexo de Portnoy, esta foi a segunda leitura do tipo monólogo que leio em pouquíssimo tempo. E, de novo, em Nova York. 

O livro estava com uma boa promoção na Book Friday da Amazon e eu decidi ler em inglês. Foi uma experiência que me fez sentir tão sortuda e privilegiada por conseguir ler esta obra no original. O livro é muito "nformal" e por isso fácil. (Tentei já ler "This Side of Paradise", F. Scott Fitzgerald, no original, mas são tantas metáforas que eu não consegui. Talvez mais para frente) Toda hora Holden chama a atenção do leitor, seja com um "Listen", ou "I wish you were there". É um Holden nos contando sobre um fim de semana de sua vida... Nada de extraordinário, emocionante. Simplesmente é como uma entrada em um diário sobre uns dias passados, ou uma longa carta contando algo pessoal para alguém. 

Portanto, não é a ação que mais nos encanta no livro. E sim as reflexões, os incômodos de Holden ao sair da infância e entrar a vida adulta - que é extremamente "phony". Essa palavra apareceu uma vez e logo pensei em "fake". Ok. Continuamos. Mas aí ela aparece over and over and over. Holden faz críticas severas à uma série de personagens e certas atitudes acusando-as de "phony". 

Aos poucos, como brasileira - uma estrangeira lendo esse livro escrito por um americano, sobre a sociedade americana aos olhos de um adolescente americano - fui vendo esse "phony" não apenas como falso, mas como um falso cafona, brega. Quaaaaaaaase como uma "falsiane". E nós brasileiros, que já fomos aos EUA, já conversamos com os norte-americanos, temos a sensação do quanto eles são "falsos" não de uma maneira maldosa, mas sim superficial. O jeito que conversam, se mostram interessados e prestativos, não parece genuíno ou... Sincero. Não estou chamando-os de mentirosos, apenas de não sinceros aos nossos olhos de latinos. Poderíamos talvez dizer que são extremamente individualistas? Talvez. Várias vezes eu e meu marido falamos como quando a gente pede algo e eles respondem "Absolutely" com um sorrisinho parece uma reação forçada. Mas, de novo, não por maldade, mas porque "eles são assim".

Acho que esse "phony" que tanto incomoda Holden é justamente esse tratamento protocolar nas relações sociais da cultura norte-americana marcada por uma falta de genuidade e completamente supercial. Como por exemplo, quando ele vai ao teatro com uma amiga/namorada e ela encontra um conhecido. Ao conversarem, ela pergunta o que ele achou e esse amigo responde que "a peça em si não é uma obra de arte, mas os protagonistas são anjos." E Holden fica IN-DIG-NA-DO. Anjos? Como assim? É fácil entender como este é um comentário sem profundidade, apenas para parecer bonito. E, no final, o que incomoda Holden é justamente esse contínuo esforço do mundo adulto de "se parecer bonito". 

Nem preciso dizer como Holden ficaria imensamente deprimido se visse as redes sociais do mundo pós-digital. É na internet onde conseguimos exacerbar nossa cafonice falsa, brega, travestida de palavras bonitas. Não há lugar no qual conseguimos ser mais phony do que no Twitter, Instagram, Youtube, etc. 

Eu li análises muito legais, muito legais mesmo na internet sobre o livro. Parece que, nos EUA, The Catcher in the Rye é quase uma leitura obrigatória, de tão forte que está no imaginário popular e na cultura pop norte-americana. No entanto, foram dois vídeos que eu achei mais legais e elucidativos do quanto esta é uma obra tão rica e especial. É quase um mini curso em duas partes de mais ou menos 20 minutos. 

Language, Voice, and Holden Caulfield - The Catcher in the Rye Part 1

Holden, JD, and the Red Cap - The Catcher in the Rye Part 2

É um livro que eu adorei ter lido. Tudo é simbólico, tudo significa alguma coisa: o chapéu, o Museu, o carrossel, os patos... Em algums momentos, Holden compartilha uma tristeza tão grande, uma decepção e depressão com o mundo, que é impossível não se sentir como o próprio Holden: sozinho e triste. Quando ele fala sobre seu irmão pela primeira vez, eu chorei. Apesar de o livro ter sido escrito em outro tempo e lugar - EUA na década de 50 -, ele é bastante palpável, muito atual e sensível para a sociedade ocidental e, tantos anos depois, daqui do Brasil, continuamos a nos identificar e ter profunda compaixão com Holden Caulfield e seus problemas em crescer. 

Os dois anos de exílio de Primo Levi: entre Auschwitz e o retorno, entre os alemães e o Exército Vermelho

Um autor que estava há um tempo na minha cabeceira era Primo Levi. Como assim leio toda essas coisas sobre Segunda Guerra Mundial, Holocausto, União Soviética, Exército Vermelho, antissemitismo, identidade, diáspora, etc, e nunca tinha lido Primo Levi? Curioso também que o primeiro livro que eu li na vida - aquele que a gente pede "Mãe, eu quero ler um livro, compra para mim?" - foi "O Diário de Anne Frank" na quarta-série, porque tinha uma chamadinha no livro didático. 

O Allan ficou repetindo - "De novo, Gi, nesse assunto? Lê algo diferente... Você está muito presa nesse século XX." Mas como não ler? Como não conhecer/ ouvir/ tentar compreender algo que para nós é tão incompreensível e tão definitivo da nossa realidade atual? Como não escutar Levi cujo maior medo é não ser ouvido? Tanto em "A trégua" quanto em "É isto um homem?", sua maior vontade é contar para o outro e, seu pesadelo é não ser ouvido. Isso é tão significativo. Parece que o mínimo, o mínimo do mínimo que eu posso fazer diante de tanta mostruosidade é apenas ouvir - ficar sabendo.

Eu comecei do fim para o começo. Primeiro li "A Trégua" pelo simples motivo besta de estar disponível em e-book no kindle e, como me sensibilizou demais, comprei depois "É isto um homem?", da Rocco. No meio termo, li Philip Roth, "O Complexo de Portnoy". Autores judeus, personagens judeus contemporâneos, mas separados por um oceano: os paralelos e as divergências são gritantes e incomodam bastante.

É isto um homem?

O cotidiano, a economia, o trabalho, a sociabilidade e o que "resta" de humanidade no campo de concentração. A des-personalização, des-caracterização do indivíduo. Tira-o de sua casa, sua geografia, lhes usurpam seus bens materiais, nome, dignidade, esperança e lhes privam de alimento e abrigo. A questão é sobreviver. 

O que mais me tocou, porém, é algo que talvez não se fala muito, ou que me passou despercebido até então: a comunicação. Tantas pessoas de origens diferentes, da Europa inteira- como se comunicar? Como se entender? Está aí a questão: a máquina nazista, do holocausto, do extermínio, é feita para a incompreensão. A comunicação é perdida.

"Aqui a confusão das línguas é um elemento constante da nossa maneira de viver; a gente fica no meio de uma perpétua Babel, na qual todos berram ordens e ameaças em línguas nunca antes ouvidas, e ai de quem não entende logo o sentido. Aqui ninguém tem tempo, ninguém tem paciênca, ninguém te dá ouvidos; nós, os recém-chegados, instintivamente nos juntamos nos cantos contra as paredes, como um rebanho de ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas."

Os mecanismos de funcionamento dos campos de extermínio tem sido bastante denunciados ao longo do século XX e, por mais que talvez nunca conseguiremos compreender a totalidade do que foi a realidade para os que viveram a estas condições tão extremas e desumanas, a gente tem uma vaga ideia do terror. Há, porém, dois pontos importantíssimos que Levi traz que, até então, refleti muito pouco: o fim e o depois. 

Como se dá o fim? O fim é um processo, não é de um dia para o outro. Não se dorme prisioneiro e acorda homem livre. Não nas condições que estão Primo Levi e os outros. Existe uma super exposição, especialmente hollywoodiana, da participação dos EUA, da invasão da Normandia e até da Bomba Atômica para o fim da guerra, mas para a percepção daqueles presos sob o regime nazista, o fim veio aos poucos, sob a forma de rumores, quebra das miudezas da rotina super-sistematizada alemã... Veio com o barulho, ao fundo, do Exército Vermelho se aproximando, cujos sons da marcha eram, a cada dia um pouquinho mais, sentidos e ouvidos. 

E, mesmo assim, não foi num exato dia que se deu a chegada do soldado soviético e a dabandada dos alemães. Não. Levi faz um recorte perspicaz no capítulo "História de dez dias": como se deu essa "transição" entre o antes e o depois - entre o domínio alemão e a conquista soviética. Diante da notícia de que os russos chegariam no dia seguinte e a sensação de que os alemães estavam saindo, ficava a dúvida do que viria a seguir. Muitos, sem saber, saíram dos campos para a Marcha da Morte. Levi, como estava doente, ficou e isso o salvou. 

"Todos os sãos (a não ser os poucos que, atendendo a sábios conselhos, no último instante tiraram a roupa e sumiram em algum beliche da enfermaria) partiram na noite do dia 18 de janeiro de 1945. Eram uns 20 mil, procedentes de vários campos. Quase todos desapareceram durante a marcha de evacuação, Alberto entre eles. Talvez um dia alguém escreva a sua história."

O início da marcha significou, para aqueles que ficaram, os "10 dias fora do mundo e do tempo". De 18 a 27 de janeiro (dia da chegada enfim dos russos), Levi escreve dia a dia os limites físicos e psicológicos nos quais viveram aqueles que ficaram a própria sorte, sem alimento, aquecimento, água e doentes. Abandonados.  

A trégua

Quando chegam os russos, uma nova fase, um novo e aparentemente-sem-fim-processo até voltar para casa. Uma nova Odisséia... A do século XX. Marcada pela paisagem da destruição da guerra, da fome, dos isolamentos e do trem. Um artigo muito interessante, chamado Trajetórias e paisagens de exílio na narrativa de Primo Levi, de Anna Basevi, aponta para esta questão. O exílio que marca o povo judeu, o deserto de Moisés e as planícies da Europa Central... O exílio, aponta a autora, não é só geográfico, é também linguístico. A Babel do primeiro livro citado, continua agora nos campos de refugiados, sob os cuidados do Exército Vermelho. 

Os alemães tornam-se raros no relato e aparecem agora os russos soviéticos, de cultura e educação tão diferentes, e que muito me lembram os testemunhos coletados pela Svetlana Aleksiévitch, em "O fim do homem soviético".

"Mas os russos, diferentemente dos alemães, possuem apenas em pequena medida o talento para as distinções e as classificações. Poucos dias depois, estávamos todos de viagem para o Norte, para um destino impreciso, de todas as maneiras, para um novo exílio. Italianos-romenos e italianos-italianos, todos, nos mesmos vagões de carga, todos com o coração apertado, todos em poder da indecifrável burocracia soviética, obscura e gigantesca potência, que não era malévola contra nós, mas desconfiada, insipiante, contraditória, e cega nos efeitos tal uma força da natureza." (grifo meu)

Antes de terminar, eu queria registrar aqui um dos pequenos relatos contados por Levi que me marcou muito. Parados em uma estação em Proskurov, Ucrânia, Levi e seus companheiros ouviam duas moças de Minsk conversando em ídiche, língua que não compreendiam. Não obstante, estimulado pelo forte chá açucarado que havia tomado mais cedo, Levi ensaia uma conversa com elas. Em alemão, ele apresenta a si e seus amigos como judeus e perguntam se elas também são judias. Em seguida elas riem e dizem que se eles não falam ídiche, portanto, não são judeus. Ele tenta explicar que ele é um judeu italiano e que na Itália e em toda a Europa Ocidental os judeus não falam ídiche. 

"Mas então, se éramos judeus, todos os outros também o eram, disse-me, acenando com gesto circular para os oitocentos italianos que abarrotavam a sala. Que diferença havia entre nós e eles? A mesma língua, os mesmos rostos, as mesmas roupas. Não, expliquei-lhes: aqueles eram cristãos, vinham de Gênova, de Nápoles, da Sicília: talvez alguns daqueles tivessem sangue árabe nas veias. Sore [uma das meninas] olhava, perplexa: era uma grande confusão. Em seu país as coisas eram muito mais claras: um judeu é um judeu, e um russo um russo, não havia ambiguidades." (grifo meu)

Se as fronteiras políticas são tênues, também são as fronteiras identitárias. Levi e Sore nos jogam na cara como os critérios identitários são problemáticos, delicados, móveis... São imprecisos. Como é impreciso definir quem é quem, o que e porque é quem, com bases em critérios tão frágeis! Isso me lembra muito Alexander Portnoy, de Philip Roth, suplicando para que o vejam como humano, de forma pura e simplesmente humana - e não como judeu.

Os livros são a narração de seu exílio - começa quando é levado da Itália e acaba no seu retorno. Em "É isto um homem?", Levi é feito prisioneiro em dezembro de 1943 e em 1944 é deportado para Auschwitz. Em Janeiro de 1945 é libertado pelo Exército Vermelho, e aí começa "A Trégua", com toda a trajetória até outubro, quando chega, finalmente, em Turim. São livros doídos de ler. Tristes. Por tantas e tantas vezes, Levi mostra como foi agraciado com momentos de sorte, que possibilitou sua sobrevivência e retorno. 

Eu demorei muito para ler Primo Levi. Todos precisamos ouvi-lo. Todos precisamos saber, não podemos esquecer, nunca. O tempo passa, outras guerras acontecem, outros problemas surgem, mas não pode ser colocado de lado, ou no esquecimento, ou ainda na categoria já-faz-muito-tempo-não-é-mais-tão-importante o genocídio, a violência, a perseguição e esse momento da história que moldou o mundo de hoje, tanto geopoliticamente quanto nas identidades do homem contemporâneo.

Estou presa na década de 60? Partindo de Mad Men, visitamos Alex Portnoy e, por último, um pulinho em Mrs Maisel

Continuando na linha de Mad Med do post anterior, eu queria registrar um pouquinho as minhas impressões de "O Complexo de Portnoy". Eu já tinha lido ano passado "A marca humana" e "Pastoral Americana", livros que eu gostei demais. Deixei Philip Roth um pouco de lado até ver Don Draper lendo "Portnoy's Complaint" durante seu próprio exílio dentro da Roger, Sterling and Associates. 

As questões de identidade, de deslocamento do protagonista frente aos grupos que ele (não)pertence, o que é esperado dele VERSUS o que ele é ou quer ser, são grandes temas já de "A marca humana", publicado em 2000. O fenótipo e o genótipo sob os choques dos costumes, da história e da cultura já haviam aparecido em 1969, data de publicação de "O Complexo de Portnoy". Uma leitura muito difícil porque, como o próprio título original sugere, trata-se de uma gigante reclamação - Portnoy's Complaint. Uma hora eu precisei dar um tempo porque, afinal, ouvir/ler tanta reclamação é um pouco complicado. 

(Aliás, genial esse jogo de palavras do título. Uma pena que se perde um pouco disso na tradução.)

Se tem uma coisa que aproxima talvez os judeus e os brasileiros é a tal autodepreciação. Eu não sabia, mas "se zoar" é um fenômeno comum entre a comunidade judaica. O desabafo de Alex está entre o desespero e a risada. Por exemplo, o pânico que ele sente de ter que contar aos seus pais que estava numa tentativa frustrada de perder a virgindade com uma menina não-judia e, sem querer, espirrou esperma no seu olho: desespero imenso de ficar cego e tornar-se uma decepção para seus pais, tudo porque quis ser chupado por uma shikse.

O sentimento de culpa que persegue Alex é o que torna as situações tragicômicas. Quem mandou ficar patinando no gelo atrás das shikses? Por isso caiu e quebrou a perna, ficará para o resto da vida deficiente e ouvirá para sempre seu pai reclamar e jogar na sua cara seu interesse pelas moças não judias. (Nós brasileiros também somos experts em rir da nossa própria desgraça, só não temos o sentimento de culpa nos intimidando. Pelo contrário, somos bons em culpar sempre os outros pelas nossas próprias mazelas.)

"Dr. Spielvogel, esta é a minha vida, minha única vida, e estou vivendo minha vida no meio de uma piada de judeu! Eu sou o filho de uma piada de judeu - só que não é piada não!" 

Apesar de Alex não conseguir controlar seus impulsos sexuais na intimidade, aos olhos de sua família e comunidade ele é o menino perfeito, o filhinho da mamãe, o melhor aluno da classe. e por isso se formou advogado e assumiu uma importantíssima posição na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York. E seu esforço em tornar-se esse "menino exemplo", tanto pelo sentimento de superioridade moral quanto pelo medo que sua família impunha a ele quando criança, deixa-o inconformado quando descobre, já adulto, que seus colegas de infância também se tornaram homens normais e bem sucedidos, apesar de seus comportamentos nada exemplar.

"Mas não pode ser! Sem sopa de tomate quente no almoço de dias frios? Com aqueles pijamas imundos? Com todos queles preservativos de borracha vermelha cheios de pontas espetadas, que segundo ele enlouqueciam o mulherio lá em Paris? Smolka, que nadava da piscina do Olympic Park, também está vivo? E é professor de Princeton ainda por cima? Em que departamento, letras clássicas ou astrofísica? Ba-ba-lu, você está falando que nem minha mãe. Você certamente quer dizer encanador, ou eletricista. Porque eu me recuso a acreditar! Quer dizer, no fundo do meu kishka, das minhas emoções mais profundas, minhas crenças mais antigas, por trás do eu que compreende perfeitamente que Smolka e Mandel continuam vivos, morando em boas casas e desfrutando das oportunidades profissionais abertas aos homens deste planela, não consigo acreditar que esses dois meninos maus sobreviveram, muito menos que se tornaram homens de classe média bem-sucedido. Ora, eles deviam estar na cadeia - ou na sarjeta. Eles nem faziam o dever de casa, porra!"

Achei ótima essa parte. Quantas vezes nesses últimos cinco meses de pandemia/quarentena a galera não pensou, de forma indignada, como é possível siclano e fulano não terem MORRIDO DE COVID porque não cumprem isolamento, não higienizam suas compras e não se preocupam em lavar as roupas quando chegam em casa? O medo nos prende em casa, nos faz sentir enorme culpa se furarmos a quarentena, e desejamos a morte/doença daqueles que saem - ou que não compartilham o mesmo medo e princípios morais que nós.

Porém, as críticas mais ácidas e degradantes são do Alex para ele mesmo: "Eu vivo numa piada de judeu" e, sob uma ótica freudiana e foucaultiana, seus impulsos sexuais são atos de resistência contra um mundo controlador e de culpa no qual ele não se encaixa. Na superfície, ele faz o que se espera de um menino judeu, mas sob os olhos dos outros não. O exemplo mais alegórico é a punheta que ele bate a caminho de seu bar mitzvah. 

"Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto! Chega!"

E tudo isso é condensado no último capítulo. Se o Alex não se encontra nos EUA, na sua comunidade em Nova York, se encontraria ele em Israel? O lugar onde todo mundo é judeu. O lugar onde os judeus são os WASPs. 

Absolutely not. Uma jovem israelene explica: 

"'Ah, não concordo', repliquei. 'A autodepreciação, afinal de contas, é uma forma clássica de humor judaico'.

'Humor judaico, não! Não! Humor de gueto.'

Um comentário não muito amoroso, não é? Quando o dia raiou, ela já havia me explicado que eu era o representante típico do que havia de mais vergonhoso na 'cultura da diáspora'. Aqueles séculos e mais séculos sem pátria haviam produzido homens desagradáveis como eu - assustados, defensivos, autodepreciativos, emasculados e corrompidos pela vida num mundo de gentios."  

E daí, fui pesquisar. Me intrigava como foi recebido o livro em 1969 pela comunidade judaica. Algumas aproximações com a série Mrs. Maisel eu já tinha reparado: a 'autozuação', a mãe controladora, a culpa na tradição judaica... E eis que descubro que Lenny Bruce, que pagou a fiança de Midge logo nos primeiros episódios, foi de fato um personagem real e, portanto, contemporâneo de Philip Roth. Neste turbilhão que foi os anos 60, a liberdade sexual, emancipação da mulher, civil rights, pós-guerra, os debates em torno da identidade e da linguagem tomaram espaço e o pós-estruturalismo ganha espaço. 

E diante desta nova questão da identidade, quem é esse judeu pós-segunda guerra mundial? Exilado nos EUA, exilado em Israel... Alex não encontra seu lugar, porque parecem ser incompatíveis o que ele é (ou quer ser? ou tenta ser?) com o que é esperado dele - não importa onde esteja. E por isso o sentimento de deslocamento e vazio. Irônico sua ocupação ser na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York, profissão que decidiu seguir quando, ainda adolescente, teve uma epifania durante uma viagem de caminhão a trabalho com seu cunhado. É o conflito entre vontade de ajudar a todos com o direito de serem humanos sendo que, o próprio Alex, nunca foi visto como humano, mas como o judeu da mamãe, do rabino, o judeu exilado, o judeu narigudo, o judeu emasculado, etc. 

"Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está transbordando dos meus ouvidos, a saga dos judeus sofredores! me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu - porque por acaso eu também sou um ser humano!"

Foi uma leitura cansativa, mas instigante. Me vi várias vezes em Alex quando ele entra em pânico por fazer algo errado. No começo da pandemia, eu achava que ia morrer quando buscasse a pizza na portaria do prédio; eu ia ficar entubada se não limpasse cuidadosamente com álcool em gel o novo frasco em alcool em gel que comprei no mercado; que eu ia contaminar todos da minha família se eu abrisse o vidro do carro e depois os visitasse. E, ao mesmo tempo, vi vários Alex que não compreendem como os os fura-quarenteners não morreram de COVID, ou pelo menos não ficaram seriamente doentes. A culpa e o medo continuam presentes. Ainda que tem sido flexibilizada as atividades nessa quarentena, o medo de sair e se contaminar e a culpa e vergonha de estar saindo ainda são dominantes.

(Respondendo minha própria pergunta do título, estou tão presa na década de 60 que ontem, domingão, eu e Allan assistimos Rosemary's Baby, que também é bastante referenciado em Mad Men. Que filme, minha gente. Que filme!)