O Apanhador no Campo de Centeio - reflexões sobre crescer e ser phony

Eu nunca tinha ouvido alguém falar diretamente sobre O Apanhador no Campo de Centeio do tipo "Li, achei legal/uma bosta e recomendo/não recomendo". Mas eu já tinha visto várias vezes pequenas citações em variados lugares que agora não sei nomear. Ano passado, a Todavia publicou uma nova edição e aí sim vi bastante coisa publicada sobre a obra. A verdade é que a literatura norte-americana não nos é muito popular. O que chega até nós de forma marjoritária é através de filmes e, The Catcher in the Rye, não tem e nunca terá uma adaptação. 

O livro mexeu bastante comigo. A habilidade e os recursos usados para nos identificar de forma tão intensa com o protagonista/narrador, o adolescente de 16 anos Holden Caulfield, é impressionante. It depressed the helluva me. Considerando O Complexo de Portnoy, esta foi a segunda leitura do tipo monólogo que leio em pouquíssimo tempo. E, de novo, em Nova York. 

O livro estava com uma boa promoção na Book Friday da Amazon e eu decidi ler em inglês. Foi uma experiência que me fez sentir tão sortuda e privilegiada por conseguir ler esta obra no original. O livro é muito "nformal" e por isso fácil. (Tentei já ler "This Side of Paradise", F. Scott Fitzgerald, no original, mas são tantas metáforas que eu não consegui. Talvez mais para frente) Toda hora Holden chama a atenção do leitor, seja com um "Listen", ou "I wish you were there". É um Holden nos contando sobre um fim de semana de sua vida... Nada de extraordinário, emocionante. Simplesmente é como uma entrada em um diário sobre uns dias passados, ou uma longa carta contando algo pessoal para alguém. 

Portanto, não é a ação que mais nos encanta no livro. E sim as reflexões, os incômodos de Holden ao sair da infância e entrar a vida adulta - que é extremamente "phony". Essa palavra apareceu uma vez e logo pensei em "fake". Ok. Continuamos. Mas aí ela aparece over and over and over. Holden faz críticas severas à uma série de personagens e certas atitudes acusando-as de "phony". 

Aos poucos, como brasileira - uma estrangeira lendo esse livro escrito por um americano, sobre a sociedade americana aos olhos de um adolescente americano - fui vendo esse "phony" não apenas como falso, mas como um falso cafona, brega. Quaaaaaaaase como uma "falsiane". E nós brasileiros, que já fomos aos EUA, já conversamos com os norte-americanos, temos a sensação do quanto eles são "falsos" não de uma maneira maldosa, mas sim superficial. O jeito que conversam, se mostram interessados e prestativos, não parece genuíno ou... Sincero. Não estou chamando-os de mentirosos, apenas de não sinceros aos nossos olhos de latinos. Poderíamos talvez dizer que são extremamente individualistas? Talvez. Várias vezes eu e meu marido falamos como quando a gente pede algo e eles respondem "Absolutely" com um sorrisinho parece uma reação forçada. Mas, de novo, não por maldade, mas porque "eles são assim".

Acho que esse "phony" que tanto incomoda Holden é justamente esse tratamento protocolar nas relações sociais da cultura norte-americana marcada por uma falta de genuidade e completamente supercial. Como por exemplo, quando ele vai ao teatro com uma amiga/namorada e ela encontra um conhecido. Ao conversarem, ela pergunta o que ele achou e esse amigo responde que "a peça em si não é uma obra de arte, mas os protagonistas são anjos." E Holden fica IN-DIG-NA-DO. Anjos? Como assim? É fácil entender como este é um comentário sem profundidade, apenas para parecer bonito. E, no final, o que incomoda Holden é justamente esse contínuo esforço do mundo adulto de "se parecer bonito". 

Nem preciso dizer como Holden ficaria imensamente deprimido se visse as redes sociais do mundo pós-digital. É na internet onde conseguimos exacerbar nossa cafonice falsa, brega, travestida de palavras bonitas. Não há lugar no qual conseguimos ser mais phony do que no Twitter, Instagram, Youtube, etc. 

Eu li análises muito legais, muito legais mesmo na internet sobre o livro. Parece que, nos EUA, The Catcher in the Rye é quase uma leitura obrigatória, de tão forte que está no imaginário popular e na cultura pop norte-americana. No entanto, foram dois vídeos que eu achei mais legais e elucidativos do quanto esta é uma obra tão rica e especial. É quase um mini curso em duas partes de mais ou menos 20 minutos. 

Language, Voice, and Holden Caulfield - The Catcher in the Rye Part 1

Holden, JD, and the Red Cap - The Catcher in the Rye Part 2

É um livro que eu adorei ter lido. Tudo é simbólico, tudo significa alguma coisa: o chapéu, o Museu, o carrossel, os patos... Em algums momentos, Holden compartilha uma tristeza tão grande, uma decepção e depressão com o mundo, que é impossível não se sentir como o próprio Holden: sozinho e triste. Quando ele fala sobre seu irmão pela primeira vez, eu chorei. Apesar de o livro ter sido escrito em outro tempo e lugar - EUA na década de 50 -, ele é bastante palpável, muito atual e sensível para a sociedade ocidental e, tantos anos depois, daqui do Brasil, continuamos a nos identificar e ter profunda compaixão com Holden Caulfield e seus problemas em crescer. 

Os dois anos de exílio de Primo Levi: entre Auschwitz e o retorno, entre os alemães e o Exército Vermelho

Um autor que estava há um tempo na minha cabeceira era Primo Levi. Como assim leio toda essas coisas sobre Segunda Guerra Mundial, Holocausto, União Soviética, Exército Vermelho, antissemitismo, identidade, diáspora, etc, e nunca tinha lido Primo Levi? Curioso também que o primeiro livro que eu li na vida - aquele que a gente pede "Mãe, eu quero ler um livro, compra para mim?" - foi "O Diário de Anne Frank" na quarta-série, porque tinha uma chamadinha no livro didático. 

O Allan ficou repetindo - "De novo, Gi, nesse assunto? Lê algo diferente... Você está muito presa nesse século XX." Mas como não ler? Como não conhecer/ ouvir/ tentar compreender algo que para nós é tão incompreensível e tão definitivo da nossa realidade atual? Como não escutar Levi cujo maior medo é não ser ouvido? Tanto em "A trégua" quanto em "É isto um homem?", sua maior vontade é contar para o outro e, seu pesadelo é não ser ouvido. Isso é tão significativo. Parece que o mínimo, o mínimo do mínimo que eu posso fazer diante de tanta mostruosidade é apenas ouvir - ficar sabendo.

Eu comecei do fim para o começo. Primeiro li "A Trégua" pelo simples motivo besta de estar disponível em e-book no kindle e, como me sensibilizou demais, comprei depois "É isto um homem?", da Rocco. No meio termo, li Philip Roth, "O Complexo de Portnoy". Autores judeus, personagens judeus contemporâneos, mas separados por um oceano: os paralelos e as divergências são gritantes e incomodam bastante.

É isto um homem?

O cotidiano, a economia, o trabalho, a sociabilidade e o que "resta" de humanidade no campo de concentração. A des-personalização, des-caracterização do indivíduo. Tira-o de sua casa, sua geografia, lhes usurpam seus bens materiais, nome, dignidade, esperança e lhes privam de alimento e abrigo. A questão é sobreviver. 

O que mais me tocou, porém, é algo que talvez não se fala muito, ou que me passou despercebido até então: a comunicação. Tantas pessoas de origens diferentes, da Europa inteira- como se comunicar? Como se entender? Está aí a questão: a máquina nazista, do holocausto, do extermínio, é feita para a incompreensão. A comunicação é perdida.

"Aqui a confusão das línguas é um elemento constante da nossa maneira de viver; a gente fica no meio de uma perpétua Babel, na qual todos berram ordens e ameaças em línguas nunca antes ouvidas, e ai de quem não entende logo o sentido. Aqui ninguém tem tempo, ninguém tem paciênca, ninguém te dá ouvidos; nós, os recém-chegados, instintivamente nos juntamos nos cantos contra as paredes, como um rebanho de ovelhas, para sentirmos as costas materialmente protegidas."

Os mecanismos de funcionamento dos campos de extermínio tem sido bastante denunciados ao longo do século XX e, por mais que talvez nunca conseguiremos compreender a totalidade do que foi a realidade para os que viveram a estas condições tão extremas e desumanas, a gente tem uma vaga ideia do terror. Há, porém, dois pontos importantíssimos que Levi traz que, até então, refleti muito pouco: o fim e o depois. 

Como se dá o fim? O fim é um processo, não é de um dia para o outro. Não se dorme prisioneiro e acorda homem livre. Não nas condições que estão Primo Levi e os outros. Existe uma super exposição, especialmente hollywoodiana, da participação dos EUA, da invasão da Normandia e até da Bomba Atômica para o fim da guerra, mas para a percepção daqueles presos sob o regime nazista, o fim veio aos poucos, sob a forma de rumores, quebra das miudezas da rotina super-sistematizada alemã... Veio com o barulho, ao fundo, do Exército Vermelho se aproximando, cujos sons da marcha eram, a cada dia um pouquinho mais, sentidos e ouvidos. 

E, mesmo assim, não foi num exato dia que se deu a chegada do soldado soviético e a dabandada dos alemães. Não. Levi faz um recorte perspicaz no capítulo "História de dez dias": como se deu essa "transição" entre o antes e o depois - entre o domínio alemão e a conquista soviética. Diante da notícia de que os russos chegariam no dia seguinte e a sensação de que os alemães estavam saindo, ficava a dúvida do que viria a seguir. Muitos, sem saber, saíram dos campos para a Marcha da Morte. Levi, como estava doente, ficou e isso o salvou. 

"Todos os sãos (a não ser os poucos que, atendendo a sábios conselhos, no último instante tiraram a roupa e sumiram em algum beliche da enfermaria) partiram na noite do dia 18 de janeiro de 1945. Eram uns 20 mil, procedentes de vários campos. Quase todos desapareceram durante a marcha de evacuação, Alberto entre eles. Talvez um dia alguém escreva a sua história."

O início da marcha significou, para aqueles que ficaram, os "10 dias fora do mundo e do tempo". De 18 a 27 de janeiro (dia da chegada enfim dos russos), Levi escreve dia a dia os limites físicos e psicológicos nos quais viveram aqueles que ficaram a própria sorte, sem alimento, aquecimento, água e doentes. Abandonados.  

A trégua

Quando chegam os russos, uma nova fase, um novo e aparentemente-sem-fim-processo até voltar para casa. Uma nova Odisséia... A do século XX. Marcada pela paisagem da destruição da guerra, da fome, dos isolamentos e do trem. Um artigo muito interessante, chamado Trajetórias e paisagens de exílio na narrativa de Primo Levi, de Anna Basevi, aponta para esta questão. O exílio que marca o povo judeu, o deserto de Moisés e as planícies da Europa Central... O exílio, aponta a autora, não é só geográfico, é também linguístico. A Babel do primeiro livro citado, continua agora nos campos de refugiados, sob os cuidados do Exército Vermelho. 

Os alemães tornam-se raros no relato e aparecem agora os russos soviéticos, de cultura e educação tão diferentes, e que muito me lembram os testemunhos coletados pela Svetlana Aleksiévitch, em "O fim do homem soviético".

"Mas os russos, diferentemente dos alemães, possuem apenas em pequena medida o talento para as distinções e as classificações. Poucos dias depois, estávamos todos de viagem para o Norte, para um destino impreciso, de todas as maneiras, para um novo exílio. Italianos-romenos e italianos-italianos, todos, nos mesmos vagões de carga, todos com o coração apertado, todos em poder da indecifrável burocracia soviética, obscura e gigantesca potência, que não era malévola contra nós, mas desconfiada, insipiante, contraditória, e cega nos efeitos tal uma força da natureza." (grifo meu)

Antes de terminar, eu queria registrar aqui um dos pequenos relatos contados por Levi que me marcou muito. Parados em uma estação em Proskurov, Ucrânia, Levi e seus companheiros ouviam duas moças de Minsk conversando em ídiche, língua que não compreendiam. Não obstante, estimulado pelo forte chá açucarado que havia tomado mais cedo, Levi ensaia uma conversa com elas. Em alemão, ele apresenta a si e seus amigos como judeus e perguntam se elas também são judias. Em seguida elas riem e dizem que se eles não falam ídiche, portanto, não são judeus. Ele tenta explicar que ele é um judeu italiano e que na Itália e em toda a Europa Ocidental os judeus não falam ídiche. 

"Mas então, se éramos judeus, todos os outros também o eram, disse-me, acenando com gesto circular para os oitocentos italianos que abarrotavam a sala. Que diferença havia entre nós e eles? A mesma língua, os mesmos rostos, as mesmas roupas. Não, expliquei-lhes: aqueles eram cristãos, vinham de Gênova, de Nápoles, da Sicília: talvez alguns daqueles tivessem sangue árabe nas veias. Sore [uma das meninas] olhava, perplexa: era uma grande confusão. Em seu país as coisas eram muito mais claras: um judeu é um judeu, e um russo um russo, não havia ambiguidades." (grifo meu)

Se as fronteiras políticas são tênues, também são as fronteiras identitárias. Levi e Sore nos jogam na cara como os critérios identitários são problemáticos, delicados, móveis... São imprecisos. Como é impreciso definir quem é quem, o que e porque é quem, com bases em critérios tão frágeis! Isso me lembra muito Alexander Portnoy, de Philip Roth, suplicando para que o vejam como humano, de forma pura e simplesmente humana - e não como judeu.

Os livros são a narração de seu exílio - começa quando é levado da Itália e acaba no seu retorno. Em "É isto um homem?", Levi é feito prisioneiro em dezembro de 1943 e em 1944 é deportado para Auschwitz. Em Janeiro de 1945 é libertado pelo Exército Vermelho, e aí começa "A Trégua", com toda a trajetória até outubro, quando chega, finalmente, em Turim. São livros doídos de ler. Tristes. Por tantas e tantas vezes, Levi mostra como foi agraciado com momentos de sorte, que possibilitou sua sobrevivência e retorno. 

Eu demorei muito para ler Primo Levi. Todos precisamos ouvi-lo. Todos precisamos saber, não podemos esquecer, nunca. O tempo passa, outras guerras acontecem, outros problemas surgem, mas não pode ser colocado de lado, ou no esquecimento, ou ainda na categoria já-faz-muito-tempo-não-é-mais-tão-importante o genocídio, a violência, a perseguição e esse momento da história que moldou o mundo de hoje, tanto geopoliticamente quanto nas identidades do homem contemporâneo.

Estou presa na década de 60? Partindo de Mad Men, visitamos Alex Portnoy e, por último, um pulinho em Mrs Maisel

Continuando na linha de Mad Med do post anterior, eu queria registrar um pouquinho as minhas impressões de "O Complexo de Portnoy". Eu já tinha lido ano passado "A marca humana" e "Pastoral Americana", livros que eu gostei demais. Deixei Philip Roth um pouco de lado até ver Don Draper lendo "Portnoy's Complaint" durante seu próprio exílio dentro da Roger, Sterling and Associates. 

As questões de identidade, de deslocamento do protagonista frente aos grupos que ele (não)pertence, o que é esperado dele VERSUS o que ele é ou quer ser, são grandes temas já de "A marca humana", publicado em 2000. O fenótipo e o genótipo sob os choques dos costumes, da história e da cultura já haviam aparecido em 1969, data de publicação de "O Complexo de Portnoy". Uma leitura muito difícil porque, como o próprio título original sugere, trata-se de uma gigante reclamação - Portnoy's Complaint. Uma hora eu precisei dar um tempo porque, afinal, ouvir/ler tanta reclamação é um pouco complicado. 

(Aliás, genial esse jogo de palavras do título. Uma pena que se perde um pouco disso na tradução.)

Se tem uma coisa que aproxima talvez os judeus e os brasileiros é a tal autodepreciação. Eu não sabia, mas "se zoar" é um fenômeno comum entre a comunidade judaica. O desabafo de Alex está entre o desespero e a risada. Por exemplo, o pânico que ele sente de ter que contar aos seus pais que estava numa tentativa frustrada de perder a virgindade com uma menina não-judia e, sem querer, espirrou esperma no seu olho: desespero imenso de ficar cego e tornar-se uma decepção para seus pais, tudo porque quis ser chupado por uma shikse.

O sentimento de culpa que persegue Alex é o que torna as situações tragicômicas. Quem mandou ficar patinando no gelo atrás das shikses? Por isso caiu e quebrou a perna, ficará para o resto da vida deficiente e ouvirá para sempre seu pai reclamar e jogar na sua cara seu interesse pelas moças não judias. (Nós brasileiros também somos experts em rir da nossa própria desgraça, só não temos o sentimento de culpa nos intimidando. Pelo contrário, somos bons em culpar sempre os outros pelas nossas próprias mazelas.)

"Dr. Spielvogel, esta é a minha vida, minha única vida, e estou vivendo minha vida no meio de uma piada de judeu! Eu sou o filho de uma piada de judeu - só que não é piada não!" 

Apesar de Alex não conseguir controlar seus impulsos sexuais na intimidade, aos olhos de sua família e comunidade ele é o menino perfeito, o filhinho da mamãe, o melhor aluno da classe. e por isso se formou advogado e assumiu uma importantíssima posição na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York. E seu esforço em tornar-se esse "menino exemplo", tanto pelo sentimento de superioridade moral quanto pelo medo que sua família impunha a ele quando criança, deixa-o inconformado quando descobre, já adulto, que seus colegas de infância também se tornaram homens normais e bem sucedidos, apesar de seus comportamentos nada exemplar.

"Mas não pode ser! Sem sopa de tomate quente no almoço de dias frios? Com aqueles pijamas imundos? Com todos queles preservativos de borracha vermelha cheios de pontas espetadas, que segundo ele enlouqueciam o mulherio lá em Paris? Smolka, que nadava da piscina do Olympic Park, também está vivo? E é professor de Princeton ainda por cima? Em que departamento, letras clássicas ou astrofísica? Ba-ba-lu, você está falando que nem minha mãe. Você certamente quer dizer encanador, ou eletricista. Porque eu me recuso a acreditar! Quer dizer, no fundo do meu kishka, das minhas emoções mais profundas, minhas crenças mais antigas, por trás do eu que compreende perfeitamente que Smolka e Mandel continuam vivos, morando em boas casas e desfrutando das oportunidades profissionais abertas aos homens deste planela, não consigo acreditar que esses dois meninos maus sobreviveram, muito menos que se tornaram homens de classe média bem-sucedido. Ora, eles deviam estar na cadeia - ou na sarjeta. Eles nem faziam o dever de casa, porra!"

Achei ótima essa parte. Quantas vezes nesses últimos cinco meses de pandemia/quarentena a galera não pensou, de forma indignada, como é possível siclano e fulano não terem MORRIDO DE COVID porque não cumprem isolamento, não higienizam suas compras e não se preocupam em lavar as roupas quando chegam em casa? O medo nos prende em casa, nos faz sentir enorme culpa se furarmos a quarentena, e desejamos a morte/doença daqueles que saem - ou que não compartilham o mesmo medo e princípios morais que nós.

Porém, as críticas mais ácidas e degradantes são do Alex para ele mesmo: "Eu vivo numa piada de judeu" e, sob uma ótica freudiana e foucaultiana, seus impulsos sexuais são atos de resistência contra um mundo controlador e de culpa no qual ele não se encaixa. Na superfície, ele faz o que se espera de um menino judeu, mas sob os olhos dos outros não. O exemplo mais alegórico é a punheta que ele bate a caminho de seu bar mitzvah. 

"Chega de ser um bom menino judeu, agradando meus pais em público e esfolando o ganso no meu quarto! Chega!"

E tudo isso é condensado no último capítulo. Se o Alex não se encontra nos EUA, na sua comunidade em Nova York, se encontraria ele em Israel? O lugar onde todo mundo é judeu. O lugar onde os judeus são os WASPs. 

Absolutely not. Uma jovem israelene explica: 

"'Ah, não concordo', repliquei. 'A autodepreciação, afinal de contas, é uma forma clássica de humor judaico'.

'Humor judaico, não! Não! Humor de gueto.'

Um comentário não muito amoroso, não é? Quando o dia raiou, ela já havia me explicado que eu era o representante típico do que havia de mais vergonhoso na 'cultura da diáspora'. Aqueles séculos e mais séculos sem pátria haviam produzido homens desagradáveis como eu - assustados, defensivos, autodepreciativos, emasculados e corrompidos pela vida num mundo de gentios."  

E daí, fui pesquisar. Me intrigava como foi recebido o livro em 1969 pela comunidade judaica. Algumas aproximações com a série Mrs. Maisel eu já tinha reparado: a 'autozuação', a mãe controladora, a culpa na tradição judaica... E eis que descubro que Lenny Bruce, que pagou a fiança de Midge logo nos primeiros episódios, foi de fato um personagem real e, portanto, contemporâneo de Philip Roth. Neste turbilhão que foi os anos 60, a liberdade sexual, emancipação da mulher, civil rights, pós-guerra, os debates em torno da identidade e da linguagem tomaram espaço e o pós-estruturalismo ganha espaço. 

E diante desta nova questão da identidade, quem é esse judeu pós-segunda guerra mundial? Exilado nos EUA, exilado em Israel... Alex não encontra seu lugar, porque parecem ser incompatíveis o que ele é (ou quer ser? ou tenta ser?) com o que é esperado dele - não importa onde esteja. E por isso o sentimento de deslocamento e vazio. Irônico sua ocupação ser na Comissão de Direitos Humanos da cidade de Nova York, profissão que decidiu seguir quando, ainda adolescente, teve uma epifania durante uma viagem de caminhão a trabalho com seu cunhado. É o conflito entre vontade de ajudar a todos com o direito de serem humanos sendo que, o próprio Alex, nunca foi visto como humano, mas como o judeu da mamãe, do rabino, o judeu exilado, o judeu narigudo, o judeu emasculado, etc. 

"Judeu judeu judeu judeu judeu judeu! Já está transbordando dos meus ouvidos, a saga dos judeus sofredores! me faça um favor, meu povo, pegue seu legado de sofrimento e enfie no cu - porque por acaso eu também sou um ser humano!"

Foi uma leitura cansativa, mas instigante. Me vi várias vezes em Alex quando ele entra em pânico por fazer algo errado. No começo da pandemia, eu achava que ia morrer quando buscasse a pizza na portaria do prédio; eu ia ficar entubada se não limpasse cuidadosamente com álcool em gel o novo frasco em alcool em gel que comprei no mercado; que eu ia contaminar todos da minha família se eu abrisse o vidro do carro e depois os visitasse. E, ao mesmo tempo, vi vários Alex que não compreendem como os os fura-quarenteners não morreram de COVID, ou pelo menos não ficaram seriamente doentes. A culpa e o medo continuam presentes. Ainda que tem sido flexibilizada as atividades nessa quarentena, o medo de sair e se contaminar e a culpa e vergonha de estar saindo ainda são dominantes.

(Respondendo minha própria pergunta do título, estou tão presa na década de 60 que ontem, domingão, eu e Allan assistimos Rosemary's Baby, que também é bastante referenciado em Mad Men. Que filme, minha gente. Que filme!)

O círculo perfeito entre o último e o primeiro episódio de Mad Men

Em 2017 eu assisti, sozinha, de uma só vez Mad Men. Meu marido até hoje fala como foi assustador a velocidade com a qual eu assisti todas as temporadas da série. Por conta da quarentena, eu consegui convencê-lo a assistir alguns episódios, para ver como é um ótimo show e entender um pouco os motivos que me fizeram ser grande fã. Ele amou e adotou-a como "nossa série oficial para a gente ver juntos". Neste fim de semana chegamos ao fim. Agora é só aproveitar o momento-ressaca-nostálgico-orfãos da série. Seguem alguns comentários e reflexões pessoais - nada de análise profunda ou coisas interessantes: não tenho arsenal teórico para isso e há muitas outras fontes mais interessantes na internet.

O legal de ver novamente um show tão denso é que vários detalhes da narrativa que me passaram despercebidos tornaram-se mais evidentes dessa vez - no perfeito modo irônico e simbólico de Mad Men. Em 2017, eu fiquei mais afeiçoada aos personagens e, pelo simples fato de não ter conhecimento prévio, várias referências históricas dos EUA da década de 60 me passaram batidas. Dessa vez, eu olhava com a maior atenção possível aos programas de TV e rádio que os personagens assistiam: o tour de Jackie pela Casa Branca no dia dos namorados, o assassinato de JFK, os protestos de 1968, Nixon pronunciando a retirada das tropas do Vietnã e, talvez o mais incrível e o meu favorito, a chegada do homem à lua.

Percebi (e lamentei muito) como a Betty já tinha seu destino trágico marcado desde o início. O último e o primeiro episódio fazem um arco perfeito: a criação de uma nova campanha para Lucky Strike, a ironia com que os homens em meio a fumaça debocham do risco de câncer, Don Draper completamente alheio à sua vida doméstica e, no final, isolado pela família que antes lhe era invisível, e a Betty representando o trágico ciclo do consumo capitalista vazio e autodestrutivo. Fui coletando, ao longo das temporadas,  frases e indiretas que antecipavam a doença fatal de Betty e como ela não conseguiria escapar de seu fim.

O grande tema da série é a sociedade dos Estados Unidos da década de 60. A emancipação feminina, os protestos pelo civil rights, a política, o próprio mundo da publicidade, a política, a sociedade de consumo norte-americana, o Don, a Peggy, a Betty, etc, são temas que compõem o grande assunto que é a marca temporal. O universo publicitário está lá porque é onde se exprime de maneira mais evidente a incompatibilidade da sociedade de consumo norte-americano: suas aspirações, promessas e como a vida material e perfeita - de propaganda - se dilui rapidamente, escorre pelas mãos e desaparece pelo ralo.

Por isso as primeiras temporadas tão "anos 1950": as roupas, móveis domésticos, o escritório, os temas da Guerra da Coréia, Segunda Guerra Mundial... É um ambiente mais sóbrio, analógico, excessivamente masculino e os assuntos são do "antes", de um passado recente. Aos poucos, não é apenas o "novo" que vai aparecendo, como o movimento hippie, as seitas religiosas (aquele episódio que o Paul Kinsey versão Hare Krishna aparece tentando vender o script de um episódio de Star Trek é um dos meus favoritos), o rock, os movimentos civis... Mas também outras coisas vão se tornando obsoletas. "-A Segunda Guerra Mundial foi há muito tempo, Sterling." O Japão deixa de ser inimigo e se torna um cliente. Não é só a estética que muda, as relações se transformam.

Ao longo do tempo/ temporadas, também o segredo de Don Draper vai se tornando pouco importante: se foi o pivô para a separação de Don e Betty Draper, ele é depois revelado para um affair e, como saberemos depois por uma fala mais do que breve e superficial, a Megan casou-se com Don sabendo de tudo. A troca de identidade do personagem principal, que a princípio tão bem o definia, aos poucos vai se materializando no que Cooper já havia previsto: "who cares?". Tá aí... No one cares.

Nos episódios finais, aqueles veteranos de guerra, velhos, bêbados, excitados por uma stripper vestida num maiôzinho com as cores e estrelas da bandeira norte-americana, mostra que esta cultura bélica - apesar de nunca ter cessado enquanto política de estado - tornou-se no sentimento coletivo obsoleta e decadente. Os veteranos de guerra, que lutaram contra Hitler, japoneses e coreanos, deixam de ser heróis para serem velhos gágá.

No primeiro episódio, ninguém fala (ninguém DEVE falar) o que sente. Fala-se o que é conveniente. A paleta de cores amarronzada e bege, o terno e gravata, os vestidos de saia bufantes, penteados perfeitos, conversas protegidas pelas paredes do escritório, da sala e da cozinha domésticas, vão cedendo espaço para para cabelos despenteados, nudez, uma moda mal vestida, suja, e práticas de yoja e tai chi chuan em espaços abertos, ensolarados, de contemplação a natureza, e uma hipervalorização dos sentimentos expostos no último episódio.

É por isso que a Betty é a tragédia personificada. Ela foi criada para ser a mulher perfeita daquele início da década. Enquanto o Don-camelão vai se adaptando ao ambiente, a Betty ficou fora de contexto. Não há mais espaço para as donas de casa versão Betty Draper. Mesmo sua ex-vizinha, Francine, que assim como ela era a perfeita-esposa-e-mãe-do-subúrbio, começa a trabalhar meio período. Mas e a Betty? O tempo passou e ela se descontextualizou.

No primeiro episódio, Don Draper questiona ao garçon negro que lhe serve qual marca de cigarro fuma e o porquê. Quem é esse homem americano que consome e por que consome? Como vender a ideia, a promessa, para estes homens e mulheres dos Estados Unidos da América? Como se comportam no mercado? Compreender este universo, problemas, dúvidas e trazer as respostas através dos produtos cujas marcas de venda devem crescer, faz parte da trajetória de Don e da agência.

Mas chegamos ao fim da década de 60 e esse homem já chegou na lua junto com Neil Armstrong. O próprio Don, para escrever um discurso sobre a Sterling Cooper, passa a questionar: quais os próximos passos? Considerando nosso caminho até agora, para onde iremos? O que queremos para a próxima década? Quais são nossos sonhos? Quão alto queremos chegar? Até onde podemos ir? Os produtos anunciados, as campanhas, já estão em todos os lares americanos. Don Draper e sua equipe, de dentro do escritório, sob a espessa neblina de cigarros, álcool, sexo, preconceito, deboche, conseguiram já entrar em todo o espaço doméstico, nos hábitos mais individuais e rotineiros dos cidadãos americanos.

Agora, no entanto, a estética é hippie e colorida. A mensagem não é de guerra ou bomba atômica, é de paz, liberdade, comunidade. É a busca pela conexão com a natureza e práticas religiosas e de filosofia orientais. Se no primeiro episódio, primórdios de 1960, o interesse era no homem americano e seu cigarro, nos fins de 1969 é a coca-cola, o símbolo capitalista americano, que estará não apenas em todas as casas, cozinhas, mesas de comunhão do Burger Chef (e que será - no futuro - um dos grandes responsáveis pela epidemia de obesidade ds EUA e outros países) mas nas mãos de todas as culturas, etnias e povos do mundo inteiro.


Em contraste com a foto protagonizada pela Betty para a campanha da coca-cola da temporada 1, onde, numa cena bucólica de pique-nique, oferece duas garrafas de coca-cola para o esposo, dois filhos e um cachorro, no fim da sétima temporada a coca-cola (o American-way of life) não está só nos hábitos e costume da família americana, mas nas mãos de todo o mundo. Se chegamos à Lua, porque não nas casas de todas as famílias de todo o mundo sob a mensagem de paz, união e liberdade? O último episódio faz um círculo perfeito com a primeira temporada e é como se toda a série fosse para mostrar como o destino de Don Draper era fazer uma propaganda perfeita para a Coca-Cola.


Finalmente, um personagem que me tocou desta vez profundamente, foi a Margareth. Recentemente li "Pastoral Americana", Philip Roth, e as semelhanças entre Merry Levov e Margareth são tocantes: a filha-única-princesa-perfeita, criada com tudo a sua disposição, em casas "perfeitas", pais dedicados e amorosos (e Roth descreve maravilhosamente bem como tudo isso parece ser perfeito, mas em sua essência não é) que um dia rebela-se, larga tudo, joga na cara de seus próprios pais a miséria de suas vidas e procura na pobreza e na margem da sociedade possibilidades de autorealização.

De fato, Mad Men é minha série dramática favorita. Um dia, gostaria de revê-la pela terceira vez e, desta vez, absorver melhor as referências do cinema norte-americano da década de 60.

Há um tempo não lia biografias, tampouco autores brasileiros: quebrei o jejum com a biografia de Jorge Amado

Pela primeira vez na vida, quero falar sobre um livro que eu não gostei. Geralmente sou a entusiasta, que lê por puro gosto e afinidade, sem críticas ou refinamento. Se eu não gosto da leitura eu simplesmente paro ou, pela própria resenha, julgo o livro pela capa e nem vou adiante. A última vez que me lembro que isso aconteceu, foi com "Por quem os Sinos Dobram". Eu tinha tanta expectativa, afinal, Hemingway é um autor tão reconhecido, importante, ativista... E essa obra tinha vários temas enriquecedores e nobres:  a Guerra Civil Espanhola, vista e vivida de perto pelo autor, que também tem toda uma áurea grandiosa. Além disso, uma pessoa que eu admirava muito tinha elogiado esse livro para mim há muito tempo e, portanto, eu achava que "se X disse isso, é porque é realmente bom". No fim, após a leitura completa, percebi que minha expectativa era muito elevada e o livro não era tudo isso. Me lembrou aquelas castanhas caramelizadas de um quiosque comum de shoppings: o cheiro é muito mais gostoso que o gosto.

A literatura (auto) biográfica e memorialista me encanta muito. Talvez pelo meu trabalho com cartas em arquivos pessoais, a narração de vida, feita tanto pelo próprio indivíduo quanto por um terceiro, é um assunto de meu grande interesse. É uma dimensão onde o concreto e o imaginário se fundem, o real e a imaginação tornam-se uma coisa só. Não é possível colocar neste espectro nenhum tipo de julgamento moral, tampouco de conceituação de verdade ou mentira. Para mim, o anedota mais didática possível é sobre os relatos dos marinheiros das Grandes Navegações que diziam ter visto sereias ou monstros marítimos em alto mar. Eles viram de fato estes seres? Sim, eu acredito que sim. Eles compreenderam o que viram de acordo com o mundo que lhes foi apresentado e isso deve bastar.

Acompanho nas redes sociais uma instituição cultural voltada para a literatura que, nestes tempos de pandemia, oferece atividades onlines. Me interessei muitíssimo, portanto, pelo curso de quatro encontros sobre biografias, que será ministrado pela autora Josélia Aguiar. Nosso currículo acadêmico tem algumas afinidades (como sua pós-graduação em História Social, na mesma instituiçao onde acabei de concluir o mestrado) e sua obra recentemente publicada, "Jorge Amado: uma biografia", ganhou o Prêmio Jabuti. De novo, grande expectativa.

O que se sucedeu, porém, foi uma constante "quem sabe o próximo capítulo melhora" e, no meio, só decidi continuar porque, "já estamos aqui, né!".

Jorge Amado é um personagem da nossa história recente já amplamente conhecido e popular que, como a própria autora diz, graças as várias adaptações em novela, miniséries e filmes, a imagem do autor baiano é associado, muitas vezes, à imagens que ele próprio não era responsável (como a Gabriela Cravo e Canela em cima do telhado pegando uma pipa). De qualquer maneira, estudamos Jorge Amado na escola, exaustivamente fala-se dele em várias lugares diferentes e, durante grande parte de sua vida, teve grande exposição midiática. Zélia Gattai, sua esposa, publicou memórias sobre a vida do casal, uma biografia na década de 60 também já havia sido publicada por Miécio Táti... Além disso, como cereja do bolo mas não menos importante, vivemos na era do Google e Wikipedia. O que tudo isso significa? Que o livro foi uma decepção porque trouxe ao longo de 500 páginas uma cronologia em forma narrativa.

Frases curtíssimas completam parágrafos apenas informativos. Informações que, em sua grande maioria, podem ser consultadas nas memórias de Zélia Gattai e textos biográficos no Google e na mídia.

De forma cronológica, a autora nos apresenta todos os tijolos, mas não a casa. Faltou o sentido, uma ideia que guiasse tudo o que foi apresentado da vida de Jorge Amado. Faltou uma defesa, ou uma acusação. Faltou o aspecto sensível que desse significado ao conjunto de informações que, ao meu ver, ficou jogado. Sem didática, a biografia nos é apresentada como nos é ensinado história pela professora que escreve na lousa as datas, nomes de pessoas e eventos históricos e faz seus alunos copiarem.

A narrativa em torno de uma vida, seja ela uma biografia, uma autobiografia, uma memória, um depoimento, uma breve carta onde eu falo sobre quem eu sou e como foi meu dia, tem o poder de aproximar o leitor e o biografado. A força narrativa cria compaixão, amizade, carinho e às vezes repulsa: tudo depende de como é apresentada essa vida do outro para o leitor. Infelizmente, Josélia Aguiar apresenta um Jorge Amado sem sal. Percebe-se que sua vida foi atribulada e cheia de relações e ativismo, mas não cria compaixão. Não nos ajuda a compreender um pouco mais de sua personalidade e de sua obra, para além do que já é dito em meios comuns sobre sua origem baiana e afiliação comunista.

O curso começa semana que vem. Ainda estou decidindo se me inscrevo ou não.

(Finalmente, um desabafo. Como sou analfabeta nesse mundo digital! Meu deus... Investi horas de esforço nesse blog, tentando melhorar o layout. Tirei até uma foto da minha estante de livros (super falso, porque eu leio mais no kindle), mas não consigo deixar um layout bacana. Sei lá... Se eu continuar escrevendo aqui, talvez me dê de presente um blog melhor terceirizando alguém que entende mais disso.)