7 saberes necessários à educação do futuro

Eu escrevi a composição abaixo como forma de resumo de um texto que li. Eu o achei interessante e completa uma segunda leitura que fiz anteriormente, na qual o objetivo maior da educação é não repetir Auschwitz, que foi o ponto máximo de barbárie humana. É claro que o autor usa o campo de concentração apenas como um exemplo, porque barbáries humanas são encontradas em várias outras partes do mundo com dizimações étnicas, guerras “sem sentido” e etc. A conclusão deste texto era que a civilização, para não repetir Auschwitz, só seria alcançada pela educação. A leitura abaixo, de um autor diferente, completou essa afirmação.

É de conhecimento de todos que a educação do Brasil está em crise, mas essa crise não é exclusiva brasileira e nem tão recente. Me questiono agora se este problema educacional geral é realmente a falta de educação civilizacional ou seria política, econômica e de conteúdos mais teóricos como o método de educação.


MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro.


Edgar Morin nos apresenta sete saberes que, segundo ele, são ignorados e subestimados pelo ensino e pelas escolas contemporâneas. É o que ele chama de “sete buracos negros da educação” e não se tratam especificamente de nenhum nível escolar, mas sim programas que deveriam ser colocados no centro da educação para formar bons cidadãos. A grande questão que envolve todos os saberes é o de civilizar o mundo. De uma forma ou de outra, todas as suas propostas podem ser convergidas para esse único ponto.


O primeiro grande saber é sobre o conhecimento. Segundo Edgar Morin, o conhecimento é enganador e ilusório. Para ver e conhecer a realidade é preciso explorar os erros, porque só assim ela é alcançável. Erros causados por diferenças sociais, culturais e étnicos, que fazem o “pensar diferente” como anormal e até como um desvio patológico e outros erros que são causados pela camuflagem de partes desvantajosas para os interessados. Assim, percebemos o mundo através de reconstruções e traduções da realidade, dependendo do ângulo e da perspectiva que vemos a realidade; e assim como toda tradução, ela é composta de erros. “Toda tradução é uma traição”.


O conhecimento pertinente é a contextualização do que vemos como conteúdo na escola na realidade em que vivemos. O meio que ele propõe para o ensino alcançar esse objetivo é a integração das partes. O ensino fragmentado, segundo o autor, impede a capacidade natural que o espírito tem de contextualizar. Portanto, é necessário ligar as partes, porque não é possível conhecer as partes sem conhecer o todo e vice-e-versa.


A identidade humana é outro ponto significativo. Nós fazemos parte de uma trindade indivíduo-sociedade-espécie, ou seja, nós somos indivíduos que fazemos parte de uma sociedade e também somos espécie. Para não acabar com esta é necessário se reproduzir e ter filhos que serão, como os pais, educados e moldados de acordo com a sociedade em que vive. Portanto, mostrar que o ser humano que é múltiplo enquanto é parte de uma unidade, é uma educação para civilizar o planeta em que vive. Para entender essa complexidade humana, o ensino da literatura e da poesia devem ser colocadas em primeiro plano, pois são elas que convergem para a identidade e para a condição humana.


Atualmente o individualismo tem ganhado um espaço cada vez maior socialmente e o ensino da compreensão humana tem sido trocada pela egocentrismo e o egoísmo: o “se dar bem”. Os seus grandes inimigos são a redução do outro, a visão unilateral, a falta de percepção sobre a complexidade humana e a indiferença. Se auto a avaliar e compreender a si mesmo é um primeiro passo. O cinema é outro recurso que ajuda a entender e a valorizar personagens anônimos da nossa sociedade, ensinando a superar a indiferença e ver os heróis invisíveis sociais sob um outro ângulo.


A incerteza é o quinto saber indicado por Edgar Morin. Saber que o inesperado aconteceu e acontecerá é um domínio necessário a ser mostrado, sobretudo na disciplina de História. Quase nada é como se espera ou deseja. Essa incerteza não apenas fomenta a coragem, mas também age como um meio de tomar consciência sobre a dimensão que decisões tomadas alcançam, além de aprender a lidar com situações inesperadas, saber agir diante do imprevisto com o pouco que se tem nas mãos.


A condição planetária atualmente mostra que a humanidade vive um percurso de destino comum. Diferenças étnicas, religiosas e culturais são superadas diante de ameaças nuclear e ecológica, crises ideológicas e econômicas que colocam todo o mundo em risco e perigo. Portanto, é difícil conhecer o nosso planeta dada a complexidade com que diversos fenômenos estão imbricados.


A antropo-ética, finalmente, é a “tomada de consciência social que leva à cidadania, para que o indivíduo possa exercer sua responsabilidade” que tem se expressado em organizações não-governamentais, superando os problemas da moral e da ética que diferem de acordo com a cultura e as origens dos indivíduos. Tudo isso acontece diante de uma regressão democrática implicada e agravada cada vez mais pelo poder tecnológico e econômico.


Edgar Morin nos faz essa exposição numa linguagem muito simples, repleto de exemplos concretos e bastante conhecidos. Seu objetivo é unir o que hoje se encontra fragmentado, causando a invisibilidade de problemas para muitos e que a visão total da realidade seja deficiente. Isso tudo porque o próprio planeta encontra-se unido e fragmentado ao mesmo tempo, um estado de caos, que só pode ser superado através da civilização. Esta, por sua vez, só será alcançada através de uma educação eficiente que leve em conta estes sete pontos acima e que hoje são ignorados.

Arquivos em sigilo no Brasil

O historiador precisa provar tudo o que fala. Ele faz isso por meio de suas fontes documentais que são desde artigos de jornais, processos jurídicos e contratos de qualquer espécie até obras de arte como poemas, músicas, pinturas e esculturas. As obras de arte, porém gera ambigüidade e, por isso, as fontes preferidas dos historiados são aquelas encontradas em arquivos públicos. O ponto contraditório nisso tudo é que o maior problema encontrado por esses pesquisadores se encontra justamente no acesso aos documentos protegidos pelos arquivos públicos. No Brasil principalmente, isso é significativo.


É comum entre todos os países existirem leis que protegem esses documentos. Alguns, por se tratarem de problemas individuais e particulares, e outros por serem de caráter público e não correr o risco de colocar o Estado em risco, se mantém em sigilo por um determinado número de anos. Trinta, quarenta, cinqüenta anos geralmente são colocados como tempo limite para este sigilo. No Brasil, no entanto, havia uma outra lei que permitia uma única renovação deste tempo sigiloso de 30 anos dependendo da importância do documento. Quem media essa importância? O próprio governo.


Pois bem, é uma grande aspiração de todos que os documentos do período da Ditadura Militar sejam abertos à pesquisa e que, ao contrário dos nossos vizinhos sul americanos que liberaram esses arquivos juntamente com a queda do regime, nós, brasileiros, continuamos com eles em sigilo até hoje. No final do mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi implantado um projeto de lei que permitia a renovação contínua de documentos em sigilo caso fosse julgada essa necessidade. Todos esperavam um governo mais democrático com a entrada de Lula na presidência e que esse projeto de lei não tivesse repercussão. Para o espanto de todos, o que era apenas um projeto virou lei.


Semana passada ouvi que era só esperar todo o pessoal envolvido na Ditadura morrer que os arquivos seriam abertos. Isso não é tão verdade. A Guerra do Paraguai, que teve seu fim há mais de 100 anos, quando o Brasil ainda era monarquia, ainda tem seus documentos guardados sem nunca ninguém ter tido acesso a eles. Por que esse medo do governo? Que descoberta os brasileiros poderiam ter com um acontecimento de 140 atrás que poderia colocar o governo em risco? Não se sabe. E enquanto isso os diretores e responsáveis pelos nossos arquivos públicos continuam desrespeitando as leis de acesso com a ajuda de novas leis que dão todo e qualquer tipo de crédito ao sigilo forçado e vergonhoso de documentos que poderiam nos ajudar a entender muito melhor a história (não tanto recente, em consideração a Guerra do Paraguai) do Brasil.

Iluminismo na Espanha do século XVIII

É conhecimento comum a todos o fenômeno Iluminista que ocorreu na Europa que se estendeu do final do século XVII até o início do XIX. Aprendemos na escola os principais ilustrados que são em sua grande maioria franceses e ingleses e as grandes conseqüências que isso trouxe para o continente, especialmente e com grande ênfase para a França.O problema é que, apesar de ter sido um fenômeno de proporções geográficas bastante extensa, a região Ibérica teve particularidades bastante significativas.


Até o século XVI, Portugal e Espanha gozavam de um prestígio de muitos poucos. Eram os protagonistas econômica e politicamente na Europa. Dominavam os mares e extensas terras em outros continentes além do intenso comércio de especiarias entre Ásia e Europa. Mais tarde, graças às possessões americanas, eram referência em metais preciosos e no comércio açucareiro (este último, como bem sabemos, não tão monopolizado pelos portugueses).


Pois bem, em especial na Espanha, com o surgimento do Iluminismo, que surgiu e caminhou ao lado do Iluminismo francês, tinha uma particularidade. Os Ilustrados espanhóis tinham consciência de sua real ou suposta decadência (Agesta). Assim, como falar em progresso diante de uma Espanha em decadência (não em crise!)? Além disso, ao contrário dos grandes ilustrados ingleses e franceses que vemos no ensino regular, que em sua maioria são ateus, deístas e lutadores bravos a favor da razão contra a Igreja, os ilustrados espanhóis, em sua grande maioria, faziam parte do clero. Como então reconciliavam a razão com a religião católica?


Diante de sua real decadência, a Espanha enfrentava no século XVIII a queda da arrecadação da prata, aumento da inflação, perdas dinásticas significantes como a independência dos Países Baixos, o fim da União Ibérica e em 1640 a quase perda da Catalunha. Os escritores do próprio século XVIII já viam seu querido país incapaz de alcançar o crescimento econômico da Holanda e da Inglaterra. Tudo isso dentro de uma perspectiva histórica da época em que tudo acontecia em ciclo. Se um dia a Espanha foi o grande Império que foi, agora era a hora de sua decadência, e nada podia se fazer sobre isso.


Essa idéia de história cíclica mudou com o Iluminismo. O homem tinha razão e por isso poderia mudar a história. Assim, o progresso para a Espanha ilustrada mostrou-se como sendo sua salvação e, para isso, era preciso iluminar seus cidadãos para que fosse possível mudar o país mudando, primeiramente, os espanhóis.


Mas por que suposta ou real decadência? Luis Sanches Agesta, um historiador do século XX, questiona essa real decadência considerada pelos espanhóis do século XVIII. Será que a Espanha foi tão grande assim? Mesmo em seu auge de Império, a nação espanhola enfrentou outros problemas, não tão equiparáveis com os que ela enfrentava no século XVIII, é claro; mas enfrentou.


Quanto à fé, os ilustrados espanhóis muito convincentes foram ao enunciar que a religião católica era a mais racionável de todas. Assim, apesar de muitos problemas contraditórios encontrados nesse assunto, conciliaram muito bem a fé e a razão na Espanha Ilustrada.

Os antecedentes do Rei Arthur

O mês já está quase acabando e eu nem passei por aqui direito. Mas nunca enfrentei umas férias tão cheia como esta. Estou mandando currículos meus para escolas de inglês e algumas delas exigem testes, mesmo se não há interesse algum em contratar um professor. Outras me chamaram, mas infelizmente nada deu certo. Ainda sou alguém sem carteira assinada. Isso tem me ocupado bastante tempo e é disso o que mais preciso para escrever um texto que será publicado - mesmo que esta publicação seja pela internet, justamente porque há leitores. Além do mais, essas férias atrofiou ainda mais minha habilidade de escrita. Enquanto estava estudando e constantemente era obrigada a escrever para a faculdade, tudo bem. Essas semanas paradas fez minha redação ser mais deficiente e mais demorada de ser realizada. Mas enfim, por escrever pouco, há um certo acúmulo de assuntos em minha mente a serem escrito e pretendo desacumular tudo, mesmo que seja em agosto.

O que eu não posso reclamar desse mês em casa, é o tempo que estou tendo para ler livros de ficção que antes eu não podia. Há um ano e meio li os quatro volumes da série As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Brandley. Não sei se isso é coincidência, mas desde criança, quando comecei a ler, me interesso por histórias que usam como plano de fundo a História ou personagens históricos. Meu primeiro livro, e isso vim a descobrir no início da faculdade, era em si próprio um documento: O Diário de Anne Frank. Devo a esta menina judia, que até sua morte e o final da segunda guerra era uma anônima e, agora, mesmo depois de mais de 60 anos, é uma referência para o mundo inteiro. Devo a ela meu gosto pela leitura.

As Brumas de Avalon se passa na Alta Idade Média na região da Brittania, quando o Império Romano já estava desintegrado, a Igreja Católica fincava suas raízes por toda a Europa, as religiões pagãs perdiam espaço em sua própria terra e as tribos e comunidades bárbaras colocavam medo em povos, que um dia, haviam sido protegidos pelos imperadores romanos. Neste contexto, surge o famoso Rei Arthur, seu fiel escudeiro Lancelot, o inteligente Merlin, sua linda e devotada esposa Guinevere e a bruxa Morgana. Mas nas Brumas, tudo isso tem uma perspectiva diferente: das mulheres e assim, a história tem seu lado sentimental, bastante característico do universo feminino, e seu lado político e religioso, que mostra o quanto as mulheres são fortes e tão capazes quanto os homens. Os livros da Marion, aliás, acusam essa errônea ideia de que as mulheres são frágeis e incompetentes em matéria de política como originalmente dos romanos, já que na Brittania, as mulheres possuiam um papel de influência política muito superior que a dos homens.

Pois bem, nessas férias li dois livros que se colocam cronologicamente anteriores às Brumas. A Casa da Floresta e A Senhora de Avalon, não tem o poder te prender o leitor de uma maneira que não é possível acabar de ler enquanto o livro não acabar e, quando acaba, aquela sensação de tristeza e de que no mundo inteiro não há livro tão bom quanto este que acabou de ler não invade nossos corações. Se, como eu, faz tempo que se leu as Brumas, a vontade é de rele-lo; se não os leu ainda, a vontade é de pegá-los imediatamente e começar a tentar descobrir qual será o destino das grandes sacerdotisas que servem à Grande Deusa.

A Casa da Floresta se encontra no fim da Idade Antiga, quando as dominações romanas estão crescendo e os prisioneiros de guerra são usados como escravos para o fortalecimento do Império. A religião oficial ainda é aquela de origem grega, cujos deuses têm como nome o que hoje correspondem aos nomes dos planetas do Sistema Solar. A religião cristã está começando a aparecer e os fiéis católicos são tratados pelos romanos como profetas irritantes. A maior preocupação das sacerdotisas e dos druidas e o plano de fundo principal da história são principalmente políticos. O amor impossível entre uma futura sacerdotisa e o filho de um importante funcionário romano é um pouco clichê e deixa a história um pouco monótona, mas a leitura vale a pena pelo seu final, principalmente.

A Senhora do Lago já se passa em três momentos diferentes e mostra a evolução da religião cristã, o início da Alta Idade Média na região da Brittania, a desintegração do Império Romano e o que as grandes sacerdotisas de Avalon precisam fazer para conservar sua religião e seus costumes. E, principalmente, mostra os preparativos e os antecedentes da vinda do Grande Rei Arthur e, inclusive, suas antigas reencarnações.

Entre tantas coisas lindas que são mostradas nestes dois livros e na série das Brumas a mensagem de que existe um só deus é uma das mais belas. As sacerdotisas da Grande Deusa não renega nenhum outro deus e dizem que todos os deus, independentes da forma e do nome que assumem, são um só; a diferença é que elas têm o grande privilégio de ver a forma real da deusa: vê-la como ela realmente é. O que traz o desequilíbrio entre as religiões é o fanatismo e o papel que elas assumem na política.

Enfim, os livros da série As Brumas de Avalon devem ser lidos por todos que gostam de romance, política e história.

Casa-Grande e Senzala

Casa-Grande e Senzala é um clássico da historiografia brasileira escrito por Gilberto Freyre na década de 1930. Dentre as leituras que fiz no meu primeiro semestre de faculdade, me atrevo a dizer que este é um livro único. Antes de uma obra historiográfica é uma compilação do que chamo de curiosidades históricas. A cada virada de página, que são mais de 400, dizemos “Nossa, que curioso!” ou então “Ah...Então é por isso que fazemos isso!”. É também possível, ao contrário das leituras pesadas e cansativas que fazemos como obrigação para a faculdade, ler Gilberto Freyre com o mesmo entusiasmo que lemos um romance e as 400 páginas divididas em apenas cinco capítulos tornam-se apenas 200.

G. Freyre não poderia ter colocado nome melhor para o seu livro, que se concentra na formação e nas relações sociais do povo brasileiro e é bom fugir um pouco da corrente marxista (não estou dizendo que ele a negue). Dentre os cinco capítulos, um é dedicado a uma introdução geral, outro aos índios, outro aos portugueses e os outros dois restantes aos negros, estes considerados pelo autor, ainda mais que os indígenas, como os maiores responsáveis por dar ao povo brasileiro essa cara que possui.

Uma vez havia lido em um artigo sobre preconceito que não era possível apagar 300 anos de regime escravista da nossa sociedade. Pois bem, Gilberto Freyre mostra isso também, mas sob um outro ângulo. As relações entre a casa-grande e a senzala foram fundamentais para que hoje se valorize a morena, que o povo brasileiro seja escandaloso gritando com quem fala, que nossa cozinha seja tão nossa e, principalmente entre tantas outras coisas que G. Freyre fala, que essa relação entre senhor e escravo foram fundamentais para dar ao brasileiro essa característica de povo acolhedor e alegre que ele tem e tão única – não sendo reflexo dos portugueses e nem dos negros, sendo uma mistura entre eles, com uma parcela de ajuda dos nativos.

Tem uma hora na leitura que pensamos se há algo sobre o qual ele não fala. Ele explica porque se têm no Brasil tantos sobrenomes repetidos, porque somos tão alegres e receptivos, além de falar sobre a prostituição no Brasil colonial, assim como as crendices, as comidas, os casamentos, etc. Assim, a senzala complementa a casa-grande e desse complemento surge... Nós! Uma coisa interessante que é lembrada várias vezes durante o texto, é a semelhança, segundo o autor, entre a colonização na América Portuguesa e na região que hoje corresponde ao atual sul dos EUA.

Para dar um gostinho das curiosidades contidas no livro, aí vão duas. O brasileiro é conhecido como um povo feliz e bem animado porque, e isso não é segredo para ninguém, tem em seu sangue a descendência dos negros. Pois bem, mesmo os indígenas que aqui já viviam no clima tropical se sentiam mais alegres no frio e na chuva; Freyre fala de relatos que colocam os índios dançando e sorrindo na chuva. O autor relaciona esse prazer dos indígenas aos seus antecedentes que viviam em climas gelados antes de atravessarem o Estreito de Bering. Os portugueses, por sua vez, eram europeus, acostumados com o clima temperado, sentindo-se assim pouco adaptados ao calor tropical. Agora os negros sempre fizeram parte do calor da África, se sentindo mais confortáveis e felizes no calor dos trópicos. É a isso que Gilberto Freyre acusa como sendo o motivo de, principalmente os baianos, serem um povo tão alegre. Para falar a verdade, em todo o texto o clima se apresenta como um fator determinante de comportamento.

Outro aspecto interessante é o motivo mostrado por Freyre para explicar essa predileção que o brasileiro sente por mulatas. Às mulheres brancas eram arranjados casamentos quando ainda eram muito novas. Com 13, 14 anos casavam-se com senhores de 40, 50 e até 60 anos de idade. Assim, muitas morriam no parto por serem muito novas ou então pela precária medicina da época. Muitas crianças viravam órfãs de mães e eram entregues às amas de leite para serem amamentados e cuidados. Esse foi o principal contato entre negros e portugueses para que surgisse essa preferência pela mulata, as palavras amaciadas ditas pelas negras (como iôiô, dodói e nenê) e o ciúmes das mulheres brancas da colônia. Freyre, usando a psicanálise de Freud dá exemplos de casos em que os homens só conseguiam gozar com uma negra e de um casal recentemente casado que, para o homem se excitar, era preciso levar consigo para a cama uma pedaço de roupa de sua mulata amada para sentir seu cheiro.

Enfim, Casa-Grande e Senzala é uma leitura cheia desses detalhes da vida colonial cujos alguns resquícios estão presentes em nossas vidas até hoje.