Evening in Paradise, a continuação de Manual da Faxineira, Lucia Berlin

Eu tenho essa mania de retornar a autores que eu gostei muito num espaço curto de tempo. Sou um pouco repetitiva? Talvez. Depois de A Época da Inocência, repeti Edith Wharton com A Casa da Alegria. Agora, dobradinha com Lucia Berlin. Gostei tanto de Manual da Faxineira, me senti tão envolvida e mergulhada em seus contos, que não pensei duas vezes em ler Evening in Paradise, outra coleção de contos da autora e ainda não publicada no Brasil. 

Nesta coletânea, os contos têm os mesmos cenários, as mesmas temáticas, a mesma força narrativa, mas parece uma continuação de Manual.  Em Manual, somos apresentados ao "universo Lucia Berlin". Demora um pouco para a gente conseguir mergulhar de cabeça e começar a se sentir familiarizada com a narrativa. Como as estórias são inspiradas em sua própria vida, personagens e lugares vão se repetindo nos contos, mas nada é explicadinho. É com a leitura de conto atrás de conto, página após página, que vamos montando esse "quebra cabeça" da vida da autora. 

A leitura individual dos contos de Lucia diz bastante, mas é no conjunto, como se fossem capítulos de uma grande estória, que os contos ganham mais poder narrativo. Por isso senti que eu já cheguei preparada em Evening in Paradise: apesar de nomes trocados, eu já pude identificar quem eram os personagens e quais os momentos da vida de autora. Recomendo, justamente, fazer este caminho. Primeiro Manual da Faxineira e depois Evening in Paradise, porque me parece que os contos aqui são menos óbvios, menos "explicados". Me parece que eles já pressupõem uma certa familiariade. 

Não vou me estender nesta resenha porque pretendo escrever um texto sobre Lucia Berlin para o site Querido Clássico (depois atualizo este post com o link), mas gostaria de registrar brevemente o caminho que os contos percorrem em Evening in Paradise.

Os contos seguem uma ordem cronológica e começamos durante sua infância na casa de seus avós, enquanto seu pai está na guerra. Lucia nos conta sobre o Texas, os mexicanos e a família síria vizinha. Depois partimos para Santiago, Chile, onde a adolescente Lucia nos conta um pouco sobre suas amizades, sua mãe alcoolatra e sua sexualidade. Em Itinerary, uma descrição lindíssima de seu longo caminho entre Santiago, Chile, para o college em New Mexico. Um caminho com várias paradas: Santiago - Lima - Panama - Miami - Albuquerque, New Mexico: a mudança da estação, as pessoas que conheceu pelo caminho, o abandono de sua vida confortável e familiar para a solidão da vida adulta no destino final. 

A partir daí, o fim precoce de sua vida colegial e o início prematuro da vida de esposa, mãe e dona de casa. Relacionamentos amorosos, drogas, álcool, Nova York, Natal em família no Texas, resort de férias no México, touradas, a fragilidade da vida e a presença constante da morte. Como na primeira coletânea, muitos cenários, muitos temas, mas a solidão, o deslocamento e a busca constante de sentir-se parte de algo, de um lugar, continua presente. Uma espécie de autobiografia completamente ficcionalizada. 

Tomara que esta coletânea seja logo publicada no Brasil, pois é uma linda continuação do Manual da Faxineira, indispensável para quem leu Manual e se sentiu encantado. 

O dia em que Selma sonhou com um ocapi, de Mariana Leky

Eu gosto muito de literatura contemporânea, mas fazia um tempo que não lia nada publicado recentemente. Quebrei o jejum com What you can see from here, Mariana Leky, publicado originalmente na Alemanha em 2017 e, no Brasil em 2019 com o título O dia em que Selma sonhou com um ocapi. 

Cheguei até ele por indicação da Mia Sodré. Procurei a descrição e, de cara, amei a premissa: toda vez que Selma sonha com um ocapi, alguém na vila morre em 24 horas. Parênteses: ocapi é um mamífero originário da África. Não é bonitinho. É bem feio na verdade, o que explica sua falta de popularidade. Eu fiquei super intrigada como se fosse uma antropóloga: como se comportariam os familiares e amigos de Selma e os habitantes daquela vila sabendo que, possivelmente, aquelas seriam suas últimas 24 horas de vida? Seria "deixa eu comer tudo o que eu posso até passar mal porque não sei se estarei aqui amanhã", ou "hoje eu não vou para a academia, porque o que importa se eu vou morrer hoje mesmo", ou "hoje me vingo e mato aquele FDP", ou ainda "não sairei da igreja e vou implorar para Deus me poupar"? Qual seria o tom? Melancolia? Caos social? Apocalíptico? Divertido? Irônico? 

Absolutamente nada disso. Mariana Leky é muito original. 

A história é narrada por Luisa, neta de Selma. Elas vivem numa pequena vila na Alemanha Ociental. O livro me lembrou um pouco Sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, que se passa na Polônia e sobre o qual escrevi aqui. Me lembrou no sentido de que a narrativa se parece uma fábula. Ambas as histórias têm como protagonista uma senhora idosa, se passam num pequeno povoado, a relação entre as senhoras e a vizinhança é de muita proximidade, a paisagem natural, inclusive os animais mencionados, são os mesmos - temos a floresta, a planície, o veado e o caçador. No livro de Olga Tokarczuk, há um misticismo presente em toda a narrativa e, no livro de Mariana Leky, encontramos também um universo fantasioso, cheio de superstição. 

Quem já teve a chance de conhecer essas vilas pequenas da Europa, lê a narrativa de Mariana Leky com muita familiaridade. Um lugar onde o tempo passa e, ao mesmo tempo, tudo continua igual. Onde as pessoas, apesar do nome, são conhecidas e chamadas pela sua função dentro da comunidade, como o oculista, o lojista, ou o sorveteiro. É uma leitura apaixonante, envolvente e, como numa fábula, passamos pelas 300 páginas bem rapidamente. Vamos acompanhando alguns anos da vida de Luisa que, no começo da história, quando sua vó sonha com o ocapi, tem apenas 10 anos. No final, terminamos o livro com uma Luisa de 30 anos. 

Na minha opinião, o grande mérito da narrativa de Leky é colocar beleza onde, a princípio, não há. A mesmice, o cotidiano, a vida simples daqueles que nascem, crescem, casam-se, envelhecem e morrem no mesmo lugar. Diálogos sobre coisas simples, pequenos pensamentos filosóficos feitos por pessoas normais. E, principalmente, a morte. Leky trata com sensibilidade todos esses aspectos humanos profundos de maneira simples e sofisticada. 

Teve apenas uma coisa da qual não gostei. O livro começa muito bem, mas acaba mal. Não gostei do epílogo. Senti ele desconexo e até um pouco decepcionante. 

E por que um ocapi? 

Isso não é respondido no livro, mas segue a minha interpretação. Ao longo da narrativa, temos muitas "portas". Grandes momentos na vida de Luisa acontecem com portas, literalmente. Me parece que ocapi é a representação de tudo o que está do outro lado de uma porta que separa aquele mundinho pequeno circundado pelos limites da vila (ou seja, o conhecido) do resto do mundo (ou seja, o desconhecido). Tudo que vem "de fora" desestabiliza a ordem monótona e metódica daquelas pessoas. Primeiro o ocapi, no sonho de Selma, e depois Frederik, o monge budista. 

Essa dualidade entre conhecido versus desconhecido, conforto de casa versus aventura, consentimento versus curiosidade é bem representada na figura do pai de Luisa. O médico, de certa forma incompreendido, está sempre viajando para os lugares mais remotos e menos óbvios. Ele é um aventureiro ou está procurando algo que não é possível encontrar? A cada retorno para ver sua família, ele traz um pedacinho do que é de fora para dentro daquela pequena vila através de livros de viagens. 

Uma narrativa que se passa em uma vila da Alemanha Ocidental entre os anos de 1980 e 2000 não poderia passar imune ao seu contexto histórico. O trauma da guerra para aquelas pessoas está na figura de Heinrich, avô de Luisa, que nunca o conheceu. Um dia ele foi para a guerra e nunca mais voltou. As fotografias e memórias que restaram deste personagem são poucas. Quase não há informação. É como se, o pouco que temos, tivesse escapado pelas frestas de uma porta que se fechou e nunca mais foi aberta quando ele saiu daquela pequena vila para o mundo desconhecido. Talvez este seja um pouco que eu não tenha gostado muito. Eu acho que o papel da Alemanha nas duas guerras mundiais tem que ser escancarado, debatido e definitivamente não colocado do outro lado da porta. Heinrich aparece toda vez como uma lembrança muito distante, cuja imagem é quase apagada, e eu acho que a violência vivida  - causada e sofrida - na Alemanha no século XX tem que ser clara claríssima. 

Mas, apesar disso, é um livro lindíssimo, recomendo bastante. É uma narrativa sobre morte e luto de forma sensível e profunda. Apesar dos pontos que eu não gostei, é uma leitura muito prazerosa e envolvente. Porém, tem que estar preparado para sentir conforto mas também muita dor. Prepare os lencinhos para o final da primeira parte do livro. 

Um ocapi  - Photo by tenaciously_tina on - Pixabay

Jogo, luxo, solidão e casamento em A Casa da Alegria, de Edith Wharton

O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.

Eclesiastes 7:4


Quando a gente gosta muito da leitura de um livro, é perigoso emendar outro em seguida do mesmo autor. Pode gerar comparações injustas, ou uma leitura bastante enviesada. Definitivamente, não foi o que aconteceu com a minha segunda experiência literária com Edith Wharton. 


Muito recentemente terminei A Época da Inocência. Um livro para o qual eu me entreguei. Eu li com atenção e até carinho. Tanto que escrevi uma análise bastante cuidadosa para o site Querido Clássico. Quando comecei, portanto, A Casa da Alegria, eu já sabia o ambiente que devia esperar: a cidade de Nova York na virada do século XIX-XX, as carruagens, os casarões da Quinta Avenida, os vestidos, viagem e todo o luxo da sociedade aristocrática desta época e lugar. O que eu não esperava era uma protagonista tão intensa e complexa cujas idas e vindas são tudo, menos fáceis de encarar. Foi como se A Época da Inocência tivesse preparado o terreno para uma leitura que seria ainda mais envolvente e cheia de desolação para mim. 

Em A Casa da Alegria acompanhamos dois anos da jovem nova-iorquina Lily Barth. Aos 29 anos, possuidora de grande beleza, Lily está a procura de um casamento que continue financiando seu gosto pelo luxo, pelo belo, fins de semana e viagens com a aristocracia e suas jogatinas. Lily foi criada em meio ao luxo, mas ficou orfã ainda criança. Depois que perdeu todo o dinheiro, seu pai morreu e, pouco tempo depois, sua mãe. Criada por uma tia, Lily tem uma pensão e seus custos de costureira assumidos pela protetora, mas isso é insuficiente para seu estilo de vida. Depois de perder o pouco que tinha em jogo de cartas, Lily toma decisões desacertadas uma atrás da outra, até que fica sem saída. 

O tema “jogo” permeia toda a narrativa, como se tudo o que Lily tem e deseja estivesse em aposta. As relações sociais é um grande jogo nos quais os personagens estão, a todo momento, querendo “ganhar” e Lily, assim como com as cartas, tenta manter o controle das situações, mas sempre acaba vítima das melhores cartas que estão na manga dos outros. Tudo porque Lily, apesar de seu gosto pelo belo e pelo luxo, ainda sonha com o matrimônio por amor, o que é quase incompatível no meio social que frequenta.

Apesar de gostar de Lawrence Selden e por ele sentir afinidade, Selden é um advogado, não é rico, nem aristocrático. Pior, ele é aquele ombro amigo que diz ajudar, mas quem mais julga o gosto e as amizades aristocráticas de Lily apesar de ele mesmo não escapar deste entorno. 

Gus Trenor, marido de Judy Trenor e amiga de Lily, diz ter especulado com o dinheiro de Lily na Bolsa de Valores e lhe entrega um lucro de 9 mil dólares. Na hora de cobrar sua comissão, descobre-se que ele tirou de seu próprio bolso esse dinheiro e cobra de Lily um pagamento que não é material. Como narrar uma cena de estupro em 1902, ano da publicação do livro? Como colocar tamanha violência em páginas num contexto de tempo e lugar que nunca admitiria uma narrativa assim publicada? Edith Wharton, com toda sua genialidade, consegue essa proeza. Ela coloca toda a dor, o sofrimento, o sentimento de solidão e culpa da vítima e os olhares julgadores da sociedade de modo a não deixar dúvidas que, apesar de não dito, uma violência foi consolidada. 

Ainda temos o judeu Simon Rosedale, um capitalista em ascensão que está enriquecendo e aumentando sua reserva e fluxo de dinheiro. Ele almeja fazer parte destes círculos aristocráticos e, por isso, vê no casamento com Lily uma porta de entrada. Lily o acha desprezível, mas quando percebe que sua vida está em maus lençóis, aceita o pedido de Rosedale, que retira a oferta. Em nenhum outro diálogo literário vi a mulher e o casamento tão bem descritos como uma mercadoria. Uma moeda de troca. Um papel na bolsa de valores que, conforme o contexto, pode ter seu valor em alta ou em queda. 

Finalmente, George Dorset, que propõe um casamento com Lily como forma de vingança contra sua esposa, Bertha Dorset. Ambos foram vítimas de uma situação criada por Bertha que faz todos acreditarem que Lily e George tinham um caso. Um casamento entre eles, nas condições que são colocadas, seria uma volta por cima e um “cala boca” contra Bertha. 

Lily tem ainda um segredo em suas mãos que envolve alguns destes personagens, mas ela decide manter-se firme, justa, não faz uso desta “carta” e decide procurar um emprego. Tenta sobreviver com a ajuda da única amiga que não lhe deu as costas, mas tudo torna-se cada vez mais difícil. Pequenas situações vão sendo criadas e cada vez mais ela vai sendo isolada de sua sociedade. Mas é como se, sem um casamento, ela não conseguisse. Não importa o quanto tentasse e o que fizesse, a impressão é que Lily seria mau vista, manipulada e desamparada enquanto estivesse solteira e só um casamento poderia salvá-la. Além disso, a dívida com Gus Trenor vai consumindo seu coração e suas noites... Até que uma hora ela não consegue mais dormir e não dá mais. 

Neste romance, Edith Wharton constrói personagens dúbios e situações constrangedoras que nos fazem nos sentir desconfortáveis. A autora também consegue nos passar o sentimento crescente de solidão. A cada página, junto com a situação cada vez mais difícil de Lily, a desolação vai crescendo em nós leitores. Um desespero que culmina em tristeza e desamparo. Muito recentemente a José Olympio do Grupo Editoral Record lançou uma nova edição com tradução de Julia Romeu. Recomendo fortemente. 

O título A Casa da Alegria vem do livro de Eclasiastes 7:4. É como se o coração de Lily, enquanto vivia de forma tola e descompromissada em seu círculo rico e aristocrático, fosse feliz – ou pelo menos se sentia feliz. Mas conforme seu mundo vai se tornando nu e cru, o lado mais perverso das pessoas vão sendo escancarados e sua preocupação com dinheiro lhe consome, seu coração cada vez mais caminha em direção à casa do luto e lamento. 

Quando o livro é bom, mas os santos não batem

Antes de virar o mês, um rápido registro sobre a última leitura finalizada. Vai ser rápido porque não vou ficar aqui reclamando. Se for para falar muito, que seja para falar bem. 

A mão esquerda da escuridão, de Ursula K. Le Guin, foi um dos livros mais arrastados que eu li na vida. Eu não sei como não desisti. É um gênero totalmente fora da minha zona de conforto. Não costumo ler fantasia e muito menos ficção científica. Na virada de 2020-21, li a trilogia "O Problema dos Três Corpos", de Cixin Liu e, por mais que eu tenha gostado dos dois primeiros volumes, o terceiro não consegui terminar. Quando a narrativa fica abstrata demais, eu não consigo acompanhar.

Cheguei em "A mão esquerda da escuridão" por causa do clube do livro do Querido Clássico. Eu gosto de ler autores novos, me desafiar em leituras desconhecidas e, por isso, acho que não desisti do livro. Infelizmente, não consegui participar do encontro. Tivemos feriado de Dia de Ação de Graças aqui nos Estados Unidos, fomos viajar, tivemos corrida de rua no dia, mais fuso horário, um cansaço enorme e eu dormi a tarde inteira perdendo o encontro. 

De qualquer maneira, eu dei uma chance ao livro até a última página e não gostei.

Eu li algumas resenhas e achei que o livro merece a importância que ele tem. É bastante original o universo criado pela autora. Também reconheço o valor de uma mulher escrevendo ficção científica, um gênero tão dominado pelos autores homens. 

Mas, infelizmente, não deu. Eu demorei muito para compreender e engatar naquele universo. Ela já chega contando as coisas e a pessoa sem imaginação aqui sentiu falta de uma introdução. Fiquei perdida demais até meados do livro. Quando um dos protagonistas é capturado e levado para uma espécie de campo de concentração daquele planeta onde se passa a história, ficou mais interessante, mas ele logo é resgatado pelo outro protagonista e, pelas 100 páginas seguintes, eles atravessam um deserto de gelo. Tão difícil para eles quanto para mim, que achei a leitura desta parte tão desolada quanto o próprio cenário. Me deu sono, cansaço, preguiça e uma dificuldade imensa de continuar. Neste aspecto, muito realista a narrativa.

Única coisa que lamento foi não ter consigo participar do encontro, mas ler um livro e não gostar faz parte. Quanto mais a gente lê e se expõe, maiores as chances de encontrarmos algo com o qual não temos afinidade. 


Manual da Faxineira, de Lucia Berlin: seus contos são como um mergulho em alto mar

Tem uns livros que mexem com a gente e se tornam marcos de passagem. A gente é um antes e se torna outro depois que acabaram as páginas. Claro que são pouquíssimas as obras que conseguem ganhar essa estrelinha de reconhecimento. No meu caso, A Manual for Cleaning Woman de Lucia Berlin (1936-2004) ganhou. Não é só por causa do livro em si. Para ganhar esse status, a obra precisa ser também lida no momento certo. Há um ano, Lucia Berlin não teria me tocado tanto como agora. 


A Manual for Cleaning Woman foi traduzido e publicado no Brasil com o título "Manual da faxineira" pela Companhia das Letras, mas eu peguei o livro na NYPL e foi em inglês mesmo. Cheguei até ele porque no curso de crônica que fiz pela Escrevedeira, o professor discutiu as diferenças e semelhanças entre os gêneros conto e crônica e, entre outros exemplos, nos enviou o conto Melina. 

Quando comecei a ler Melina, foi como um mergulho em alto mar sem tanque de oxigênio. Conforme foram avançando os parágrafos, eu ia cada vez mais fundo. Eu estava tão envolvida que praticamente não conseguia piscar. Quando acabei, foi como se em apenas um segundo eu estivesse na superfície recuperando o fôlego. Não são todos, mas são quase todos os contos escolhidos para esta coletânea trazem essa experiência. No texto de introdução da coletânea, Lydia Davis se pergunta "por que não conseguimos parar de ler um conto de Lucia depois que começamos?". Ela traz algumas respostas técnicas, mas para mim, no meu caso, é porque eles estavam falando diretamente comigo. 

Lucia Berlin nasceu no Alasca numa família americana, morou em algumas cidades dos EUA e viveu com seus avós maternos no Texas enquanto seu pai combatia na Segunda Guerra Mundial. Quando retornou, a família mudou-se para o Chile, onde ela passou boa parte da infância e adolescência. Ela voltou para os EUA somente quando começou o college em Albuquerque, New Mexico. Berlin nasceu com um problema grave na coluna, ela não viveria muito nem poderia ter filhos, disseram os médicos. Mas acabou se casando três vezes, teve vários amantes e quatro filhos. Trabalhou como recepcionista em hospital, diarista, professora, e foi mãe e dona de casa. Enfrentou anos de alcoolismo e por muito tempo lutou contra sua dependência. 

É desse cenário, a sua própria vida, que Berlin tira as referências para escrever seus contos. Li por aí que ela escreve autoficção. Não vou entrar na questão técnica, mas adianto que para mim autobiografias e biografias já são um tipo de ficção. Por que dizer que a água é molhada? Acho que suas histórias são tão bem narradas e envolventes que o leitor fica procurando "verdades", mas como é impossível negar a ficcionalização diz que é "autoficção". Berlin não escreve seus contos dizendo que são autobiográficos tampouco se os fatos narrados aconteceram de verdade, ela diz que o que importa "é a estória"*.  

Manual da Faxineira tem 43 contos que têm como cenário os lugares onde Berlin viveu e as pessoas com quem conviveu. Eu não li tudo de uma vez. Os contos são tão envolventes que no meio fiz uma pausa. Li outros dois livros neste interim e só depois retomei. 

Alguns contos são sobre coisas aparentemente banais, como os que se passam nas lavanderias coletivas: é como se nós ficássemos um dia como turista (ou antropólogo) em lavanderias norte-americanas com Berlin vendo como funciona essa lavação de roupa que máquinas, secadoras e espaços são divididos com pessoas tão diferentes. Justamente neste momento em que me mudei para os EUA e estou tendo que aprender a usar estas máquinas e dividir a lavanderia com desconhecidos. Um "lugar" que fica exatamente na divisão entre o  público e privado. Pessoas que você nunca viu e nunca verá novamente vê as roupas que você usa em momentos de intimidade e você vê as delas. Pessoas que dividem com você uma atividade doméstica fora de casa. 

Os contos de sua adolescência no Chile me tocaram de forma profunda. Principalmente porque muito recentemente eu vi os Andes, os chilenos e a Santiago sobre a qual ela fala. Em um conto, quando é mencionada a Embaixada dos EUA, eu pude com muita clareza visualizar o prédio e lembrar do dia que eu estive lá. Seu conto era tão real. Tão palpável. Era como se as palavras pudessem se materializar na minha frente.

Em Good and Bad, Berlin narra em primeira pessoa (acho que todos são em primeira pessoa, se não me engano) a relação de uma aluna e sua professora freira comunista. Foi uma das coisas mais incríveis que eu li em toda a minha vida e eu não estou exagerando aqui. Good and Bad  é sobre a adolescente Lucia, americana, estudando e vivendo no Chile, seu pai é funcionário do governo dos EUA, e uma de suas professoras tenta convencê-la de que aquele seu mundo rico e privilegiado é opressivo. Por isso, passa a levá-la, todo fim de semana, em orfanatos, instituições de caridade, recitais de poemas e reuniões de agricultores e classe operária chilena para ela ouvir e conhecer "os oprimidos". 

Em nenhum momento Lucia fala de bem ou mal explicitamente, ela não discute moralidade em tons abertos, ela apenas vai narrando os acontecimentos e escancarando como tentar definir o que é bom e o que é mal na sociedade e na política é impossível e sufocante. Não há dualidade. Na verdade, só há lamento. Ela viveu no Chile nos anos pré-golpe e neste conto ela está descrevendo, do ponto de vista da menina estrangeira, justamente este momento histórico.

Mas Good and Bad é uma exceção, pois é o único que traz essa abordagem política de forma tão aberta. Os outros contos trazem as dores da existência e do constante sentimento de estar fora de lugar no cenário mais cotidiano e banal.  A narradora dos contos está sempre deslocada, não importa onde e com quem ela esteja. 

Os contos que se passam no hospital são tristes. Trazem temas como infanticídio, alcoolismo, abuso infantil, aborto e a finitude da vida. São tratados com frases curtas, rápidas, e por isso parece que o mergulho é de uma vez só. Sua forma de narrar coloca lado a lado a normalidade e o choque que envolvem esses temas. 

Em Bluebonnets, a narradora é uma professora universitária de meia idade, que escreve poemas e faz traduções espanhol-inglês. Ela vai se encontrar com outro professor com quem tem se comunicado por cartas e cujo livro de crítica literária ela traduziu para o espanhol. Ele é misterioso, solitário, cuida com zelo de sua fazenda e, em sua mesa de trabalho, centenas de fichas de estudo. Ela é poetisa, solta, leve. Eles se envolvem de maneira fluída, natural a princípio, mas quando ela diz não entender o que ele diz, a relação fica tensa e impossível de ser quebrada. Ela diz que escreve, mas não entende a teoria sobre o escrever e que aquilo não importa para ela. Ele não compreende, afinal, ela traduziu os livros dele! Ele fica nervoso, se afastam e depois retomam a relação. É uma metáfora linda e intensa sobre a relação literatura e teoria. São conectadas, mas imposssíveis de viverem juntos.

Mijito é sobre uma moça jovem mexicana que, seguindo o amor da sua vida, entra nos EUA. Ele logo é preso por envolvimento com tráfico de drogas e ela fica sozinha. Ela mal fala inglês, não tem família e descobre estar grávida. É acolhida de forma temporária por conhecidos do marido, que a tratam mal, abusam de seu trabalho para serviços doméstico e fisicamente de seu corpo. 

Seu bebê nasce e chora. Chora muito. Ela não tem ninguém. Tudo acontece de forma que o labirinto que ela esteja vivendo fique cada vez mais complicado e impossível de achar a saída. Ninguém ajuda, explica, acolhe. O parágrafo no qual ela começa a enumerar o vocabulário em inglês que ela conseguiu apreender até ali é de cortar o coração. Ela está tão perdida e desamparada que o conto culmina com um dos finais mais tristes de toda a coletânea. 

Em  So Long, como um simples "Hello" pelo telefone pode fazer ela mergulhar na lembrança e na saudade de quem ela é ao falar inglês, depois de tanto tempo morando no México falando apenas espanhol. "Of course I have a self here, and a new family, new cats, new jokes. But I keep trying to remember who I was in English." 

Unmanageable é desesperador. Conto curto, poucas páginas. É sobre a agonia de uma mulher alcoolatra que acorda sufocada na madrugada e precisa de uma bebida, a todo custo, e ainda estar em casa a tempo de preparar o café da manhã para os filhos. 

Apesar de tantos cenários diferentes, o sentimento de deslocamento e solidão estão presentes em todos os contos. Eu sempre falo aqui que leitura, para mim, é experiência e que as resenhas deste blog não são uma análise "inteligente" dos livros que leio, mas sim um registro da experiência que tive com cada leitura. Pois bem, A Manual for Cleaning Woman foi uma das mais intensas dos últimos tempos. Me deixou feliz, triste, agoniada e pensativa. Recomendo para todos que estejam procurando uma narrativa envolvente que nos faz esquecer de comer e dormir para não abandonar a leitura. 


Obs: sobre o título desta postagem, em um dos contos a narradora passa um tempo com mergulhadores, num povoado isolado do México.  E é um conto tão mágico e envolvente que parece que podemos sentir a pele molhada e o cheiro do mar enquanto mergulhamos com ela. 

*Na introdução da coletânea Evening in Paradise, o filho de Lucia Berlin, Mark Berlin, diz: "Our family stories and memories have been slowly reshaped, embellished, and edited to the extent that I'm not sure what really happened all the time. Lucia Said this didn't matter: they story is the thing."