Casa-Grande e Senzala

Casa-Grande e Senzala é um clássico da historiografia brasileira escrito por Gilberto Freyre na década de 1930. Dentre as leituras que fiz no meu primeiro semestre de faculdade, me atrevo a dizer que este é um livro único. Antes de uma obra historiográfica é uma compilação do que chamo de curiosidades históricas. A cada virada de página, que são mais de 400, dizemos “Nossa, que curioso!” ou então “Ah...Então é por isso que fazemos isso!”. É também possível, ao contrário das leituras pesadas e cansativas que fazemos como obrigação para a faculdade, ler Gilberto Freyre com o mesmo entusiasmo que lemos um romance e as 400 páginas divididas em apenas cinco capítulos tornam-se apenas 200.

G. Freyre não poderia ter colocado nome melhor para o seu livro, que se concentra na formação e nas relações sociais do povo brasileiro e é bom fugir um pouco da corrente marxista (não estou dizendo que ele a negue). Dentre os cinco capítulos, um é dedicado a uma introdução geral, outro aos índios, outro aos portugueses e os outros dois restantes aos negros, estes considerados pelo autor, ainda mais que os indígenas, como os maiores responsáveis por dar ao povo brasileiro essa cara que possui.

Uma vez havia lido em um artigo sobre preconceito que não era possível apagar 300 anos de regime escravista da nossa sociedade. Pois bem, Gilberto Freyre mostra isso também, mas sob um outro ângulo. As relações entre a casa-grande e a senzala foram fundamentais para que hoje se valorize a morena, que o povo brasileiro seja escandaloso gritando com quem fala, que nossa cozinha seja tão nossa e, principalmente entre tantas outras coisas que G. Freyre fala, que essa relação entre senhor e escravo foram fundamentais para dar ao brasileiro essa característica de povo acolhedor e alegre que ele tem e tão única – não sendo reflexo dos portugueses e nem dos negros, sendo uma mistura entre eles, com uma parcela de ajuda dos nativos.

Tem uma hora na leitura que pensamos se há algo sobre o qual ele não fala. Ele explica porque se têm no Brasil tantos sobrenomes repetidos, porque somos tão alegres e receptivos, além de falar sobre a prostituição no Brasil colonial, assim como as crendices, as comidas, os casamentos, etc. Assim, a senzala complementa a casa-grande e desse complemento surge... Nós! Uma coisa interessante que é lembrada várias vezes durante o texto, é a semelhança, segundo o autor, entre a colonização na América Portuguesa e na região que hoje corresponde ao atual sul dos EUA.

Para dar um gostinho das curiosidades contidas no livro, aí vão duas. O brasileiro é conhecido como um povo feliz e bem animado porque, e isso não é segredo para ninguém, tem em seu sangue a descendência dos negros. Pois bem, mesmo os indígenas que aqui já viviam no clima tropical se sentiam mais alegres no frio e na chuva; Freyre fala de relatos que colocam os índios dançando e sorrindo na chuva. O autor relaciona esse prazer dos indígenas aos seus antecedentes que viviam em climas gelados antes de atravessarem o Estreito de Bering. Os portugueses, por sua vez, eram europeus, acostumados com o clima temperado, sentindo-se assim pouco adaptados ao calor tropical. Agora os negros sempre fizeram parte do calor da África, se sentindo mais confortáveis e felizes no calor dos trópicos. É a isso que Gilberto Freyre acusa como sendo o motivo de, principalmente os baianos, serem um povo tão alegre. Para falar a verdade, em todo o texto o clima se apresenta como um fator determinante de comportamento.

Outro aspecto interessante é o motivo mostrado por Freyre para explicar essa predileção que o brasileiro sente por mulatas. Às mulheres brancas eram arranjados casamentos quando ainda eram muito novas. Com 13, 14 anos casavam-se com senhores de 40, 50 e até 60 anos de idade. Assim, muitas morriam no parto por serem muito novas ou então pela precária medicina da época. Muitas crianças viravam órfãs de mães e eram entregues às amas de leite para serem amamentados e cuidados. Esse foi o principal contato entre negros e portugueses para que surgisse essa preferência pela mulata, as palavras amaciadas ditas pelas negras (como iôiô, dodói e nenê) e o ciúmes das mulheres brancas da colônia. Freyre, usando a psicanálise de Freud dá exemplos de casos em que os homens só conseguiam gozar com uma negra e de um casal recentemente casado que, para o homem se excitar, era preciso levar consigo para a cama uma pedaço de roupa de sua mulata amada para sentir seu cheiro.

Enfim, Casa-Grande e Senzala é uma leitura cheia desses detalhes da vida colonial cujos alguns resquícios estão presentes em nossas vidas até hoje.

Era uma vez um astro do pop

Willian Bonner: Michael Jackson está morto!
Eu: O que?????

A morte de alguém do nível de Michael Jackson faz nós, meros mortais, lembrar que ninguém, nem Michael Jackson e nem Elvis Presley, é imortal. Nunca se falou tanto sobre ele, nem se mostrou tantas vezes seus clipes e nem se tocou tantas vezes suas músicas.

Nunca fui muito fã desse cantor, gostava de uma música ou outra, principalmente as do início de sua carreira. Até porque, nesses últimos anos, sua imagem me assustava. Quem acompanhou no canal E! da TV a cabo o julgamento do ídolo POP quando acusado de pedofilia, viu que os episódios pareciam um filme de terror misturado com suspense, um verdadeiro thriller. Sua face deformada ajudava o clima pesado do tribunal e as acusações horrorosas.

Mas tão importante quanto o sucesso de suas músicas é o que Michael Jackson representa para o final do século XX. Essa noite, no Jornal da Globo, o colunista musical Álvaro Pereira Jr. comentou esse papel que o ídolo pop representa para essa geração que acompanhou a ascensão e decadência de Michael Jackson. Ele não só faz parte de um momento em que a música negra ocupava um lugar no sociedade segregacionista estadunidense, como representou alguém bastante infeliz com sua própria aparência dentro de um padrão de beleza branco, magro e de cabelos lisos.

No final dos anos 60 começo dos anos 70, a segregação racial nos Estados Unidos diminui um pouco, o que permite uma aproximação da música negra com o restante da população branca estadunidense. Um outro exemplo disso além de quem estamos falando é Stevie Wonder. Dentro desta perspectiva Michael Jackson logo se destaca entre seus irmãos dentro da banda da qual faziam parte: os Jackson Five. Assim, ainda quando era integrante do grupo, já lançava álbuns solos. Tudo isso graças ao carisma que Michael Jackson possuia, indispensável para um astro da música pop. Além de se caracterizar como sendo um artista completo. Sem desmerecer, é claro, outros artistas, MJ não só aparecia no palco para cantar, era ele quem escrevia e compunha suas músicas, criava as coreografias e exercia papel bastante importante na direção de seus videoclipes.

É inegável dizer que a partir de um determinado momento o astro entrou em decadência. Afundou-se em dívidas, envolveu-se em escândalos como quando foi acusado de pedofilia e quando pendurou seu filho ainda bebê pela janela, sempre foi de uma saúde frágil e era conhecido por ser viciado em analgésicos. Se ele realmente praticou pedofilia é difícil dizer, mas quanto ao seu filho pendurado na janela do quarto do hotel, é como meu pai disse: ele nem sabia o que estava fazendo. Uma pessoa que não tem jeito, nem prática de cuidar de crianças, foi apresentar o filho pela janela, e acabou, sem querer, pendurando-o do jeito que fez.

Tudo isso tem a ver com uma fragilidade emocional e física. Era muito criança quando entrou nesse mundo de celebridade, ausente de qualquer maturidade psicológica, e acabou sofrendo com sua própria fama. Esta foi tão grande que acabou tornando-se destrutiva. Ainda sim, devemos muito a Michael Jackson pela revolução que ele causou na música pop, graças ao seu talento imenso e único.

Talvez ele adquira a mesma fama que Elvis, e há quem diga por aí que Michael Jackson não morreu. Sobre isso aliás, tenho algo a acrescentar: há os que perdem seus batimentos cardíacos, suas características biológicas, mas nunca morrem. Há muitos por aí que comprovam isso.

O Tempo

Parece um pouco estranho falar sobre o tempo. É algo tão abstrato mas que está presente em todos os apectos de qualquer ser vivo. Primeiramente poderíamos nos perguntar: qual o sentido em estudar o tempo sendo ele nada importante para os animais que não sejam os seres humanos? Pois bem, o ser humano é o único animal que pára para pensar no tempo e o problematiza. Mas ainda dentro desse grupo tão numeroso, há as comunidades que consideram o tempo como cíclico e por isso não há motivo de querer problematizá-lo criando métodos de contagem e registros dos acontecimentos para gerações futuras... Porque tudo se repete.

O curioso é que já foi comprovado que a escrita não surgiu unicamente num lugar e depois se irradiou. Pelo contrário, ela foi surgindo em diferentes lugares sem necessariamente algum contato com outros povos e culturas que já haviam inventado a escrita. E essas sociedades são justamente aquelas que problematizavam o tempo e assim, acharam uma forma de registrar acontecimentos e pensamentos, que pudessem se exteriorizar da memória humana, para as futuras gerações. Mas como sempre, há também excessões, e existe aquelas sociedades que problematizam o tempo e mesmo assim não têm escrita: elas guardam a memória de si na mente de alguém do grupo, que passa sempre para a outra geração todo o conhecimento histórico que tem e assim sucessivamente. Assim como a sociedade Inca, cujos domínios eram de considerável tamanho, era uma sociedade complexa e mesmo assim não possuem numerosos registros escritos.

Outro ponto discutido na aula de quinta-feira em Metodologia da Historia que me chamou a atenção foi a multiplicidade de faces que o tempo tem. Será clichê eu dizer que o tempo é relativo, mas é mesmo. Diante de mudanças políticas o tempo é curto. Tudo acontece ao mesmo tempo e as informações também são transmitidas ao mesmo tempo em que acontecem (privilégio de nossa geração); dois dias sem me informar sobre o senado, a câmara, o presidente e outros, já me sinto desinformada e um pouco deslocada da realidade política de tanto que certos aspectos mudaram. Em uma guerra o tempo torna-se médio, lentamente ritmado. Tudo muda constamente mas ao mesmo tempo ela perdura por um certo período as vezes maior do que outros. Ou, ao contrário da história factual política, cujos acontecimentos são muito mais individuais, numa guerra o domínio de responsabilidades coletivas têm um peso muito maior. Finalmente, há também o tempo lento que torna a história quase que imóvel. O homem não consegue acompanhar as mudanças geográficas que acontecem ao seu redor, nem a evoluação das espécies. Acontecimentos como estes são imperceptíveis ao ser humano.

Diante disso, o historiador se assume na tarefa de articular todas essas faces do tempo levando em consideração suas particularidades e o objeto/tema a ser estudado. Só mais uma coisa: adorei a aula de ontem!

Ibérica - 1° parte

Visando facilitar meu trabalho de História Ibérica I, irei postando aos poucos, tudo o que eu achar importante para a formatação de minha pequena monografia. Com isso, ao término das pesquisas, terei um conjunto de posts sobre um mesmo assunto que não deixará eu esquecer informações cruciais. O trabalho se trata sobre as políticas tomadas por D. João II e, posteriormente, por D. Manuel I, ambos reis de Portugal, diante de uma massa de judeus expulsos da Espanha pela Inquisição que lá já havia se instituído. Nesse post, tudo que será dito, foi baseado na leitura dos primeiros capítulos do livro Inquisição e Cristãos-Novos de Antônio José Saraiva.

A Inquisição significou a aliança entre o poder monárquico e a Igreja, que agiu de maneiras diferentes em cada nação em que se instituiu. Os judeus, por exemplo, é um problema exclusivamente ibérico (região na qual coexistiram três religiões por muito tempo: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo); apesar de ocuparem papel de destaque na economia espanhola e, principalmente, portuguesa. Isso pode ser um indício de que a população cristã sofria um atraso econômico e social nessa parte da Europa: a burguesia cristã não tinha condições de enfrentar, muito menos substituir, a burguesia judaica.
Os judeus também exerciam importante função social. Apesar de serem protegidos pelos reis, permaneciam às margens da sociedade: eram eles quem praticavam a usura, cobravam impostos, e viviam entre os cristãos para não esquecerem que pertenciam à linhagem que crucificou Jesus Cristo. Assim, desde a Idade Média, os judeus foram considerados como estranhos que não se misturavam, como um povo reservado e quieto que culminou com o famoso Holocausto no século XX.
Diante de tudo isso, a perseguição aos judeus na Espanha começa em 1391, em 1449 é feita a primeira lei de "limpeza de sangue", em 1478 os Reis Católicos (Fernando de Aragão e Isabel de Castela) instituem a Inquisição em Castela e, finalmente, em 1491 é ordenada a expulsão dos judeus num prazo de 4 meses, muitos dos quais, se dirigem à Portugal. Esta, cobrou impostos de recebimento, um pouco menor para judeus que realizavam determinados trabalhos manuais com ferro, na promessa que dentro de um determinado prazo seria lhes dado um navio para irem onde quisessem. Bom, ao final desse prazo, uma parte embarcou para o norte da África e a que ficou foi reduzida à escravidão, vendida ou doada pelo rei Dom João II.
Em 1495, Dom Manuel restitui a liberdade aos judeus, mas logo depois, em condição de casamento, dá um prazo de mais de 10 meses (em contraposição a Espanha, que deu um prazo de 4 meses) para a expulsão dos judeus de Portugal. Durante esse período, D. Manuel separou as crianças menores de 14 anos de suas famílias para serem criadas por famílias cristãs e isenta de qualquer acusação religiosa o povo judeu. No dia da expulsão, quando estavam no porto, um bando de frades, jogou água sobre os judeus e assim os batizaram à força. Diante disso, poucos conseguem embarcar.
A partir disso, D. Manuel cria políticas de integração entre os cristãos-velhos e os cristãos-novos (judeus que foram batizados), além de prorrogar o tempo de proibição de acusações de práticas judaicas, proibir a emigração de cristãos-novos e criar leis que acabassem com a discrminação. Dom Manuel parece assim um rei muito bonzinho, mas na verdade ele nada mais é do que bastante maquiavélico. Proibiu as emigrações porque os reis da Espanha queriam os cristãos novos de volta e, em 1515, em resposta ao Rei da Espanha, pede ao seu correspondente em Roma para que peça ao Papa para instituir uma Inquisição em Portugal alegando que os cristãos-novos da Espanha estavam sendo um mau exemplo aos cristãos-novos portugueses por praticarem o judaísmo escondido e agirem como rebeldes.
Ao término de seu reinado, a Inquisição ainda não havia sido instituida em Portugal e conforme o que pretendia sua legislação, houve uma assimilação dos antigo povo judeu como cristãos pelos portugueses (comprovado pelos inúmeros casamentos entre cristãos-novos e velhos)

Eu amo tudo o que foi

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa
1931

Como meu príncipe me fala, se não fosse tudo o que aconteceu, possivelmente não teríamos nos encontrado, e mesmo que tivessemos nos encontrado, capaz que tudo o que aconteceu entre agente (que foi simplesmente perfeito) não teria acontecido como ocorreu. Por isso que eu amo tudo o que foi e, principalmente, a dor que já não me dói.

Além disso, constantemente me descubro um pouco mais, e me amo apesar de todos os meus defeitos. E assim, a antiga e errônea fé se transforma numa nova e certa fé!

Feliz Páscoa à todos. Não sou uma pessoa muito comemorativa, mas desejo que todos possam comer chocolates. Afinal, essa é o único momento do ano que podemos passar mal de tanto comer chocolate e ainda engordar e ser vítima de um ataque de espinhas em conjunto, portanto, ninguém julga ninguém.

Eu adoro a língua portuguesa. Não porque me dou bem com as regras da gramática, nem porque sempre tive boas notas nessa disciplina. Mas porque não é uma língua técnica. Ela é complexa, sonora e propícia a bons poemas e lindas poesias.