O Corcunda de Notre Dame: minha estreia lendo Victor Hugo
Retrato de Uma Senhora, de Henry James: tradição versus modernidade, casamento e liberdade
Retrato de uma Senhora está entre as obras mais importantes de Henry James e da literatura norte-americana. Depois de A Outra Volta do Parafuso e A Herdeira de Washington Square, Henry James me conquistou e outras obras entraram na lista. E assim comecei The Portrait of a Lady. Foi um dos livros mais difíceis que li nos últimos tempos. Li em inglês e o começo, até me familiarizar com os personagens e ambientes, foi muito devagar e complicado. Mas insisti, funcionou, e segui pelas 800 páginas.
O enredo
Publicado em forma seriada durante o ano de 1881, Retrato de Uma Senhora conta a história de Isabel Archer, uma jovem moça da cidade de Albany, capital do estado de Nova York. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel estava pobre, sozinha e um casamento era a única coisa que lhe restava. É aí que chega sua tia Mrs. Touchett, irmã de sua mãe e também nascida nos Estados Unidos, e convida-a a seguir com ela para suas casas na Europa, onde já morava há muitos anos. E assim começamos a saga da heroína Isabel Archer: sua chegada nos jardins de uma mansão inglesa, onde ela conhece seu primo Ralph Touchett e seu tio Mr. Touchett.
Na Inglaterra ela conhece Lord Warburton, um dos vários candidatos que vai pedi-la em casamento. O outro galã, ao contrário do lord inglês (como nos romances, Isabel diz), será Caspar Goodwood, um jovem businessman de Harvard, que enriqueceu com a indústria de algodão. (É curioso como James caracteriza este personagem fisicamente: de maxilar quadrado e um porte excessivamente masculino, me trouxe imediatamente a imagem do Gaston, personagem do filme da Disney, A Bela e a Fera.)
Isabel chega na mansão dos Touchett, chamada de Gardencourt, trazendo um frescor inocente, curioso e cheio de otimismo e desejos pela vida. Ela conquista a afeição de seu tio que, no leito de sua morte, decide deixar para a pobre moça uma pequena herança. Ralph, no entanto, de saúde frágil e baixa expectativa de vida, pede ao pai que diminua a sua própria herança e deixe a maior parte para Isabel. Provida de muita dinheiro, diz Ralph, Isabel poderia conquistar a liberdade que tanto desejava. "Mas ela não será vítima de caçadores de fortuna?", pergunta o pai. Ralph confirma que este risco ela irá correr, mas que ele está curioso e gostaria de ver e acompanhar como a prima vai lidar com essas questões.
Mr. Touchett morre, Isabel torna-se uma moça solteira muitíssimo rica e, sedenta por liberdade, recusa os pedidos de casamento do Lord Warburton e de Caspar Goodwood, partindo em direção à Itália com sua tia. A partir daí, a história se desenrola em casarões e ruínas nas cidades de Florença e Roma.
Ainda na Inglaterra, Isabel conhece uma amiga de sua tia que, assim como elas, havia nascido nos EUA, mas morava na Europa já há muitos anos. Mrs. Merle, para Isabel, é a perfeição: elegante, inteligente, culta e sabe agradar. Mrs. Merle também mora na Itália e, depois das pequenas férias em Gardencourt, partirá com Mrs. Touchett e Isabel para Roma e Florença, sendo um personagem importante na segunda parte da história.
Através de Mrs. Merle, Isabel conhece o viúvo Gilbert Osmond, outro expatriado que tem uma filha adolescente, chamada Pansy. Osmond é um personagem interessantíssimo: ele quer ser um aristocrata e vive, fala e se comporta como um. Seu gosto é o puro refinamento da aristocracia e sua visão de mundo é conservadora, mesmo ele sendo pobre e nascido nos EUA. Ele condena tudo o que é do novo mundo, dos novos costumes, e tem um gosto excessivo pelo convencional. (Praticamente um Caco Antibes.)
Mrs. Merle e Osmond têm uma relação bastante suspeita e, após a morte de Mr. Touchett e o recebimento da herança por Isabel, tramam um casamento entre a moça e Osmond. Bom, a partir daí, não vou continuar a história, mas adianto que Isabel - contra tudo e contra todos - decide-se casar com Osmond.
O Novo no Velho Mundo
Apesar da dificuldade que encontrei no começo do livro, por que continuei? Logo de entrada, me interessei demais pela relação de Isabel, uma moça do Novo Mundo, descobrindo as coisas no Velho Mundo. Eu me vi muito nela, quando fui pela primeira vez para a Europa, em 2017. Existe um impacto enorme quando nós, que nascemos e crescemos em países de histórias tão recentes - ex-colônias que conquistaram suas independência há menos de 200 anos -, pisamos em lugares que reinvindicam o início de suas histórias em tempos antes de Cristo.
Não é sem intenção que o autor coloca sua heroína caminhando pelas ruínas do Coliseu. É o velho versus o novo, a modernidade versus a tradição. No campo da geopolítica, era o recente país Estados Unidos da América se legitimar como uma nação potente e não mais como ex-colônia; no campo da literatura, era Henry James colocando sua obra no panteão da literatura ocidental.
Temos uma tendência de idealizar o passado, e mais ainda idealizar um lugar que tem um passado que nós não temos. Estar na Inglaterra e conhecer um verdadeiro Lord, diz Isabel, é "como viver um grande romance". Por isso os personagens deixam os Estados Unidos e, na Europa, vivem uma vida aristocrática parada no tempo, andando a cavalo e caminhando pelas ruas milenares europeias, enquanto do outro lado do Atlântico, linhas ferroviárias estavam sendo construídas para ligar o Atlântico e o Pacífico, metrópoles estavam sendo erguidas, e o avanço tecnológico e financeiro se desenvolvia rapidamente de um dia para o outro.
O progresso tecnológico bate de frente com o conservadorismo social e é aí que entra o casamento frustrado de Isabel Archer.
O casamento como liberdade e prisão
Eu li Isabel Archer e sua saga de duas maneiras.
A primeira, como uma personagem feminina que, com os privilégios de uma boa e confortável educação burguesa, cresce com a inocência e vontade de conhecer o mundo. Ela quer ter novas experiências. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel se vê sozinha, encantada pelo mundo dos livros e é apenas curiosa. Ela vê no casamento o risco de ficar presa e, com a companhia de sua tia e, depois, absolutamente rica, ela rejeita os pedidos de casamento de Lord Warburton e Caspar Goodwood sob o pretexto de preservar sua liberdade.
Mas o que é liberdade para a mulher no século XIX? Caspar Goodwood diz a ela: solteira, ela não pode andar sozinha por onde bem entender. Uma dama deve estar sempre acompanhada e é constantemente vigiada. Existe uma série de regras sociais do que uma mulher solteira deve ou não fazer para não sujar sua reputação. Só um casamento traria à ela a liberdade que ela desejava.
E é aí que ela vê em Gilbert Osmond, um compatriota, amante da beleza Antiga, que vive na Europa há muitos anos e cria sua filha com o rigor do conservadorismo Católico, a oportunidade de tornar-se uma dama e conquistar sua desejada liberdade nos círculos mais aristocrático europeus.
A segunda leitura foi de Isabel como uma metáfora do próprio país Estados Unidos, que vinha discutindo o conceito de liberdade intensivamente no último século. Quando o livro foi publicado, os EUA eram um país de apenas 105 anos, tendo conquistado sua independência da Grã-Bretanha em 1776. Depois disso, entre 1861 a 1865, o país enfrentou a Guerra de Secessão e, só em 1863 os EUA assinaram a abolição da escravidão. Liberdade era o tema do dia há muito tempo. Além disso, um país extremamente novo, estava procurando se encontrar, construir sua própria identidade, e apesar da tão desejada liberdade, era para a Europa que o país se virava para construir suas referências identitárias e culturais.
Isabel Archer, como uma metáfora dos Estados Unidos, olha encantada para os modos aristocráticos, as ruínas e a tradição do Velho Mundo. Por isso, ela decide casar-se com Gilbert Osmond, o compatriota americano mais conservador que ela poderia encontrar. Caspar Goodwood, o jovem industrialista de Boston, representava o progresso tecnológico, financeiro e o futuro; Lorde Warburton, apesar do título de nobreza, tinha ideias revolucionárias e um engajamento político relevante; Gilbert Osmond era o retrocesso do retrocesso. Sua admiração pelo passado, pelas coisas tradicionais e estáticas, seu gosto pelo Antigo, faz dele um retrógrado. Isabel, na sua inocência, viu no casamento com Gilbert Osmond a possibilidade de unir sua liberdade e juventude com o passado e a tradição.
Essa tentativa de união foi frustrada e deixo aos interessados descobrir porque. Mas acrescento brevemente que, recentemente li A Casa das Sete Torres, de 1850 e escrito Nathaniel Hawthorne. Neste livro, o autor também faz uma crítica à cultura aristocrática numa pequena cidade da Nova Inglaterra, colocando em personagens fantasmagóricos e uma casa mal-assombrada o passado vergonhoso da história de seu país que resistia ao progresso e às mudanças sociais.
Retrato de Uma Senhora é um livro difícil, mas maravilhoso, que pode ser lido sob diversos pontos de vista, principalmente por quem se interessa pela história dos EUA. Minha formação sempre faz eu ir para o lado mais histórico, mas também achei muito interessante como James fala sobre a mulher e o casamento no século XIX. É um autor que constrói grandes mulheres protagonistas, assim como Catherine Hopper, de A Herdeira de Washington Square. Em Retrato de Uma Senhora, Isabel Archer se sente toda hora deslocada, procurando seu lugar e sua identidade. Em alguns momentos ela só quer ser curiosa e aprender, descobrir as coisas. Ao mesmo tempo que existe uma força social daqueles que a rodeiam que manipulam suas ações, mesmo que ela ache que não.
Finalmente, só porque "Persuasão" é o tema do dia
Para finalizar, e ainda nesse assunto mulher e casamento, bem que o livro poderia ser chamar Persuasão, como a obra de Jane Austen. A palavra em si aparece inúmeras vezes durante a narrativa. Isabel é uma vítima da influência de Mrs. Merle e Osmond e, a todo momento, acontece um jogo de quem consegue persuadir quem, sem que a vítima da persuasão perceba que está sendo persuadida.
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Retrato de Uma Senhora foi traduzido por Gilda Stuart e publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras. Há uma versão em e-book para Kindle por menos de 5 reais.
Persuasão, Jane Austen - o livro que não me convenceu
Faz um tempo que não passo por aqui, o que não significa que não tenho lido. Além da vida tumultuada, minhas últimas leituras foram para o Querido Clássico e por isso as resenhas têm sido publicadas lá. Também fiz uma viagem de uma semana para o Texas durante o que eles chamam aqui nos EUA de Spring Break. Foi uma experiência incrível e, se der tempo, escreverei sobre algumas coisas no blog nos próximos dias. Mas hoje vim falar sobre o último livro que li: Persuasão, de Jane Austen.
Como um leitora que adora literatura anglófona, clássicos e um romancizinho, eu achava um erro nunca ter lido Jane Austen. Inclusive, nunca nem vi os filmes e só sei quem é Mr. Darcy porque a fanbase da autora é muito fiel. Aproveitei que a obra do mês de março do Clube de Leitura do Querido Clássico era Persuasão, e que eu havia ouvido falarem muito bem desta obra (escrita num momento mais maduro da autora), para conhecer a tão famosa Jane Austen.
Infelizmente, o santo não bateu. Quando cheguei na metade, eu queria deixar o livro de lado, mas insisti porque, afinal, às vezes vem surpresa boa. Não foi o caso. O livro é chatíssimo do começo ao fim. Não gostei dos personagens: achei que faltou carisma. Tirando a protagonista Anne (ela mesma muito apática), todos os outros personagens ou são chatos, implicantes e odiosos (como suas irmãs e pai), ou aparecem muito pouco. Lady Russel, a personagem que achei mais interessante, é mencionada sempre, mas nunca está presente nas cenas e, se está, sua participação é mínima. Ou seja, aquele "poder de persuasão" todo, a gente não conhece, só ouve falar.
É uma história de amor. Anne e Frederick Wentworth se amam e querem se casar, mas pelo fato de Wentworth ser um zé ninguém, Anne é "persuadida" pela Lady Russel e sua família a não se casar. Os pombinhos se separam e a história do livro começa oito anos depois quando, adivinhem, Wentworth volta RICO. (Gente, desculpa, achei tosco esse clichê) Ele volta amargurado, de coração partido, procurando uma noiva e Anne descobre ainda gostar muito dele. No decorrer das páginas vamos acompanhando essa reaproximação dos pombinhos.
O que faltou, no entanto, é o próprio Wentworth nessa história. Ele mal fala, sua presença nas cenas é mínima, ele é uma ideia praticamente. Uma ideia de Anne. E no final, sua declaração vem em forma de carta. CARTA. Enfim, que homem apaixonante é esse? Um homem que não tem voz, calado, que se comunica por vias escritas? Achei este herói o mais sem personalidade possível. Esse "amor" não me convenceu e achei chatíssima toda a interação dos dois.
Outra coisa que desgostei no final foi a conclusão de que "sim, foi melhor a gente não ter se casado há oito anos. Apesar de sofrido todo esse tempo e reaproximação, eu faria tudo de novo", enquanto esse sobrenome - Wentworth - pode ser lido como "a ida que valeu a pena"?
Fiquei pensando porque desgostei tanto. Acabei achando o livro um filme de princesas da Disney, na qual a protagonista, Anne, é a coitada rejeitada pela família, e o príncipe bonito que não fala vem salvá-la. Ou então, uma Malhação da vida, com muitos personagens, todos rasos e pouco interessantes, cuja história se desenvolve em torno de um casal apaixonado que vai ficar junto no final apesar da resistência de todos que estão a sua volta. Mas, não é possível! É a Jane Austen, sabe? Ela tem seus méritos, eu acredito nisso.
Concluí que se eu fosse mais nova, eu teria gostado mais desta história romântica, idealizada. Mas casada há alguns anos, eu vejo o amor e o casamento como uma construção, uma batalha que é feita diariamente, porque nenhum companheiro/a é calado e se comunica por cartas. O amor é construído na fala, no toque, na risada e no choro. Na briga e na conciliação, porque ninguém é perfeito. A gente vai errando e aprendendo a consertar os erros juntos. Por mais que às vezes eu goste de uma história romântica, não há heróis e heroínas perfeitas como Wentworth e Anne. Enfim, entendo o gênero, mas não me convenceu.
Outro fator que me fez desgostar deste casal e romance apático foram minhas últimas leituras. Em Charles Dickens, Edith Wharton, Henry James, Silvina Ocampo e Lucia Berlin, o casamento aparece como um elemento perigoso, que destrói e, as vezes, mata. E o amor? Bom, ele existe, mas ele é só mais um elemento dentro de uma série de conjecturas sociais que sufocam e colocam em xeque toda a supremacia idealizada deste sentimento.
Bom, é isso. Não gosto muito de ficar falando mal dos livros neste meu diário de leitura, mas é a vida, né. Pelo menos tirei da frente a vontade de conhecer Jane Austen. Com certeza, só por isso, já valeu a leitura.
A leitura de Drácula, Bram Stoker, e meu primeiro Halloween em Nova York
A outra volta do parafuso - uma leitura para me lembrar que nem tudo é certo ou errado, preto ou branco, verdadeiro ou falso
Acho que o grande debate "Capitu traiu Bentinho?" só existe mesmo porque Dom Casmurro é leitura obrigatória e é a única que muita gente faz. Ler Machado de Assis é muito inteligente e culto e para muitos só essa leitura já vale para a vida inteira. Porque se a gente lesse mais, outras perguntas tiradas de outros livros seriam tão condizentes quanto a possível traição de Capitu.
Aproveito para confessar que eu sou uma leitora facilmente manipulável. Eu me derreto ao personagem. Por mais que eu tenha sido avisada sobre os perigos da narrativa em primeira pessoa, eu esqueço de tudo logo nas primeiras páginas e me torno uma grande defensora do pobre-coitado-narrador. Foi assim com "O Apanhador no Campo de Centeio".... Eu só conseguia dizer "tadinho do Holden...". Depois, passa um tempo, eu passo a pensar um pouco mais e até vejo como sou bobinha.
Vi que na Netflix foi lançada uma nova série de "terror", chamada "A Maldição da Mansão Bly", dos mesmos criadores de "A Maldição da Residência Hill", que eu vi ano passado e amei. Assim como o segundo show havia sido uma releitura da obra de Shirley Jackson, "A Assombração da Casa da Colina", o primeiro foi inspirado pela "A outra volta do parafuso", de Henry James.
Por isso, corri para baixar a obra de Henry James no Kindle e aproveitar o clima meio terror de Halloween em terras tupiniquins. Eu adorei o livro. Foi uma daquelas leituras que, para além da própria história contada, seus personagens, clímax, etc, a experiência mexeu bastante comigo. Quando acabou, senti que o último parágrafo, a última frase, era euzinha num equilíbrio perigosíssimo à beira de um precipício. Eu fiquei triste, apreensiva, cheia de dúvidas.
É um relato - até bastante breve - da experiência de uma governanta que aceita o trabalho de cuidar de duas crianças orfãs em uma casa de campo, no interior da Inglaterra. Lá, ela começa a vivenciar situações estranhas, ver coisas suspeitas e desconfia que algo muito errado está acontecendo. Na intenção de proteger seus pupilos, decide colocar-se à prova: ouvidos e olhos atentos e diálogos muito bem manipulados para extrair a verdade das crianças, sem que elas percebam as intenções da governanta. Um jogo difícil e perigoso de adquirir confiança daqueles que ela quer salvar, sem mostrar sua intenção de benfeitora.
Acontece que eu fui lendo o seu relato, quase de uma vez só, e fui acreditando em cada uma de suas palavras, gestos e intenções. Cheguei a pensar o quanto ela era inteligente. Demorei muito para perceber que seu nome nem aparece! Só depois de terminada a leitura, o mal-estar me levou a ler o posfácio da edição da Penguin-Companhia, no qual David Bromwich questiona quão inocente são as boas intenções da governanta. Ela nem expõe seu nome... O quão inocente não fui eu nessa leitura toda?
Enfim, me peguei depois refletindo o quanto é fácil não questionar, não duvidar, não desconfiar. Não estou dizendo que é fácil acreditar, quão sedutor é crer na primeira coisa vista ou palavra ouvida; mas sim o quanto é difícil olhar uma vez, voltar e olhar de novo, e talvez mais uma vez. E para o bem e para o mal, a quantidade de informação e pontos de vista diferentes que são expostos - 24 horas por dia 7 dias por semana - torna humanamente impossível esse olhar crítico/desconfiado. Essa leitura que questiona e investiga. Não dá tempo. Por isso a sensação de afogamento no mar de certezas e afirmações feitas de formas tão convictas nas redes sociais. Cada tweet, cada foto, cada relato, cada thread e cada notícia compartilhada de pessoas "reais" ou anônimas são tão sedutores e parecem ser tão definitivos. Tão preto no branco. Tão sim ou não. O meio termo é que é complicado.
Se o que a governanta diz que viveu é verdade, ou é imaginação, não cabe a nós julgar. Cabe a nós desconfiar sim, mas qual a verdade? Não há. Sempre lembro da questão: os homens das grandes navegações viram mesmo monstros e sereias, como eles dizem em seus relatos? Sim e não. Viram algo, mas reconheceram o que lhes era familiar ao mundo que conheciam. O que era exatamente? Não saberemos, mas vale a pena se questionar e refletir sobre a área cinzenta.
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A tempo... Não gostei tanto de Mansão Bly. Mas acho que isso é muito mais culpa minha, que ando meio bodeada com TV e não tenho conseguido passar muitas horas assistindo alguma coisa, do que da própria série. Maridão gostou!
Dr. Jekyll e Mr. Hyde - a ambiguidade do público e do privado no homem moderno
A primeira vez na vida que vi uma referência sobre o clássico "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", de Robert Louis Stevenson e publicado em 1886, foi em um episódio de Looney Tunes, chamado "Hyde and Hare".
Em uma manhã ensolarada e ordinária, Pernalonga sai de sua toca, observa os velhinhos alimentar os pombos e aguarda ansiosamente o gentil senhor que todo dia o alimenta com cenouras. Mas desta vez, Pernalonga é adotado pelo senhor e, animado, segue-o até sua casa, onde a placa indica ser a residência de "Dr. Jekyll". Passando pelo seu laboratório, Dr. Jekyll não resiste à tentação e toma uma poção, que o transforma em um monstro assassino, o Mr. Hyde.
A partir disso, fica um troca-troca de Dr. Jekyll / Mr. Hyde perseguindo Pernalonga que, sem compreender o que está acontecendo, procura Dr. Jekyll para avisá-lo sobre o monstro. É justamente nessa confusão, no entanto, que Pernalonga não consegue se desvencilhar de Mr. Hyde.
Cansado, Pernalonga desiste da adoção e volta para o parque, momento em que ele mesmo se transforma em um monstro revelando que ele também tomara a poção escondido. Neste site, o autor traz várias imagens do episódio, produzido em 1955, e explica porque o considera uma obra prima. Eu acho divertidíssimo e, claro, quando era criança, eu não sabia quem era Dr. Jekyll e tampouco peguei a referência.
Desta vez eu resolvi ler o livro. Primeiro porque eu me peguei pesquisando e lendo sobre o tema do duplo na narrativa para pensar e escrever sobre o jogo de videogame Last of Us, Ellie e os espelhos: o duplo na narrativa de Last of Us II. Depois, porque estou acompanhando o site Querido Clássico, que tem proposto a leitura de clássicos do gótico neste mês de Halloween. O livro é muito curtinho. Baixei depois do almoço no Kindle e antes de jantar já tinha terminado.
No prefácio da edição da Penguim, Luiz Alfredo Garcia-Roza demonstra todas as qualidades que fazem da obra de Stevenson um clássico, sua originalidade e explica porque ela tornou-se uma referência na nossa cultura popular. "O Médico e o Monstro", título da tradução em português, tem como pano de fundo questões filosóficas, morais e científicas sobre a personalidade humana que estavam em voga nas discussões do fim do século XIX: o bem e o mal, a psicanálise e a insconsciência, a natureza humana sob os olhos da antropologia evolucionista e a criminologia, etc. A mentalidade e natureza humana passavam a ser analisadas sob as lentes da ciência e da medicina, sem desvincular-se totalmente da moral cristã. Por isso o elemento "mágico" e/ou fantasioso do horror em O Médico e o Monstro não é um fantasma, ou qualquer outra coisa inexplicável. Como explica Garcia-Roza:
"[...] o elemento sobrenatural ganha certo grau de plausibilidade ao se aproximar das técnicas de 'ficção científica' graças à sugestão de que o experimento de Jekyll poderia ser repetido caso ele tornasse a fórmula disponível."
Na minha leitura de historiadora - de cientista social - o que se destacou da obra está menos nos aspectos psicológicos/ psicanalíticos e mais na duplicidade de Jekyll / Hyde no social. Dr. Jekyll é um senhor respeitável, um médico conhecido, de amizades tão conceituadas quanto ele na sociedade londrina. Sua casa, porém, tão bem frequentada e cheia de criados e elegância, tem uma porta nos fundos e, sempre que lhe convém, toma sua poção, converte-se em Mr. Hyde e sai escondido realizar suas tentações proibidas. Sua identidade perfeita é garantida, já que todas as atrocidades que comete tem a aparência física de um outro, alguém disforme.
A personalidade "hydeana", que sai escondida pelas portas dos fundos, é comum e atual. Quantos homens respeitáveis, notáveis, pais de família, educados e "dignos de respeito" não são verdadeiros monstros quando estão dentro de quatro paredes? Na obra de Stevenson, os relatos contra Mr. Hyde são contra uma criança, que é pisoteada, e depois um velho senhor, que é morto a base de pauladas e ataques de bengala. Sempre são crianças, idosos e animais. São sempre os mais fracos que, longe dos olhos da sociedade, sofrem os ataques mais violentos daqueles que se transformam (ou se revelam?) quando não estão sendo vistos.
Não consigo não pensar nos dados assustadores de quantos pais de família e líderes religiosos são os pedófilos e consumidores de pornografia infantil. Se se tratasse de uma história contemporânea, diria que Mr. Hyde é o perfil fake do Dr. Jekyll: é o anonimato que lhe taz os sentimentos de impunidade e permissividade.
Mr. Hyde é o próprio anonimato, que ganha relevância com as grandes cidades, a industrialização, o êxodo do campo e a modernidade: justamente o contexto de paisagem e mudança social pela qual vinha sofrendo Londres e outras capitais no fim do século XIX.
Isso me lembra Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar, quando explora as relações da paisagem urbana e do homem moderno a partir dos poemas de Baudelaire. Densamente povoadas, as cidades assumem, a partir do século XIX, uma configuração aparentemente anárquica: o caos urbano não se limita ao tráfego de veículos, passantes, cavaleiros e condutores, mas de toda a interação entre o espaço, o homem moderno e o sistema social.
"Isso faz do bulevar um perfeito símbolo das contradições interiores do capitalismo: racionalidade em cada unidade capitalista individualizada, que conduz à irracionalidade anárquica do sistema social que mantém agregadas todas essas unidades. [...] Para atravessar o caos, ele [o homem moderno] precisa estar em sintonia, precisa adaptar-se aos movimentos do caos, precida aprender não apenas a pôr-se a salvo dele, mas a estar sempre um passo adiante. [...] Um homem que saiba mover-se dentro, ao redor e através do tráfego pode ir a qualquer parte, ao longo de qualquer dos infinitos corredores urbanos onde o próprio tráfego se move livremente. Essa mobilidade abre um enorme leque de experiências e atividades para as massas urbanas". (BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 190-1)
Nas relações urbanas, o homem moderno é um individualista. Nas relações sociais pré-modernas a fronteira entre o público e privado era muito mais frágil. Na cidade, porém, a intimidade é quase sagrada e as relações pessoais são protocolares. É como se Dr. Jekyll fosse o lado social - o público - enquanto Mr. Hyde é o privado, íntimo. Sair pelas portas dos fundos e não ser reconhecido como o prestigiado Dr. Jekyll, permite o médico circular por outros territórios. Territórios sujos, violentos, ocupados por lascívia e que estão na parte escura das cidades, onde se encontram os marginalizados da sociedade.
Dr. Jekyll e Mr. Hyde é o arquétipo do homem moderno, na medida em que na dimensão social apresenta-se de um jeito, enquanto na intimidade apresenta-se de outro. No ambiente urbano, dentro o caos da densidade populacional, mudanças e movimentos bruscos, o anonimato permite ao respeitado Dr. Jekyll responder aos seus instintos perversos sem degenerar sua imagem social.
No final, fica a pergunta: quem, então, somos nós? Qual a nossa "essência"? A que se manifesta no público, ou aquela que só aparece na intimidade entre quatro paredes?
Na carta deixada por Dr. Jekyll, o médico diz que Mr. Hyde é Dr. Jekyll, mas Dr. Jekyll não é Mr. Hyde. Ou, ao menos, o que Mr. Hyde faz - todos seus crimes e atrocidades - não compromete Dr. Jekyll. É como se o médico fosse isento de responsabilidade das atrocidades cometidas por Mr. Hyde que, por sua vez, faz e realiza tudo o que o médico tem vontade, mas por princípios morais não faz.
Na verdade, essa questão é justamente parte do "caos" do homem moderno - onde as contradições do individualismo e das relações sociais se chocam, confrontadas pela moralidade cristã, surgimento da psicanálise, medicalização da vida, e tantas mais transformações trazidas pela modernização da vida no século XIX. Um grande mérito que torna essa obra um clássico, tão próxima de nós e um fenômeno da cultura de massa é que, apesar de vivermos já no século XXI, ainda somos filhos desta modernidade.
"Outras Mentes" foi uma leitura sobre polvos e humanos, mas também uma reflexão sobre outras leituras, esse blog e o futuro da discussão ambiental
Talvez uma das coisas mais interessantes que têm surgido com esse projeto de escrever - mesmo que de maneira leiga, pessoal e nada acadêmica - sobre minhas leituras, é poder visualizar alguns temas em comum. Como se fosse uma atividade de ligar os pontos, mas cujo desenho vai se formando meio que por acidente.
Uma das primeiras obras que registrei aqui no blog, lá no início desta retomada em maio, foi Moby Dick (que pode ser visto aqui). Uma leitura que me levou para o alto mar, sob os olhos do século XIX: o interesse comercial no óleo de baleia para a iluminação e os meios primitivos de caça e extração. Uma ideia dos animais marinhos no meio termo entre desconhecimento-monstros-fantasia típico do imaginário medieval/renascentista e do controle absoluto e racional da natureza em função das demandas de uma organização social cada vez mais industrial.
E depois disso, li Olga Tokarczuk (de novo ela aqui!) e Ana Paula Maia (um texto completo sobre as duas leituras encontra-se aqui). Romances contemporâneos que tentam entender a relação da sociedade com os animais, agora sob uma perspectiva do século XXI, procurando ressignificar as relações de vida e morte dos animais e seres humanos. Algo que não se encaixa no imaginário criado pelo desconhecimento, tampouco no controle absoluto e desmedido da natureza aos interesses de uma sociedade industrial e de consumo.
Agora, saindo da ficção e por indicação de um perfil literário no Instagram, li Outras Mentes, de Peter Godfrey-Smith. Eu voltei para o mar, mas ao contrário de Moby Dick, cuja perspectiva era da superfície, em Outras Mentes nós mergulhamos para baixo da água e observamos o que se passa onde é preciso prender a respiração ou usar a tecnologia a seu favor através de tanques de oxigênio (ou seja, não é nosso ambiente). No primeiro, o ponto de vista é de cima para controlar o que está embaixo. No segundo, passamos a fazer parte do que está abaixo - uma tentativa de integração, não dominação.
Se durante a leitura de Moby Dick eu passei horas e horas lendo páginas de sites da internet e vendo vídeos no Youtube sobre cachalotes e baleias, agora o mesmo se passou com polvos. Até um documentário na Netflix eu assisti, chamado Professor Polvo e fiquei dizendo "- agora quero ver um igual com baleias".
Em Outras Mentes, o filósofo Godfrey-Smith investiga as origens da consciência e utiliza-se largamente da Teoria da Evolução. Para quem não estuda biologia desde os tempos longínquos do colégio, a explanação didática do autor é um pouco nostálgica: "- nossa! eu lembro disso!". Ao contrário da época do colégio, no entanto, essa ciência e termos técnicos nos são apresentados sob o ponto de vista filosófico: em que medida investigar as origens da consciência em animais tão diferentes de nós e seus comportamentos, não fala sobre nós mesmos e nossa própria origem de pensamento?
Logo na introdução, ao expor a complexidade do sistema neurológico e do comportamento dos polvos, lulas e chocos (os cefalópodes) em comparação aos nossos próprios, Godfrey-Smith aponta que os polvos são o mais próximo que chegaremos de um alienígena inteligente. Isso porque, ver a experiência subjetiva em outros mamíferos a aves não é um desafio. Não parece ser ilógico. Somos animais bilaterais, com separação entre corpo e cérebro, pertencemos todos ao filo dos cordados, respondemos a estímulos externos e, ao mesmo tempo, estímulos internos nos fazem modificar o ambiente, sem contar que nosso ancestral comum é muito mais próximo se comparado àquele do qual originou a bifurcação entre nós e os cefalópodes.
"Se conseguirmos fazer contato com os cefalópodes como seres sencientes não foi porque temos uma história compartilhada ou algum parentesco. Eles são, provavelmente, o mais perto que chegaremos de um alienígena inteligente."
Por outro lado, ver senciência em animais como os polvos, que desafiam toda a lógica que conhecemos (e que parece tão natural) entre corpo e cérebro, que não apresentam coluna vertebral, vivem isolados sem interagir com outros animais, não bilateral, etc, é um desafio maior. Como ter experiência subjetiva - como ter pensamento e apresentar comportamento inteligente - sem um cérebro? Godfrey-Smith nos responde essas questões de maneira muito científica, provocadora, didática e instigante. Ás vezes, acho que se perde um pouco nos detalhes da biologia - como por exemplo quando ele nos explica como os chocos e polvos enxergam pela pele, não pelos olhos. Apesar da explicação muito detalhada, não deixa de ser interessantíssimo.
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O grande triunfo do livro, ao contrário do documentário da Netflix, é a habilidade de Godfrey-Smith nos fazer admirar os cefalópodes, e até mesmo a vida e o ecossistema marinho, nos integrando ao mesmo ambiente e história evolutiva - e não humanizando esses animais. Nós somos como eles, nós dividimos essas características, essa história. Não se trata de uma argumentação de "eles são como nós".
É perigoso isso de "humanizar" os animais com a intenção de criar compaixão e consciência ambiental: é nesta armadilha onde caem alguns movimentos de proteção animal e veganismo. Em Professor Polvo esse processo humanizador é tão exacerbado que, além de caracterizar o animal como professor no próprio título, o narrador espelha sua vida na vida do polvo com quem convive por um ano - chamando-a de "she", não "it" - e aí, claro, temos um recurso narrativo incrível para a gente chorar litros.
Só que aí está o problema: é um recurso narrativo. Acabou o filme, acabou o sentimento. Humanizar o que não é humano não cria empatia e compaixão, tampouco consciência ambiental. O que os autores de Professor Polvo e Outras Mentes têm em comum é justamente a preocupação com a saúde dos oceanos e a continuidade da vida marinha que, desde os tempos de Moby Dick, vêm sofrendo uma degradação em ritmo maior que o de recuperação.
No clássico de Herman Melville, a baleia do século XIX é um monstro. Nós, como humanidade, evoluímos muito de lá para cá. Não é mais comum ao pensamento ocidental bestificar os animais, no entanto, humanizá-los não têm efeito sistêmico. Choramos pela polva do documentário, torcemos pela liberdade de Willy, mas a consciência do todo - do ecossistema e das outras vidas animais - nós esquecemos quando viramos a página, desligamos a TV.
O mérito de obras como Outras Mentes é utilizar-se da nossa ciência - nossa própria produção de conhecimento - para mostrar como os polvos e a vida marinha é incrível por ser como ela é e - ao mesmo tempo, mesmo que tão distante de nós e tão poucas afinidades, ainda dizem muito sobre nós e podem, se continuarem a existir e serem estudados, dizer muito sobre nosso passado e origem como seres humanos. É neste quesito que se aproximam as obras de Olga Tokarczuk e Ana Paula Maia ao de Godfrey-Smith: elas nos mostram, com brilhantismo, como podemos evoluir a discussão ambiental no século XXI.















