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O Corcunda de Notre Dame: minha estreia lendo Victor Hugo

Esses dias uma amiga querida estava me contando sua experiência em um museu e disse "a pior arte é aquela que provoca o nada, que não desperta nenhum sentimento, que não instiga curiosidade, admiração, raiva ou nojo. Ao olhar um quadro, até os sentimentos ruins são mais valiosos que o nada."

Pois bem, a partir disso tomei a iniciativa de escrever sobre minha última leitura. Já faz 15 dias que acabei O Corcunda de Notre Dame, escrito por Victor Hugo e publicado em 1831. Quando eu tinha 16 anos conheci meu marido. Ele era apaixonado por Victor Hugo, mas eu o perdôo, porque - afinal - todo adolescente é um grande romântico. Seu livro preferido era Os Trabalhadores do Mar. Isso foi em 2007 e, desde então, eu ouvi várias vezes recomendações para ler o tal do herói da literatura francesa que se pronuncia Hugô. 


Acontece que eu sabia que não ia gostar de todo o melodrama do romantismo francês. Porém, nestes últimos tempos, me envolvi numa pesquisa sobre a vida de Adèle Hugo, a quinta filha de Victor Hugo. O caminho foi labiríntico: para praticar o francês, estava assistindo a série da Netflix Dix Pour Cent onde, em um dos episódios, apareceu a atriz francesa Isabelle Adjani. Coloquei o nome dela no Google e vi que um dos filmes que lhe deu projeção foi A história de Adèle H.. Li a resenha, me interessei, estava disponível no Amazon Prime e, voilà! Me emocionei com o filme, com a história de Adèle e pesquisei bastante sobre ela, inclusive indo à biblioteca ler seus diários íntimos. 

Eu estava tão envolvida com essa história da família Hugo (descobri várias fofocas) que, quando vi que o Clube de Leitura do Querido Clássico tinha programado O Corcunda de Notre Dame como leitura coletiva para o mês de setembro, eu achei que seria uma ótima oportunidade. Porém, curiosidade: o timing foi ótimo, mas a leitura - como eu já esperava - foi ruim. 

Não é que o livro em si seja ruim, mas ele não conversou comigo, com meu momento de vida, com a minha realidade. A história se passa em Paris no final do século XV, escrito em 1830 e se trata de uma defesa a favor das construções arquitônicas góticas medievais que, após a Revolução Francesa, Victor Hugo via que estavam sendo todas demolidas. Eu entendo a importância histórica deste livro/ documento. Todas aqueles monumentos indo abaixo apagavam uma história que dificilmente poderia ser recontada depois. Várias vezes durante o livro, o narrador se intitula como "historiador" e usa os personagens e a narrativa ficcional para ensinar os leitores sobre a história e a arquitetura parisiense gótica e medieval, inclusive a própria formação urbana da cidade.  Sob a perspectiva da mudança do tempo, no sentido do fim de uma ordem, para o nascimento de um novo mundo, é um registro até bonito. 

Porém, de novo, em muitos sentidos esse livro não conversou comigo: não sou arquiteta, nem urbanista, tampouco medievalista, muito menos um dia já pisei na França. A única coisa que - talvez - poderia me aproximar disso tudo é meu carinho em estudar a língua francesa e meu interesse por literatura do século XIX, mas olhe lá! Eu procuro na ficção o prazer que a arte proporciona e para isso pela precisa dialogar com o expectador que, por sua vez, vê sentido no que está consumindo. Se eu estou lendo algo que não conversa com a minha realidade, não há diálogo, portanto não há sentido e, como consequencia, há frustração. 

Em resumo foi este o sentimento da minha estreia lendo Victor Hugo: frustração. Tirando um capítulo genial, onde o narrador faz uma análise de como a criação da imprensa mata (sim, do verbo matar) a arquitetura enquanto forma de registro histórico das sociedades, todo o resto achei bem cansativo. Inclusive a construção da única personagem feminina: Esmeralda. 

É também um pouco frustante ver essa mulher do romantismo sendo descrita e tratada como seres passivos, ingênuas e infantis. Aliás, esta é a forma como Victor Hugo tratou sua filha Adèle quando, aos 41 anos, ela é levada de volta à França depois de mais de uma década vivendo sozinha em países estrangeiros. No seu retorno, ela é diagnosticada com esquizofrenia. Um diagnóstico que, sob o nosso olhar contemporâneo, é bastante questionável, mas que na época, Victor Hugo tomou como um motivo para interná-la numa casa de repouso pelo resto de sua vida. 

Finalizo aqui sem falar muito sobre o livro em si, porque apesar de ser bastante rico e oferecer mil tópicos para serem discutidos, é muito complicado falar sobre algo sobre o qual não nos identificamos. Fica, porém, meu registro da experiência de leitura.

Retrato de Uma Senhora, de Henry James: tradição versus modernidade, casamento e liberdade

Retrato de uma Senhora está entre as obras mais importantes de Henry James e da literatura norte-americana. Depois de A Outra Volta do Parafuso e A Herdeira de Washington Square, Henry James me conquistou e outras obras entraram na lista. E assim comecei The Portrait of a Lady. Foi um dos livros mais difíceis que li nos últimos tempos. Li em inglês e o começo, até me familiarizar com os personagens e ambientes, foi muito devagar e complicado. Mas insisti, funcionou, e segui pelas 800 páginas. 

O enredo

Publicado em forma seriada durante o ano de 1881, Retrato de Uma Senhora conta a história de Isabel Archer, uma jovem moça da cidade de Albany, capital do estado de Nova York. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel estava pobre, sozinha e um casamento era a única coisa que lhe restava. É aí que chega sua tia Mrs. Touchett, irmã de sua mãe e também nascida nos Estados Unidos, e convida-a a seguir com ela para suas casas na Europa, onde já morava há muitos anos. E assim começamos a saga da heroína Isabel Archer: sua chegada nos jardins de uma mansão inglesa, onde ela conhece seu primo Ralph Touchett e seu tio Mr. Touchett. 

Na Inglaterra ela conhece Lord Warburton, um dos vários candidatos que vai pedi-la em casamento. O outro galã, ao contrário do lord inglês (como nos romances, Isabel diz), será Caspar Goodwood, um jovem businessman de Harvard, que enriqueceu com a indústria de algodão. (É curioso como James caracteriza este personagem fisicamente: de maxilar quadrado e um porte excessivamente masculino, me trouxe imediatamente a imagem do Gaston, personagem do filme da Disney, A Bela e a Fera.) 

Isabel chega na mansão dos Touchett, chamada de Gardencourt, trazendo um frescor inocente, curioso e cheio de otimismo e desejos pela vida. Ela conquista a afeição de seu tio que, no leito de sua morte, decide deixar para a pobre moça uma pequena herança. Ralph, no entanto, de saúde frágil e baixa expectativa de vida, pede ao pai que diminua a sua própria herança e deixe a maior parte para Isabel. Provida de muita dinheiro, diz Ralph, Isabel poderia conquistar a liberdade que tanto desejava. "Mas ela não será vítima de caçadores de fortuna?", pergunta o pai. Ralph confirma que este risco ela irá correr, mas que ele está curioso e gostaria de ver e acompanhar como a prima vai lidar com essas questões. 

Mr. Touchett morre, Isabel torna-se uma moça solteira muitíssimo rica e, sedenta por liberdade, recusa os pedidos de casamento do Lord Warburton e de Caspar Goodwood, partindo em direção à Itália com sua tia. A partir daí, a história se desenrola em casarões e ruínas nas cidades de Florença e Roma.

Ainda na Inglaterra, Isabel conhece uma amiga de sua tia que, assim como elas, havia nascido nos EUA, mas morava na Europa já há muitos anos. Mrs. Merle, para Isabel, é a perfeição: elegante, inteligente, culta e sabe agradar. Mrs. Merle também mora na Itália e, depois das pequenas férias em Gardencourt, partirá com Mrs. Touchett e Isabel para Roma e Florença, sendo um personagem importante na segunda parte da história. 

Através de Mrs. Merle, Isabel conhece o viúvo Gilbert Osmond, outro expatriado que tem uma filha adolescente, chamada Pansy. Osmond é um personagem interessantíssimo: ele quer ser um aristocrata e vive, fala e se comporta como um. Seu gosto é o puro refinamento da aristocracia e sua visão de mundo é conservadora, mesmo ele sendo pobre e nascido nos EUA. Ele condena tudo o que é do novo mundo, dos novos costumes, e tem um gosto excessivo pelo convencional. (Praticamente um Caco Antibes.) 

Mrs. Merle e Osmond têm uma relação bastante suspeita e, após a morte de Mr. Touchett e o recebimento da herança por Isabel, tramam um casamento entre a moça e Osmond. Bom, a partir daí, não vou continuar a história, mas adianto que Isabel - contra tudo e contra todos - decide-se casar com Osmond. 

O Novo no Velho Mundo

Apesar da dificuldade que encontrei no começo do livro, por que continuei? Logo de entrada, me interessei demais pela relação de Isabel, uma moça do Novo Mundo, descobrindo as coisas no Velho Mundo. Eu me vi muito nela, quando fui pela primeira vez para a Europa, em 2017. Existe um impacto enorme quando nós, que nascemos e crescemos em países de histórias tão recentes - ex-colônias que conquistaram suas independência há menos de 200 anos -, pisamos em lugares que reinvindicam o início de suas histórias em tempos antes de Cristo. 

Não é sem intenção que o autor coloca sua heroína caminhando pelas ruínas do Coliseu. É o velho versus o novo, a modernidade versus a tradição. No campo da geopolítica, era o recente país Estados Unidos da América se legitimar como uma nação potente e não mais como ex-colônia; no campo da literatura, era Henry James colocando sua obra no panteão da literatura ocidental. 

Temos uma tendência de idealizar o passado, e mais ainda idealizar um lugar que tem um passado que nós não temos. Estar na Inglaterra e conhecer um verdadeiro Lord, diz Isabel, é "como viver um grande romance". Por isso os personagens deixam os Estados Unidos e, na Europa, vivem uma vida aristocrática parada no tempo, andando a cavalo e caminhando pelas ruas milenares europeias, enquanto do outro lado do Atlântico, linhas ferroviárias estavam sendo construídas para ligar o Atlântico e o Pacífico, metrópoles estavam sendo erguidas, e o avanço tecnológico e financeiro se desenvolvia rapidamente de um dia para o outro. 

O progresso tecnológico bate de frente com o conservadorismo social e é aí que entra o casamento frustrado de Isabel Archer. 

O casamento como liberdade e prisão

Eu li Isabel Archer e sua saga de duas maneiras. 

A primeira, como uma personagem feminina que, com os privilégios de uma boa e confortável educação burguesa, cresce com a inocência e vontade de conhecer o mundo. Ela quer ter novas experiências. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel se vê sozinha, encantada pelo mundo dos livros e é apenas curiosa. Ela vê no casamento o risco de ficar presa e, com a companhia de sua tia e, depois, absolutamente rica, ela rejeita os pedidos de casamento de Lord Warburton e Caspar Goodwood sob o pretexto de preservar sua liberdade. 

Mas o que é liberdade para a mulher no século XIX? Caspar Goodwood diz a ela: solteira, ela não pode andar sozinha por onde bem entender. Uma dama deve estar sempre acompanhada e é constantemente vigiada. Existe uma série de regras sociais do que uma mulher solteira deve ou não fazer para não sujar sua reputação. Só um casamento traria à ela a liberdade que ela desejava. 

E é aí que ela vê em Gilbert Osmond, um compatriota, amante da beleza Antiga, que vive na Europa há muitos anos e cria sua filha com o rigor do conservadorismo Católico, a oportunidade de tornar-se uma dama e conquistar sua desejada liberdade nos círculos mais aristocrático europeus. 

A segunda leitura foi de Isabel como uma metáfora do próprio país Estados Unidos, que vinha discutindo o conceito de liberdade intensivamente no último século. Quando o livro foi publicado, os EUA eram um país de apenas 105 anos, tendo conquistado sua independência da Grã-Bretanha em 1776. Depois disso, entre 1861 a 1865, o país enfrentou a Guerra de Secessão e, só em 1863 os EUA assinaram a abolição da escravidão. Liberdade era o tema do dia há muito tempo. Além disso, um país extremamente novo, estava procurando se encontrar, construir sua própria identidade, e apesar da tão desejada liberdade, era para a Europa que o país se virava para construir suas referências identitárias e culturais. 

Isabel Archer, como uma metáfora dos Estados Unidos, olha encantada para os modos aristocráticos, as ruínas e a tradição do Velho Mundo. Por isso, ela decide casar-se com Gilbert Osmond, o compatriota americano mais conservador que ela poderia encontrar. Caspar Goodwood, o jovem industrialista de Boston, representava o progresso tecnológico, financeiro e o futuro; Lorde Warburton, apesar do título de nobreza, tinha ideias revolucionárias e um engajamento político relevante; Gilbert Osmond era o retrocesso do retrocesso. Sua admiração pelo passado, pelas coisas tradicionais e estáticas, seu gosto pelo Antigo, faz dele um retrógrado. Isabel, na sua inocência, viu no casamento com Gilbert Osmond a possibilidade de unir sua liberdade e juventude com o passado e a tradição.

Essa tentativa de união foi frustrada e deixo aos interessados descobrir porque. Mas acrescento brevemente que, recentemente li A Casa das Sete Torres, de 1850 e escrito Nathaniel Hawthorne. Neste livro, o autor também faz uma crítica à cultura aristocrática numa pequena cidade da Nova Inglaterra, colocando em personagens fantasmagóricos e uma casa mal-assombrada o passado vergonhoso da história de seu país que resistia ao progresso e às mudanças sociais. 

Retrato de Uma Senhora é um livro difícil, mas maravilhoso, que pode ser lido sob diversos pontos de vista, principalmente por quem se interessa pela história dos EUA. Minha formação sempre faz eu ir para o lado mais histórico, mas também achei muito interessante como James fala sobre a mulher e o casamento no século XIX. É um autor que constrói grandes mulheres protagonistas, assim como Catherine Hopper, de A Herdeira de Washington Square. Em Retrato de Uma Senhora, Isabel Archer se sente toda hora deslocada, procurando seu lugar e sua identidade. Em alguns momentos ela só quer ser curiosa e aprender, descobrir as coisas. Ao mesmo tempo que existe uma força social daqueles que a rodeiam que manipulam suas ações, mesmo que ela ache que não. 

Finalmente, só porque "Persuasão" é o tema do dia

Para finalizar, e ainda nesse assunto mulher e casamento, bem que o livro poderia ser chamar Persuasão, como a obra de Jane Austen. A palavra em si aparece inúmeras vezes durante a narrativa. Isabel é uma vítima da influência de Mrs. Merle e Osmond e, a todo momento, acontece um jogo de quem consegue persuadir quem, sem que a vítima da persuasão perceba que está sendo persuadida. 

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Retrato de Uma Senhora foi traduzido por Gilda Stuart e publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras. Há uma versão em e-book para Kindle por menos de 5 reais. 

Persuasão, Jane Austen - o livro que não me convenceu

Faz um tempo que não passo por aqui, o que não significa que não tenho lido. Além da vida tumultuada, minhas últimas leituras foram para o Querido Clássico e por isso as resenhas têm sido publicadas lá. Também fiz uma viagem de uma semana para o Texas durante o que eles chamam aqui nos EUA de Spring Break. Foi uma experiência incrível e, se der tempo, escreverei sobre algumas coisas no blog nos próximos dias. Mas hoje vim falar sobre o último livro que li: Persuasão, de Jane Austen.


Como um leitora que adora literatura anglófona, clássicos e um romancizinho, eu achava um erro nunca ter lido Jane Austen. Inclusive, nunca nem vi os filmes e só sei quem é Mr. Darcy porque a fanbase da autora é muito fiel. Aproveitei que a obra do mês de março do Clube de Leitura do Querido Clássico era Persuasão, e que eu havia ouvido falarem muito bem desta obra (escrita num momento mais maduro da autora), para conhecer a tão famosa Jane Austen. 

Infelizmente, o santo não bateu. Quando cheguei na metade, eu queria deixar o livro de lado, mas insisti porque, afinal, às vezes vem surpresa boa. Não foi o caso. O livro é chatíssimo do começo ao fim. Não gostei dos personagens: achei que faltou carisma. Tirando a protagonista Anne (ela mesma muito apática), todos os outros personagens ou são chatos, implicantes e odiosos (como suas irmãs e pai), ou aparecem muito pouco. Lady Russel, a personagem que achei mais interessante, é mencionada sempre, mas nunca está presente nas cenas e, se está, sua participação é mínima. Ou seja, aquele "poder de persuasão" todo, a gente não conhece, só ouve falar. 

É uma história de amor. Anne e Frederick Wentworth se amam e querem se casar, mas pelo fato de Wentworth ser um zé ninguém, Anne é "persuadida" pela Lady Russel e sua família a não se casar. Os pombinhos se separam e a história do livro começa oito anos depois quando, adivinhem, Wentworth volta RICO. (Gente, desculpa, achei tosco esse clichê) Ele volta amargurado, de coração partido, procurando uma noiva e Anne descobre ainda gostar muito dele. No decorrer das páginas vamos acompanhando essa reaproximação dos pombinhos. 

O que faltou, no entanto, é o próprio Wentworth nessa história. Ele mal fala, sua presença nas cenas é mínima, ele é uma ideia praticamente. Uma ideia de Anne. E no final, sua declaração vem em forma de carta. CARTA. Enfim, que homem apaixonante é esse? Um homem que não tem voz, calado, que se comunica por vias escritas? Achei este herói o mais sem personalidade possível. Esse "amor" não me convenceu e achei chatíssima toda a interação dos dois. 

Outra coisa que desgostei no final foi a conclusão de que "sim, foi melhor a gente não ter se casado há oito anos. Apesar de sofrido todo esse tempo e reaproximação, eu faria tudo de novo", enquanto esse sobrenome - Wentworth - pode ser lido como "a ida que valeu a pena"? 

Fiquei pensando porque desgostei tanto. Acabei achando o livro um filme de princesas da Disney, na qual a protagonista, Anne, é a coitada rejeitada pela família, e o príncipe bonito que não fala vem salvá-la. Ou então, uma Malhação da vida, com muitos personagens, todos rasos e pouco interessantes, cuja história se desenvolve em torno de um casal apaixonado que vai ficar junto no final apesar da resistência de todos que estão a sua volta. Mas, não é possível! É a Jane Austen, sabe? Ela tem seus méritos, eu acredito nisso. 

Concluí que se eu fosse mais nova, eu teria gostado mais desta história romântica, idealizada. Mas casada há alguns anos, eu vejo o amor e o casamento como uma construção, uma batalha que é feita diariamente, porque nenhum companheiro/a é calado e se comunica por cartas. O amor é construído na fala, no toque, na risada e no choro. Na briga e na conciliação, porque ninguém é perfeito. A gente vai errando e aprendendo a consertar os erros juntos. Por mais que às vezes eu goste de uma história romântica, não há heróis e heroínas perfeitas como Wentworth e Anne. Enfim, entendo o gênero, mas não me convenceu. 

Outro fator que me fez desgostar deste casal e romance apático foram minhas últimas leituras. Em Charles Dickens, Edith Wharton, Henry James, Silvina Ocampo e Lucia Berlin, o casamento aparece como um elemento perigoso, que destrói e, as vezes, mata. E o amor? Bom, ele existe, mas ele é só mais um elemento dentro de uma série de conjecturas sociais que sufocam e colocam em xeque toda a supremacia idealizada deste sentimento. 

Bom, é isso. Não gosto muito de ficar falando mal dos livros neste meu diário de leitura, mas é a vida, né. Pelo menos tirei da frente a vontade de conhecer Jane Austen. Com certeza, só por isso, já valeu a leitura. 

A leitura de Drácula, Bram Stoker, e meu primeiro Halloween em Nova York

Havia um tempo que não lia nenhuma obra do século XIX. Por mais que meu preferido seja o século XX, eu gosto muito de me voltar aos clássicos mais antigos vez ou outra. Drácula foi a oportunidade de corrigir esse erro, ler algo temático com o Halloween e voltar a ler com os grupos de leitura. Por causa do ano cheio de mudanças, não consegui acompanhar as leituras coletivas do Querido Clássico em 2021. Mas agora que estou já bem instalada e minha vida voltou ao normal, pude corrigir também este outro erro. 

Drácula não foi o primeiro livro que peguei na New York Public Library, mas foi o primeiro livro que terminei e será devolvido. Isso traz um carinho especial para a leitura, porque tirar a carteirinha da biblioteca teve um significado especial para mim: o sentimento de pertencimento, de casa. Depois de tanto tempo "em transição", vivendo no Brasil, Chile, Brasil de novo e esperando as fronteiras abrirem, tirar a carteirinha da NYPL significou "agora aqui é meu endereço por um bom tempo e essa é a prova!". É também mais um jeito legal de interagir com a cidade. Afinal, a NYPL é muito "Os caçadores de fantasmas". 



Apesar da referência do filme, eu não preciso ir até o prédio com a fachada e a sala de leitura famosas. Existem várias unidades menores pela cidade e uma muito perto da minha casa. É lá onde tenho indo retirar os livros que peço para reservar pelo site. É menos glamuroso, mas facilita muito a vida! 

Agora voltando ao Drácula

É uma ótima experiência ler do começo ao fim uma obra onde estão todas as referências que vemos em tantos outros lugares. O "arsenal vampiresco" que eu tinha era picotado: pedacinhos que a gente vê lá ou aqui. Então quando eu li a origem de tudo isso, junto e de uma vez só, algumas coisas se iluminaram e também tive surpresas. 

Por exemplo, o fato de que o Drácula não tem voz no livro. Em nenhum momento. Tudo o que sabemos dele é pelo relato de outras pessoas. Poderíamos dizer, talvez, que o Drácula nem existiu e tudo foi um delírio coletivo daquelas pessoas ali envolvidas. 

Outra surpresa foi a estrutura narrativa. Eu não esperava que ela fosse formada por cartas, trechos de diários e notícias recortadas de jornal. A primeira vez que li algo assim foi "O médico e o monstro" e eu adorei. É preciso ter paciência com esse tipo de leitura, mas é legal porque vamos montando o quebra-cabeça da história. Especialmente em Drácula, a gente vai se deixando seduzir pelos múltiplos narradores. Ainda mais por se tratar de cartas e diários, nós, leitores ingênuos, gostamos de acreditar no que dizem sem desconfiança. 

E assim Bram Stoker nos guia pela leitura de uma história na qual um grupo de quatro homens vão tentar salvar duas moças e a própria Inglaterra das garras do Conde Drácula. Este grupo de cinco homens  é formado por um médico inglês John Seward, o Lord Arthur Holmwood, o procurador inglês John Harker, o americano rico do Texas Quincey Morris e o médico holandês Abraham Van Helsing. As "donzelas" são Lucy Westenra e Mina Murray, que depois se casa com Jonathan Harker e vira Mina Harker. São alguns destes personagens que registram seus dias em diários e trocam cartas que nos contam quem é Conde Drácula e sua história. Sob uma perspectiva do final do século XIX, é praticamente uma história de cavaleiros lutando contra o mal e salvando donzelas inocentes. 

Ano passado eu li "Imunidade", de Eula Biss, publicado pela Editora Todavia, e a autora fala sobre Drácula como uma metáfora para o surgimento de doenças infecciosas, principalmente a sífilis, que é transmitda por sexo/sangue e cuja principal porta de entrada é pelos portos e navios. Exatamente como o Conde Drácula chega na Inglaterra, "contamina" Lucy que, depois, contamina crianças. É a metáfora do Outro, nesse caso o estrangeiro, trazendo doenças e contaminando "a pureza" daqueles que são donos do lugar. Afinal, Lucy, a "luz", é uma moça sensível, jovem e angelical. Uma vez "contaminada" e transformada, ela ataca outros seres mais inocentes: as crianças. 

A narrativa de Bran Stoker é cheia de tensão. Principalmente os diários de Jonathan no Castelo do Conde e, depois, a chegada do Drácula na Inglaterra. Estas foram minhas partes favoritas. Confesso que, do meio para o final, fiquei um pouco cansada. Achei a leitura um pouquinha arrastada, mas minha edição tinha mais de 600 páginas e, realmente, não dá para ter o mesmo ritmo 100% do tempo. 

Outra leitura possível é a da sexualidade (que também é um meio de "contaminação" de doenças e se liga com o que a Eula Biss diz no seu livro, Imunidade). Apesar de "monstruoso" os momentos nos quais o Conde ataca Lucy e Mina e as noivas do Drácula se aproximam de Jonathan, existe sim uma tensão sexual nas entrelinhas. Este ponto, sutil no livro, é exacerbado no filme Dracula de Bram Stoker, de 1992 e dirigido por Francis Ford Coppola. Esta adaptação também conta com algo que não existe no livro: a voz do próprio Drácula. É como se o filme desse a chance para o Conde contar sua versão da história. 

Eu acabei a leitura ontem, dia 30 de outubro, pela tarde. Assisti o filme que mencionei acima a noite e hoje, dia 31, dia de Halloween, foi a videochamada do clube de leitura do Querido Clássico. Foi muito bom! Eu estava com saudades de ouvir as impressões e pontos de vistas de outras pessoas que leram a mesma coisa, mas que tem opiniões diferentes. E isso é muito enriquecedor. A noite, eu e o Allan fomos até a rua 69th, aqui em Manhattan, para ver as decorações de Halloween e as crianças fantasiadas. 

Em geral, foi uma experiência ótima. Muitas coisas se somaram nessa leitura: o primeiro livro que acabei de ler da NYPL, a temática do Halloween e a volta ao Clube de Leitura Querido Clássicos. 







Sobre o médico e o monstro, escrevi sobre ele aqui: Dr. Jekyll e Mr. Hyde - a ambiguidade do público e do privado no homem moderno
O Clube de Leitura do Querido Clássico: Clube do Livro Querido Clássico

A outra volta do parafuso - uma leitura para me lembrar que nem tudo é certo ou errado, preto ou branco, verdadeiro ou falso

Acho que o grande debate "Capitu traiu Bentinho?" só existe mesmo porque Dom Casmurro é leitura obrigatória e é a única que muita gente faz. Ler Machado de Assis é muito inteligente e culto e para muitos só essa leitura já vale para a vida inteira. Porque se a gente lesse mais, outras perguntas tiradas de outros livros seriam tão condizentes quanto a possível traição de Capitu.

Aproveito para confessar que eu sou uma leitora facilmente manipulável. Eu me derreto ao personagem. Por mais que eu tenha sido avisada sobre os perigos da narrativa em primeira pessoa, eu esqueço de tudo logo nas primeiras páginas e me torno uma grande defensora do pobre-coitado-narrador. Foi assim com "O Apanhador no Campo de Centeio".... Eu só conseguia dizer "tadinho do Holden...". Depois, passa um tempo, eu passo a pensar um pouco mais e até vejo como sou bobinha.

Vi que na Netflix foi lançada uma nova série de "terror", chamada "A Maldição da Mansão Bly", dos mesmos  criadores de "A Maldição da Residência Hill", que eu vi ano passado e amei. Assim como o segundo show havia sido uma releitura da obra de Shirley Jackson, "A Assombração da Casa da Colina", o primeiro foi inspirado pela "A outra volta do parafuso", de Henry James.

Por isso, corri para baixar a obra de Henry James no Kindle e aproveitar o clima meio terror de Halloween em terras tupiniquins. Eu adorei o livro. Foi uma daquelas leituras que, para além da própria história contada, seus personagens, clímax, etc, a experiência mexeu bastante comigo. Quando acabou, senti que o último parágrafo, a última frase, era euzinha num equilíbrio perigosíssimo à beira de um precipício. Eu fiquei triste, apreensiva, cheia de dúvidas. 

É um relato - até bastante breve - da experiência de uma governanta que aceita o trabalho de cuidar de duas crianças orfãs em uma casa de campo, no interior da Inglaterra. Lá, ela começa a vivenciar situações estranhas, ver coisas suspeitas e desconfia que algo muito errado está acontecendo. Na intenção de proteger seus pupilos, decide colocar-se à prova: ouvidos e olhos atentos e diálogos muito bem manipulados para extrair a verdade das crianças, sem que elas percebam as intenções da governanta. Um jogo difícil e perigoso de adquirir confiança daqueles que ela quer salvar, sem mostrar sua intenção de benfeitora. 

Acontece que eu fui lendo o seu relato, quase de uma vez só, e fui acreditando em cada uma de suas palavras, gestos e intenções. Cheguei a pensar o quanto ela era inteligente. Demorei muito para perceber que seu nome nem aparece! Só depois de terminada a leitura, o mal-estar me levou a ler o posfácio da edição da Penguin-Companhia, no qual David Bromwich questiona quão inocente são as boas intenções da governanta. Ela nem expõe seu nome... O quão inocente não fui eu nessa leitura toda? 

Enfim, me peguei depois refletindo o quanto é fácil não questionar, não duvidar, não desconfiar. Não estou dizendo que é fácil acreditar, quão sedutor é crer na primeira coisa vista ou palavra ouvida; mas sim o quanto é difícil olhar uma vez, voltar e olhar de novo, e talvez mais uma vez. E para o bem e para o mal, a quantidade de informação e pontos de vista diferentes que são expostos - 24 horas por dia 7 dias por semana - torna humanamente impossível esse olhar crítico/desconfiado. Essa leitura que questiona e investiga. Não dá tempo. Por isso a sensação de afogamento no mar de certezas e afirmações feitas de formas tão convictas nas redes sociais. Cada tweet, cada foto, cada relato, cada thread e cada notícia compartilhada de pessoas "reais" ou anônimas são tão sedutores e parecem ser tão definitivos. Tão preto no branco. Tão sim ou não. O meio termo é que é complicado. 

Se o que a governanta diz que viveu é verdade, ou é imaginação, não cabe a nós julgar. Cabe a nós desconfiar sim, mas qual a verdade? Não há. Sempre lembro da questão: os homens das grandes navegações viram mesmo monstros e sereias, como eles dizem em seus relatos? Sim e não. Viram algo, mas reconheceram o que lhes era familiar ao mundo que conheciam. O que era exatamente? Não saberemos, mas vale a pena se questionar e refletir sobre a área cinzenta.  

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A tempo... Não gostei tanto de Mansão Bly. Mas acho que isso é muito mais culpa minha, que ando meio bodeada com TV e não tenho conseguido passar muitas horas assistindo alguma coisa, do que da própria série. Maridão gostou!

Dr. Jekyll e Mr. Hyde - a ambiguidade do público e do privado no homem moderno

A primeira vez na vida que vi uma referência sobre o clássico "O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", de Robert Louis Stevenson e publicado em 1886, foi em um episódio de Looney Tunes, chamado "Hyde and Hare". 

Em uma manhã ensolarada e ordinária, Pernalonga sai de sua toca, observa os velhinhos alimentar os pombos e aguarda ansiosamente o gentil senhor que todo dia o alimenta com cenouras. Mas desta vez, Pernalonga é adotado pelo senhor e, animado, segue-o até sua casa, onde a placa indica ser a residência de "Dr. Jekyll". Passando pelo seu laboratório, Dr. Jekyll não resiste à tentação e toma uma poção, que o transforma em um monstro assassino, o Mr. Hyde. 



A partir disso, fica um troca-troca de Dr. Jekyll / Mr. Hyde perseguindo Pernalonga que, sem compreender o que está acontecendo, procura Dr. Jekyll para avisá-lo sobre o monstro. É justamente nessa confusão, no entanto, que Pernalonga não consegue se desvencilhar de Mr. Hyde. 


Cansado, Pernalonga desiste da adoção e volta para o parque, momento em que ele mesmo se transforma em um monstro revelando que ele também tomara a poção escondido. Neste site, o autor traz várias imagens do episódio, produzido em 1955, e explica porque o considera uma obra prima. Eu acho divertidíssimo e, claro, quando era criança, eu não sabia quem era Dr. Jekyll e tampouco peguei a referência. 

Desta vez eu resolvi ler o livro. Primeiro porque eu me peguei pesquisando e lendo sobre o tema do duplo na narrativa para pensar e escrever sobre o jogo de videogame Last of Us, Ellie e os espelhos: o duplo na narrativa de Last of Us II. Depois, porque estou acompanhando o site Querido Clássico, que tem proposto a leitura de clássicos do gótico neste mês de Halloween. O livro é muito curtinho. Baixei depois do almoço no Kindle e antes de jantar já tinha terminado. 


No prefácio da edição da Penguim, Luiz Alfredo Garcia-Roza demonstra todas as qualidades que fazem da obra de Stevenson um clássico, sua originalidade e explica porque ela tornou-se uma referência na nossa cultura popular. "O Médico e o Monstro", título da tradução em português, tem como pano de fundo questões filosóficas, morais e científicas sobre a personalidade humana que estavam em voga nas discussões do fim do século XIX: o bem e o mal, a psicanálise e a insconsciência, a natureza humana sob os olhos da antropologia evolucionista e a criminologia, etc. A mentalidade e natureza humana passavam a ser analisadas sob as lentes da ciência e da medicina, sem desvincular-se totalmente da moral cristã. Por isso o elemento "mágico" e/ou fantasioso do horror em O Médico e o Monstro não é um fantasma, ou qualquer outra coisa inexplicável. Como explica Garcia-Roza:

"[...] o elemento sobrenatural ganha certo grau de plausibilidade ao se aproximar das técnicas de 'ficção científica' graças à sugestão de que o experimento de Jekyll poderia ser repetido caso ele tornasse a fórmula disponível." 

Na minha leitura de historiadora - de cientista social - o que se destacou da obra está menos nos aspectos psicológicos/ psicanalíticos e mais na duplicidade de Jekyll / Hyde no social. Dr. Jekyll é um senhor respeitável, um médico conhecido, de amizades tão conceituadas quanto ele na sociedade londrina. Sua casa, porém, tão bem frequentada e cheia de criados e elegância, tem uma porta nos fundos e, sempre que lhe convém, toma sua poção, converte-se em Mr. Hyde e sai escondido realizar suas tentações proibidas. Sua identidade perfeita é garantida, já que todas as atrocidades que comete tem a aparência física de um outro, alguém disforme. 

A personalidade "hydeana", que sai escondida pelas portas dos fundos, é comum e atual. Quantos homens respeitáveis, notáveis, pais de família, educados e "dignos de respeito" não são verdadeiros monstros quando estão dentro de quatro paredes? Na obra de Stevenson, os relatos contra Mr. Hyde são contra uma criança, que é pisoteada, e depois um velho senhor, que é morto a base de pauladas e ataques de bengala. Sempre são crianças, idosos e animais. São sempre os mais fracos que, longe dos olhos da sociedade, sofrem os ataques mais violentos daqueles que se transformam (ou se revelam?) quando não estão sendo vistos. 

Não consigo não pensar nos dados assustadores de quantos pais de família e líderes religiosos são os pedófilos e consumidores de pornografia infantil. Se se tratasse de uma história contemporânea, diria que Mr. Hyde é o perfil fake do Dr. Jekyll: é o anonimato que lhe taz os sentimentos de impunidade e permissividade. 

Mr. Hyde é o próprio anonimato, que ganha relevância com as grandes cidades, a industrialização, o êxodo do campo e a modernidade: justamente o contexto de paisagem e mudança social pela qual vinha sofrendo Londres e outras capitais no fim do século XIX. 

Isso me lembra Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar, quando explora as relações da paisagem urbana e do homem moderno a partir dos poemas de Baudelaire. Densamente povoadas, as cidades assumem, a partir do século XIX, uma configuração aparentemente anárquica: o caos urbano não se limita ao tráfego de veículos, passantes, cavaleiros e condutores, mas de toda a interação entre o espaço, o homem moderno e o sistema social.

"Isso faz do bulevar um perfeito símbolo das contradições interiores do capitalismo: racionalidade em cada unidade capitalista individualizada, que conduz à irracionalidade anárquica do sistema social que mantém agregadas todas essas unidades. [...] Para atravessar o caos, ele [o homem moderno] precisa estar em sintonia, precisa adaptar-se aos movimentos do caos, precida aprender não apenas a pôr-se a salvo dele, mas a estar sempre um passo adiante. [...] Um homem que saiba mover-se dentro, ao redor e através do tráfego pode ir a qualquer parte, ao longo de qualquer dos infinitos corredores urbanos onde o próprio tráfego se move livremente. Essa mobilidade abre um enorme leque de experiências e atividades para as massas urbanas". (BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Cia das Letras, 2007, p. 190-1)

Nas relações urbanas, o homem moderno é um individualista. Nas relações sociais pré-modernas a fronteira entre o público e privado era muito mais frágil. Na cidade, porém, a intimidade é quase sagrada e as relações pessoais são protocolares. É como se Dr. Jekyll fosse o lado social - o público - enquanto Mr. Hyde é o privado, íntimo. Sair pelas portas dos fundos e não ser reconhecido como o prestigiado Dr. Jekyll, permite o médico circular por outros territórios. Territórios sujos, violentos, ocupados por lascívia e que estão na parte escura das cidades, onde se encontram os marginalizados da sociedade. 

Dr. Jekyll e Mr. Hyde é o arquétipo do homem moderno, na medida em que na dimensão social apresenta-se de um jeito, enquanto na intimidade apresenta-se de outro. No ambiente urbano, dentro o caos da densidade populacional, mudanças e movimentos bruscos, o anonimato permite ao respeitado Dr. Jekyll responder aos seus instintos perversos sem degenerar sua imagem social. 

No final, fica a pergunta: quem, então, somos nós? Qual a nossa "essência"? A que se manifesta no público, ou aquela que só aparece na intimidade entre quatro paredes?

Na carta deixada por Dr. Jekyll, o médico diz que Mr. Hyde é Dr. Jekyll, mas Dr. Jekyll não é Mr. Hyde. Ou, ao menos, o que Mr. Hyde faz - todos seus crimes e atrocidades - não compromete Dr. Jekyll. É como se o médico fosse isento de responsabilidade das atrocidades cometidas por Mr. Hyde que, por sua vez, faz e realiza tudo o que o médico tem vontade, mas por princípios morais não faz. 

Na verdade, essa questão é justamente parte do "caos" do homem moderno - onde as contradições do individualismo e das relações sociais se chocam, confrontadas pela moralidade cristã, surgimento da psicanálise, medicalização da vida, e tantas mais transformações trazidas pela modernização da vida no século XIX. Um grande mérito que torna essa obra um clássico, tão próxima de nós e um fenômeno da cultura de massa é que, apesar de vivermos já no século XXI, ainda somos filhos desta modernidade.

"Outras Mentes" foi uma leitura sobre polvos e humanos, mas também uma reflexão sobre outras leituras, esse blog e o futuro da discussão ambiental

Talvez uma das coisas mais interessantes que têm surgido com esse projeto de escrever - mesmo que de maneira leiga, pessoal e nada acadêmica - sobre minhas leituras, é poder visualizar alguns temas em comum. Como se fosse uma atividade de ligar os pontos, mas cujo desenho vai se formando meio que por acidente. 

Uma das primeiras obras que registrei aqui no blog, lá no início desta retomada em maio, foi Moby Dick (que pode ser visto aqui). Uma leitura que me levou para o alto mar, sob os olhos do século XIX: o interesse comercial no óleo de baleia para a iluminação e os meios primitivos de caça e extração. Uma ideia dos animais marinhos no meio termo entre desconhecimento-monstros-fantasia típico do imaginário medieval/renascentista e do controle absoluto e racional da natureza em função das demandas de uma organização social cada vez mais industrial. 

E depois disso, li Olga Tokarczuk (de novo ela aqui!) e Ana Paula Maia (um texto completo sobre as duas leituras encontra-se aqui). Romances contemporâneos que tentam entender a relação da sociedade com os animais, agora sob uma perspectiva do século XXI, procurando ressignificar as relações de vida e morte dos animais e seres humanos. Algo que não se encaixa no imaginário criado pelo desconhecimento, tampouco no controle absoluto e desmedido da natureza aos interesses de uma sociedade industrial e de consumo. 

Agora, saindo da ficção e por indicação de um perfil literário no Instagram, li Outras Mentes, de Peter Godfrey-Smith. Eu voltei para o mar, mas ao contrário de Moby Dick, cuja perspectiva era da superfície, em Outras Mentes nós mergulhamos para baixo da água e observamos o que se passa onde é preciso prender a respiração ou usar a tecnologia a seu favor através de tanques de oxigênio (ou seja, não é nosso ambiente). No primeiro, o ponto de vista é de cima para controlar o que está embaixo. No segundo, passamos a fazer parte do que está abaixo - uma tentativa de integração, não dominação.

Se durante a leitura de Moby Dick eu passei horas e horas lendo páginas de sites da internet e vendo vídeos no Youtube sobre cachalotes e baleias, agora o mesmo se passou com polvos. Até um documentário na Netflix eu assisti, chamado Professor Polvo e fiquei dizendo "- agora quero ver um igual com baleias". 

Em Outras Mentes, o filósofo Godfrey-Smith investiga as origens da consciência e utiliza-se largamente da Teoria da Evolução. Para quem não estuda biologia desde os tempos longínquos do colégio, a explanação didática do autor é um pouco nostálgica: "- nossa! eu lembro disso!". Ao contrário da época do colégio, no entanto, essa ciência e termos técnicos nos são apresentados sob o ponto de vista filosófico: em que medida investigar as origens da consciência em animais tão diferentes de nós e seus comportamentos, não fala sobre nós mesmos e nossa própria origem de pensamento?

Logo na introdução, ao expor a complexidade do sistema neurológico e do comportamento dos polvos, lulas e chocos (os cefalópodes) em comparação aos nossos próprios, Godfrey-Smith aponta que os polvos são o mais próximo que chegaremos de um alienígena inteligente. Isso porque, ver a experiência subjetiva em outros mamíferos a aves não é um desafio. Não parece ser ilógico. Somos animais bilaterais, com separação entre corpo e cérebro, pertencemos todos ao filo dos cordados, respondemos a estímulos externos e, ao mesmo tempo, estímulos internos nos fazem modificar o ambiente, sem contar que nosso ancestral comum é muito mais próximo se comparado àquele do qual originou a bifurcação entre nós e os cefalópodes.

"Se conseguirmos fazer contato com os cefalópodes como seres sencientes não foi porque temos uma história compartilhada ou algum parentesco. Eles são, provavelmente, o mais perto que chegaremos de um alienígena inteligente."

Por outro lado, ver senciência em animais como os polvos, que desafiam toda a lógica que conhecemos (e que parece tão natural) entre corpo e cérebro, que não apresentam coluna vertebral, vivem isolados sem interagir com outros animais, não bilateral, etc, é um desafio maior. Como ter experiência subjetiva - como ter pensamento e apresentar comportamento inteligente - sem um cérebro? Godfrey-Smith nos responde essas questões de maneira muito científica, provocadora, didática e instigante. Ás vezes, acho que se perde um pouco nos detalhes da biologia - como por exemplo quando ele nos explica como os chocos e polvos enxergam pela pele, não pelos olhos. Apesar da explicação muito detalhada, não deixa de ser interessantíssimo. 

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O grande triunfo do livro, ao contrário do documentário da Netflix, é a habilidade de Godfrey-Smith nos fazer admirar os cefalópodes, e até mesmo a vida e o ecossistema marinho, nos integrando ao mesmo ambiente e história evolutiva - e não humanizando esses animais. Nós somos como eles, nós dividimos essas características, essa história. Não se trata de uma argumentação de "eles são como nós". 

É perigoso isso de "humanizar" os animais com a intenção de criar compaixão e consciência ambiental: é nesta armadilha onde caem alguns movimentos de proteção animal e veganismo. Em Professor Polvo esse processo humanizador é tão exacerbado que, além de caracterizar o animal como professor no próprio título, o narrador espelha sua vida na vida do polvo com quem convive por um ano - chamando-a de "she", não "it" - e aí, claro, temos um recurso narrativo incrível para a gente chorar litros. 

Só que aí está o problema: é um recurso narrativo. Acabou o filme, acabou o sentimento. Humanizar o que não é humano não cria empatia e compaixão, tampouco consciência ambiental. O que os autores de Professor Polvo e Outras Mentes têm em comum é justamente a preocupação com a saúde dos oceanos e a continuidade da vida marinha que, desde os tempos de Moby Dick, vêm sofrendo uma degradação em ritmo maior que o de recuperação. 

No clássico de Herman Melville, a baleia do século XIX é um monstro. Nós, como humanidade, evoluímos muito de lá para cá. Não é mais comum ao pensamento ocidental bestificar os animais, no entanto, humanizá-los não têm efeito sistêmico. Choramos pela polva do documentário, torcemos pela liberdade de Willy, mas a consciência do todo - do ecossistema e das outras vidas animais - nós esquecemos quando viramos a página, desligamos a TV. 

O mérito de obras como Outras Mentes é utilizar-se da nossa ciência - nossa própria produção de conhecimento - para mostrar como os polvos e a vida marinha é incrível por ser como ela é e - ao mesmo tempo, mesmo que tão distante de nós e tão poucas afinidades, ainda dizem muito sobre nós e podem, se continuarem a existir e serem estudados, dizer muito sobre nosso passado e origem como seres humanos. É neste quesito que se aproximam as obras de Olga Tokarczuk e Ana Paula Maia ao de Godfrey-Smith: elas nos mostram, com brilhantismo, como podemos evoluir a discussão ambiental no século XXI.

Moby Dick: três anos em alto mar em busca da baleia branca ou quanto tempo em quarentena até uma cura

Há muito tempo que eu não entrava numa máquina do tempo e lia alguma obra do século XIX. A última vez foi em dezembro de 2018, com Jane Eyre, de Charlotte Bronte. Mas, por causa da situação permanente de estar em vias de me mudar e em vias de encaixotar meus livros, lacrá-los, colocá-los em algum porão/ armário/ quarto vazio, comecei a olhar com carinho obras da minha estante que a partir de algum momento deixarão de ver a luz do sol.

Nisso, eu vi os dois volumes de Moby Dick e lembrei do meu preconceito de "como deve ser chato um livro de 800 páginas que se passa em alto mar". Só que estamos de quarentena, cujo fim não se sabe quando será. Quão diferente a monotonia do livro poderia ser da minha?

Exceto o ponto central da narrativa - a "busca monomaníaca" do captão Ahab pela Moby Dick - eu não sabia nada sobre o livro e por isso foi uma leitura cheia de surpresas. A começar pelo vocabulário do universo baleeiro do século XIX. Que universo era esse, meu deus? Apesar de já possuir anteriormente uma ideia de que existem diferentes espécies de baleias, por exemplo, sinto que sabia nada e acabei me tornando quase uma especialista em cetáceos e cachalotes. 

A exposição exaustiva do funcionamento de um navio baleeiro, a tripulação e suas funções, as armas, ferramentas, a operação de caça, dissecamento e retirada do óleo das baleias cachalotes - tudo em alto mar - configura um didatismo espetacular. Tudo isso numa leitura fragmentária, composta por 136 capítulos curtos mais epílogo, de onde saltam capítulos reflexivos, analíticos e até de pequenas histórias que orbitam a narrativa principal.

Tudo é curioso e diferente.... Aos meus olhos do século XXI, baleias são amigas e fofas e não monstros assassinos. Afinal, milênios separam qualquer semelhança entre a Bolha (a baleia-maternal-de-Flap-Jack) e o leviatã que engole Jonas. Apesar de serem apresentados como ameaças, os cachalotes também são descritos como seres superiores, inteligentes, fortes e incríveis. Uma manada brincando no horizonte, com as caudas contra o pôr-do-sol é uma visão dos céus, enquanto o barulho ensurdecedor dos tubarões comendo a carne da baleia morta, é descrito como o som dos infernos.

Ao mesmo tempo que o narrador e tripulante Ismael admira estes animais, ele também os caça, mata, decapita, esvazia seu interior e solta sua carcaça ao mar. Não há um problema moral nisso. Não há culpa. Não há o que questionar. É uma obra do século XIX. Há, contudo, sugestões reflexivas sobre a relação do homem e a natureza. Uma das passagens que mais me marcou, foi a do capitão Stubb que, depois de matar um cachalote, embebeda-se em comemoração e exige comer filés do animal morto e pendurado ao lado do navio. Tudo isso, iluminado pela lanterna que consumia o óleo de espermacete da baleia:

"O fato de nutrir-se um homem com um ser que lhe alimenta a lanterna e, como fez Stubb, comendo à luz projetada por esse mesmo ser é algo tão singular que reclama um pouco de história e filosofia. (...)

A evidente repugnância com que os terrícolas consideram a baleia como alimento não se funda, aliás, inteiramente na excessiva gordura da carne. Talvez provenha muito mais da observação feita acima, isto é, o homem não se resigna a comer a carne de um ser marítimo recentemente morto e a iluminar-se ao mesmo tempo com ele. (...)

Ide uma noite de sábado a um açougue e observai as multidões de bípedes vivos com os olhos cravados nas grandes filas de quadrúpedes mortos. Cada um desses canibais não sente que a água lhe vem a boca? Canibais? Qual de nós não o é? Asseguro-vos que o juízo final será mais leve para um indígena de Fidji que salga um magro missionário na sua cela, na iminência de uma fome próxima, do que para ti, civilizado e sábio gastronômo, que abates os gansos no solo e te regozijas com o seu fígado inchado, no paté de fois gras."

Ao longo de toda a leitura eu me vi no Google, Youtube e Wikipedia pesquisando sobre baleias, cachalotes, esparmecete, Nantucket, etc e, depois de já ter acabado o livro, passei por este texto de 2013, The Endless Dephts of Moby-Dick Symbolism, e uma coisa me saltou aos olhos. Os navios partem dos portos para ficar três anos em alto mar. É quase uma máquina do tempo. Esta tripulação está alheia a tudo. O mundo que deixaram não será o mesmo que encontrarão no retorno. Ao mesmo tempo, a fórmula da busca, a jornada do capitão por algo, torna Moby Dick um livro sobre tudo. Cada um terá sua leitura, a depender de onde e quando é o leitor.

"Moby-Dick is about everything, a bible written in scrimshaw, an adventure spun in allegory, a taxonomy tripping on acid. It seems to exit outside its own time, much like Don Quixote and Tristam Shandy, the poetry of Emily Dickinson. It is so broad and so deep as to accept any interpretaton while also staring back and mocking this man-made desire toward interpretation."

E é por isso que eu não consigo deixar de comparar nosso presente à uma caça a Moby Dick. "Não eram trinta homens, era apenas um". E somos uma só sociedade, com os indivíduos isolados, com medo de um vírus que surgiu na própria relação doentia entre o homem e a natureza. Alheios a tudo. O mundo que deixamos pré-pandemia não será mais o mesmo no pós-pandemia. E assistimos, como a tripulação, uma busca insana e "monomaníaca" por uma cura, uma solução, uma saída dessa situação. Ou então somos nós mesmos o capitão Ahab, um dia após o outro à procura de um hobby, uma atividade produtiva, um pensamento positivo, uma esperança, em uma realidade marcada pelo isolamento e perigos.

Considerando o fim da história, é uma pena que esta comparação só traz mais desalento.