O Apanhador no Campo de Centeio: o privilégio de viver um dos seus livros preferidos

Minha vida ultimamente tem funcionado na contagem regressiva. Desde que começou a Copa, minha rotina se tornou caótica - e se está caótica, é porque não há rotina. Final de semestre e por isso provas, trabalhos e horários malucos. O inverno se aproxima, as temperaturas caíram, encontrinhos de final de ano, feriado de Thanksgiving, Covid por uma semana, arrumação de mala para a viagem ao Brasil, compras de presente de Natal e, no meio de tudo isso, jogos do Brasil e uma Copa do mundo. Além das outras coisas que vão acontecendo in between

Por isso, fui lendo alguns livros e não consegui registrá-los aqui. Minha resolução de escrever tudo em inglês não ajudou, porque meu fluxo de pensamento é em português. Eu precisaria de tempo de escrita e revisão, o que não teve. Minha cabeça também esteve mais para a Copa e a seleção brasileira, então meu cérebro suprimiu a parte de vivência norte-americana. Por isso, fiquei adiando, adiando, e não escrevi aqui no diário as últimas leituras, mesmo elas tendo ficado entre as melhores do ano. 

Como a bomba relógio está prestes a explodir e o ano acabar, resolvi escrever em português mesmo uma breve - bastante breve - resenha desses livros. Não terá revisão. Ou esse registro sai de uma vez de forma natural, ou não sairá. Não há opção de cesariana. Começo essa maratona com uma leitura de dois meses atrás. 

Minha fantasia de Halloween


Li The Catcher in the Rye em Outubro para me fantasiar de Holden Caulfield no Halloween. Foi uma leitura tão especial e significativa, que queria escrever um texto a sua altura. Mas é claro que a expectativa de fazer algo perfeito só significou a procrastinação eterna. 

A primeira vez que li O Apanhador no Campo de Centeio foi em 2020, antes de me mudar para os EUA, quando eu ainda não conhecia muito bem a literatura americana nem estava acostumada a ler ficção em inglês. Na época, eu já havia gostado muito do narrador e como eu tenho uma grande afinidade por romances de formação, o livro de J.D. Salinger conquistou um lugarzinho no meu coração. 


Retomei a leitura no kindle, mas depois de um ano e meio morando em Nova York, o livro ganhou uma dimensão completamente nova e até comprei o paperback da belíssima e icônica capa vermelha.  Conforme ia avançando na leitura, pude ir caminhando pela cidade com Holden. Apesar do livro ter sido publicado há 70 anos e a cidade de Nova York ter sofrido grandes mudanças, muita coisa continua ainda igual: a caminhada pela quinta avenida, o bar em Greenwhich Village, a loja de discos na Broadway, o Radio City Music Hall, a Grand Station, o Carrossel do Central Park, o zoológico, etc. 

É um livro mais triste do que eu lembrava. A solidão urbana, o luto pela morte do irmão, o deslocamento social ao descobrir o abismo que separa a "essência" de um indivíduo e seu lugar social, as regras de etiqueta, o "ser" quem você é e o que se espera de você... Tudo isso na cabeça de um adolescente andando numa cidade adulta e agressiva, num frio de dezembro. Acho que não importa qual a idade que lemos The Catcher in the Rye, todos somos um pouco Holden Caulfield, às vezes um pouco mais outras vezes um pouco menos. 

John Lennon


Quando falei pro meu irmão que estava lendo The Catcher in the Rye e que ia me vestir de Holden Caulfield para a festa de Halloween, ele me mandou um trecho de um episódio de South Park. Os personagems do desenho animado tinham recebido como lição de casa ler esta obra que, como o professor disse, era "polêmica".  Um dos personagens, ao terminar o livro, pega uma faca de cozinha e sai dizendo que quer matar John Lennon que, é óbvio, já havia sido morto. Foi aí que eu descobri que o assassino de John Lennon, Mark David Chapman, disse que se inspirou em Holden Caulfield para matar o compositor, pois John Lennon seria um grande "phony" e, portanto, alguém que Holden detestaria. 



Eu lamento muito que J.D. Salinger tenha testemunhado alguém dizer que seu livro foi usado como inspiração de um assassinato. E é na verdade isso que o episódio de South Park discute: como as pessoas tiram interpretaçãos bizarras quando procuram grandes significados e mensagens em textos de ficção que - pasmem - às vezes não querem dizer nada.

Se eu pudesse, eu diria para Salinger que seu livro, na verdade, se utiliza do mundo adulto corrompido para valorizar a inocência infantil. E que, ao contrário de aniquilar e matar o mundo adulto hipócrita, ele faz a gente recuperar e valorizar a simplicidade que tínhamos quando éramos crianças. 


Minha fantasia de Holden Caulfield na festa de Halloween da New York Public Library


Depois de me fantasiar de Holden para a festa de Halloween, tirar várias fotos com uma cara beeem triste e maquiagem embaixo dos olhos, no final de semana seguinte fomos ao Carrossel no Central Park. Eu nunca teria ido dar uma volta no Carrossel se não fosse The Catcher in the Rye. E sabe de uma coisa? Foi uma das experiências mais legais que eu tive em Nova York. Me emocionei muito poder viver uma parte tão linda daquele livro. É um privilégio poder viver uma grande leitura. 


Minha alegria depois de dar uma volta no carrossel e ainda ganhar uma balinha de trick or treat. 

Hollywood


JD Salinger e seus descendentes nunca autorizaram uma adaptação de The Catcher in the Rye. Por isso, apesar de seu status na literatura norte-americana, nunca foi feito um filme do livro. Inclusive, na própria narrativa, há passagens onde o narrador, Holden, expõe sua opinião sobre Hollywood, dizendo que filmes são "phonys". Ele diz que seu irmão é um "vendido", pois deixou de escrever suas estórias e mudou-se para Hollywood para escrever roteiros de filme. 

Para além dessa questão metalinguística sobre a arte literária e da dramaturgia, em sua vida pessoal, J.D. Salinger sofreu uma grande decepção amorosa que envolveu o mundo do cinema. Aos 23 anos, Salinger se apaixonou pela moça de 16 anos Oona O'Neill, filha de um grande e famoso dramaturgo norte-americano, Eugene O'Neill

Eles começaram a se relacionar, e quando Salinger partiu para lutar na Segunda Guerra Mundial, ele escreveu e enviou a sua amada muitas cartas de amor. Tudo acabou, no entanto, quando Oona tornou-se Lady Chaplin, ao se casar com Charlie Chaplin, que tinha então 54 anos. Dizem as más línguas que Salinger ficou devastado e isso explicaria seu "ranço" com a sétima arte. 

Mas isso é só uma curiosidade! Geralmente sou defensora de separar o artista da obra. O Apanhador no Campo de Centeio é um livro incrível por si só e essa história envolvendo o autor é muito interessante porque envolvem grandes nomes da dramaturgia. 

Com certeza O Apanhador no Campo de Centeio é um dos meus livros favoritos, que quero ler novamente em outros momentos da minha vida. Aí, quem sabe, falarei um pouco sobre o título. Pesquisei um pouco sobre ele e também achei muito curioso, mas fica para uma próxma vez. 

Se por acaso você leu até aqui, gostou e ficou com vontade de ler O Apanhador no Campo de Centeio, clique aqui para comprar pela minha lojinha de afiliados da Amazon. Obrigada!

The Road, by Cormac McCarthy: a messianic tale in a post-apocalyptic world

For the past two years, I have been writing book reviews on this blog, which is like a notebook for me. The beauty of notebooks is the freedom they give us to do everything we want on their blank pages. From now on, I'll continue writing about my reading experiences and book reviews, but I will also try to practice my English writing. 

I have been living in the US for a while, and maybe I'll stay here for a little longer. I want to start practicing and improving my writing in this foreign language. That being said, I'm talking today about The Road, by Cormac McCarthy, the same author of No Country for Old Men (Onde os fracos não tem vez), which movie adaptation won the Best Picture Oscar in 2007. 

This book was a surprise. My husband bought it a long time ago from a second-hand bookseller. I knew neither the book nor the author and never got any closer. All these past months the book has been wandering around my house. First, on the nightstand for a while, waiting for Allan to pick it up. When we noticed it wouldn't be read any time soon, it went to the TV stand, in the living room. Finally, I was putting it on a small shelf cart I bought to organize the books when I gave it a quick look and got interested.


Probably because I read so many classic books from the 19th century in the past few months, I'm now eager to read contemporary books. The Road was published in 2006 and became a national bestseller in the US. In Brazil, A Estrada was published in 2007 by Companhia das Letras. 


It is a post-apocalyptic tale about a father and his son trying to survive in a destroyed world. We are not told what has happened. A nuclear war? A meteor? We only know that everybody is dead and the world is burnt. There is a thick and dark atmosphere with little sunlight. It rains and snows. The weather is very cold and everything is covered by ashes. The few survivors have to wear masks and fight for food in a dead world where there are no more animals and plants. Not only humans have been extinct, but also cows, chickens, birds, and fishes. The soil is contaminated and it is not possible to grow vegetables. All they have to survive is canned food that, in one way or another, has outlived the end of the world. 

The man and his son walk on the road toward the south, where they expect it to be warmer. We follow them on their journey. They don't have names. No one who appears in the tale is named. In a deserted world, there are no individuals. Not even many words are needed. McCarthy's writing is almost a poem, with very direct short sentences. 

We follow the father trying to save his son at all costs from famine, cold, lack of sun, killers, thieves, and cannibals. Besides his physical integrity, the father also tries to save his son's goodness, hope, and innocent view of people. I suppose the boy is around 8 or 10 years old and he was born in this post-apocalyptical world. From his mother, we know very little. Only a few memories the father has of her. 

Many subjects are discussed in this journey: the love of a father and son, cannibalism, humanity, the relationship between man and nature, and hope - or the lack of it. What touched me the most though was how the annihilation of the world is, in fact, related to the disappearance of memory. Constantly the boy asks his father "what is this?" and the man slowly passes to him what he knows and remembers. However, at one point, he realizes that it is impossible to talk and live in that new world, without regretting the loss of the old world. Their reality is the consequence of the death of what it was. He can't show his son what it is in other terms other than death, loss, and disappearance. 

In a dead world, where can one find food? When famine, can humanity and hope endure? 

Despite all the post-apocalyptic horror, the book has an optimistic message - and a kind of messianic too. It is supposed that the boy carries "the fire", and they have a major goal to fulfill, bigger than themselves. Exactly like it is not revealed how the world ended up in that way, this "fire" the boy carries isn't much explored either. In The Road, everything is only suggested, not explained. 

I liked it very much. I do recommend it! You can find it on Amazon Brasil and Amazon US. There is also a movie released in 2009, I think it is available on Amazon Prime, but I haven't seen it yet. 

The Tender Bar, by J.H. Moehringer: a coming-of-age novel inspired by Scott Fitzgerald and the men from the bar

It has been really difficult for me to engage in writing the last few weeks. I've been trying to write this review about The Tender Bar for a while and I couldn't. One of the reasons I can think of is this bilingual reality I've been living in the last year: while I speak and think in Portuguese, I listen and read mostly in English. 

The last books I read were in English. That's ok, but writing in Portuguese about this last one has been a little tricky. The Tender Bar, a memoir by the American journalist J.R. Moehringer, was published in 2006 and it's about the childhood and early adult years of a man who was born and raised in Long Island, NYC. Not a classical book, like the others I've read before. 

In this one, the language was very simple. Except for the chapters in which he talks about baseball (oh, my God! I think baseball is so boring!), structures and vocabulary were easy to understand. So I think that while I read this book, I  thought about it in English too - not in my mother language. Maybe that's the reason why writing about it in Portuguese has been an impossible task (I know there might be other reasons, like the Brazilian elections, but let's not talk about it now). So, I decided I should give it a try and write this review in the same language I read it. Please, English speakers native who might be reading this review, forgive me for any mistake.


The Tender Bar was a very nice surprise. I didn't know the author and I ended up downloading the e-book because I saw there would be a reading club meeting at Central Park to discuss it. As usual, because I'm such a slow reader, I took longer to finish it and I didn't go to the meeting. I don't regret it, there will be others, but I'm glad I finished the book anyway. 

The book is divided into two parts. The first one wasn't my favorite, although the issues the author brings up are very important and delicate: a child in the 70s who grew up in a dysfunctional family in the outskirts of NYC, and whose closest male examples were his grandparent, his uncle, and his uncle's friends. 

J.R. Moehringer tells us about his life in his grandparent's decadent house, a place where his mother, after getting a divorce from his father, would always come back for lacking money and having nowhere else to go. A place where he lived with his aunt and several cousins (who were always running away from their violent husband and father), his uncle who worked at a bar, his dear grandmother and his grandfather who didn't give enough money for food to his wife, ignored the maintenance of the house and, every other weekend, had suspicious going outs. 

We are introduced to two opposite worlds. First, the house, or the domestic life, where men were absent. When they were present, they were violent, drunk, or mean to women and children. The place where men were unhappy and always trying to run away from. Second, "the bar". The Dickens, later called Publicans, was literally the place where people hung out and drank alcohol, and a metaphor for the "outside world", the "non-family world", the opposition of domestic life. 

This is the environment described in the first part of the book, in which the young J.R. Moehringer talks about how much he missed his father, the financial difficulties his single mother, judged by her own family, suffers to keep up with a job or even an apartment for them, the uncle who is either drunk or dealing with bets, and the grandfather who is mean to his grandmother, mother and aunt. The Moehringer boy assumes to himself his father role of taking care of his mother, at the same time he admires the men from the Publicans and wishes to be just like them. 

The second part of the book I liked very much. We follow his almost-accidental-approval at Yale, where he feels completely dislocated when comparing himself with all those boys and girls from rich and well-educated families. Then, he tells about his first job at The New York Times and his romantic life. The most important though is his realization that the Publicans, where he spent most of his days and considered a place of comfort, amusement, and manhood, was leading him to repeat the same mistakes the men of his early life committed with his family and himself. 

It is a beautiful book. The thing about memoirs, unlike autobiographies, is that they allow the author to select what and how they want to narrate. They have more freedom. I liked very much how J.R. Moehringer talks about manhood, alcoholism, and family. We see many women and women authors constantly talking about marriage, maternity, domestic life, and what it means to be a woman, but we rarely see men talking about these issues. Moehringer discusses what is to be a fatherless boy and his lonely pursuit to know what it means to be a man when all he has in his surroundings are broken men. 

Another very interesting subject brought up by the author is his discovery as a writer. It starts in his childhood and his interest in books and encyclopedias kept in a cabinet in his grandparent's house. Then, in his teenage years, he starts working part-time in a bookshop, in Arizona, and the owners introduce him to American Literature. At Yale he tries to "upgrade" his acknowledgment in literature and writing, but he has absolutely no academic success. All he has is his love for literature, his admiration for the great American authors, and his will of writing about the world he knew and those men from the bar. 

Moehringer starts his narrative with The Great Gatsby, because Manhasset, the place in Long Island where he was born and lived, was F. Scott Fitzgerald's inspiration for East Egg. Other authors and characters are mentioned in the book, from Charles Dickens to Emily Dickinson. It's very delightful to read about this "high literature" mixed with bar conversations and the most ordinary people and events from the outskirts of NYC. 

Absolutely a beautiful contemporary coming-of-age novel that I recommend. 

If you're not interested in reading more than 400 hundred pages, there is an adaptation on Amazon Prime released in 2021, directed by George Clooney. I haven't seen it yet, but I intend to. 


No Brasil, o livro foi to livro foi lançado em 2007, pela Editora Nova Fronteira, com o título Bar Doce Lar. Está disponível na Amazon Brasil. Se você leu até aqui, se interessou e gostaria de ler em português mesmo, clica nesse link aqui:  Bar Doce Lar, de J.R. Moehringer

O Corcunda de Notre Dame: minha estreia lendo Victor Hugo

Esses dias uma amiga querida estava me contando sua experiência em um museu e disse "a pior arte é aquela que provoca o nada, que não desperta nenhum sentimento, que não instiga curiosidade, admiração, raiva ou nojo. Ao olhar um quadro, até os sentimentos ruins são mais valiosos que o nada."

Pois bem, a partir disso tomei a iniciativa de escrever sobre minha última leitura. Já faz 15 dias que acabei O Corcunda de Notre Dame, escrito por Victor Hugo e publicado em 1831. Quando eu tinha 16 anos conheci meu marido. Ele era apaixonado por Victor Hugo, mas eu o perdôo, porque - afinal - todo adolescente é um grande romântico. Seu livro preferido era Os Trabalhadores do Mar. Isso foi em 2007 e, desde então, eu ouvi várias vezes recomendações para ler o tal do herói da literatura francesa que se pronuncia Hugô. 


Acontece que eu sabia que não ia gostar de todo o melodrama do romantismo francês. Porém, nestes últimos tempos, me envolvi numa pesquisa sobre a vida de Adèle Hugo, a quinta filha de Victor Hugo. O caminho foi labiríntico: para praticar o francês, estava assistindo a série da Netflix Dix Pour Cent onde, em um dos episódios, apareceu a atriz francesa Isabelle Adjani. Coloquei o nome dela no Google e vi que um dos filmes que lhe deu projeção foi A história de Adèle H.. Li a resenha, me interessei, estava disponível no Amazon Prime e, voilà! Me emocionei com o filme, com a história de Adèle e pesquisei bastante sobre ela, inclusive indo à biblioteca ler seus diários íntimos. 

Eu estava tão envolvida com essa história da família Hugo (descobri várias fofocas) que, quando vi que o Clube de Leitura do Querido Clássico tinha programado O Corcunda de Notre Dame como leitura coletiva para o mês de setembro, eu achei que seria uma ótima oportunidade. Porém, curiosidade: o timing foi ótimo, mas a leitura - como eu já esperava - foi ruim. 

Não é que o livro em si seja ruim, mas ele não conversou comigo, com meu momento de vida, com a minha realidade. A história se passa em Paris no final do século XV, escrito em 1830 e se trata de uma defesa a favor das construções arquitônicas góticas medievais que, após a Revolução Francesa, Victor Hugo via que estavam sendo todas demolidas. Eu entendo a importância histórica deste livro/ documento. Todas aqueles monumentos indo abaixo apagavam uma história que dificilmente poderia ser recontada depois. Várias vezes durante o livro, o narrador se intitula como "historiador" e usa os personagens e a narrativa ficcional para ensinar os leitores sobre a história e a arquitetura parisiense gótica e medieval, inclusive a própria formação urbana da cidade.  Sob a perspectiva da mudança do tempo, no sentido do fim de uma ordem, para o nascimento de um novo mundo, é um registro até bonito. 

Porém, de novo, em muitos sentidos esse livro não conversou comigo: não sou arquiteta, nem urbanista, tampouco medievalista, muito menos um dia já pisei na França. A única coisa que - talvez - poderia me aproximar disso tudo é meu carinho em estudar a língua francesa e meu interesse por literatura do século XIX, mas olhe lá! Eu procuro na ficção o prazer que a arte proporciona e para isso pela precisa dialogar com o expectador que, por sua vez, vê sentido no que está consumindo. Se eu estou lendo algo que não conversa com a minha realidade, não há diálogo, portanto não há sentido e, como consequencia, há frustração. 

Em resumo foi este o sentimento da minha estreia lendo Victor Hugo: frustração. Tirando um capítulo genial, onde o narrador faz uma análise de como a criação da imprensa mata (sim, do verbo matar) a arquitetura enquanto forma de registro histórico das sociedades, todo o resto achei bem cansativo. Inclusive a construção da única personagem feminina: Esmeralda. 

É também um pouco frustante ver essa mulher do romantismo sendo descrita e tratada como seres passivos, ingênuas e infantis. Aliás, esta é a forma como Victor Hugo tratou sua filha Adèle quando, aos 41 anos, ela é levada de volta à França depois de mais de uma década vivendo sozinha em países estrangeiros. No seu retorno, ela é diagnosticada com esquizofrenia. Um diagnóstico que, sob o nosso olhar contemporâneo, é bastante questionável, mas que na época, Victor Hugo tomou como um motivo para interná-la numa casa de repouso pelo resto de sua vida. 

Finalizo aqui sem falar muito sobre o livro em si, porque apesar de ser bastante rico e oferecer mil tópicos para serem discutidos, é muito complicado falar sobre algo sobre o qual não nos identificamos. Fica, porém, meu registro da experiência de leitura.

Retrato de Uma Senhora, de Henry James: tradição versus modernidade, casamento e liberdade

Retrato de uma Senhora está entre as obras mais importantes de Henry James e da literatura norte-americana. Depois de A Outra Volta do Parafuso e A Herdeira de Washington Square, Henry James me conquistou e outras obras entraram na lista. E assim comecei The Portrait of a Lady. Foi um dos livros mais difíceis que li nos últimos tempos. Li em inglês e o começo, até me familiarizar com os personagens e ambientes, foi muito devagar e complicado. Mas insisti, funcionou, e segui pelas 800 páginas. 

O enredo

Publicado em forma seriada durante o ano de 1881, Retrato de Uma Senhora conta a história de Isabel Archer, uma jovem moça da cidade de Albany, capital do estado de Nova York. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel estava pobre, sozinha e um casamento era a única coisa que lhe restava. É aí que chega sua tia Mrs. Touchett, irmã de sua mãe e também nascida nos Estados Unidos, e convida-a a seguir com ela para suas casas na Europa, onde já morava há muitos anos. E assim começamos a saga da heroína Isabel Archer: sua chegada nos jardins de uma mansão inglesa, onde ela conhece seu primo Ralph Touchett e seu tio Mr. Touchett. 

Na Inglaterra ela conhece Lord Warburton, um dos vários candidatos que vai pedi-la em casamento. O outro galã, ao contrário do lord inglês (como nos romances, Isabel diz), será Caspar Goodwood, um jovem businessman de Harvard, que enriqueceu com a indústria de algodão. (É curioso como James caracteriza este personagem fisicamente: de maxilar quadrado e um porte excessivamente masculino, me trouxe imediatamente a imagem do Gaston, personagem do filme da Disney, A Bela e a Fera.) 

Isabel chega na mansão dos Touchett, chamada de Gardencourt, trazendo um frescor inocente, curioso e cheio de otimismo e desejos pela vida. Ela conquista a afeição de seu tio que, no leito de sua morte, decide deixar para a pobre moça uma pequena herança. Ralph, no entanto, de saúde frágil e baixa expectativa de vida, pede ao pai que diminua a sua própria herança e deixe a maior parte para Isabel. Provida de muita dinheiro, diz Ralph, Isabel poderia conquistar a liberdade que tanto desejava. "Mas ela não será vítima de caçadores de fortuna?", pergunta o pai. Ralph confirma que este risco ela irá correr, mas que ele está curioso e gostaria de ver e acompanhar como a prima vai lidar com essas questões. 

Mr. Touchett morre, Isabel torna-se uma moça solteira muitíssimo rica e, sedenta por liberdade, recusa os pedidos de casamento do Lord Warburton e de Caspar Goodwood, partindo em direção à Itália com sua tia. A partir daí, a história se desenrola em casarões e ruínas nas cidades de Florença e Roma.

Ainda na Inglaterra, Isabel conhece uma amiga de sua tia que, assim como elas, havia nascido nos EUA, mas morava na Europa já há muitos anos. Mrs. Merle, para Isabel, é a perfeição: elegante, inteligente, culta e sabe agradar. Mrs. Merle também mora na Itália e, depois das pequenas férias em Gardencourt, partirá com Mrs. Touchett e Isabel para Roma e Florença, sendo um personagem importante na segunda parte da história. 

Através de Mrs. Merle, Isabel conhece o viúvo Gilbert Osmond, outro expatriado que tem uma filha adolescente, chamada Pansy. Osmond é um personagem interessantíssimo: ele quer ser um aristocrata e vive, fala e se comporta como um. Seu gosto é o puro refinamento da aristocracia e sua visão de mundo é conservadora, mesmo ele sendo pobre e nascido nos EUA. Ele condena tudo o que é do novo mundo, dos novos costumes, e tem um gosto excessivo pelo convencional. (Praticamente um Caco Antibes.) 

Mrs. Merle e Osmond têm uma relação bastante suspeita e, após a morte de Mr. Touchett e o recebimento da herança por Isabel, tramam um casamento entre a moça e Osmond. Bom, a partir daí, não vou continuar a história, mas adianto que Isabel - contra tudo e contra todos - decide-se casar com Osmond. 

O Novo no Velho Mundo

Apesar da dificuldade que encontrei no começo do livro, por que continuei? Logo de entrada, me interessei demais pela relação de Isabel, uma moça do Novo Mundo, descobrindo as coisas no Velho Mundo. Eu me vi muito nela, quando fui pela primeira vez para a Europa, em 2017. Existe um impacto enorme quando nós, que nascemos e crescemos em países de histórias tão recentes - ex-colônias que conquistaram suas independência há menos de 200 anos -, pisamos em lugares que reinvindicam o início de suas histórias em tempos antes de Cristo. 

Não é sem intenção que o autor coloca sua heroína caminhando pelas ruínas do Coliseu. É o velho versus o novo, a modernidade versus a tradição. No campo da geopolítica, era o recente país Estados Unidos da América se legitimar como uma nação potente e não mais como ex-colônia; no campo da literatura, era Henry James colocando sua obra no panteão da literatura ocidental. 

Temos uma tendência de idealizar o passado, e mais ainda idealizar um lugar que tem um passado que nós não temos. Estar na Inglaterra e conhecer um verdadeiro Lord, diz Isabel, é "como viver um grande romance". Por isso os personagens deixam os Estados Unidos e, na Europa, vivem uma vida aristocrática parada no tempo, andando a cavalo e caminhando pelas ruas milenares europeias, enquanto do outro lado do Atlântico, linhas ferroviárias estavam sendo construídas para ligar o Atlântico e o Pacífico, metrópoles estavam sendo erguidas, e o avanço tecnológico e financeiro se desenvolvia rapidamente de um dia para o outro. 

O progresso tecnológico bate de frente com o conservadorismo social e é aí que entra o casamento frustrado de Isabel Archer. 

O casamento como liberdade e prisão

Eu li Isabel Archer e sua saga de duas maneiras. 

A primeira, como uma personagem feminina que, com os privilégios de uma boa e confortável educação burguesa, cresce com a inocência e vontade de conhecer o mundo. Ela quer ter novas experiências. Depois que seus pais morreram e suas irmãs se casaram, Isabel se vê sozinha, encantada pelo mundo dos livros e é apenas curiosa. Ela vê no casamento o risco de ficar presa e, com a companhia de sua tia e, depois, absolutamente rica, ela rejeita os pedidos de casamento de Lord Warburton e Caspar Goodwood sob o pretexto de preservar sua liberdade. 

Mas o que é liberdade para a mulher no século XIX? Caspar Goodwood diz a ela: solteira, ela não pode andar sozinha por onde bem entender. Uma dama deve estar sempre acompanhada e é constantemente vigiada. Existe uma série de regras sociais do que uma mulher solteira deve ou não fazer para não sujar sua reputação. Só um casamento traria à ela a liberdade que ela desejava. 

E é aí que ela vê em Gilbert Osmond, um compatriota, amante da beleza Antiga, que vive na Europa há muitos anos e cria sua filha com o rigor do conservadorismo Católico, a oportunidade de tornar-se uma dama e conquistar sua desejada liberdade nos círculos mais aristocrático europeus. 

A segunda leitura foi de Isabel como uma metáfora do próprio país Estados Unidos, que vinha discutindo o conceito de liberdade intensivamente no último século. Quando o livro foi publicado, os EUA eram um país de apenas 105 anos, tendo conquistado sua independência da Grã-Bretanha em 1776. Depois disso, entre 1861 a 1865, o país enfrentou a Guerra de Secessão e, só em 1863 os EUA assinaram a abolição da escravidão. Liberdade era o tema do dia há muito tempo. Além disso, um país extremamente novo, estava procurando se encontrar, construir sua própria identidade, e apesar da tão desejada liberdade, era para a Europa que o país se virava para construir suas referências identitárias e culturais. 

Isabel Archer, como uma metáfora dos Estados Unidos, olha encantada para os modos aristocráticos, as ruínas e a tradição do Velho Mundo. Por isso, ela decide casar-se com Gilbert Osmond, o compatriota americano mais conservador que ela poderia encontrar. Caspar Goodwood, o jovem industrialista de Boston, representava o progresso tecnológico, financeiro e o futuro; Lorde Warburton, apesar do título de nobreza, tinha ideias revolucionárias e um engajamento político relevante; Gilbert Osmond era o retrocesso do retrocesso. Sua admiração pelo passado, pelas coisas tradicionais e estáticas, seu gosto pelo Antigo, faz dele um retrógrado. Isabel, na sua inocência, viu no casamento com Gilbert Osmond a possibilidade de unir sua liberdade e juventude com o passado e a tradição.

Essa tentativa de união foi frustrada e deixo aos interessados descobrir porque. Mas acrescento brevemente que, recentemente li A Casa das Sete Torres, de 1850 e escrito Nathaniel Hawthorne. Neste livro, o autor também faz uma crítica à cultura aristocrática numa pequena cidade da Nova Inglaterra, colocando em personagens fantasmagóricos e uma casa mal-assombrada o passado vergonhoso da história de seu país que resistia ao progresso e às mudanças sociais. 

Retrato de Uma Senhora é um livro difícil, mas maravilhoso, que pode ser lido sob diversos pontos de vista, principalmente por quem se interessa pela história dos EUA. Minha formação sempre faz eu ir para o lado mais histórico, mas também achei muito interessante como James fala sobre a mulher e o casamento no século XIX. É um autor que constrói grandes mulheres protagonistas, assim como Catherine Hopper, de A Herdeira de Washington Square. Em Retrato de Uma Senhora, Isabel Archer se sente toda hora deslocada, procurando seu lugar e sua identidade. Em alguns momentos ela só quer ser curiosa e aprender, descobrir as coisas. Ao mesmo tempo que existe uma força social daqueles que a rodeiam que manipulam suas ações, mesmo que ela ache que não. 

Finalmente, só porque "Persuasão" é o tema do dia

Para finalizar, e ainda nesse assunto mulher e casamento, bem que o livro poderia ser chamar Persuasão, como a obra de Jane Austen. A palavra em si aparece inúmeras vezes durante a narrativa. Isabel é uma vítima da influência de Mrs. Merle e Osmond e, a todo momento, acontece um jogo de quem consegue persuadir quem, sem que a vítima da persuasão perceba que está sendo persuadida. 

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Retrato de Uma Senhora foi traduzido por Gilda Stuart e publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras. Há uma versão em e-book para Kindle por menos de 5 reais.